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sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Natal: os Herodes de ontem, de hoje e a Divina Criança

 


Leonardo Boff


 

Os ancestrais relatos sobre o “Divus Puer”(a Criança Divina) ganham sempre novas significações consoante a mudança dos tempos e dos contextos históricos.Nós os lemos e interpretamos com os olhos de hoje, no quadro de uma situação sombria,marcada pela morte de milhões do mundo inteiro e de milhares entre nós sob o ataque traiçoeiro de um vírus letal. Descobrimos similitudes e poucas diferenças entre o Natal de outrora e de hoje.Na verdade, numa leitura simbólica, temos a ver com algo que afeta a todos os humanos.

De um lado, temos José e Maria, sua esposa, grávida de nove meses.Eles vem de Nazaré, do norte da Palestina para o sul, em Belém. São pobres como a maioria dos artesãos e camponeses mediterrâneos. Às portas de Belém, Maria entra em trabalho de parto:  segura a barriga pois a longa caminhada acelerou o processo. Batem à porta de uma hospedaria. Ouvem o que os pobres na história sempre ouvem:”não tem lugar para vocês na hospedaria”(Lc 2,7).

Abaixam a cabeça e se afastam preocupados. Como ela vai dar à luz? Sobrou-lhes, na vizinhança, uma estrebaria  de animais. Ai há uma manjedoura com palhas,  um boi e um jumento que, estranhamente, permanecem quietos, observando. Ela dá a luz a um menino entre os animais. Faz frio. Ela o envolve com panos e ajeita-o nas palhinhas. Choraminga alto como todos os recém nascidos.

Há pastores que velam à noite, vigiando o rebanho.São considerados impuros e por isso desprezados, por estarem sempre às voltas com os animais e seus excrementos. Surpreendentemente, uma luz os envolveu e escutaram do Alto uma voz lhes anunciando:”não temais anuncio-vos uma grande alegria que é para todo o povo;acaba de nascer o  Salvador; este é o sinal: encontrareis um menino envolto em panos,deitado numa manjedoura”. Ao porem-se, pressurosos, a caminho ouviram um cântico mavioso, de muitas vozes, vindo do Alto:”Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens  por Deus amados”(Lc 2,8-18). Chegam e se confirmou tudo o que lhes fora comunicado: aí está um menino, tiritando, enfaixado em panos e deitado na manjedoura,em companhia de animais.

Algum  tempo depois,eis que vem descendo o caminho, três sábios do Oriente. Sabiam interpretar as estrelas. Chegam. Extasiam-se pela misteriosidade da situação. Identificam no menino aquele que iria sanar a existência humana ferida. Inclinam-se, reverentes, e deixam presentes simbólicos. Com o coração leve e maravilhados, tomam o caminho de volta, evitando a cidade de Jerusalém, pois aí reinava uma pessoa terrivelmente belicosa.

Lição: Deus entrou no mundo, na calada da noite,sem que ninguém o soubesse. Não há pompa nem glória, que imaginaríamos adequadas a um menino que é Deus. Mas preferiu vir fora da cidade, entre animais. Não constou na crônica da época,nem em Jerusalém, muito menos em Roma. No entanto,aí está Aquele que o universo estava gestando dentro de si há bilhões de anos, aquela “luz verdadeira que ilumina cada pessoa que vem a este mundo”(Jo 1,10).

Devemos respeitar e amar a forma como Deus quis entrar neste mundo: anônimo como anônimos são as grandes maiorias pobres e menosprezadas da humanidade.Quis começar lá em baixo para não deixar ninguém de fora. A situação humilhada e ofendida deles foi aquela que o próprio Deus  quis fazer sua.

Mas há também sábios e homens estudiosos das estrelas do universo e que captam atrás das aparências o mistério de todas as coisas. Entrevem neste menino de corpinho tiritante, que molha os paninhos,choraminga e busca, faminto, o seio da mãe, o Sentido Supremo de nossa caminhada e do próprio universo.Para eles é também Natal.

É verdade o que se conta por aí: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino”.

Esse é um lado, alvissareiro: um raio de luz no meio da noite escura. Um pouco de luz tem mais direito que todas as trevas. Daí nos vem salvamento, uma revolução dentro da evolução que, de forma antecipada, chegou à sua plenitude. Em fim…

Mas há o outro lado, sombrio e também trágico. Há um Herodes que se sente ameaçado em seu poder de soberano pela presença deste menino. José,atento, logo se dá conta:ele quer mandar matar o menino. Foge para o Egito com Maria e o menino ao colo que dorme, busca o seio e volta a dormir.

