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quinta-feira, 13 de abril de 2023

GOVERNO LULA – 100 DIAS, PRIMEIROS PASSOS


 Frei Betto

 

 

Hoje completam-se 100 dias do novo governo. O Lula 3 difere do que se viu nos dois primeiros mandatos. Agora, é menos sensível às diatribes do Mercado e mais aos direitos dos excluídos. Mais preocupado com o chão da sobrevivência digna que o teto de gastos. Mais com políticas sociais que fiscais. O Bolsa família, além do pagamento mínimo de R$ 600 por família, incluiu o adicional de R$ 150 por criança até 6 anos.

Nesses 100 dias, Lula, com respaldo do STF, salvou a nossa frágil democracia ao intervir no governo do Distrito Federal, prender e indiciar a horda terrorista que invadiu a Praça dos Três Poderes a 8/1. E as Forças Armadas voltaram a ter ciência de que estão “sob a autoridade suprema do Presidente da República”, conforme reza a Constituição. Lula tirou a Abin do controle dos militares e entregou-a à Casa Civil; deu 9% de aumento ao funcionalismo federal e isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 2.640; e aumento real do salário mínimo que, em maio, será de R$1.320,00. Há 60,3 milhões de pessoas com rendimentos referenciados no salário mínimo.

Na política externa, reforça a integração latino-americana e caribenha ao valorizar a Celac, em Buenos Aires e, diante do reaquecimento da guerra fria e do conflito geopolítico entre EUA e China , do qual a guerra na Ucrânia é resultado, posiciona o Brasil como promotor da paz em sintonia com a mais expressiva liderança pacifista da atualidade, o papa Francisco. Recebido por Biden na Casa Branca e, em breve, por Xi Xinping em Pequim, recoloca o Brasil como protagonista no xadrez da globalização.

O governo promoveu a retirada de garimpeiros do território Yanomami, assumiu o cuidado da saúde dessa nação indígena, mas ainda precisa reduzir o desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

Lula atuou com presteza no socorro às vítimas da catástrofe climática no litoral Norte paulista; quebrou o sigilo de 100 anos de documentos oficiais que visavam a ocultar desmandos do governo anterior; reabriu a Farmácia Popular; criou o Conselho de Participação Social e o Conselho Político de Coalizão, que reúne 14 siglas partidárias; recriou o Conama, o Consea e o Conselho LGBTQIA+; aprimorou o Minha Casa, Minha Vida com a Medida Provisória para financiamento de imóveis usados em áreas urbanas e rurais. Com a correção feita pelo governo, o orçamento para compra de merenda escolar passa de R$ 4 bilhões para R$ 5,5 bilhões.

Na economia, o governo age com transparência malgrado a “tornozeleira eletrônica” da Lei Complementar no. 179/2021, que garante autonomia do Banco Central e mantém seu atual presidente, bolsonarista assumido, até o fim de 2024. Este insiste em manter elevada a taxa básica de juros (Selic), apesar do recuo da inflação. Isso trava o crescimento econômico. Lula convocou o apoio da opinião pública ao denunciar a exorbitância da taxa de juros e considerar “uma bobagem” a autonomia do BC.

Segundo o DataFolha (3/4), 80% acham que Lula acerta ao forçar a queda da Selic, e apenas 16% discordam. Por enquanto, Lula tenta transformar água em vinho ao misturar, no arcabouço, ingredientes que devem resultar em austeridade fiscal com margem para investimentos em políticas sociais.

Agora é desbolsonarizar o governo; desmilitarizar a administração pública; rever a reforma trabalhista de Temer, fortalecendo a negociação coletiva e os sindicatos; exorcizar o Ministério da Educação da ameaça da gestão empresarial da educação pública e revogar o “novo” ensino médio. E descobrir e punir quem matou Marielle e Anderson. Apesar da coalizão partidária que mistura alhos com bugalhos, foi positiva a recriação de grupos de trabalho interministeriais com participação da sociedade civil organizada. Sem educação política do povo e mobilização popular Lula não vencerá os imensos desafios que o Brasil tem pela frente.

E viva a criação do Ministério dos Povos Indígenas!

 

Frei Betto é escritor, autor de “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros. (Livraria virtual: freibetto.org)

 



 

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

Copyright 2023 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

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quinta-feira, 6 de abril de 2023

GOVERNO LULA: RESGATE DE UMA PRIORIDADE

 

Frei Betto


 

      Lula já declarou que 4 anos passam muito rápido e ele tem pressa. Sabe que seu desafio prioritário é administrar um conjunto de medidas socioambientais: reduzir a desigualdade social; erradicar a fome e diminuir a insegurança alimentar; fazer a inflação refluir; evitar o desmatamento de nossos biomas; proteger os povos indígenas; preservar a floresta amazônica; reindustrializar o país; aumentar investimentos em infraestrutura.

