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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Prisão de Bolsonaro será disciplinadora

 Leonardo Boff 


 

Contradizendo vários de meus colegas de que não se deve agora condenar Bolsonro,apenas desgast-lo, pondo à luz seus crimes e só no fim puni-lo pensamente com a prisão, eventualmente levá-lo ao Tribunal Penal de Haia e deixá-lo por lá mesmo,como foi feito com muitos condenados por crimes contra a humanidade. Bolsonaro não fica muito aquém de Hitle e de Pinochet e de outros fascínoras. O Brasil não pode deixar nornalizar sua situação e deixá-lo vagando por aí até encontrar um país, com mentalida dele onde possa se esconder. Sou decidicamente pela extradição e julgamento imediato desse criminoso de milhares de pessoas, beirando o genocídio ou sendo de fato um genocida.

Publicamos este texto corajoso de Hildegard Angel que viveu na própria família o horror da repressão e do assassinato de seu irmão Stuart Angel Jones. Lboff

 

Hildegard Angel, Jornalista, ex-atriz, filha da estilista Zuzu Angel e irmã do militante político Stuart Angel Jones

“Sua prisão não provocará comoção alguma. Ela fará vermes, ratos e lagartos retornarem aos grotões lamacentos de onde emergiram”, diz a colunista

A cada dia mais me escandalizo com a insistência da imprensa brasileira em normalizar uma figura política monstruosa, incompetente e irresponsável como Bolsonaro, enquanto a mídia estrangeira se mantém horrorizada com ele. 

Vejo analistas e comentaristas políticos se referirem ao governo passado como se este tivesse sido algo regular, e não uma evidente anomalia, um governo disfuncional, um período distópico da vida brasileira. 

Todo surto de esquizofrenia necessita tratamento até ser retomada a sanidade. Com o estado brasileiro não será diferente. Não se salta do caos absoluto para o corriqueiro, num piscar de olhos. Há que se providenciar a recuperação até a cura.

Para o Brasil retomar a normalidade suas instituições devem dar o melhor exemplo, a partir da imprescindível responsabilização criminal de Bolsonaro e seus comparsas. Essa alegação de que ele “vai virar mártir” não cabe para quem é um vilão assumido e convicto, vide “Argentina 1985”, em que a condenação dos arrogantes malfeitores

Os efeitos da malignidade de Bolsonaro se espraiaram pela nação brasileira em todos os campos. Bolsonaro estuprou o Brasil, com violência e torpeza. Das florestas à economia, da dignidade ao conhecimento, da saúde à compostura, à inocência, nada foi poupado em sua ação predatória. 

 

De tal forma que as feridas deixadas por ele na vida brasileira dificilmente cicatrizarão. O trauma será longo, se não for perpétua.

Bolsonaro precisa ser responsabilizado, sim, levado aos tribunais, locais e internacionais, julgado e condenado. Precisa ser preso, sim, porque ele fez por onde. Caso isso não ocorra, será uma desmoralização para a Justiça brasileira, terá sido o crime perfeito, abrindo caminho para outros projetos de destruição de nosso estado.

Os que não se deram conta disso, que se mirem no exemplo do próprio Bolsonaro, que se mantém a cuidadosa distância do Brasil, à espera de a poeira baixar. 

Sua prisão não provocará comoção alguma, ao contrário do que alguns receiam. Será uma ação disciplinadora, educativa até. Ela fará vermes, ratos e lagartos retornarem aos grotões lamacentos de onde emergiram – e que jamais deles retornem – confirmando a covardia de suas práticas”

Leonardo Boff, teólogo e filósofo escreveu Homem anjo bom ou satã, Record 2008.

 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

LULA E BOLSONARO: ASCENSÃO E QUEDA

 Frei Betto


 

       As trajetórias de Lula e Bolsonaro já foram exaustivamente analisadas do ponto de vista político. Não conheço, porém, nenhuma análise do ponto de vista dos arquétipos literários. Suas biografias são pratos cheios para uma nação como o Brasil, onde a maioria do povo é pobre e confia na sorte (ou no milagre) para sair do buraco. 

       No estudo de obras literárias, há técnicas de garimpar textos e descobrir por que causam tanto impacto a leitores de sucessivas gerações. O professor Matthew Jockers, das universidades de Nebraska e Vermont, analisou inúmeros romances. Chegou a seis tipos de arquétipos que servem de base à elaboração de narrativas complexas: 1) Ascensão (da pobreza à riqueza ou de má a boa sorte); 2) Declínio (de bom a mau, tragédia); 3) Ícaro (ascensão e declínio); 4) Édipo (declínio, ascensão e declínio de novo); 5) Cinderela (ascensão, queda, ascensão); 6) Homem no buraco (queda e ascensão).