Herodes é sanguinário. Por segurança mandou matar todas as crianças de Belém e arredores de dois anos para baixo.Assim não escaparia o menino Jesus. Então se ouviu um dos lamentos mais comoventes de todas as Escrituras:”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos assassinados e não quer ser consolada porque os perdeu para sempre”(Mt 2,18).

Os Herodes se perpetuam na história. Entre nós temos um que não ama a vida, que zomba do vírus letal,que não se compadece das lágrimas e choros de milhares de famílias quer perderam filhos, irmãos, parentes e amigos. Não se sentem consoladas enquanto não se fizer justiça. Nega proteção vacinal a crianças e a jovens entre 5 a 11 anos. Eles podem ser contaminados, contaminar e até morre.Não quer porque não quer, na contramão da ciência e dos países que estão vacinando suas crianças. Acostumou-se ao negacionismo, parecendo ter feito um pacto com o vírus. Ouvem-se vozes de pais e de avós,vindas de todos os lados:”quero a vida de meus filhos e filhas; quero que os vacinem; quero que vacinem meus netos e netas”.

Como o faraó, endureceu seu coração e alimenta o propósito do Herodes do tempo do menino.Mas haverá sempre uma estrela,como a de Belém, a iluminar nossos caminhos.Por mais perverso que seja o nosso Herodes não pode impedir que o sol nasça cada manhã nos trazendo esperança, aquele que foi chamado “O Sol da Esperança”.

Essa alegria é inaudita: a nossa humanidade,fraca e mortal, a partir do Natal começou a pertencer ao próprio Deus.Por isso algo nosso já foi eternizado pelo Divino Menino que nos garante que os Herodes da morte jamais triunfarão. Feliz Natal a todos com muita luz e discreta alegria.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu O Sol da Esperança: Natal, histórias, poesias e símbolos, Mar de Ideias, Rio 2007; Natal: a humanidade e a jovialidade de nosso Deus, Vozes 2009. Para encomendar:contato@leonardoboff.eco.br

 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

A FIGURA DA CRIANÇA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS


FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(09/07/2021)

 

     "Um Menino nos foi dado. Uma Criança nasceu para nós. Deus-Forte é o seu nome"Is.9,5. Com estas palavras o profeta Isaías sinalizava a vinda futura do Messias. Elas se tornaram vaticínio,  incentivo e farol para o Povo de Deus, que fez delas um oráculo durante séculos de marcha forçada, na direção da "terra prometida".

 

     Elas valem ainda para nós, caminhantes desta marcha lenta do coronavirus. Há mais de um ano temos estado sedentos de palavras alentadoras. Contemplemos a imagem da Criança. Ela fala melhor do que muitos discursos filosóficos e teológicos.

 

     Quando éramos crianças, falavam-nos da vida como um belo conto de fadas. Crescemos, ligamos a TV e passamos a conhecer bruxas: o fingimento, a mentira, a corrupção, a maldade. Aprendemos novas lições com mestres hábeis na arte de competir para ter poder, aprendemos que os humildes são uns perdedores, que os honestos não sobem na escala social, que o amor ao próximo é brega. E daí?  Nossos pais nos trairam? Devemos deixar que pereça asfixiada a antiga criança? Não! Absolutamente! Chega a hora de fazer uma escolha decisiva: descartar ou reativar aquela criatura original da primeira infância. Temos de voltar a ser crianças? Sim e não. Não, no sentido da inocência (esta já perdemos para sempre) e no sentido da ingenuidade (insustentável neste mundo de espertos). Sim, no sentido de pureza de intenção, de rebeldia e teimosia. É admirável a capacidade da criança de gritar até conseguir o que quer, de passar, num segundo, do choro para o riso, e de se alegrar com qualquer  divertimento. Não vimos nenhuma criança deixar de ser criança durante a pandemia.

     Não há dúvida que todo mundo adora uma criança, todo mundo mesmo, desde os mais santos até os maiores tiranos, desde S. Francisco até Adolfo Hitler. Há, no entanto, uma distância quilométrica entre olhar a criança com o sentimento de ternura, pelo que ela é, e respeitá-la pelo que ela pode vir a ser. O que ela é não ameaça ninguém, enquanto o que ela deverá ser, a partir dela mesma, interpela e desafia a sociedade em peso.