      São medidas semelhantes às de seus dois primeiros mandatos e que o fizeram deixar o governo com 87% de aprovação. Na época, seu polo opositor era o PSDB que, visto de hoje, pode ser comparado a uma elegante dama que, numa batalha de canhões, empunha luzidia esgrima.

      O golpe liderado por Temer em 2016, que resultou na derrubada da presidenta Dilma; a prisão ilegal de Lula pela dupla Dallagnol-Moro; e a eleição de Bolsonaro em 2018; comprovaram que um governo não se sustenta apenas com boas ações administrativas. Nem com maioria parlamentar. É imprescindível outro ingrediente capaz de respaldar as lideranças políticas ainda que elas se encontrem fora do governo: apoio popular. Maquiavel demonstrou que sem o apoio do povo o príncipe não reina, ainda que não perca a majestade. 

      Como se conquista apoio popular em uma conjuntura na qual a mais extremada direita se parece a um pitbull que ladra forte, enquanto a esquerda emite fracos miados? Eis um desafio que os governos do PT jamais priorizaram em suas pautas – a politização do povo brasileiro. Basta dizer que as prefeituras de Maricá (RJ) e Ipatinga (MG) foram administradas por quatro mandatos petistas e nas eleições de 2022 os dois municípios deram vitória a Bolsonaro no primeiro e no segundo turnos. 

      O leitor talvez se pergunte como Bolsonaro, um obscuro deputado federal, foi capaz de se eleger presidente, arrebatar tantos apoiadores e mobilizar a turba fanática que vandalizou a Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro e, ainda hoje, prossegue disseminando o terrorismo presencial e virtual. 

      Bolsonaro apenas serviu de estopim para um bomba que vinha sendo alimentada há décadas, desde que o Brasil cometeu o erro de não acertar contas com três vergonhosas manchas de seu passado: a escravidão (hoje os negros são duplamente discriminados: por serem negros e por serem pobres, pois foi negado aos libertos o acesso à terra); a ditadura de Vargas (derrubado em 1945, o ditador voltou à presidência da República, por voto popular, em 1950); e a ditadura militar (torturadores e assassinos foram inocentados por uma esdrúxula lei da anistia). 

      Além dessas graves omissões, vivemos em um sistema capitalista que favorece as forças de direita ao exaltar a acumulação privada da riqueza acima dos direitos humanos; o supremacismo branco; a lei do talião como medida de justiça; o belicismo como solução às contendas. Toda essa conjuntura foi anabolizada por dois fenômenos, um atual – as  redes digitais e, outro, velho como o cachimbo de Adão - o fundamentalismo religioso.

      As redes digitais, controladas por plataformas visceralmente ligadas ao capital, favorecem o individualismo e o narcisismo, e proporcionam um relativo distanciamento propício à manifestação de nossos impulsos atávicos mais agressivos. Para muitos de seus usuários, elas são convenientes porque cancelam o diálogo e impõem o monólogo (mesmo quando coletivo e fechado em uma bolha identitária); permitem a emoção se sobrepor à razão; promovem a mentira à condição de pós-verdade; encobrem a verdadeira identidade do emissor; e escapam da legislação vigente, o que as torna inimputáveis. 

      O fundamentalismo religioso internaliza nos fiéis a “servidão voluntária”, induzindo-os a identificar a palavra do padre ou pastor com a de Deus; abdicar da razão crítica; negar a laicidade do Estado e mirar a política pela ótica da confessionalização, exigindo leis que reflitam os preceitos religiosos de determinado segmento eclesial. 

      Diante desse quadro, só resta ao governo Lula abraçar, como prioridade número 2, a educação política de nossa população. Tarefa que ele delegou à Secretaria Geral da Presidência da República e requer urgência no seu desempenho, tanto na capilaridade alcançada nacionalmente pelo governo federal (como as 22 milhões de famílias do Bolsa Família), quanto da poderosa máquina de comunicação do governo, como a EBC, a Voz do Brasil e a transversalidade da ação interministerial. 

      Para assegurar sua governabilidade, um governo necessita duas pernas: maioria parlamentar e apoio popular. Sabemos todos que a primeira é falha na atual legislatura. Resta a Lula desencadear intenso trabalho político para reforçar a segunda. E, para isso, não bastam boas ações administrativas, como Minha Casa, Minha vida, aumento do salário mínimo ou do emprego. É preciso trabalhar o universo epistêmico das pessoas, mudar a ótica de visão da realidade, o que só se consegue com educação. 