       A pesquisa se baseou na análise de sentimento, uma técnica estatística usada por marqueteiros para analisar postagens em mídias digitais. Cada palavra é associada a uma "pontuação de sentimento". Assim, uma palavra é qualificada como positiva (feliz) ou negativa (triste), ou associada a emoções mais sutis, como medo, alegria, surpresa e anseio. Por exemplo, a palavra "abolir" é negativa, associada a raiva. 

       Ao fazer a análise de sentimento das palavras de um romance, percebe-se as mudanças de humor ao longo do texto, revelando um tipo de narrativa emocional. 

       Bons exemplos são “A divina comédia”, de Dante Alighieri; “Madame Bovary”, de Flaubert; “Romeu e Julieta”, de Shakespeare; “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen; “Frankenstein”, de Mary Shelley; e “O patinho feio”, de Hans Christian Andersen. 

       “A divina comédia” é um poema épico de ascensão. O autor inicia por descrever sua jornada no inferno, acompanhado pelo poeta Virgílio. Eis ali "um homem no buraco". Ao sobreviver milagrosamente ao inferno, a dupla escala a montanha do purgatório, na qual repousam as almas dos excomungados, preguiçosos e luxuriosos. Beatriz, paixão e musa de Dante, substitui Virgílio como companhia e a ascensão do casal ao paraíso é marcada por crescente alegria. A alma do poeta se torna plena "do amor que move o sol e outras estrelas". 

       Lula se encaixa melhor no poema de Dante que Bolsonaro. Saiu da miséria (o inferno), padeceu uma vida de trabalhador assalariado (o purgatório) e, enfim, chegou a presidente da República com 87% de aprovação (o paraíso). Bolsonaro saiu do purgatório (sua fracassada e breve carreira militar) e chegou ao paraíso (eleito presidente). Sabe-se, porém, que caso seja derrotado no próximo dia 30 será condenado ao inferno (o retorno a uma vida sem mandato e o risco de cair nas malhas da Justiça). 

       Lula condiz com o arquétipo Cinderela. Após a ascensão à presidência, conheceu a queda sob as garras injustas da Lava Jato e, agora, experimenta a preferência eleitoral e poderá ser o primeiro brasileiro eleito três vezes para chefiar a nação. Neste caso, em 1º de janeiro de 2023 a faixa presidencial o cobrirá como o sapatinho ofertado pelo príncipe se adequou ao pé de Cinderela. 

       Bolsonaro sabe que está mais para Madame Bovary, que se deslumbrou com amores fortuitos, e corre o risco de, após o imprevisível voo que o alçou ao Planalto, cair como Ícaro no mais profundo abismo. 

       Esses arquétipos estão enraizados em nosso inconsciente. São amplamente utilizados em todas as narrativas ficcionais, como novelas de TV.  Causam maior impacto quando são realidade, como é o caso da família real britânica. Ela dispensa novelas de TV na Inglaterra. Os dramas – o tio que abdicou da coroa para se casar com uma mulher desquitada; a rainha longeva; o filho que se separa da mulher bela para se juntar à mulher feia; o príncipe flagrado em orgia; e o príncipe de “sangue azul” que se casa com uma mulher de “sangue negro” etc... – tudo isso atrai olhares e provoca a imaginação. 

       No dia 30 nossos votos haverão de acrescentar mais um capítulo à tragédia brasileira. Há aqueles que votarão pela “pontuação de sentimento negativo” (Bolsonaro) e aqueles que darão o seu voto à “pontuação de sentimento positivo”. Espero em Deus que a maioria dos eleitores vote sem medo de ser feliz. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Jesus militante – o Evangelho e o projeto político do Reino de Deus” (Vozes), entre outros livros.

 

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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sábado, 2 de outubro de 2021

Fora Bolsonaro não é Diretas Já

 Prof. Martinho Condini


    Hoje acontecem as manifestações a favor do Fora Bolsonaro.

    O palanque na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo será suprapartidário, com a participação do campo da direita, centro direita, esquerda e centro esquerda. Lá se farão presentes diversos partidos, Cidadania, DEM, MDB, PC do B, PDT, PL, Podemos, Solidariedade, PSD, PSB, PSDB, PSL, PSOL, PT, PV, Rede, UP, PCB, PSTU, PCO, PCdoB e Novo, os movimentos sociais, comunidade LGBTQIA+, entidades como Direitos Já, Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo, Acredito, UNE, Coalizão Negra por Direito, igreja progressista, representantes da sociedade civil, as centrais sindicais (CUT, Força Sindical, UGT, NCST, CSB, CSP, CONLUTAS, Intersindical e Públicas) e que mais aparecer.

