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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

JÚLIO LANCELOTTI E A IGREJA SAMARITANA

 



                            Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Já lá se vão mais de seis meses desde que a pandemia foi reconhecida como flagelo universal que ameaçava a humanidade e o planeta.  Todos desde então foram instruídos a ficar em casa, sobretudo os idosos, por serem grupo de risco.  No entanto, em São Paulo, pelas ruas e praças onde os moradores de rua vivem e sofrem em meio à intempérie,  um senhor de 71 anos circula sem parar.  Todos os dias, a cada momento, dia útil, santo ou feriado. 

            Trata-se do padre Júlio Lancelotti, da arquidiocese de São Paulo. Entrou já adulto no seminário. Após os estudos, ordenou-se e recebeu como missão do então cardeal Dom Paulo Evaristo Arns ser vigário episcopal do povo de rua da arquidiocese.  Desde então, assimilou plenamente em sua vida todo o significado da palavra vigário. Oriunda do latim vicariu, seu primeiro e principal significado é: aquele que faz as vezes de outro. Vigário episcopal, padre Júlio passou a ser e representar a Igreja de São Paulo, na pessoa de seu bispo, junto àqueles e àquelas que vivem nas ruas.

            Ele não os chama moradores de rua, mas sim “irmãos” de rua.  Não diz tampouco que trabalha com eles, pois não são objetos.  Diz que convive com eles, como os irmãos convivem uns com os outros.  Diante das infinitas necessidades que apresentam os que fazem da rua sua casa, o sacerdote atende desde a fome, o frio, a nudez, até a carência afetiva, o medo, o desespero, a solidão. Olha nos olhos de todos e ali, segundo ele, vê Jesus que disse que tudo que se fizesse ao menor de seus irmãos, a ele mesmo se faria. 

            Sem nenhum medo do contágio que o vírus pode trazer, padre Júlio toca a cada um, abraça, acaricia, examina suas feridas e os abençoa, impondo as mãos sobre suas cabeças. Cuida de todos, conseguindo bicas de água para que possam higienizar as mãos, dando-lhes máscaras e encaminhando-os aos serviços de saúde quando apresentam febre ou sintomas de doença. 

            Mas o sacerdote, ao mesmo tempo em que é só ternura e cuidado para com o povo da rua, sabe falar forte e assumir sua vocação de profeta quando se trata de denunciar injustiças e expor as feridas da desigualdade obscena de uma sociedade que descarta pessoas.  De uma lucidez impressionante, padre Júlio sabe ler a realidade com olhos críticos, enxergando e denunciando a raiz das injustiças e incriminando os responsáveis pelas mesmas. 

            Sempre foi criticado e discriminado por aqueles a quem seu discurso, mas sobretudo sua prática incomodava.  Recentemente passou a receber ameaças, insultos e agressões mais pesadas.  Isso fez com que o cardeal Dom Odilo Scherer, pastor de São Paulo, se solidarizasse publicamente com ele relembrando o Evangelho pelo qual ambos empenham a vida. “Eu estou com ele...quem cuida dos pobres, vai sofrer junto com os pobres também. Sempre foi assim”.

         O prefeito Bruno Covas também é seu admirador e agradece que o religioso constantemente denuncie as injustiças na cidade, para que sua administração possa recordar que deve prioritariamente aos mais vulneráveis.  Foi oferecida escolta policial ao padre, que delicadamente a recusou, em coerência com a solidariedade aos irmãos de rua. “Então eu fico com a escolta e os moradores de rua ficam com o cassetete, com a tortura? 

         Uma rede de auxílio foi montada ao redor de Júlio Lancelotti. Voluntários o auxiliam em seu trabalho, seja transportando a ele ou aos irmãos de rua pelo trânsito engarrafado da cidade, seja providenciando alimentos, cobertores, roupas e calçados para os que se enfileiram às centenas às portas de sua paróquia, pedindo e esperando. Diante das ameaças por ele recebidas, listas foram passadas e receberam milhares de assinaturas. 