      É hora de trocar, definitivamente, Paulo Guedes por Paulo Freire. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

sexta-feira, 25 de junho de 2021

O ATUAL GOVERNO LEVOU MORTE AOS INDÍGENAS

 Leonardo Boff



É notório o desprezo que o atual presidente dedica aos indígenas. Considera-os sub-gente e claramente declarou no dia 1.de dezembro de 2018:”nosso projeto para o índio é fazê-lo igual a nós”. E avançou mais: ”não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou quilombola”.

O mais perverso foi não aprovar a PEC que devia lhes levar água potável, os insumos básicos contra a Covid-19. É um propósito de morte. Há dias, neste mês de junho, numa manifestação pacífica de várias etnias foram recebidos em Brasília com repressão, balas de borracha e gás lacrimogênio. Há um total abandono deles a ponto de que 163 povos de diferentes etnias foram contaminados, sendo que ocorreram 1.070 mortes.

Diz-nos um conhecedor da história da Amazônia Evaristo Miranda, cujo titulo é uma revelação “Quando o Amazonas corria para o Pacífico, (Vozes 2007):”uma coisa é certa: a mais antiga e permanente presença humana no Brasil, está na Amazônia. Há cerca de 400 gerações diversos grupos humanos ocuparam, disputaram, exploraram e transformaram os territórios amazônicos e seus recursos alimentares (op.cit.p.47). Desenvolveram um grande manejo da floresta respeitando sua singularidade, mas ao mesmo tempo modificando seu habitat para estimular aqueles vegetais úteis para o uso humano. O indígena e a floresta evoluíram juntos numa profunda reciprocidade.

Disse bem o antropólogo Viveiros de Castro: ”A Amazônia que vemos hoje é a que resultou de séculos de intervenção social, assim como as sociedades que ali vivem são resultado de séculos de convivência com a Amazônia”(em Tempo e Presença 1992,p.26).

Releva ainda notar que no interior da floresta com suas centenas de etnias formou-se a partir de 1.100 antes das chegadas dos invasores portugueses um espaço imenso (quase um império) da tribo tupi-guarani. Ela ocupou territórios que iam desde os contraforte andinos, formadores do rio Amazonas até as bacias do Paraguai e do Paraná e alguns chegando até os pampas gaúchos e ao nordeste brasileiro. “Desta forma ”afirma Miranda, ”praticamente todo o Brasil florestal, foi conquistada por povos tupi-guarani (op.cit.92-93).

No Brasil pré-cabralino  havia cerca de 1.400 tribos, 60% delas na parte amazônica. Falavam línguas de 40 troncos subdivididos em 94 famílias diferentes, o que levou a antropóloga Berta Ribeiro a afirmar ”que em nenhuma parte da Terra, encontrou-se uma variedade linguística semelhante observada à América da Sul tropical”(Amazônia urgente, 1990 p.75). Hoje, infelizmente, dada à dizimação dos indígenas perpetrada no decorrer de a história e recentemente pelos garimpeiros, mineradores, extrativistas (a maioria ilegais), restaram somente 274 línguas. Isto significa: perderam-se mais de mil línguas (85%) e com elas conhecimentos ancestrais, visões de mundo e  comunicações singulares. Foi um empobrecimento irreparável para o patrimônio cultural da humanidade.

Entre as muitas tragédias que levaram ao desaparecimento de etnias inteiras, cabe lembrar uma que poucos conhecem.  Dom João VI que alguns admiram, em carta régia de 13 de maio de 1808, mandou fazer uma guerra oficial aos índios Krenak do Vale do Rio Doce, em Minas e no Espírito Santo. Aos comandantes militares ordenou “uma guerra ofensiva que não terá fim senão quando tiverdes a felicidade de vos assenhorear de suas habitações e de fazê-los sentir a superioridade das minhas armas..até a total redução de uma semelhante e atroz raça antropófagas”(L.Boff,O casamento do céu com a terra,2014,p.140).

Por que lembramos isso tudo? É  para dar-nos conta destas ações exterminadoras que continuam ainda hoje, resistir, criticar e combater as criminosas políticas do atual governo genocida de indígenas e do próprio povo brasileiro, deixando morrer mais de 5008 mil pessoas.

Os principais responsáveis e seus cúmplices dificilmente escaparão de terem que enfrentar o Tribunal Internacional de Crimes contra a Humanidade em Haia. O clamor não é só brasileiro, mas internacional. Para tais crimes não há limite de tempo. De onde estiverem e em qualquer tempo não escaparão da severidade dos ju, zelosos, como já mostraram, da dignidade sagrada dos seres humanos.