    Talvez se encontrem nesse palanque Lula, Boulos, Haddad, Dilma, Dino, Ciro, FHC, Dória, Renan, Maia, Temer, Amoedo, Mandeta, Zema, Alckmin, França, Kassab, Marina, Paulinho da Força,Freixo,  Manuela D’ávila, Eduardo Leite e quem mais vier.

    Mas o que me causa estranheza é que alguns desses partidos e nomes que ai estão apoiaram o golpe contra a presidenta Dilma, a prisão do presidente Lula e o lavajatismo, se isso não bastasse, foram apoiadores e eleitores de Bolsonaro e  alguns se elegeram em 2018 na onda bolsonarista.

    A causa é nobre, todos unidos para tirar Bolsonaro e sua quadrilha miliciana do poder, mas é preciso separar neste balaio de gato o joio do trigo. Muitos que estarão no palanque daqui a pouco, querem apenas desvincular os seus partidos e nomes ao de Bolsonaro, por causa das próximas eleições que estão logo ali. Lembrem-se que até muito pouco tempo atrás estes mesmos eram bolsonaristas de carteirinha, rezavam na mesma bíblia neoliberal, conservadora, lavajatista e anti-petista desse atual desgoverno. Que beleza!  

    Lembrem-se que em 12 de setembro organizou-se um movimento “Anti-Bolsonaro”, liderado pelo MBL (Movimento Brasil Livre) e “Vem Pra Rua”. Direita pura que quiseram surfar na onda do “anti-Bolsonaro” e também se apresentaram como oposição.

    Mesmo com esse contexto, as ruas estarão ocupadas, porque a maioria da sociedade brasileira quer salvar a nossa democracia política, que foi reconquistada com a luta de tanta gente, muitas delas torturadas e mortas pela ditadura militar (1964-1985).

    A outra história foi a campanha das Diretas Já em 1983/1984, movimento suprapartidário que reuniu lideranças políticas, sindicais, religiosas, classe trabalhadora e outros, todos unidos pelo fim da ditadura militar. A sociedade brasileira queria voltar a eleger o seu presidente da república por meio do voto livre e direto.

    Nos palanques das Diretas Já em 1984, estiveram juntos os partidos de oposição ao regime militar PMDB, PT, PDT e PTB, movimentos e entidades sociais e sociedade civil, igreja progressista e outros. Lideranças políticas como Lula, FHC, Brizola, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Miguel Arraes, Franco Montoro, Mario Covas, Orestes Quércia, João Amazonas, Luiz Carlos Prestes, Paulo Freire, Luiza Erundina, Dom Helder Camara, Dom Paulo Evaristo Arns e outros.

    Nas Diretas Já não tínhamos apoiadores do regime militar no palanque, em comparação ao atual palanque do “Fora Bolsonaro”, que poderá ter membros do campo político da direita que apoiaram o bolsonarismo.

    Enfim, não sou contrário a um movimento suprapartidário a favor do Fora Bolsonaro, mas estou convencido que é inadmissível que os campos progressistas de esquerda dividam palanques com essa corja de direitistas inescrupulosos e cúmplices desse desgoverno genocida, miliciano, negacionista e corrupto.

    Acredito que nas manifestações de hoje estarão presentes milhares de cidadãs e cidadãos que trazem consigo o esperançar de que é possível a mudança e a reconstrução de um país soberano e digno para todas e todos.



quinta-feira, 16 de setembro de 2021

BOLSONARO E A EGOCRACIA

 

Frei Betto


 

        Muitos temiam que Bolsonaro desse um golpe em 7 de setembro, fechasse o Congresso e o STF. Não foi o meu caso. Estou convicto de que o golpe já ocorreu em 2016 perpetrado, por traição, pelo então vice-presidente Michel Temer. O impeachment da presidente Dilma, sem nenhuma acusação consistente como base, pretextou firulas administrativas e fez semear o joio antidemocrático.