         Padre Júlio não está sozinho.  Tem com ele o povo a quem serve, a Igreja à qual pertence, todos aqueles que hoje lutam por um mundo mais justo e assumem com ele os conflitos a isso inerentes. Sua fidelidade inquebrantável é a Jesus Cristo e ao povo da rua. E para ser fiel a esse compromisso maior, sua energia chega a ser impressionante.  Parece uma fonte que nunca seca e faz com que a cada dia, de manhã à noite se repita a cansativa rotina de estar perto dos últimos e dos vencidos, levando seu serviço e seu cuidado. Poucos jovens suportariam o ritmo que o sacerdote já idoso impõe a sua vida. 

         A caridade de Cristo o constrange, como disse Paulo de Tarso de si mesmo e dos cristãos de Corinto. Nesses tempos de pandemia e em todos os tempos onde a justiça for pisoteada e os pobres estiverem sofrendo será assim.  Pois, como diz o Papa Francisco, a Igreja deve ser samaritana. Tal como o samaritano da parábola do evangelho de Lucas 10, 25-37, há que cuidar do ferido à beira do caminho.  É preciso curar as feridas, abraçar os sofredores, aquecer os corações, estar próximo... É necessário começar de baixo. Júlio Lancelotti, em nosso país e em nossos dias, é certamente uma testemunha luminosa dessa Igreja que Francisco deseja ardentemente que se faça realidade. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.

  

Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

segunda-feira, 27 de abril de 2020

TODAS AS VIDAS VALEM



Maria Clara Lucchetti Bingemer

Uma crise como a que vivemos não deixa de estar carregada de ensinamentos.  E ensinamentos sempre acrescentam, somam, agregam conhecimento e sabedoria, fazendo-nos ser mais humanos.  Nem todas essas lições que a crise nos dá são positivas, ensinam como fazer, mostram o caminho que temos à frente.  Algumas são negativas, apontam para o que não deve ser feito nem imitado sob hipótese alguma, mostrando-nos o que evitar para seguir caminhando.  Entre estas últimas certamente está a questão dos idosos em meio à pandemia do novo coronavírus.

Chega a ser chocante, para não dizer repulsiva, a atitude de governantes, empresários, médicos, ministros, quando se referem à maior vulnerabilidade das pessoas de mais idade e, portanto, a sua maior chance de letalidade. Esses idosos não entram em consideração quando se trata de levar adiante o isolamento social ou são objeto de descarte quando se fala da estrutura sanitária chegar ao limite para receber todos os pacientes.  É uma postura de desprezo revestido de fatalismo, mas que em verdade esconde uma concepção lamentável do que seja o ser humano e a vida humana como dom precioso que deve ser cuidada desveladamente em todos os seus estágios. 

É curioso que alguns desses mesmos que vociferam em favor de uma abertura irrestrita da quarentena já e imediatamente são os mesmos que clamam aos céus contra a interrupção da gravidez.  Quando se trata da concepção e do início da vida essas pessoas ou grupos são enfáticos em defendê-la e por ela lutar.  Por que então não mantêm a mesma coerência e ardor quando se trata da maturidade da vida, em sua etapa conclusiva?

A explicação não é tão complicada.  O próprio Papa Francisco já decifrou magistralmente a resposta em sua Exortação Apostólica “ Gaudete et Exsultate”, de 2018, sobre a santidade no mundo de hoje. No número 101 deste documento, o Papa reflete sobre como o cristão deve buscar a santidade praticando as obras de misericórdia corporais e espirituais. Observa, porém, que o evangelho de Mateus, que propõe ao crente a contemplação do Juízo Final, só menciona as corporais: dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, vestir o nu etc. 

Não quer dizer que o Papa não dê importância às obras de misericórdia espirituais.  Pelo contrário.  Uma e outra vez ao longo do documento, o pontífice exorta à paciência, ao cuidado espiritual com o próximo e tudo que constitui a atenção misericordiosa subjetiva e caridosa.  Quer deixar bem claro que sem a atenção às necessidades básicas e, portanto, corporais dos pobres e desvalidos da terra, não haverá santidade possível.  Pelo menos o que se entende como santidade dentro do Cristianismo. E toca neste ponto a delicada questão do aborto.

 “A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte. Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente”.