Estes povos originários são nossos mestres e doutores no que se refere à relação com a natureza da qual se sentem parte e os grandes cuidadores. Agora que com a Covid-19 andamos perplexos e perdidos sem saber como seguir adiante, devemos consultá-los. Como diz uma liderança indígena, sobrevivente da guerra criminosa de Dom João VI, Ailton Krenak, eles nos ajudarão a afastar ou protelar o fim do mundo.

Se seguirmos a rota de destruição nosso habitat, a Casa Comum, explorando-a ilimitadamente e sem qualquer escrúpulo, esse destino poderá ser a tragédia da espécie humana. Mas temos esperança que fez os indígenas sobreviverem até os dias de hoje. Também nós esperamos sobreviver, transformados pelas lições que a Mãe Terra no vem dando.

Leonardo Boff escreveu “O casamento do céu com a terra: contos dos povos indígenas do Brasil, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2014; O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social, Vozes 2020.

 

quinta-feira, 21 de maio de 2020

VOCÊ E O GOVERNO

 

Por Frei Betto


 Você, como a maioria da população mundial, sobrevive graças ao fato de trabalhar muito e ganhar pouco. Por não ter tido acesso a direitos básicos, como educação gratuita de qualidade, você trabalha mais com o corpo que com a mente. Exerce uma atividade quase mecânica ameaçada de, em breve, ser ocupada por computadores e robôs.

        Você não tem casa própria, plano de saúde e reservas bancárias. Se não trabalhar, não come. Por isso, é obrigado a viver para trabalhar, quando deveria ter o direito de trabalhar para viver.

        De repente, irrompe a peste. E contra ela não há defesas do organismo nem vacinas. Surgida na China, em dezembro de 2019, em menos de seis meses se globalizou. O único recurso para não ser infectado é o isolamento social. Ficar em casa. Evitar sair à rua. Abrir o computador e trabalhar online. Tirar da estante o livro de culinária e preparar a própria refeição. Usar o telefone para solicitar entregas em domicílio.

        Ocorre que você não pode se dar a esses luxos. Não dispõe de computador e precisa poupar os créditos do celular. Você é um dos 50 mil comerciários desempregados em São Paulo. A loja em que trabalhava está de portas fechadas. Não há data para reabrir. O proprietário despediu todos os funcionários. A partir do próximo mês você não receberá salário.

        Você não pode ficar em casa. A exemplo de lobos e águias, é obrigado a agir como todos os animais diante da necessidade de alimentar seus filhotes – sair da toca ou do ninho. Se ficar em casa, os filhos terão fome. Você precisa ir à rua: para fazer biscate, ingressar na fila do auxílio emergencial do governo, comprar comida e remédios. Forçado por sua condição social, é obrigado a se expor ao risco de contaminação pela Covid-19 ao entrar no ônibus, no metrô e em filas. E se isso acontecer, infectar sua família.

        A espada de Dâmocles paira sobre a sua cabeça. Se ficar em casa, morre de fome. Se sair, de infecção. Não lhe resta alternativa?

        Sim, há alternativa. Chama-se governo. Você não tem consciência disso, mas ele é seu empregado. Porque quem o administra foi colocado lá também pelo seu voto. E todo o dinheiro que ele tem vem dos impostos que você e outros milhões de brasileiros pagam. Sim, sei que você é isento de declarar imposto de renda. Ano passado não ganhou mais de R$ 2.379,97 por mês. Ganhou R$ 1.497. Mas em cada compra que fez, no mercado, na padaria ou na farmácia, os impostos estavam embutidos nos preços das mercadorias.

        O governo tem a obrigação de garantir a sua vida e a de sua família. Em um momento de pandemia como este, você poderia ficar em casa e se proteger se o governo lhe garantisse uma renda básica. Sei que você tenta ter acesso ao auxílio emergencial de R$ 600, mas lida com duas dificuldades, não ter computador e enfrentar as longas filas à porta da agência da Caixa Econômica Federal.

        E por que o governo não cuida da sua proteção e de sua família? Porque não tem vontade política. Como o do Brasil, vários outros governos não assumem a responsabilidade de proteger sua população. Nos EUA, o presidente Trump havia declarado que a infecção “não passa de uma gripe comum”. Até que em 11 de março ele se deu conta de que a Covid-19 já tinha se disseminado por 45 estados e causado 40 mortes. E as ações das Bolsas de Valores despencaram. Então ele mudou de tom. Um pouco. Não muito.

        Como Bolsonaro adora imitá-lo, disse aqui no Brasil que a enfermidade era apenas uma “gripezinha”. Quanto subiu o número de mortes e ele foi perguntado o que achava, reagiu: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?” Não fosse tão omisso e desdenhoso, ele poderia fazer muito para evitar um genocídio no Brasil.