        A farsa se fez tragédia. Um político desqualificado, punido pelas Forças Armadas por planejar atentados terroristas, vinculado a milícias criminosas e contumaz patrocinador de rachadinhas familiares, chegou à presidência da República. Homem de visível desequilíbrio emocional, indiferente à dor alheia (genocídio, carestia, inflação, crise hídrica, desemprego, queda do PIB etc.), move-se pela obsessão em três pautas: liberação do comércio e porte de armas; retorno ao voto impresso; e repetidas ofensas àqueles que dificultam seus arroubos antidemocráticos, como os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso.

        Bolsonaro sabia não dispor de condições para emplacar, em 7 de setembro, o seu “AI-5”, o golpe no golpe. Em 1968, o golpe de Estado perpetrado em 1964 e que derrubou Jango, presidente democraticamente eleito, ganhou reforço com o golpe no golpe, que borrou a maquiagem supostamente democrática adotada pela ditadura militar. 

        Bolsonaro não tornou realidade suas bravatas antidemocráticas em 7 de setembro por lhe faltarem condições imprescindíveis ao êxito: apoio popular; conjuntura internacional favorável; e adesão das Forças Armadas. Na tropa, ele é tolerado, não apoiado. Daí seu apelo às polícias civil e militar, cuja parcela cumpliciada com a criminalidade advoga o “excludente de ilicitude” como carta branca que lhe permita consolidar-se como máfia. 

        Quem são os 23% que ainda apoiam Bolsonaro? Seus adeptos nem sabem o que é fascismo. São desprovidos de ideologia teoricamente consistente. Abraçam a egocracia, sistema de governo no qual os interesses individuais estão acima dos direitos coletivos. 

        O egocrata odeia leis. Adepto do vale-tudo, apregoa a violência como única via de alcançar suas ambições. Quem dele discorda não deve ser tolerado, deve ser física e/ou virtualmente eliminado. Em seus negócios, abomina fiscalização, sonega impostos e mira o sistema financeiro como um grande cassino. 

        O egocrata despreza princípios éticos, nutre preconceitos ao diferente, arvora-se no moralismo de quem clama contra a corrupção e, ao mesmo tempo, apoia políticos notoriamente corruptos que defendem suas teses.

        O ideal de nação do egocrata é o bem-estar de sua família. Danem-se os miseráveis, morram os que se encontram em situação de rua e os contaminados pela Covid-19, proíbam-se movimentos populares e identitários, queimem-se os defensores do meio ambiente, aniquilem-se os povos indígenas, cale-se a imprensa crítica. 

        A egocracia é o regime do individualista que considera baboseira tudo que possa afetar sua liberdade de agir segundo seus interesses privados: Constituição, direitos humanos, princípios éticos. Adora um deus criado à sua imagem e semelhança. Movido pelo ódio, despreza a razão. E sua insígnia preferida é a arma de fogo, cujos disparos põem fim a todos os argumentos contrários à sua ganância. 

        É preciso levar a sério os egocratas. Isso implica denunciá-los, atuar intensamente por eleições democráticas em 2022, reforçar os movimentos sociais, participar das mobilizações virtuais e presenciais contra o atual (des)governo, fortalecer o trabalho de educação política junto aos setores populares. 

        Engana-se quem acredita no “mea culpa” de Bolsonaro após o fracasso das manifestações de 7 de setembro. A fera recua mas não perde a sua inata agressividade. Daí a importância de os brasileiros se mobilizarem contra o autoritarismo e a favor da democracia.

 Convém refletir sobre o conto de  Kierkegaard, que me foi remetido por Leonardo Boff: 

        Ocorria um incêndio nas cortinas do fundo do teatro. O diretor enviou então o palhaço, já pronto para entrar em cena, a fim de alertar a plateia  acerca do risco que todos corriam. Suplicou que agissem para apagar as chamas. Como se tratava de um palhaço, todos imaginaram que era apenas um truque para fazer rir as pessoas. E elas riam, riam muito. Quanto mais o palhaço conclamava a todos, mais riam. Pôs-se sério e começou a esbravejar: “O fogo acaba de queimar as cortinas. Se não agirem, vai queimar todo o teatro e vocês juntos”. Todos acharam tudo aquilo muito engraçado, e comentavam que o palhaço desempenhava esplendidamente o seu papel.

        O fato é que o fogo consumiu todo o teatro, com todas as pessoas dentro.