Com sua habitual lucidez, o Papa explica que todas as vidas valem.  E têm valor infinito. Não apenas a do nascituro indefeso, que não pode sequer gritar para defender-se.   Não só as “produtivas”, que podem trabalhar em tempo integral e produzir dividendos para o mercado.  Nem apenas os fortes, as vigorosas e belas, no ápice da existência ou mesmo em suas etapas iniciais. E valem muito.  Portanto, a luta contra a pandemia é por cada uma delas, uma a uma.  

Todas as mortes ocorridas ou por ocorrer nos diminuem como humanidade.  E não à toa lembra o Papa que entre essas vidas que valem infinitamente estão as dos “idosos privados de cuidados” ou mesmo atirados ao contágio, sob pretexto de que suas vidas são descartáveis e dispensáveis. 

Em defesa das vidas dos idosos e anciãos, podemos mencionar, além do Evangelho, do magistério de Francisco e de toda a tradição da Igreja, fontes tradicionais não cristãs.  Todas as tradições dos povos originários, todas as religiões têm enorme respeito pelos anciãos e por tudo que os mesmos representam em termos de sabedoria, capacidade de conselho, densidade identitária do grupo humano. Os idosos são venerados por toda parte. São a sede da memória de uma cultura, de uma tradição, de uma religião. 
Trata-se aqui das vidas de todos. É fundamental se buscar salvá-las com todos os meios ao alcance.  E entre estas contam-se também e plenamente as dos idosos.  Todas as vidas valem.  Igualmente as vidas que transcorrem há mais tempo, que formaram as jovens vidas que hoje são o futuro da humanidade.  Quem com essa ligeireza considera a possibilidade de assassinar seu passado, mostra-se indigno do presente e também do futuro. Esperemos que a pandemia, além de todos os sofrimentos que já trouxe, não deixe esse amargo legado. 

A teóloga Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “Santidade, chamado à humanidade” (Editora Paulinas), entre outros livros.
  
Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>



segunda-feira, 13 de abril de 2020

PÁSCOA: UM CAMINHO EM MEIO À PANDEMIA




        Maria Clara Luchetti Bingemer

A sensação é que subimos uma montanha em meio à escuridão.  Não se vê claro nem embaçado.   Na realidade, não se vê nada. Só se sabe que há que seguir caminhando.  E como nada se vê, nada se entende: a direção, a meta, o sentido, tudo se obscurece. Fechados em casa, olhando o mundo pela janela ou pela tela do computador ou do celular, estamos oprimidos até o extremo pela situação que vivemos, totalmente desconhecida e hostil.
A vida “normal” continua nos supermercados e farmácias. E seus limites são testados sobretudo nos hospitais, onde pacientes sempre mais numerosos são atendidos por dedicados e exaustos médicos, enfermeiros, agentes de saúde. Ali os caminhos se bifurcam entre a ausência de saída e a volta dos que um dia entraram e agora reencontram sua cidadania no mundo dos vivos. 
É neste ponto do caminho que acontece a celebração da Semana Santa.  Para muitos é um feriado a mais; para os cristãos trata-se do núcleo vivo de sua fé.  Tradicionalmente, esses dias sempre foram uma pausa no caminho corrido de cada dia para celebrar, orar, rezar. E sobretudo festejar a boa notícia de que o Crucificado venceu a morte e agora vive para sempre. 
Mas desta vez não é possível deter-se.  A subida da montanha em meio à escuridão deve continuar. Aos corpos combalidos e aos corações aflitos não é permitido parar, esperar, descansar.  Há que seguir em meio à desolação e à ignorância quase total do que acontece, vivendo cada dia à espera do que virá daqui a 24 horas ou até mesmo nos minutos seguintes. 
Caminhemos, pois, em meio à desolação em que nos encontramos.  Pode consolar-nos, no entanto, saber que a nosso lado caminham Cleofas e seu companheiro (ou companheira). Vêm de Jerusalém e vão para uma cidade vizinha chamada Emaús. Em meio à tristeza com a perda do Mestre, vão pisando desolados, perplexos, sem nada verem diante de si a não ser o vazio. 
Em certo ponto do caminho, percebem que com eles caminha um forasteiro, alguém que não é do lugar e provavelmente não se destina a Emaús, mas anda pelo único motivo de acompanhá-los. Chegamos perto e escutamos o estrangeiro perguntar: “Mas por que tanta tristeza? ” E sentimos que essa pergunta é dirigida a Cleofas, ao outro e a nós mesmos.
Entre indignados e perplexos, desabafamos: “Você é o único que não sabe o que está acontecendo? Não sabe que mataram Jesus de Nazaré, que era a esperança do nosso povo e  ia libertar Israel?  Não sabe que o mundo inteiro geme sob o flagelo de uma pandemia, lutando contra um vírus hiper contagioso que vitima gente de todas as idades? Não sabemos a quem pedir ajuda.  Parece que Deus se esqueceu de nós.” 
Caminhando sempre, o forasteiro ouve as perguntas, as dos discípulos de Emaús e as nossas.  E repreende nossa falta de fé, nossa lentidão em crer no sentido maior de tudo que está acontecendo. Abre as Escrituras e as desvela. E elas brilham com o fulgor da Palavra de Deus e fazem arder novamente nosso coração congelado pelo medo. 
Não sabíamos que o Messias passaria pelo sofrimento e pela Cruz antes de entrar em Sua glória? Essa foi a promessa feita por Deus a Moisés, essa a profecia dos profetas, essa a esperança do povo que Deus não defraudará jamais. A vida vencerá a morte.
O dia cai e faz frio.  A luz se esconde e há medo. Pedimos ao forasteiro que fique, que não nos deixe. Sentados à mesa, cansados e famintos, estamos com Cleofas e todos aqueles e aquelas que hoje experimentam que é difícil acreditar e continuar a caminhar sem ver o caminho e sentindo apenas a espessura da noite. Pedimos a esse que intuímos quem seja, mas cujo rosto vemos apenas difusamente, que fique conosco. 
O pão se parte e as trevas se dissipam.  A Páscoa iluminou nosso caminho. Reconhecemos enfim Aquele que caminha conosco e mostra seu rosto nas vítimas da pandemia, nos que cuidam dos doentes, nos que enterram os mortos, nos que se isolam dos seres queridos por amor e sofrem a punhalada da ausência. Seu rosto aparece marcado pela dor e pela aflição nos pobres que vivem na rua e não têm possibilidade de isolar-se. 
Jesus ressuscitou dentre os mortos.  A alegria desta Boa Notícia não impede que a dor não doa e as lágrimas não corram.  Mas abre uma réstea de luz em meio a essa caminhada noturna e difícil, rememorando que Deus jamais abandonou seu povo.  Nem deixou de resgatar seu Filho das garras da morte.  O amor é mais forte que a morte.  E em nome desse Amor cremos e proclamamos que essa pandemia terá um fim, oferecendo-nos como humanidade a oportunidade de dela emergirmos mais humanos e mais vivos.
Feliz Páscoa!
 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.
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segunda-feira, 9 de março de 2020