        Não fosse misógino, ele poderia fazer aqui o que mulheres chefes de Estado fizeram em seus países. A primeira-ministra da Islândia, Katrin Jakobsdóttir, submeteu todos os 365 mil habitantes do país a testes gratuitos. Apenas 10 mortes no país. A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, obrigou os quase 5 milhões de habitantes do país a ficarem um mês trancados em casa. E fechou as fronteiras do país. Teve apenas 21 mortes. E em nenhum dos dois países o confinamento significou perda de renda das famílias.

        Já os governantes autoritários minimizaram o vírus, como Bolsonaro no Brasil, Orban na Hungria, Duterte nas Filipinas, Modi na Índia e Áñez na Bolívia. E as mortes se multiplicam dia a dia.

        Surgido na China em dezembro de 2019, o vírus se globalizou e fez o mundo parar. A Terra não é plana, mas parou de girar. A peste provoca uma crise sistêmica. Toda a economia entrou em colapso. Em muitos países funciona, pela primeira vez, o toque de recolher em tempos de paz. As casas se tornaram prisões, com a diferença de que as chaves ficam do lado de dentro das portas. A vida se movimenta online. A burca, o véu islâmico que cobre o rosto das muçulmanas, visto com tanto preconceito, é agora obrigatória para todos nós.

        Você, amigo, tem direitos. Mas muitos, que se encontram na mesma situação, não têm consciência desses direitos nem se mobilizam para reivindicá-los. Saia da inércia! Assuma a sua cidadania! E, na próxima eleição, vote melhor. E guarde esta bela frase impressa nos containers chineses desembarcados na Itália em solidariedade às vítimas: “Somos ondas de um mesmo mar, folhas de uma mesma árvore, flores de um mesmo jardim”.

 

Frei Betto é escritor, autor de “O marxismo ainda é útil?” (Cortez), entre outros livros.

®Copyright 2020 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

GOVERNO BOLSONARO E SÍNODO PAN-AMAZÔNICO





Frei Betto

      O noticiário desta semana informa que os cardeais brasileiros estão sendo espionados pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência), que relata ao governo recentes encontros deles com o papa Francisco, no Vaticano, para prepararem o Sínodo (do grego, ‘caminhar juntos’) sobre a Amazônia, a se reunir em outubro, em Roma.
      “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, declarou o general Augusto Heleno. Isso faz recordar a famosa pergunta de Stálin na Segunda Grande Guerra: “Quantas divisões possui o Vaticano?”
      Segundo o Documento Preparatório do Sínodo, predomina na Amazônia a “cultura do descarte”, somada à mentalidade extrativista, que convertem o planeta em lixão. “A Amazônia, região com rica biodiversidade, é multiétnica, pluricultural e plurirreligiosa, um espelho de toda a humanidade que, em defesa da vida, exige mudanças estruturais e pessoais de todos os seres humanos, dos Estados e da Igreja”. (...) “É de vital importância escutar os povos indígenas e todas as comunidades que vivem na Amazônia, como os primeiros interlocutores deste Sínodo”.
      A Igreja denuncia situações de injustiça na região, como o neocolonialismo das indústrias extrativistas, projetos de infraestrutura que destroem a biodiversidade, e imposição de modelos culturais e econômicos estranhos à vida dos povos.
      Nos nove países que compõem a Pan-Amazônia (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela, incluindo Guiana Francesa como território ultramar), registra-se presença de três milhões de indígenas, no total de 390 povos. Vivem nesse território também entre 110 a 130 “Povos Indígenas em Situação de Isolamento Voluntário”.
      A bacia amazônica representa uma das maiores reservas de biodiversidade (30 a 50% da flora e fauna do mundo); de água doce (20% da água doce não congelada de todo o planeta); e possui mais de 1/3 das florestas primárias. 
      Segundo os bispos, “o crescimento desmedido das atividades agropecuárias, extrativistas e madeireiras da Amazônia, não só danificou a riqueza ecológica da região, de suas florestas e de suas águas, mas também empobreceu sua riqueza social e cultural, forçando um desenvolvimento urbano não integral nem inclusivo da bacia amazônica.”
      Lamentavelmente, “ainda hoje existem restos do projeto colonizador que criou manifestações de inferiorização e demonização das culturas indígenas. Tais resquícios debilitam as estruturas sociais indígenas e permitem o desprezo de seus saberes intelectuais e de seus meios de expressão.” 
      O papa Francisco afirmou em Puerto Maldonado, Peru, em janeiro de 2018: «Provavelmente, nunca os povos originários amazônicos estiveram tão ameaçados nos seus territórios com o estão agora». 
      O pontífice denunciou esse modelo de desenvolvimento asfixiante, com sua obsessão pelo consumo e seus ídolos de dinheiro e poder. Impõem-se novos colonialismos ideológicos disfarçados pelo mito do progresso que destroem as identidades culturais próprias. Francisco apela à defesa das culturas e à apropriação de sua herança, que é portadora de sabedoria ancestral. Essa herança propõe uma relação harmoniosa entre a natureza e o Criador, e expressa com clareza que «a defesa da terra não tem outra finalidade senão a defesa da vida».
      Hoje, o grito da Amazônia ao Criador é semelhante ao grito do Povo de Deus no Egito (cf. Ex3,7). É um grito desde a escravidão e o abandono, que clama por liberdade e escuta de Deus. Grito que pede a presença de Deus, especialmente quando os povos amazônicos, ao defenderem suas terras, têm seu protesto criminalizado, tanto por parte das autoridades como da opinião pública. 

