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quarta-feira, 14 de abril de 2021

O NECESSÁRIO E O SUPÉRFLUO, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 



FREI ALOÍSIO FRAGOSO

(14/04/2021)

     Surpreendido pela repercussão da nossa Reflexão anterior, com o título acima, proponho-me a dar-lhe um segundo capítulo, embora não previsto. Mais do que aplausos, valeram os comentários enriquecedores e complementares de leitores e leitoras. Deles colhi  o sentimento de que esta tensão real entre o supérfluo e o necessário bate pesado na consciência de muita gente. E dói. Se esta dor produzir conversão de vida, movimento de pés e mãos, bendita seja ela!

     Desta vez, no entanto,  eu gostaria de me substituir por uma voz mais confiável, uma voz que, neste momento da História humana, tornou-se uma espécie de eco da consciência universal. Estou falando do Papa Francisco. Este tema a que nos propomos tem sido uma constante em suas declarações escritas, faladas ou testemunhadas.

     Na sua encíclica "Laudato Si" ele propõe uma sociedade de superação do supérfluo. Uma sociedade onde as riquezas superabundantes postas à disposição de uma minoria de afortunados sejam convertidas em bens suficientes em favor de todos os necessitados. Não é apenas a tendência natural, a que chamamos de pecado original, que nos faz hedonistas insaciáveis, é também a oferta infinita de seduções consumistas, a que chamamos de objetos do desejo. Mal começamos a usar um produto, já aparecem dezenas de outros da mesma natureza, forçando-nos a adquiri-los, sob pena de sermos tidos como ultrapassados ou decadentes. O Papa chama esta situação de "cultura do descarte". Os objetos transformam-se rapidamente em detritos e a terra corre o risco de virar um imenso depósito de lixo. (Em lugar algum lugar este lixo será jogado e outros seres humanos irão catar aí a sua sobrevivência).

      Daí suas propostas práticas: é preciso acabar com o mito de um progresso material ilimitado. Somos frágeis, vivemos em um mundo frágil, temos que reduzir nossos impulsos e desejos. E mais, temos de comprender uma coisa: este mundo não é um bem sem dono. Somos seus usuários, não seus proprietários. Precisamos também regular o direito de propriedade, levando em conta que,  sobre cada propriedade privada, pesa uma hipoteca social, uma vez que as riquezas da terra destinam-se, em primeiro lugar, ao bem comum.

     Tudo isso está condicionado a uma mudança de estilo de vida, a sermos capazes  de nos contentar com o bastante necessário, sem nos apegar ao que temos nem nos entristecer com o que não possuimos. Daí não resultará uma vida de menos prazer ou menor intensidade, ao contrário, resultará um prazer duradouro, com um novo significado para a convivéncia humana, fundada na essencial.

     O Papa lembra ainda que nada disso significa perda ou empobrecimento. "Feitos para o amor, existe em cada um de nós uma espécie de êxtase que nos leva a sair de nós mesmos para encontrar nos outros um acréscimo do nosso ser" ("Fratelli Tuti," 88).

     No Sermão da Montanha Jesus nos manda abrir os olhos em nossa volta: "Olhai as aves do céu, olhai os lírios do campo. Não ceifam nem semeiam, no entanto o Pai do Céu não permite que lhes faltem alimento nem vestimenta" Cf. Mt.6,26. A estes irmãos, e a outros tantos, que vivem no mesmo habitat nosso, basta-lhes o essencial. E alguém já viu um pássaro envelhecer?  Um rouxinol deixar de cantar? Ou algum outro bicho precisar de psicanalista?

       É certo  que alguns dos nossos fizeram a experiência do "não" absoluto ao supérfluo. Um deles foi um gênio, um dos maiores da História, Einstein. Um só? Não importa. Basta um para provar a possibilidade aberta a todos.

     É assim que interpreto este diálogo entre Albert Einstein e Charles Chaplin:

     - "O que mais admiro em tua arte, Chaplin, é que não dizes uma palavra e o mundo inteiro te entende".