        E termina Kierkegaard: 

        Assim, suponho eu, é a forma pela qual o mundo vai acabar no meio da hilaridade geral dos gozadores e galhofeiros, que pensam que tudo, enfim, não passa de mera brincadeira.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco) e “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

SOB BOLSONARO: A DEMOCRACIA COMO FARSA E AS INSTITUIÇÕES COMO DISFARCE

 

                                               por   Leonardo Boff


É fato confessado pelo ex-chefe supremo das FFAA, gal.Villas Boâs que o Alto Comando em 2018 deu um golpe na democracia brasileira,ferindo o inciso XILV do artigo 5º da Constituição que diz, tal fato: ”constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”. O sentido era, pressionando o STF para manter-se distante, utilizar o juiz Sérgio Moro (exímio na aplicação do law fare) para alijar Lula do pleito presidencial, condenando-o por qualquer crime que fosse, no caso, “por crime indeterminado” e pô-lo na prisão onde ficou por mais de 500 dias. Desta forma abrir-se-ia o caminho para eleição ex-capitão compulsoriamente reformado por mau comportamento, Jair Bolsonaro. O que de fato ocorreu.

Conhecemos a bíblica “desolação da tribulação” que sobreveio ao nosso país com o presidente eleito. Ocupou militarmente o Estado com 11 mil militares em distintas funções de comando ou de administração. Não soube guardar a dignidade que o mais alto cargo da nação exige e entregou-se às difamações, às mentiras diretas, aos fake news, ao uso vergonhoso de palavrões com soberano desprezo da imprensa. Mente assassina, preferiu incentivar a compra de mais armas por civis do que elaborar um plano de enfrentamento do Covid-19 que já fez mais de 220 mil vítimas e nos aproximando de 10 milhões de infectados. Na avaliação mundial, o Brasil ficou em último lugar nas políticas sanitárias contra o Covid-19 e na aplicação da vacinação à população.

A nossa democracia que historicamente sempre foi de baixa intensidade, agora, sob Bolsonaro e comparsas, foi estraçalhada nem chegando a ser de baixíssima intensidade. Ela virou uma farsa e suas principais instituições um disfarce de legalidade, por mais que se diga que “as instituições funcionam”. Cabe perguntar a quem? Não à política sanitária mínima, não à justiça necessária aos milhões de desempregados, aos indígenas e quilombolas, não ao cuidado da natureza em devastação, não à defesa contra ameaças diretas ao STF, nem contra um propósito declarado de golpe militar. Sob o disfarce da legalidade se blindam notórios corruptos, concede-se facilmente habeas corpus a políticos indiciados por ilegalidades e até crimes e permanecem impunes os centenas de feminicídios e discriminações e até assassinatos dos membros do LGBTI.

Vou me permitir  usar as palavras de dois sociólogos porque encontrei neles as melhores expressões para qualificar o que sinto e penso acerca de nossa presumida democracia: Thiago Antônio de Oliveira Sá, sociólogo e professor universitário (cf.O sequestro das instituições brasileiras, em Carta Maior de 14/02/2021) e de Pedro Demo, colega de estudos no Brasil e na Alemanha, professor na Universidade de Brasília, uma das inteligências mais brilhantes que conheço com vasta obra de pesquisa científica. Delas sirvo-me apenas de tópicos significativos do livro Introdução à Sociologia: Complexidade, Interdisciplinaridade e Desigualdade Social, Editora Atlas, São Paulo 2002 pp, 329-333) onda diretamente aborda o tema da democracia no Brasil.

Começo com Oliveira Sá no referido artigo em Carta Maior: “O público é um anexo do privado. A perícia cede lugar à malícia. A corrosão institucional se visualiza facilmente: obscurantistas e mal educados como ministros da Educação; um ecocida que passa sua boiada sobre o meio ambiente; uma ruralista à frente da agricultura nos envenena com seus mais de 500 agrotóxicos legalizados; uma evangélica fundamentalista cuida das mulheres e demais minorias com seu machismo e sua obsessão com a sexualidade alheia. Não nos esqueçamos do primeiro ministro da Saúde, lobista dos planos privados, a estender sua mão visível sobre o SUS. Um emissário do mercado financeiro dirige o ministério da economia. Um maluco, pária orgulhoso e antiglobalista (seja lá o que isso for), faz do Brasil vexame internacional nas relações exteriores. Um racista à frente da Fundação Palmares. Polícia federal convertida em guarda-costas particular da presidência e de seus filhos. A Procuradoria Geral da República a livrar a cara do empreendedor das rachadinhas. Um militar na Saúde dispensa maiores explicações…. juízes que têm lado, vejam-se os novos vazamentos das tramóias nada republicanas de Moro, Dallagnol e seus comparsas. Absurdo, mas não surpreendente: a velha conversão das instâncias judiciais em arma de grupos dominantes. Para perseguição de adversários, para inviabilizar suas candidaturas em favor de outros”.