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.     
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

FACE AO NOVO GOVERNO QUE NOS SOCORRA SÃO JORGE




Por Leonardo Boff

Face ao novo Governo de ultradireita, furioso e perseguidor, atingindo já direitos fundamentais dos cidadãos, especialmente os salários e os de outra condição sexual, precisamos unir nossas forças de resistência e de crítica, por um imperativo ético, de salvaguarda da democracia e dos commons que pertencem ao povo brasileiro.
Além desse esforço cívico, precisamos da ajuda do santo preferido dos cariocas que é São Jorge. Sua história legendária nos pode dar ânimo e fortaleza.
Um dragão terrível ameaçava uma pequena cidade no Norte da África. Exigia vidas humanas escolhidas por sorteio. Certo dia, a sorte caiu sobre a filha do rei. Vestida de noiva foi ao encontro da morte. Eis senão quando, irrompe São Jorge com seu cavalo branco e sua longa lança. Fere o dragão e o domina. Amarra a boca com o cinto da princesa e o conduz manso como um cordeiro até o centro da cidade.
Precisamos interpretar esta legenda pois pode melhorar nossa consciência sobre o que somos realmente. Sigo aqui as reflexões da psicologia analítica de C. G. Jung especialmente de seu discípulo preferido Erik Neumann (cf. A história da origem da consciência, Cultrix 1990). Segundo ele, o dragão amedrontador e o cavaleiro heroico são duas dimensões do mesmo ser humano. O dragão em nós é o nosso inconsciente, a nossa ancestralidade obscura, nossas sombras. nossas raivas e ódios. Deste transfundo irromperam para a luz a consciência, a independência do ego e nossa capacidade de amar e conviver humanamente, representados por São Jorge. Por isso que em algumas iconografias, especialmente uma da Catalunha (é seu patrono), o dragão aparece envolvendo todo o corpo do cavaleiro São Jorge, bem como aquela do brasileiro Rogério Fernandes.
Somos esta contradição viva: temos a porção São Jorge e a porção dragão dentro de nós. O desafio da vida que sempre nos acompanha e nunca tem um fim definitivo é São Jorge manter subjugado o dragão. Não se trata de matá-lo mas de domesticá-lo e tirar-lhe a ferocidade.
O povo sente necessidade de um santo guerreiro e vencedor, como se mostrou na novela ”Salve Jorge” cujo script foi feito por uma grande devota do santo, Malga di Paulo. São Jorge salva as mulheres prostituídas contra o dragão do tráfico internacional de mulheres.
O que assistimos ultimamente no Brasil e especialmente durante a campanha eleitoral e agora, infelizmente, no atual governo é a irrupção do dragão. Aqui ele foi solto e se expressou por todo tipo de violência verbal e até física contra homoafetivos, indígenas, opositores e mulheres. Como já escrevemos neste lugar, é a emergência da dimensão perversa de nossa “cordialidade” que, segundo Sérgio Buarque de Holanda, pode se manifestar  mediante o ódio e a inimizade, posto que ela vem também do coração, donde se origina a cordialidade. Ela estava e está sempre presente dentro de nós. Mas criou-se uma condição psico-social-política que pôde sair da escuridão e se manifestar destrutivamente.
Diante do dragão que ganhou visibilidade que vamos fazer? Precisamos acordar o São Jorge que está em nós. Ele sempre venceu o dragão. Vamos usar as armas que eles não podem usar. Às discriminações respondemos com a inclusão de todos indistintamente. Ao ódio disseminado contra opositores, responderemos com amorosidade e compaixão. À criação de bodes expiatórios, responderemos com a defesa dos inocentemente marginalizados e injustamente condenados. Às mentiras e às visões fantasiosas que nos querem levar à Idade Média, responderemos com a força dos fatos e fazer valer o sentido da contemporaneidade.
Importa vencer o mal com o bem. Não revidar com os métodos e ideologias esdrúxulas que apresentam, com a pretensão de não ter ideologia. O que na verdade mais têm os membros do partido e vários ministros é uma bizarra ideologia de fazer sorrir de tão rasa, velhista e ridícula.
Nesse afã, fazemos nossa a oração popular: ”Andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos, não me peguem e tendo olhos não me enxerguem…E meus inimigos fiquem humildes e submissos a Vós. Amém”.
Leonardo Boff é teólogo e coordenador da tradução da obra completa de C.G.Jung junto à editora Vozes.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