     - "Maior é tua glória, Einstein, o mundo inteiro te admira sem entender o que dizes."

     Um não precisava de palavras para fazer-se entender. Outro nem precisava ser entendido pela razão, para deixar seu legado de sabedoria.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor 

 


sábado, 10 de abril de 2021

"O NECESSÁRIO E O SUPÉRFLUO, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS"

 


FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(10/04/2021)

     Uma das primeiras vítimas fatais "vip" do coronavirus foi o Diretor Geral do Banco Santander, em Portugal. Entre lágrimas, sua filha comentou: "somos uma família milionária, mas meu pai morreu sozinho, sufocado, buscando algo que é gratuito, o ar. O dinheiro ficou em casa".

     Este fato ilustra bem uma lição que aprendemos sobejamente nestes 12 meses de pandemia: que há coisas necessárias e coisas supérfluas. Naquele momento trágico, milhões de dólares eram bens supérfluos, o único necessario era o oxigênio, que a natureza oferece gratuitamente.

 

     A força simbólica deste exemplo desdobra-se e multiplica-se em dimensão global. Todos nós, cidadãos e cidadãs, moradores deste planeta terra, somos herdeiros congênitos de direitos inalienáveis. O primeiro deles: ter acesso aos bens que nos permitam viver com liberdade e dignidade. Somos movidos por necessidades e desejos. A satisfação dos desejos torna a vida agradável; a satisfação das necessidades torna a vida possível. Para a vida tornar-se agradável tem antes que ser possível. As necesidades tem primazia sobre os desejos. Daí a declaração do Papa Paulo VI, que pegou fogo na consciência de muita gente: "Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo bens que lhe são supérfluos, enquanto ao seu irmão falta o indispensável para viver" (Populorum Progressio).

 

     Grande parte das coisas que carregamos ou acumulamos são coisas que sobreviveram ao seu uso previsto. Não querer separar-se delas constitui pobreza de espírito. Os antigos latinos chamavam esta atitude de "fascinatio fugacitatis" (fascinação pelas coisas fugazes). Um famoso místico do séc. XIII, Rumi, chamava-as de veneno, "qualquer coisa além do que precisamos é veneno."

 

     Houve sempre, em todos os tempos, povos e crenças, espíritos superiores que optaram pelo mínimo necessário em troca do devotamento pleno a Causas mais nobres. Assim o fizeram o católico Francisco de Assis, o protestante Albert Schweitzer, o hinduista Mahatma Gandhy, o ateu Oscar Niemeyer, a universal e ecumênica Teresa de Calcutá, e tantos outros.

 

     Eles não foram impelidos por esta ou aquela Religião e sim por uma consciência profunda da vida real, que os levou a perceber a tensão entre o supérfluo e o necessário: tudo quanto adquirimos, perdemos, quanto mais se vive mais se perde, e, do que acumulamos, o que vai restar como legado pessoal? Nada, senão o que fomos. Bem dizia o poeta Fernando Pessoa, "a vida é breve, a alma é vasta, ter é tardar".

 

     Estes princípios aplicam-se também ao campo da prática religiosa. Que coisas lhe são supérfluas? - Supérfluas são as horas seguidas de louvor a Deus, como pretexto para o não querer ir ao encontro dos que precisam de um bom samaritano ou de um simão cireneu. Supérfluo é o sentimento corrosivo do remorso, por causa dos pecados, em vez do arrependimento sincero e libertador. Supérflua é a cruzada turbulenta em favor da abertura dos templos e igrejas, indiferente à saúde dos templos vivos de Deus, que são as pessoas. Assim como também é supérfluo o ativismo exarcebado, despreocupado com o alento da espiritualidade.