Não perde em contundência Pedro Demo. O que escreveu em 2002 vale muito mais para 2021: “Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis “bonitas”, mas feita sempre, em última instância, pela elite dominante para que sirva a ela do começo até o fim. Nossa democracia espelha, cruamente, a ‘luta pelo poder’ no sentido mais maquiavélico da luta por privilégios. Político sem privilégios é figura espúria em nosso cenário – desde logo é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco (comentário meu: vide o ex-deputado Jair Bolsonaro por sucessivos mandatos), fazer negociatas, empregar parentes e apaniguados, enriquecer-se à custa dos cofres públicos, entrar no mercado por cima. Mas há exceções que confirmam a regra…A própria Constituição de 1988 não abriga propriamente projeto nacional coletivo, afinado sob a batuta da justiça e da equalização de oportunidades, mas proposta corporativista retalhada por meio da pressão particularizada: os magistrados fizeram o seu  capítulo, bem como a polícia, as universidades, o legislativo, o judiciário, o Executivo e a iniciativa privada…É a tão decantada por Ulysses Guimarães de “Constituição Cidadã”, mas que detém concepção corporativista extrema, muito distante dos interesses das maiorias…Fazem-se muitas propostas mas sem qualquer ligação com embasamento financeiro e institucional…No final fizemos outra vez imitação barata do welfare state. Mas há coisas boas como a lei de responsabilidade fiscal para evitar que se gaste o que não se arrecada…O Legislativo longe de defender ideias, propostas, equidade, defende verbas, fatias de poder, privilégios exclusivos. É o lugar principal da negociata, do cá e o da lá…Não é  pois difícil de  mostrar que nossa democracia é apenas formal, farsante, que convive solenemente com a miséria das grandes maiorias. Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação. Não se nota na classe política dominante em geral      qualquer gesto dirigido a superar  mazelas históricas plantadas em privilégios absurdos para poucos…Nossa pobre política lancinante se traduz  na miséria de nossa democracia. Por isso é tão importante manter a ignorância política das massas” (333).

A realidade política sob Bolsonaro é muito pior do que a desenhada acima. Visa reconduzir o país à fase pré-iluminista, da universalização do saber, dos direitos e da democracia na direção regressiva a tempos obscuros do pior da Idade Média tardia, não da Idade Média áurea com suas imensas catedrais, com a criação de universidades, com suas sumas teológicas, com seus sábios, místicos e santos. Tudo o que foi criado nos governos Lula-Dilma que tivesse sabor popular ou inserção dos empobrecidos na sociedade foi literalmente desmontado de forma criminosa  pois implicou sofrimento aos que já sempre sofreram historicamente.

Causa-nos espanto que aquelas autoridades judiciais e políticas que poderiam mover ações juridicamente fundadas contra a irresponsabilidade e crimes sociais do presidente não se movam, seja por se sentirem cúmplices, seja por ausência de espírito patriótico e mesmo faltos de sentido de justiça social. Como vivem a quilômetros luz do drama do povo e veem seus direitos adquiridos e privilégios garantidos não os move a nobre compaixão  para usar os instrumentos jurídicos de que dispõem para livrar a nação daquele que a está destruindo e segue mais aferrado ainda nesse mesmo intento perverso.

Razão tem o Papa Francisco ao  falar várias vezes aos movimentos sociais mundiais, aqueles que querem outro mundo porque este lhes é um inferno ou um purgatório: ”não esperem nada de cima, pois vem sempre mais do mesmo ou pior. Comecem por vocês mesmos, vale dizer, as multidões devem ocupar ruas e praças e botar para correr aqueles que lhes sequestraram as oportunidades de serem gente, de sentirem-se sujeitos um mínimo de dignidade e de alegria de viver. Esperamos isso aconteça. Só depois que se sentirem ameaçados, os dominantes aderem. Se não cuidarmos se apropriam da energia emergente para seus próprios fins privados. Mas o que deve ser tem força: o afastamento o mais rápido possível de quem conduz uma política necrófila contra o seu próprio povo.

Diante da obscuridade do horizonte e, a muito custo, mantendo a esperança contra a esperança, faço minhas as palavras do Mestre, também tomado de profundo pesar: tristis est anima mea usque ad mortem”

 

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

AS LIDERANÇAS CRISTÃS QUE ELEGERAM BOLSONARO

 



Por Lusmarina Campos Garcia

Os escândalos envolvendo dois pastores e um padre esta semana em conjunto com o caso da menina de 10 anos na semana passada, mostram que o cristianismo no Brasil apodreceu

A pastora, cantora gospel e deputada federal pelo PSD/RJ, Flordelis dos Santos de Souza, é acusada de ser a mandante do assassinato do marido que foi executado pelos filhos. Com um discurso moralizante “pela família”, “em favor da vida”, contra o aborto e as relações homoafetivas, a “pastora” é acusada de manter relação incestuosa com os filhos além de matar o marido. Foi eleita com o voto de pessoas evangélicas ao cargo de deputada federal.