     Foi o que fizemos durante a pandemia. Livramos nossas crianças da visão dos horrores e temores provocados pelo virus, deixamos que elas continuassem no seu direito de ser crianças. Porém fica pendente a questão mais importante. O mundo que, logo mais, se reabrirá para elas e para nós, será o mesmo de antes, onde milhões delas estão condenadas a não ter infância, a não ter nenhum motivo de dar graças a Deus por ter nascido?

     Adiamos por algum tempo nosso envolvimento nesta polêmica. Voltamos a lembrar que a figura da Criança, neste momento, passa a ser o melhor semáforo para a restauração de nossos planos de vida no pós-pandemia. Afinal, é por elas que todas as gerações lançam-se no alicerce do que se há de construir para o futuro. E já que, nestes 15 meses de covid, elas não foram, nem convinha que fossem, protagonistas da história presente, que  voltem a ocupar o lugar que lhes compete, a razão primeira do nosso presente em vista do futuro.

     Nunca esqueci a última cena de um filme de guerra a que assisti, faz alguns anos. Numa paisagem deserta, mas repleta de escombros e ruínas, surge de repente uma criança a correr e brincar sobre os destroços. Acendem-se as luzes do cinema e fica claro o recado do diretor: a guerra destrói tudo, menos a Esperança.

 

     Se nenhuma mudança excepcional  brotar desta pandemia, se tiver sido fogo fátuo a tímida  profecia inicial, de que "o mundo nunca mais será o mesmo", então, perdemos um capítulo da História. Que nos reprove o eco das palavras de Jesus: "se não vos converterdes e não fordes como as crianças, não tereis lugar no Reino de Deus". Mt.18,3. Amém.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

sábado, 27 de fevereiro de 2016

OUTRA CRIANÇA…

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



 Ele tem quatro anos e leva uma sacola na mão.   O olhar assustado percorre as areias do deserto e os funcionários da ONU que o observam e tentam ajudá-lo.  É sírio e chama-se Marwan.  Vagava no deserto sozinho quando foi encontrado depois de haver se perdido de seus pais durante a fuga da violência que dizima seu país.  Andava a esmo, errante pelo deserto hostil, sem saber para onde.  

Desde os tempos do Antigo Testamento o deserto é uma imagem poderosamente evocativa para o povo de Deus.  Se algo é concordância na exegese bíblica, é que o deserto é fundamental na auto compreensão que o povo de Deus tem sobre sua identidade.

Povo liberto pela mão poderosa de Deus, o povo de Israel teve que vagar longamente pelo deserto antes de finalmente chegar à terra prometida. Ali os hebreus libertos viveram a dúvida, a vulnerabilidade e a insegurança que os fez muitas vezes duvidar e desejar voltar à escravidão do Egito, onde pelo menos havia comida.
Estar no deserto é sentido como estar próximo da morte, longe da terra dos vivos, que depois se tornará a Terra Santa. Assim se entende a pergunta que faz o povo indignado a Moisés em Ex 14,11-12: Não havia sepulcros no Egito, para nos tirar de lá, para que morramos neste deserto? Por que nos fizeste isto, fazendo-nos sair do Egito?

Não é esta a palavra que te falamos no Egito, dizendo: Deixa-nos, que sirvamos aos egípcios? Pois que melhor nos fora servir aos egípcios, do que morrermos no deserto.

Beijo quente da fome e da sede, o deserto era visto desde muito cedo pelos israelitas como um lugar difícil e perigoso, vazio de pessoas, cheio de solidão.  Lugar de animais perigosos e demônios que tentam.  Na Bíblia, o deserto é muitas vezes sinônimo de desolação, e esta é fruto da destruição, sentida como abandono ou castigo de Deus.  O deserto, sobretudo no Antigo Testamento, é o contrário do paraíso; é o caos originário, no seio do qual nada se distingue e nada se pode perceber com clareza.

O deserto é igualmente o lugar da errância, do nomadismo.  Enquanto o povo andava pelo deserto, sem vislumbrar a terra da promessa, sofria com o desejo da estabilidade e da sedentarização que não vinham.  E assim como o ser humano rejeita e detesta o caos, que o atira na anomia e na anarquia para as quais não foi feito,  igualmente odeia e rejeita a errância e o vagar sem descanso e sem lugar para repousar a cabeça, sem uma terra para pisar e sentir que é sua.

