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segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Esperança contra toda desesperança


Por Francisco de Aquino Júnior


 

Vivemos tempos difíceis e até dramáticos: O crescimento da extrema direita com sua política antissocial de desmonte do que resta de políticas sociais e de aversão aos direitos humanos tem levado a um aumento escandaloso da pobreza e das mais diversas formas de violação dos direitos humanos (feminicídio, racismo, homofobia etc.). Com o agravante de que tudo isso se dá com a cumplicidade – até militante – de amplos setores das igrejas cristãs e de seus pastores, destruindo a herança mais importante da tradição judaico-cristã para a civilização ocidental: o ser humano criado à “imagem e semelhança de Deus” ou a dignidade fundamental de todo ser humano. Mas, precisamente neste tempo, somos chamados a dar testemunho de uma esperança ativa e criativa, provada na cruz, regada com sangue martirial, sustentada e dinamizada pelo Espírito do Senhor que “a partir de baixo” vai reciclando/refazendo/recriando a vida.

Como tanto insistiu Paulo Freire, a esperança é uma dimensão fundamental da vida humana. Aquela dimensão que faz de nossa vida uma obra inacabada e uma tarefa permanente. É a dimensão utópica da vida. Aquilo que nos desinstala, que nos mobiliza, que nos põe a caminho.  É uma “necessidade ontológica” e, enquanto tal, um “imperativo existencial e histórico”. Sem esperança a vida humana se torna impossível. “A desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir ao fatalismo onde não é possível juntar as forças necessárias ao embate recriador do mundo”. Por isso, dizia: “sem poder negar a desesperança como algo concreto e sem desconhecer as razões históricas, econômicas e sociais que a explicam, não entendo a existência humana e a necessária luta para fazê-la melhor sem esperança e sem sonho”. O homem é “um ser da esperança que, por ‘n’ razões, se tornou desesperançado”. Mas a esperança renasce sempre de novo, quando menos se espera e de onde menos se espera. E a razão última ou a fonte última dessa esperança, como indicou o papa Francisco na encíclica Laudato Si’, é a presença salvífica e re-criadora do Espírito de Deus no mundo. Ele “encheu o universo de potencialidades que permitem que, do próprio seio das coisas, possa brotar sempre algo novo” (LS, 80). Por isso, “nem tudo está perdido”. Não se deve esquecer jamais que “os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também se superar, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionamento psicológico e social que lhe seja imposto”. Nada é definitivo nesse mundo. “Não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir que Deus continua a reanimar no mais fundo dos nossos corações” (LS, 205).

Mas a esperança sozinha não transforma o mundo. Não basta querer e sonhar. É preciso ousar, arriscar, inventar… Nas palavras de Paulo Freire, “a esperança é necessária, mas não é suficiente […]. Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo”. A esperança que transforma o mundo é uma esperança ativa/criativa que se faz resistência e luta cotidianas. Resistência crítica: na denúncia, no enfrentamento e na luta contra toda forma de opressão, injustiça, exploração e negação de direitos. Resistência criativa: na construção de novos padrões e novas formas de atividade econômica (agroecologia, economia solidária, tecnologias sociais etc.), de novas relações de gênero, da cultura da solidariedade, de articulação das forças populares, de cultivo da dimensão místico-espiritual. E todo esse processo, adverte Ignacio Ellacuría, teólogo-mártir salvadorenho, é marcado por uma tensão fecunda entre o “ideal utópico” e sua “moderação realista”. O “ideal utópico” impede o fatalismo, o conformismo e a resignação diante das injustiças, bem como o pragmatismo político que é fruto de conchavos e negociatas com as elites. A “moderação realista”, por sua vez, “sem perder seu ideal utópico, o modera conforme as possibilidades históricas”. Isso exige lucidez, discernimento e sabedoria. A vida não funciona na base do “tudo ou nada”. Um passo para frente ou mesmo para trás pode ser decisivo para novas conquistas. E, de novo, é importante perceber a dimensão estritamente espiritual desse processo, através do qual o Espírito do Senhor, que é Espírito de vida e que “atua a partir de baixo”, vai reciclando, refazendo, recriando a vida.

 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

CRISE POLÍTICA E DESESPERANÇA GERAL


por Leonardo Boff

Um dos efeitos perversos de nossa crise nacional é sem dúvida a desesperança que está contaminando a maioria das pessoas.Ela se manifesta pela angústia de não ver nenhum horizonte do qual se possa vislumbrar um solução salvadora. Emerge a sociedade do cansaço e da perda da alegria de viver.