O pastor Everaldo Pereira, que batizou o Bolsonaro no Rio Jordão e é presidente do PSC (Partido Social Cristão), foi preso nesta sexta-feira (28), juntamente com dois de seus filhos, acusado de ser o líder de uma “sofisticada organização criminosa” que tem “o objetivo comum de desviar recursos públicos e realizar a lavagem de capitais, dentre outros crimes”. De acordo com a delação do ex-secretário de saúde Edmar Santos, o pastor Everaldo exercia influência sobre a CEDAE, o DETRAN e a Saúde do Estado do Rio de Janeiro. A área de saúde, da qual foram desviados milhões durante a pandemia, expondo a população do Estado a um maior risco de contaminação e morte pelo coronavírus.

Outro grande defensor “da vida”, o pastor Everaldo pode ser responsabilizado pela morte de tanta gente.

O padre Robson de Oliveira está sendo investigado por suspeita de desvio de R$ 120 milhões de doações dos fiéis. Ele foi extorquido em R$ 2,9 milhões para tentar impedir a divulgação de alegados casos amorosos. O padre é o idealizador da construção da Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade (GO), que foi orçada em R$ 1,4 bilhões. Só o sino, importado da Polônia, custou R$ 6 milhões. A obra começou em 2012, mas ainda não saiu dos alicerces.

Tal obra é administrada pela AFIPE (Associação dos Filhos do Divino Pai Eterno) cujo presidente é o padre. Outras três AFIPEs foram criadas e a suspeita do Ministério Público é que existe um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito uma vez que as associações compraram inúmeros imóveis, dentre os quais uma fazenda de R$ 100 milhões, avião, casa em condomínio fechado, casa na praia, etc. A GAECO afirma que as três associações movimentaram entre 8 a 10 bilhões. Uma das linhas de investigação é de lavagem de dinheiro de empresários e políticos. Um dos núcleos políticos recebeu das Afipes mais de 43 milhões. Quatro crimes estão sendo investigados: apropriação indébita, lavagem de dinheiro, falsificação de documentos e organização criminosa.

As igrejas cristãs têm se constituído em verdadeiros antros de extorsão e agências do crime organizado. Escondem a sua imundície por trás do discurso moralista “pró-vida”, “contra o aborto”, “contra a homossexualidade”, “pela família”, enquanto suas ações produzem mesmo é a morte, a injustiça, os abusos sexuais, a violência contra as mulheres, contra a comunidade LGBTQI, contra outras religiões.

Em nome de Deus dão vida ao diabo, ao demônio, ou seja, lá que nome se possa atribuir à concentração do mal. Dizem-se evangelizadores, mas não proclamam nem pautam as suas vidas pelos evangelhos. Matam, corrompem, enriquecem, constroem basílicas bilionárias ao invés de construir casas para quem não as tem e investir o dinheiro para criar condições de vida digna para o povo. Pervertem o evangelho colocando-o a serviço do dinheiro e do poder político. Enganam o povo com uma espiritualidade gospel e com a troca de “bênção” por doação. Dão ênfase à meritocracia, quando o núcleo primordial do evangelho é a Graça.

Onde está a voz destes líderes defendendo os indígenas, que estão sendo expulsos das suas terras durante a pandemia? Onde está o seu canto denunciando os assassinatos cotidianos nas favelas? Porque nada disseram quando chegamos aos 100 mil mortos pela C0vid-19? Onde estão as orações pelas 120 mil famílias enlutadas? Onde está a pregação fervorosa que aponta a desigualdade social como um problema estrutural que não se resolve individualmente, mas apenas com política pública de distribuição de renda, de riquezas, com reforma agrária e social? Cadê as televisões destes líderes denunciando o racismo?

Estes líderes e o povo que os têm como exemplo elegeram Bolsonaro.