Até hoje isso pode ser observado na luta de tantos povos e tantos grupos humanos por uma terra, um lugar para cultivar, um teto para cobrir-lhe a cabeça.  O ser humano não é nem pode ser a-tópico; ao contrário, necessita de um espaço no mundo a fim de sentir-se vivo, protegido, abrigado.

Isso se torna ainda mais grave e evidente quando esse ser vulnerável e desamparado que luta contra a atopia é uma criança.  E uma criança de quatro anos de idade. Nesta idade, a criança ainda é totalmente dependente dos pais, da casa, do lar, do espaço familiar. Estar longe de tudo isso, da proteção dos pais e da família, do espaço da casa e da pátria, vagando sozinho por um lugar hostil, com sede e com fome... O que pode haver de mais cruel e pungente do que o estado dessa criança, desse menino cujos primeiros contatos com o mundo e a vida são tão carregados de perigo e sofrimento?

Impressiona-me sua foto olhando com medo e desconfiança aqueles que tentam ajudá-lo.  Impressiona-me o fato de que há menos de um ano a imprensa e as redes sociais já nos chocaram com a foto de outro menino com idade equivalente morto afogado nas praias da Síria. E com a foto de uma menina síria, da mesma idade, diante de uma câmera fotográfica com pavor nos olhos, pensando tratar-se de uma arma.

A violência terrível que assola a nossa época é chocante. Porém, mais ainda  quando atinge crianças, porque são pequenos, indefesos, vulneráveis e tudo pode atingi-los mortalmente. Porque não podem defender-se nem tomar providências para proteger-se de todas as ameaças que pesam sobre suas vidas.

Não à toa o Deus de Israel identificou-se desde o princípio como porta-voz do pobre, da viúva, do órfão e do estrangeiro.  Ou seja, daquelas categorias de pessoas mais desprotegidas e vulneráveis, que não têm quem fale por elas. O próprio Deus toma a defesa delas e é fiador de sua dignidade.  Nossa única esperança é que esse mesmo Deus seja a garantia da vida e do futuro do pequeno Arwan. E de todas as crianças que, como ele, vagam sem rumo por esse mundo à procura de um lugar onde repousar sua corporeidade infantil e frágil, cheia de insegurança e medo diante do mundo que ameaça engolir a infância  delas.

Uma humanidade que não sabe garantir o futuro de suas crianças está no caminho da perdição sem remédio.  Ainda bem que pode sempre voltar-se para o Deus da vida e implorar socorro.  Ele não deixará que Marwan, Aylan e a menina síria vaguem para sempre por um deserto inclemente sem encontrar a fonte de água viva que poderá lhes aplacar a sede.

   Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de Teologia e literatura - Afinidades e segredos compartilhados (Ed. Vozes)    
 Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O VERBO DE DEUS CRIANÇA




por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



E eis-nos novamente aqui, como todo ano, esperando por uma criança que vai nascer.  Algo tão usual, tão ocorrente e recorrente.  Pelas ruas, as mulheres andam, caminham e passeiam com suas barrigas cheias de vida que pulsa; cheias de um embrião que cresce e vai adquirindo a forma humana, com os olhos claros da mãe, a testa larga do pai, o temperamento forte da família... Nas maternidades, hospitais ou nas casas, o tempo vem a termo e das barrigas, antes grávidas, nasce a criança que todos esperavam.  E há choro, lágrimas, gritos de dor e de alegria.

E, no entanto, aqui estamos nós, arrumando presépios, preparando ritos, distribuindo votos e presentes... como se fosse a coisa mais extraordinária do mundo. Uma criança que nasce... tão ordinário e, ao mesmo tempo, tão extraordinário... parece que tudo começa de novo... recomeça... volta ao começo, àquele começo que no final do século I da nossa era um evangelista descreveu assim: No Princípio era o Verbo...

Ora, o que tem algo tão corriqueiro e usual como o nascimento de uma criança a ver com essa sofisticada redação?  Parece-me, ao contrário, que tem tudo a ver.  Porque o evangelista continua:  E o Verbo estava junto de Deus.  E o Verbo era Deus.  E, não satisfeito, diz mais adiante: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

Parece que o assombro cresce e a questão se complica.  Pois Aquele que era desde o princípio, que estava junto de Deus e era Deus...como entra no tempo e se faz carne? Como?  Da maneira como todos nós entramos no mundo: no ventre de uma mulher, a semente divina cresceu, desenvolveu-se e quando se consumaram os dias de sua gestação, a mãe deu à luz seu filho.