FEMINISMO E CONVERSÃO DA LINGUAGEM




  Maria Clara Bingemer

Quando tive meus primeiros contatos com o feminismo, a primeira conversão que percebi como necessária e urgente foi a da linguagem. Depois vieram outras e mais outras.  E críticas que converteram a conversão.  Mas essa primeira ficou.  E quando nos preparamos para celebrar o Dia Internacional da Mulher, importa relembrá-la.
Em que consiste essa conversão? Trata-se de fazer um esforço no sentido de corrigir o que se fala e diz, oralmente ou por escrito. É não dar nada por suposto e evitar toda generalização.  É romper com o esquema patriarcal e machista que sempre dominou o falar humano e que identifica a humanidade com a metade masculina da mesma. 
Interagindo com colegas acadêmicas de outros países, percebi que em suas conferências e mesmo nos diálogos mais casuais e descontraídos, jamais era por elas usada a expressão “o homem” para se referir à humanidade. Buscavam-se equivalências mais inclusivas, como “o homem e a mulher”, “o ser humano”, “a pessoa humana”.  O objetivo era ajudar a tomada de consciência de que a mulher é plenamente partícipe da humanidade criada por Deus e, portanto, não pode ser excluída nem da linguagem.  Ou mesmo sobretudo da linguagem. 
Por que toda essa importância dada à linguagem? Simplesmente porque nós, humanos, somos seres de linguagem. Nela nos expressamos, nela nos dizemos, nela nos comunicamos.  Através dela propomos, criamos. Em suma, pela linguagem e nela existimos enquanto seres livres e relacionais. 
O ser humano é fundamentalmente um ouvinte da Palavra.  Dessa escuta nascem a resposta da fé e o pensar da teologia.  Mas além de ser um ouvinte da Palavra, esse mesmo ser humano é também e não menos um ser criador e emissor de palavra, um ser de linguagem.  A linguagem descobre a realidade humana enquanto sinal e expressão, meio dessa condição.  Faz vir à tona sua capacidade criativa.
Portanto, a linguagem não apenas assimila e repete o que lhe foi revelado e ouviu acriticamente.  Mas cria realidade, a faz existir.  É, portanto, não meramente informativa, mas performativa.  Descobre e manifesta a realidade humana na medida em que a liberta.  Emancipa o ser humano da violência muda dos instintos, da rotina, do imediato; provoca a liberdade abrindo-lhe espaço criador.  
            E este que se auto compreende como ouvinte da palavra, aprende e recebe esta palavra que lhe é dada ao mesmo tempo que, enquanto ser de linguagem, a constrói e a profere.  A linguagem descobre-o e revela-o como ser que se deve a si mesmo; descobre e revela suas múltiplas conexões: origem, tradição, pertença, sociedade; descobre e revela sua realidade na medida em que lhe possibilita fazer presentes o invisível, o ausente, o passado e o futuro, a história e a transcendência; permite-lhe escapar do presente redutor e coercitivo; descobre sua realidade como ser dialógico e para os outros.  Revela, em suma, que a forma fundamental da palavra é o diálogo.
      A linguagem implica liberdade.  Implica que o ser humano é um ser feito para a comunicação, criado enquanto livre interlocutor de um Tu que o interpela e a quem ele é chamado a responder. E igualmente interlocutor dos vários “tu” humanos com os quais se encontra pelo caminho da vida. O ser humano é um ser de comunicação.  A comunicação é intersubjetividade, relacionalidade, componente essencial da vida humana.  Onde não há comunicação, não há entendimento ou comunhão.
            A palavra tem, portanto, na vida humana, função curativa, terapêutica, redentora, uma vez que devolve o ser humano a si mesmo na sua condição fundamental de ser feito para a relação com o outro. Esse é o papel da psicanálise, da direção espiritual, da confissão. Se a palavra redentora é pronunciada a tempo oportuno, humaniza e ajuda o ser humano a crescer e a tornar-se plenamente ele mesmo.
Cada ser humano é e existe graças à linguagem.  Na medida em que somos seres relacionais, existimos em nosso falar recíproco.   Mas ao mesmo tempo a linguagem participa da finitude e da limitação de tudo que é  humano.  De sua ambiguidade, velamento, mutismo.
            Celebrando o Dia Internacional da Mulher – que coincide com o tempo litúrgico da Quaresma, onde os cristãos entram em um caminho de conversão – podemos converter nossa linguagem.  Tomar consciência de que somos parte de uma humanidade criada à imagem de Deus como macho e fêmea. Não corresponde àquilo que somos mencionar somente um lado dessa imagem: o lado do macho.  Incluir o feminino na linguagem pode parecer pouca coisa.  Mas é um passo importantíssimo para construir uma sociedade menos machista e mais justa. 

Maria Clara Bingemer  é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.


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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