É hora de parar. As igrejas cristãs precisam fazer uma auto-crítica profunda se quiserem sarar; precisam se repensar a partir de um diálogo franco e aberto com as mulheres, com a comunidade lgbtqi, com pessoas especiais, com negras e negros, com indígenas. O que precisamos é de um cristianismo libertário, que tome como modelo a figura do Jesus profético, e que não se deixe moldar pelo capitalismo financista, mas sim pela solidariedade e pelo compromisso com a construção de uma sociedade e uma humanidade mais justa, igualitária, acolhedora das diferenças e pacífica.

Lusmarina Campos Garcia é teóloga eco-feminista, pastora luterana e pesquisadora no Programa de Pós-graduação da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ. Compõe três grupos de pesquisa: Observatório do Judiciário Brasileiro, Direito e Cinema e Teoria da Sociedade, Direito e Política. Defensora dos direitos humanos, com ênfase na questão de gênero, pronunciou-se na audiência pública do STF no contexto da ADPF 442 em defesa da descriminalização do aborto. É atuante no movimento ecumênico desde a década de 1980.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

GOVERNO BOLSONARO E SÍNODO PAN-AMAZÔNICO





Frei Betto

      O noticiário desta semana informa que os cardeais brasileiros estão sendo espionados pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência), que relata ao governo recentes encontros deles com o papa Francisco, no Vaticano, para prepararem o Sínodo (do grego, ‘caminhar juntos’) sobre a Amazônia, a se reunir em outubro, em Roma.
      “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, declarou o general Augusto Heleno. Isso faz recordar a famosa pergunta de Stálin na Segunda Grande Guerra: “Quantas divisões possui o Vaticano?”
      Segundo o Documento Preparatório do Sínodo, predomina na Amazônia a “cultura do descarte”, somada à mentalidade extrativista, que convertem o planeta em lixão. “A Amazônia, região com rica biodiversidade, é multiétnica, pluricultural e plurirreligiosa, um espelho de toda a humanidade que, em defesa da vida, exige mudanças estruturais e pessoais de todos os seres humanos, dos Estados e da Igreja”. (...) “É de vital importância escutar os povos indígenas e todas as comunidades que vivem na Amazônia, como os primeiros interlocutores deste Sínodo”.
      A Igreja denuncia situações de injustiça na região, como o neocolonialismo das indústrias extrativistas, projetos de infraestrutura que destroem a biodiversidade, e imposição de modelos culturais e econômicos estranhos à vida dos povos.
      Nos nove países que compõem a Pan-Amazônia (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela, incluindo Guiana Francesa como território ultramar), registra-se presença de três milhões de indígenas, no total de 390 povos. Vivem nesse território também entre 110 a 130 “Povos Indígenas em Situação de Isolamento Voluntário”.
      A bacia amazônica representa uma das maiores reservas de biodiversidade (30 a 50% da flora e fauna do mundo); de água doce (20% da água doce não congelada de todo o planeta); e possui mais de 1/3 das florestas primárias. 
      Segundo os bispos, “o crescimento desmedido das atividades agropecuárias, extrativistas e madeireiras da Amazônia, não só danificou a riqueza ecológica da região, de suas florestas e de suas águas, mas também empobreceu sua riqueza social e cultural, forçando um desenvolvimento urbano não integral nem inclusivo da bacia amazônica.”
      Lamentavelmente, “ainda hoje existem restos do projeto colonizador que criou manifestações de inferiorização e demonização das culturas indígenas. Tais resquícios debilitam as estruturas sociais indígenas e permitem o desprezo de seus saberes intelectuais e de seus meios de expressão.” 
      O papa Francisco afirmou em Puerto Maldonado, Peru, em janeiro de 2018: «Provavelmente, nunca os povos originários amazônicos estiveram tão ameaçados nos seus territórios com o estão agora». 
      O pontífice denunciou esse modelo de desenvolvimento asfixiante, com sua obsessão pelo consumo e seus ídolos de dinheiro e poder. Impõem-se novos colonialismos ideológicos disfarçados pelo mito do progresso que destroem as identidades culturais próprias. Francisco apela à defesa das culturas e à apropriação de sua herança, que é portadora de sabedoria ancestral. Essa herança propõe uma relação harmoniosa entre a natureza e o Criador, e expressa com clareza que «a defesa da terra não tem outra finalidade senão a defesa da vida».
      Hoje, o grito da Amazônia ao Criador é semelhante ao grito do Povo de Deus no Egito (cf. Ex3,7). É um grito desde a escravidão e o abandono, que clama por liberdade e escuta de Deus. Grito que pede a presença de Deus, especialmente quando os povos amazônicos, ao defenderem suas terras, têm seu protesto criminalizado, tanto por parte das autoridades como da opinião pública. 

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.     
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