 

     Neste embate sem fim entre o necessário e o supérfluo, Jesus enfrentou situações extremamente conflitivas. Mais de uma vez Ele transgrediu leis e tradições, quando se tratava de defender a prioridade absoluta, o dom da vida. Pressionado e ameaçado pelas autoridades religiosas, Ele explodiu: "hipócritas, com as vossas tradições, anulais o verdadeiro mandamento de Deus. A lei foi feita para o homem e não o homem para a a lei" Mc.2,27.

 

     Então, que cessem as palavras supérfluas e falem as obras necessárias. Amém.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

EM TEMPOS DE COVID: O CUIDADO NECESSÁRIO E IRMANDADE AFETUOSA

 


Leonardo Boff

 

Nos dias atuais, especialmente durante o isolamento social, devido a presença perigosa do Coronavírus, a humanidade despertou de seu sono profundo: começou  ouvir os gritos da Terra e os gritos dos pobres e a necessidade do cuidado de uns para com os outros  e também da natureza e da Mãe Terra. De repente, demo-nos conta  de que o vírus não veio do ar. Não pode ser pensado isoladamente, mas dentro de seu contexto; veio da natureza. Ele é uma resposta da Mãe Terra contra o antropoceno e o necroceno, vale dizer, contra a sistemática dizimação de vidas, devida à agressão do processo industrialista, numa palavra, do capitalismo mundialmente globalizado. Ele avançou sobre a natureza, desflorestando milhares de hectares, na Amazônia, no Congo e em outros lugares onde se encontram as florestas úmidas. Com isso destruiu o habitat dos centenas e centenas de vírus que se encontram nos animais e até nas árvores. Saltaram em outros animais e destes a nós.

Em consequência de nossa voracidade incontrolada, cada ano desaparecem cerca de cem mil espécies de seres vivos, depois de milhões de anos de vida sobre a Terra e ainda, segundo dados recentes, há um milhão de espécies vivas sob risco de desaparecimento.

A ideia-força da cultura moderna era e continua sendo o poder como dominação da natureza, dos outros povos, de todas as riquezas naturais, da vida e até dos confins da matéria; esta dominação ocasionou atualmente as ameaças que pesam sobre o nosso destino.  Essa ideia-força tem que ser superada. Bem dizia Albert Einstein: “a idéia que criou a crise não pode ser a mesma que nos vai tirar da crise; temos que mudar”.

A alternativa será esta: ao invés do poder-dominação deve-se colocar a fraternidade e o cuidado necessário. Estas são as nova ideia-força. Como irmãos e  irmãs, somos todos interdependentes e devemos nos amar e cuidar. O cuidado implica numa relação afetuosa para com as pessoas e para com a natureza; é amigo da vida, protege e confere paz a todos que estão à sua volta.

Se o poder-dominação significava o punho cerrado para submeter, agora oferecemos a mão estendida para se entrelaçar com outras mãos, para cuidar e para afetuosamente abraçar. Essa mão cuidadosa traduz um gesto não agressivo para com tudo o que existe e vive.

Portanto, é urgente criar a cultura da fraternidade sem fronteiras e do cuidado necessário que a tudo enlaça. Cuidar de todas as coisas, desde o nosso corpo, da nossa psiqué, do nosso espírito, dos outros e mais comezinhamente do lixo de nossas casas, das águas, das floresta, dos solos, dos animais, de uns e de outros, começando pelos mais vulneráveis.

 

Sabemos que tudo o que amamos, cuidamos, e tudo o que cuidamos também amamos. O cuidado sana as feridas passadas e impede as futuras.

É neste contexto urgente que ganha sentido um dos mais belos mitos da cultura latina, o mito do cuidado.

“Certo dia, ao caminhar na margem de  um rio,  Cuidado viu um pedaço de barro . Foi o primeiro a ter a ideia de tomar  um pouco dele  e moldá-lo  na forma de um ser humano. Enquanto contemplava, contente consigo mesmo, com  o que havia feito, apareceu Júpiter, o deus supremo dos gregos e dos romanos.

Cuidado pediu-lhe que soprasse  espírito na figura que acabara de moldar. O que Júpiter  acedeu  de bom grado.