JOÃO CABRAL DE MELO NETO E A VIDA SEVERINA



                                Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            O ano de 2020 abriga diversos centenários de gente ilustre de nossa terra.  Entre eles está o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, em 9 de janeiro. Considerado por muitos um dos grandes poetas lusófonos, João Cabral foi galardoado em vida com diversos prêmios, entre eles o Prêmio Camões, o maior concedido a autores que contribuíram ao enriquecimento do patrimônio cultural e literário da língua portuguesa. 
            A poesia de João Cabral tem um misto raro de realismo e transcendência.  Trata-se de traço intrigante para o agnóstico declarado que ele sempre assumiu ser.  No entanto, sua fé na imanência da vida, no concreto duro da existência é algo sempre presente em seu fazer poético. E em meio às muitas expressões poéticas de seu indiscutível gênio, esta é uma das que mais o tem notabilizado mundo afora.
            Sou leitora devota de João Cabral.  O encontro com sua poesia deu-se por Morte e Vida Severina, o poema épico sobre seu povo nordestino, cantado em versos rigorosos e belos com métrica impecável e contida, mas inegável paixão. Foi no teatro que por vez primeira vi e ouvi os versos de Cabral musicados por Chico Buarque. Foi uma experiência estremecedora de encontro com a realidade de um povo que era o meu, mas do qual vivia tão distante.
            O poema, ao mesmo tempo em que traz no título o nome do personagem central - Severino -  nome muito comum no Nordeste, deixa claro que se trata de mais do que um nome próprio de um indivíduo. Severino, figura simbólica e emblemática é um retirante.  Ou seja, um migrante, um nômade, um caminhante.  Vai em busca de vida.  Tem sede dela, de trabalho e remuneração justos, de plenitude de vida.  Sede de viver uma vida que não seja apenas morte adiada. Severino é a personalidade corporativa dos sertanejos nordestinos.  Severina na verdade é a vida que levam. Vida dura e castigada, pela seca, pela opressão, pelo latifúndio, sempre ameaçada pela morte.
Severino migra porque esse é o seu destino.  Retirante, vive saindo de um lugar e rumando para outro, em busca de vida, de trabalho, de recursos de sobrevivência.  Neste sentido, é paradigmático não apenas do nordestino, mas do ser humano, sempre um caminhante, um peregrino nesta vida guiado pela sede de viver mais plenamente.  Seu destino é o mesmo do povo de Deus no deserto e de todos os migrantes que hoje cruzam o planeta em busca de melhores condições de trabalho e de vida. E que nessa migração encontram muitas vezes a morte nas águas do mar ou na aridez do deserto.  
Em seu itinerário, Severino se encontra várias vezes com aqueles e aquelas que, como ele, são condenados a viver a vida Severina. Talvez uma das passagens mais belas de todo o poema é aquela em que o retirante se depara com o funeral de um trabalhador da terra de cuja morte os companheiros expõem a causa. Sua morte é fruto da injustiça, da acumulação do capital, do impiedoso latifúndio e da ganância dos proprietários de terra, que exploraram sua força de trabalho e nada lhe deram.  Vai ser depositado na terra, a terra que bebeu seu suor, sua juventude, sua força de marido.  A poesia de João Cabral, indissoluvelmente unida à sua agudeza de perspectiva sobre a realidade, vai dar aí toda a sua medida. 
Já desesperado de encontrar melhor vida e pensando em interromper a sua antes do tempo para amenizar o sofrimento, Severino encontra na conversa com um humilde carpinteiro palavras inspiradoras. E o nascimento da criança, filho de seu interlocutor, vai desviá-lo da morte para voltar a crer na vida. 
Severino vai concluir que, embora seja difícil defender só com palavras uma vida Severina, a própria vida respondeu mostrando-se teimosamente mais forte que a morte que procura engoli-la. E João Cabral, poeta e cantor, foi para mim, naquele momento, um mensageiro da Boa Notícia.  É este o outro nome do Evangelho que Jesus Cristo anunciou em plenitude e continua se fazendo ouvir por muitas vias, inclusive pela poesia comprometida de um diplomata pernambucano que até muito perto do final de sua vida não se assumia como crente. 
Obrigada, João Cabral, e feliz centenário!

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

OS DOIS PAPAS E O PAPA FRANCISCO




                    por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Dirá o leitor que muito já se falou e escreveu sobre o filme de Fernando Meireles, “Os dois Papas”.  E tem razão.  Trata-se, porém, de assunto importante, não só pela relevância que ainda têm a Igreja Católica e o Cristianismo, especialmente no Ocidente.  Mas também pelo fato de que hoje Francisco de Roma é o único líder mundial capaz de chamar a atenção de pessoas de dentro e de fora da Igreja que governa; e de convocar mentes e corações urbi et orbi. 

            Não surpreende, portanto, que um filme sobre sua pessoa desperte interesse e suscite diversas leituras e opiniões. Destaco entre os muitos comentários feitos aqui e ali o magnífico texto de Leonardo Boff, recentemente publicado.  Destaco igualmente impressões de alguns ateus, jornalistas e intelectuais, maravilhados com o filme.  Não destacaria tanto os comentários de algumas figuras de dentro da Igreja que conseguem ver nesta obra cinematográfica de inegável valor apenas inexatidões e parcialidades. 