São as consequências da ausência de sentido, de que tudo vai continuar na mesma lógica, feita de corrupção, falsificação das notícias (fakenews) e daí da realidade, maledicência generalizada, a dominação dos poderosos sobre as massas entregues à sua própria sorte.

Tal desolação alcança também a percepção do futuro de nosso mundo e da humanidade, pouco importa o que possa ocorrer. Bem observou o Papa Francisco em sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum”: ”As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Para as próximas gerações poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O estilo de vida atual, por ser insustentável, só pode desembocar em catástrofes”(n.161). Mas quem pensa nisso a não ser quem acompanha o discurso ecológico mundial?
Portanto, além das múltiplas crises sob as quais sofremos, temos ainda esta sombria de natureza ecológica.

Neste contexto voltam os pensamentos de coloração niilista como o do Nobel em biologia Jacques Monod:”É supérfluo buscar um sentido objetivo da existência. Ele simplesmente não existe. Os deuses estão mortos e o homem está só no mundo” ( O acaso e a necessidade, Vozes 1979, p.108). Ou o famoso C. Levy-Straus que tanto amava o Brasil deixou escrito no seu admirável ”Tristes trópicos” (1955):”O mundo começou sem o homem e terminará sem ele. As instituições e os costumes que eu teria passado a vida inteira a inventariar e a compreender, são uma eflorescência passageira de uma criação em relação com a qual elas não têm sentido, senão, talvez, aquele que permite à humanidade a desempenhar o seu papel”(p.477).

Mas será que o ser humano não é o inverso de um relógio? Este funciona em si mesmo e anda conforme seu mecanismos internos. O ser humano não é um relógio. Ela anda bem quando estiver em sintonia permanente com o Todo que o envolve por todos lados e está para além dele mesmo. Portanto, temos que deixar de lado todo antropocentrismo e assumirmos uma leitura mais holística do sentido da vida.
Diferentemente pensava o físico britânico Freeman Dyson (*1923):”quanto mais examino o universo e os detalhes de sua arquitetura, mais acho evidências de que o universo sabia que um dia, lá na frente, nós seres humanos, iríamos surgir”(Disturbing the Universe, 1979, p. 250). Quase com as mesmas palavras o diz talvez o maior cosmólogo atual, Brian Swimme (The Universe Story,1996 p.84).

As tradições espirituais e religiosas são um hino ao sentido da vida e do mundo. Por isso observava o grande estudioso das utopias Ernst Bloch em seus dois grossos volumes O princípio esperança: “Onde há religião aí há sempre esperança”.

A questão do sentido é inadiável. Cito aqui o mais critico dos filósofos Immanuel Kant:”Que o espírito humano abandone definitivamente as interrogações metafísicas (do sentido do ser e da existência) é tão inversossímil quanto esperar que nós para não respirar um ar poluído, deixássemos, uma vez por todas, de respirar”(Prolegomena zu einer jede künftigen Metaphysik, A 192, vol.3 p.243).

Porque o Cristo do Corcovado se escondeu atrás das nuvens, não significa que tenha deixado de existir. Ele está lá no alto da montanha estendendo seus braços e abençoando a nossa sofrida população.

No Brasil de hoje devemos recuperar a esperança de que o legado final da presente crise será a configuração de um outro tipo de Estado, de política, de partidos, de justiça e do próprio destino do país.

Termino com o profeta Jeremias que viveu no tempo do cativeiro babilônico sob o rei Ciro. Os habitantes da Babilônia zombavam dos judeus porque já não cantavam suas canções e, desanimados, dependuravam seus instrumentos nos galhos dos cicómoros. Pergurtaram a Jeremias:”Você tem esperança”? Ao que ele respondeu: “eu tenho esperança de que o rei Ciro com todo o seu poder não poderá impedir o nascimento do sol”. E eu acrescentaria não poderá impedir o amor e as crianças que daí nascerem e renovarem a espécie humana.

Semelhante esperança alimentamos nós de que aqueles que provocaram esta crise, rasgaram a Constituição e não seguiram os ditames da justiça não prevalecerão. Sairemos mais purificados, mais fortes e com um sentido maior do destino a que nosso país está chamado em benefício para todos, a começar para os mais pobres e para a inteira humanidade.

Boff é teólogo e filosofo e escreveu: Brasil: concluir a refundaçãol ou prolongar a dependência, Vozes 2018.