Assim entrou Deus na história: criança, bebê, rompendo caminho pelo corpo da mãe afora, vindo à luz, chorando para abrir os pulmões, mamando para alimentar-se.  Uma criança... uma simples criança.  Aos reis magos que perguntaram como reconheceriam o sinal de Deus de que o Messias havia chegado, foi-lhes dito apenas este fato tão banal: encontrareis uma criança... encontrareis um menino envolto em faixas e deitado em uma manjedoura.

Um bebê que não sabe alimentar-se sozinho...  não sabe valer-se sozinho... precisa dos outros para tudo... E, sobretudo, que não sabe falar.  Apenas chorar.  Mas como?  O Verbo de Deus não sabe falar?  A Palavra que foi pronunciada sobre o caos e criou o mundo não fala?  Por quê?  Por que não pode?  Por que não sabe?  Sim, não pode, não sabe, pois se entrou na carne humana, segue todo o caminho que esta carne segue para seu crescimento e desenvolvimento.  E, assim, o Verbo que foi pronunciado sobre tudo... não sabe falar... ainda.

Mais tarde aprenderá a falar.  Será poeta de parabolas, que ensinarão muitos a viver. Todo o povo permanecerá suspenso do que sai de seus lábios.  Falará, pregará, dirá palavras de alegria, de esperança, de alívio, de consolo para tantos e tantas... Mas, no momento, não fala.  Alimenta-se, chora, dorme... vive a rotina de um recém-nascido, que deve ser introduzido na vida pela mãe que o gerou, pelo pai que o acompanha, pelos outros que cruzarão seu caminho.

Por isso, esperamos com tanto ardor por essa criança.  Ela é semelhante a todas, porque não quer diferenciar nem destacar-se em nada.  Quer justamente assumir a condição humana e aprender a ser humano.  Por isso, aprenderá a falar... a andar... a mover-se... a amar... a sofrer... a viver enfim.  E crescerá e se tornará adulto... e entenderá sua missão... e se entregará a ela até o fim. 

A festa do Natal tem em seu centro uma criança... impotente, indefesa, pobre, frágil, vulnerável.  Diante dela nos inclinamos, atentos, humildes, reverentes... pois nela pulsa o mistério maior que é o mistério da vida.  E, no caso desta criança, da vida que nos salvará da morte e nos levará ao país da alegria pura e sem término. Nesta criança é Deus mesmo que aprende a ser humano.

Enquanto isso, contemplamos as mulheres que passam com suas barriguinhas redondas e cheias de vida; e as crianças que choram, mamam, dormem e vivem intensamente; e as crianças que não puderam nascer; ou as que nasceram e não puderam viver; e as crianças que nascerão e a todos nos dirão palavras de vida.  Em toda criança, já nascida ou esboçada no ventre da mãe, o Natal acontece.  O Verbo de Deus se faz criança.  E em seu silêncio bendito... fala.

Que possamos acolhê-lo em nosso colo, em nosso lar, em nossa vida.  Que seu mistério de graça e pobreza nos conquiste o coração.  Que aceitemos que quem nos salva não é um poderoso e violento chefe militar, ou um rei coroado e cheio de poder, mas uma criança indefesa, que ainda não sabe falar, mas cuja pureza nos ensina o que é o amor. 

FELIZ NATAL!

 Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio 

A teóloga é autora de O  mistério e o mundo  Paixão por  Deus em tempo de descrença, Editora  Rocco. Copyright 2014 MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Saga das Crianças



   Por ROBERTA BARROS          
                                       
 Agora começo uma estória,
Não sei se vou conseguir contar
Falar da saga de crianças
Que pelo país vive a vagar.

Peço prudência a Deus
E coragem a invocar
Falar da penúria dessas crianças
Faz até arrepiar.

Deixados nas rodas dos conventos
Ou por traz dos muros dos internatos
Assim foi sua evolução
Em um país aristocrático.

Filhos do povo e da miséria,
Logo cedo aprende a sofrer,
Pão com ovo em dia de festa,
Pão seco ao entardecer.

Meninas mães lhe geram,
Filhos das ruas rebentam
Nascido do nada,
Vida dura enfrenta.

Ainda com os ossos em formação,
Disputam as poucas proteínas,
Pois seu sangue sem sustentação
Faz nascer sem vitaminas.