            Desde o início, o diretor adverte: este é um filme de ficção baseado em fatos reais.  Assim como a literatura, toda arte, inclusive a sétima, tem compromisso com a verossimilhança, e não com a verdade tal como é entendida filosoficamente. Sendo assim, a ficção construída a partir da história e seus fatos é perfeitamente legítima. Mesmo quando o assunto é a instituição do papado e a figura do pontífice e supremo pastor da Igreja Católica. 

            Conheci muito breve e superficialmente o cardeal Joseph Ratzinger.  Um cordial aperto de mãos por uma vez.  Posteriormente, em 2012, fui convidada a apresentar em Roma seu recém lançado livro sobre a infância de Jesus.  Aí cumprimentei o Papa Bento XVI, que três meses mais tarde deixaria o mundo perplexo com sua renuncia à sé de Pedro. Porém, anteriormente a tudo isso, conheci a teologia de Joseph Ratzinger.  Estudei por seus livros e tive contato com seu pensamento.  Trata-se, inegavelmente, de um teólogo profundo e refinado. 

            Sua atuação à frente da Congregação para a Doutrina da fé suscitou sentimentos controversos e conflitivos na Igreja pós-conciliar.  Entre os vários processos a que foram submetidos diversos teólogos de todas as latitudes durante sua presidência, o de Leonardo Boff foi por mim vivido mais de perto devido ao fato de ser um teólogo brasileiro e amigo pessoal. O mesmo Boff, porém, com extrema elegância, defende sua atitude correta e sua boa-fé no texto acima mencionado, mostrando que todo juízo sobre fatos e, sobretudo, sobre pessoas deve ser prudente e matizado. 

           Encontrei o cardeal Bergoglio duas vezes, em Buenos Aires.  E ouvi narrativas e comentários não muito airosos sobre sua conduta durante a ditadura argentina, coisa que o filme de Fernando Meireles retrata fielmente. Não deixa de sublinhar, no entanto, a dificuldade que implicava naquele momento a circunstância de ser superior provincial de uma ordem como a Companhia de Jesus.  Bergoglio tomou as decisões que lhe pareceram acertadas. Porém, sua biografia ficou marcada por esse fato.  E quando anunciaram sua eleição confesso que senti muito temor, ao recordar o que me haviam dito amigos da Argentina sobre sua pessoa e atuação.

            O tempo imediatamente posterior à sua eleição encarregou-se de dissipar meus temores. Diante de meus olhos via uma figura rica e perita em humanidade que pedagogicamente ia marcando o caminho de seu pontificado com gestos secundados por palavras que anunciavam novos tempos para a Igreja e para a instituição do Papado.

            Parece-me que o filme de Fernando Meirelles mostra isso com muita felicidade.  Com Francisco, o papado deixa de ser uma instituição difusamente divina e bem pouco humana para mostrar sua face encarnada, compassiva e aterrissada na realidade.  O mate, o futebol, a pizza, o tango são a configuração do papa argentino que veio do fim do mundo e procura desde sua eleição trazer a Igreja de volta ao Evangelho e ao Concílio Vaticano II. 

            O filme é justo com Bento XVI, parece-me.  Mostra o mais importante de seu legado: a lucidez da renúncia para abrir caminho a outro que pudesse lidar com os enormes problemas da Igreja.  E também é justo com Francisco.  Mostra seu perfil consciente dos próprios limites, mas ao mesmo tempo cheio de destemor ao se lançar na empreitada de fazer a reforma da instituição que governa.

            O pontificado de Francisco é um convite a todos nós, católicos, a jamais duvidar da assistência do Espírito Santo à Igreja.  O filme de Fernando Meireles ajuda esse permanente ato de fé. 
            
 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

NATAL COM SENTIMENTOS PASCAIS





 Maria Clara Lucchetti Bingemer

Os cristãos vivem o tempo litúrgico do Advento, preparando-se para o Natal, quando se celebra o nascimento de Jesus. No entanto, as últimas semanas foram mais parecidas com a Quaresma, quando se prepara a festa da Páscoa, que celebra a morte e a ressurreição de Jesus.  Três grandes teólogos fizeram sua Páscoa e deixaram este mundo.  Vivos na história, passaram a ser vivos em Deus. São eles o jesuíta argentino Juan Carlos Scannone, o sacerdote diocesano alemão Johann Baptist Metz e o jesuíta espanhol maiorquino Bartolomè Melià. 