LÓGICA DO GOVERNO GOLPISTA

Por Frei Betto

     
      Na feliz expressão de Renato Meirelles, presidente do instituto de pesquisa Data Popular, “perder dói mais do que deixar de ganhar.”
      De fato, ninguém se queixa de viajar de ônibus de São Paulo a Belo Horizonte, até o dia em que se vê em condições de cobrir o percurso em avião. Logo vê-se impossibilitado de voar e obrigado a viajar de novo por terra. Isso dói.

      Essa dor da perda faz milhões de brasileiros se decepcionarem com o governo golpista de Temer. De cara, ele passou o rodo nos ministérios e secretarias especiais que, em 13 anos de governo do PT, trouxeram avanços significativos em suas respectivas áreas: Cultura, Direitos Humanos, Mulheres, Juventude e Igualdade Racial.
      O ministro da Saúde ameaçou ignorar a Constituição e restringir o acesso dos brasileiros ao SUS. Tentou ainda erradicar o programa Mais Médicos e enviar os profissionais cubanos de retorno à ilha. Teve de recuar. Quantos doutores brasileiros estão dispostos a atuar em regiões remotas do país junto à população mais pobre?

      O ministro da Educação – que falou “eu ovo” em vez de “eu ouço” – também ameaçou tirar os recursos de programas, como o FIES, que possibilitaram, nos útimos 10 anos, o ingresso de mais 9 milhões de alunos nas universidades brasileiras. Acuado, prometeu rever seu propósito, aliás digno da política colonial portuguesa, que sempre impediu o Brasil de ter universidade, enquanto no Peru e na República Dominicana ela existe desde o século XVI.

      Reduzir os recursos do Bolsa Família, por exemplo, é tirar milhões de crianças da escola e do acesso às garantias mínimas de saúde, como as vacinas, já que a renda destinada à família vincula a obrigatoriedade de frequência escolar e atenção sanitária dos filhos.

      Tais medidas são exemplos da lógica perversa do governo golpista: dependurar a economia nas exportações; asfixiá-la pelos ajustes fiscais; implantar o Estado mínimo; considerar gastos os investimentos em programas culturais e sociais. Assim, o Brasil perpetua sua impossibilidade de fomentar o mercado interno – medida adotada pelos EUA para sair do atoleiro após a crise econômica de 1929.

      Um país só fortalece seu mercado interno se investir em capital humano, ou seja, saúde educação e cultura. Quando se joga pra escanteio tais direitos, assina-se o atestado de pobreza e dependência de uma nação desigual e injusta.

      Os eleitores de Lula e Dilma votaram na igualdade de oportunidades. Os apoiadores de Temer preferem a meritocracia. Ora, como assegurar mérito se a desigualdade social exclui milhões de pessoas de acesso à escola e ao emprego formal?

      A cultura escravocrata ficou tão impregnada no brasileiro que paira no ar o medo de se tornar realidade a hipótese de não haver mais Casa Grande nem senzala...

      Portanto, se perder dói, não nos resta outra alternativa  que lutar para ganhar. Quem não chora não mama.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros.


sexta-feira, 20 de maio de 2016

O GOVERNO GOLPISTA QUER FECHAR A FONTE DE NOSSA IDENTIDADE: A CULTURA


Por Leonardo Boff



Só pessoas muito ignorantes e alienadas de suas próprias raízes, no fundo materialistas crassos, fruto do economicismo imperante, podem tomar a decisão de fechar a fonte de onde nasce e se alimenta a nossa identidade nacional: a cultura, para a qual existia o Ministério da Cultura. Agora essa fonte está sendo lacrada. E com razão, pois da cultura nasce a criatividade, o espírito critico e os grandes sonhos que mobilizam todo um povo. Tudo isso é perigoso para governantes medíocres que não pensam e temem todo tipo de pensamento que não seja o deles.

Quase sempre, por causa da colonização, fomos condenados a reproduzir e a mimetizar os padrões culturais de nossos senhores-opressores. Mas lentamente, vivendo em outro ecossistema, nos trópicos, fomos desenvolvendo nosso próprio modo de ser, de viver e conviver, o que podemos chamar a cultura brasileira em estado nascente.
No final de abril escrevi neste espaço um artigo com o título “A cultura: o nascedouro da utopia Brasil”.Face aos fatos recentes com a instauração de um governo interino, cego para tudo aquilo que nos identifica e nos honra, agora retomo o tema.