Crescem como Deus criou batatas,
Perambulando vão seguindo,
Uns nas feiras fazem cata-cata,
Outros nos mocambos vão se comprimindo.



Ainda jovens, deixam as brincadeiras
Bola de gude, pipa, pião
A sobrevivência derradeira
Faz calar sem opção.

Nos guetos e vielas eles crescem,
Nos becos, passam para labutar,
Sem esperanças emergem
Para um futuro sem acreditar

Meninas, mães elas são,
Logo cedo filhos a criar
Sem amor ou gratidão
Seus filhos começam a balançar.

Sem emprego ou qualificação
Espera a vida mudar,
Luta para não ser ladrão
E no futuro acreditar

Os que não morrem ainda bebê,
O matador vem buscar,
As mães ficam sem saber
 E aonde ir procurar.

Nas luzes da noite
Engraxando eles vão,
Durante o dia com sono
Para a escola não vão não.

Nascem sem cegonha,
E até sem enxoval
A mãe tem até vergonha
De conceber sem pré-natal.

Esta estória é antiga
Do século passado ela vem,
Se não mudar esta cantiga
O futuro vai para o além.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Arte de ser criança



Por Frei Betto
    

      No Jardim de Infância, em Belo Horizonte, nossas tarefas consistiam em sonhar, imaginar, colorir, desenhar, moldar em argila estranhas figuras, empilhar cubos de madeira que, sobrepostos, se transformavam em casas, pontes, prédios e castelos. Dispostos em linha reta, viravam ferrovias, carruagens, estradas. Em círculos, arenas circenses, represas ou lagos.

      Esse entrelaçar de tato, visão e imaginação organizava meu mundo interior. Bastavam poucos apetrechos para meus sentimentos encontrarem expressão nos objetos manipulados ou nas linhas de meus desenhos. Ao fazê-lo, adquiria uma certa distância relacional: os pássaros falam linguagens que só eles entendem; dragões, bruxas e duendes, que povoavam o meu imaginário, não eram pessoas como meus pais, nem coisas como os paralelepípedos que calçavam as ruas, e sim entidades espirituais, como Deus e anjos, com as quais mantinha relações de temor, reverência e fascínio.

      O melhor da infância é o mistério. Povoa a criança com uma força imponderável, superior a todas as realidades sensíveis. O mistério seduz e, tecido em encantos, assusta ou atrai ao não mostrar o rosto nem pronunciar o próprio nome. Habita aquela zona da imaginação infantil tão indevassável quanto impronunciável. Nela, as conexões rompem limites e barreiras, o inconsciente transborda sobre o consciente, o sobrenatural confunde-se com o natural, o divino permeia o humano, e o insólito, como dragões e piratas, é de uma concretude que só a cegueira dos adultos é incapaz de enxergar.

    Os adultos devem manter-se à distância quando a criança se encontra mergulhada em seu universo onírico. Ela sabe que carrega em si um tesouro de percepções que os olhos alheios não podem perscrutar. Recolhida a um canto, deitada em sua cama ou brincando em companhia de seus pares, deixa fluir os seres virtuais que habitam o seu espírito e com quem estabelece um diálogo íntimo, livre das amarras de tempo e espaço. Tudo flutua dentro dela, graças à ausência de gravidade que a caracteriza.

    Se um adulto interfere, quebra-se o encanto. Tudo se torna pesadamente aritmético, como se a ave, aprisionada no chão, ficasse impedida até mesmo de sonhar com o voo, reduzida aos movimentos contidos de seus passos.
     Por tanta familiaridade com o mistério, as crianças são naturalmente religiosas, como se a natureza suprisse quem se encontra biologicamente mais próximo da fonte da vida de percepções holísticas contidas na vitalidade das células, na mecânica das moléculas, na identidade quântica dos átomos, onde matéria e energia são apenas faces de uma mesma realidade.

    Privar a criança do mergulho no mistério é amputá-la da infância. É mutilar o ser, abortando a criança para apressar, de modo cruel, a irrupção irreversível do adulto.

      Ao sorriso sucede o travo amargo de quem já não logra mirar a vida como maravilha - dentro e fora de si. A insegurança aflora, denunciando carências e tornando-as vulneráveis aos sonhos químicos das drogas, já que o melhor da infância foi sonegado – sentir-se um ser amado.

Frei Betto é escritor
 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
Copyright 2012 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)


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