Juan Carlos Scannone faleceu no último dia 27 de novembro, em Buenos Aires, onde residia, em consequência de um AVC.  Em seus 88 anos de vida, notabilizou-se como filósofo e teólogo, sendo um dos fundadores da Teologia latino-americana da Libertação, em sua vertente cultural chamada Teologia do Povo.  Essa teologia estudava as manifestações celebrativas e religiosas das comunidades populares, refletindo sobre a teologia nelas contida. 

 Scannone foi professor de gerações de sacerdotes, religiosos e leigos, tendo entre seus discípulos um muito ilustre: Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco em pessoa. Em filosofia, era um grande especialista no pensamento de Maurice Blondel, filósofo católico francês que criou a corrente da Filosofia da Ação. 

Johann Baptist Metz viu sua vocação nascer em meio ao inferno do Holocausto. Aos 16 anos, já no final da Segunda Guerra Mundial, foi desempenhar uma missão perto de sua cidade.  Ao voltar, encontrou mortos todos os seus companheiros, atingidos por um ataque de bombardeiros e tanques.  Olhando aqueles rostos apagados pela morte e lembrando-se de que alguns dias antes ria e brincava com eles, sentiu subir de seu coração um grito silencioso. A experiência de Deus vivida, ele a sintetiza nesse grito que sente como o grito de Jesus na Cruz, que é o clamor das vítimas inocentes, que sofrem e se sentem abandonados por Deus.  Jesus é esse inocente que sofre e sente o abandono de Deus, sem nunca haver abandonado a Deus. 

A partir daí o jovem Metz procurou o seminário e seguiu a vocação sacerdotal.  A teologia que como brilhante aluno do grande teólogo Karl Rahner desenvolveu depois disso foi chamada de teologia política, pois encontrava seu ponto de partida na compaixão diante do sofrimento humano e na memória subversiva das vítimas que clamam por justiça.

Professor de gerações de teólogos, Metz é considerado o pai da Teologia da Libertação que se desenvolveu a partir dos anos 1960 na América Latina e encontrava seu ponto de partida na opção pelos pobres.  Essa teologia tinha como fundamento a compaixão amorosa sobre a qual Metz tanto refletiu e escreveu e atribuía autoridade maior àqueles que sofrem como vítimas da injustiça e da opressão. Metz faleceu em Muenster, onde residia, aos 91 anos de idade. 

Bartolomè Melià faleceu no último dia 6 de dezembro.  Ainda jovem sacerdote veio viver no Paraguai, onde fez estudos aprofundados da língua e da cultura guarani.  Obteve um doutorado na Universidade de Estrasburgo com uma tese sobre a criação de uma linguagem cristã nas missões dos guaranis no Paraguai. Foi professor de etnologia e cultura guarani na Universidade Católica de Assunção e presidente do Centro de Estudos Antropológicos da mesma universidade. Lutou pela preservação da cultura guarani e denunciou o massacre que sofriam etnias indígenas no Paraguai com a ditadura de Stroessner, o que o obrigou a deixar o país.  Residiu então no Brasil nos anos 1970.  Aqui prosseguiu seu trabalho de pesquisador, estando igualmente presente como indigenista entre tribos do Mato Grosso do Sul. 

O Pe. Melià foi um incansável lutador em favor das culturas indígenas. Não se contentou em aprender suas línguas; viveu uma profunda inserção em algumas das culturas e etnias, chegando mesmo a participar de seus rituais religiosos. Ao voltar ao Paraguai, após o fim da ditadura, continuou trabalhando até morrer com as culturas indígenas e com os guaranis. 

Três grandes homens que engrandecem igualmente a Igreja à qual pertenceram, os ideais pelos quais lutaram, o projeto do Reino de Deus pelo qual deram integralmente suas vidas.  Sua Páscoa não lança sombras sobre nossa celebração de Natal, mas ao contrário, a faz ainda mais luminosa. São testemunhas que inspiram e confirmam nossa fé e nossa esperança. 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.

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