Todo povo, cada nação elaboram o seu sonho, a sua utopia própria que dá sentido às práticas sociais e mantem sempre aberto um horizonte de esperança, particularmente em momentos de crise.

Geralmente esses momentos são ocasiões de projetar visões novas, buscar saídas salvadoras e deixar irromper a criatividade. O Brasil está passando por um destes momentos críticos. Portanto, negar um espaço à cultura é apequenar o país e condená-lo a reproduzir o mesmo que muitas vezes não deu certo ou poderia ter sido bem melhor.

Celso Furtado que além de economista renomado foi um dia Ministro da Cultura, constata com tristeza em seu livro”Brasil: a construção interrompida”(1992): sempre houve “forças conservadoras e reacionárias que se empenharam em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”(p.35), por medo de perder seus privilégios. Fomos impedidos de construir um Brasil não só imaginário mas real que integrasse minimamente a todos, multicultural, tolerante e até místico.

Chegou o momento, penso, que se nos oferece o desafio de construir a nossa identidade ou a nossa utopia inspiradora. Volto a Celso Furtado. “Ter ou não acesso à criatividade, eis a questão”(O longo amanhecer, Paz e Terra, Rio de Janeiro 1999, p. 67). E continua. “Essa cratividade se mostra nas artes, na música, nas imagens de propaganda e marketing… Uma sociedade só se transforma se tiver capacidade para improvisar”(p.97).

Nunca nos faltou capacidade de improvisação e de criação. Faltou-nos a vontade dos governos sem raiz popular e a disposição de nossas classes neocolonizadas que não souberam valorizar e aproveitar o enorme potencial criativo do povo.
A partir de que base assumiremos essa empreitada? Deve ser a partir de algo tipicamente nosso, que tenha raízes em nossa história e que represente um outro software social. Esse patamar básico é o que escremos acima, a nossa cultura, especialmente a nossa cultura popular. Como novamente diz Celso Furtado: ”desprezados pelas elites, os valores da cultura popular procedem seu caldeamento com considerável autonomia em face das culturas dominantes”(O longo amanhecer, 1999, p.65). O que faz o Brasil ser Brasil é a autonomia criativa da cultura de matriz popular.

A cultura aqui é vista como expressão de um sistema de valores, de projetos e de sonhos de um povo. A cultura se move na lógica dos fins e dos grandes símbolos e narrativas que dão sentido à vida. Ela é perpassada pela razão cordial e contrasta com a lógica fria dos meios, inerente à razão instrumental-analítica que visa a acumulação material. Esta última predominou e nos fez apenas imitadores secundários dos países tecnicamente mais avançados. A cultura segue outra lógica, ligada à vida que vale mais que a acumulação de bens materiais.

Ninguém melhor que o cientista político Luiz Gonzaga de Souza Lima, em seu ainda não reconhecido livro:”A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada” (2011) para apresentar esta perspectiva da cultura e que a fez o eixo articulador da utopia Brasil e de nossa identidade nacional.

A nossa cultura, admirada já no mundo inteiro, nos permite refundar o Brasil que significa: “ter a vida como a coisa mais importante do sistema social…é construir uma organização social que busque e promova a felicidade, a alegria, a solidariedade, a partilha, a defesa comum, a união na necessidade, o vínculo, o compromisso com a vida de todos, uma organização social que inclua todos os seus membros, que elimine e impeça a exclusão de todos os tipos e em todos os níveis”(p.266).

A solução para o Brasil não se encontra na economia capitalista como o sistema dominante nos quer fazer crer, mas na vivência de seu modo de ser aberto, afetuoso, alegre, amigo da vida. A razão instrumental nos ajudou a criar uma infra-estrutura básica sempre indispensável. Mas o principal é colocar as bases para uma biocivilização que celebra a vida, que convive com a pluralidade das manifestações, dotada de incrível capacidade de integrar, de sintetizar e de criar espaços onde nos sentimos mais humanos.

Pela cultura, não feita para o mercado mas para ser vivida e celebrada, poderemos antecipar, um pouco pelo menos, o que poderá ser uma humanidade globalizada que sente a Terra como grande Mãe e Casa Comum. O sonho maior, a nossa utopia,da mais alta ancestralidade, é a comensalidade: sentarmos juntos à mesa, como irmãos e irmãs e desfrutar a alegria de conviver amigavelmente e de saborear os bons frutos da grande e generosa Mãe Terra.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu Virtudes para um outro mundo possível (3 vol.), Vozes 2005-2006.