Quando, porém, Cuidado quis dar um nome  à criatura que havia projetado, Júpiter o proibiu. Disse que essa prerrogativa de impor um nome era missão dele. Mas cuidado insistia que ele tinha esse direito por ter, por primeiro pensado e moldado a criatura em forma de um ser humano.

Enquanto Júpiter e o Cuidado discutiam acaloradamente, de súbito, irrompeu a deusa  Terra. Quis também ela conferir um nome à criatura, pois, argumentava, que ela  fora feita de barro, material do  corpo, da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada sem qualquer consenso.

De comum acordo, pediram, ao antigo Saturno, também chamado de Cronos, fundador da idade de ouro e da agricultura, que funcionasse como árbitro. Ele apareceu na cena. Tomou a seguinte decisão que pareceu a todos   justa:      

“Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito quando essa  criatura morrer”.

“Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer”.

 

Mas como, você, Cuidado foi quem, por primeiro, moldou essa criatura, ela ficará  sob o seu cuidado enquanto  ela viver”.

“E uma vez que entre vocês há consenso  acerca do nome, decido eu:  esta criatura será chamada Homem (ser humano), isto é, feita de húmus, que significa terra fértil”.

Vejamos a singularidade deste mito. O cuidado é anterior a qualquer outra coisa. É anterior ao espírito e anterior à Terra. Em outras palavras, a concepção do ser humano como composto de espírito e corpo não é originária. O mito é claro ao afirmar que “foi o cuidado o primeiro a moldar o barro na forma de um ser humano”.

O cuidado comparece como o conjunto de fatores sem os quais não existiria o ser humano. O cuidado constitui aquela força originante da qual jorra e se alimenta o ser humano. Sem o cuidado, o ser humano continuaria a ser apenas um boneco de barro ou um espírito desencarnado e sem  raiz em nossa realidade terrestre.

O Cuidado, ao moldar o ser humano, empenhou amor, dedicação, devoção, sentimento e coração. Tais qualidades passaram à figura que ele projetou, isto é, a nós, seres humanos. Estas dimensões entraram em nossa constituição, como um ser amoroso, sensível, afetuoso, dedicado, cordial, fraternal e carregado de sentimento. Isso faz o ser humano emergir verdadeiramente  como humano.

Cuidado recebeu de Saturno a missão de cuidar do ser humano  ao longo de toda a sua vida. Caso contrario, sem o cuidado, não subsistiria  nem viveria.

Efetivamente, todos nós somos filhos e filhas do infinito cuidado de nossas mães. Se elas não nos tivessem acolhido com carinho e cuidado, não saberíamos como deixar o berço e buscar nosso alimento. Em pouco tempo teríamos morrido, pois não contamos com nenhum órgão especializado que garanta nossa sobrevivência.

O cuidado, portanto, pertence à essência do ser humano. Mas não só. Ele é a essência de todos os seres, especialmente dos seres vivos. Se não os cuidarmos, eles definham e lentamente adoecem e por fim morrem.

 

O mesmo vale para a Mãe Terra e para tudo o que nela existe. Como disse bem o Papa Francisco em sua encíclica que leva como sub-título ”Cuidando da Casa Comum”: “devemos alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo”.

O cuidado é também uma constante cosmológica. Bem dizem os cosmólogos e astrofísicos: se as quatro forças que tudo sustentam (a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear fraca e a forte) não se tivessem articulado com extremo cuidado, a expansão ficaria demasiadamente rarefeita e não haveria densidade para originar o universo, a nossa Terra e a nós mesmos. Ou então seria demasiada densa e tudo explodiria em cadeia e nada existiria do que existe. E esse cuidado preside o curso das galáxias, das estrelas e de todos os corpos celestes, a Lua, a Terra e nós mesmos.

Se vivermos a cultura e a ética do cuidado, associado ao espírito de irmandade entre todos, também com os seres da natureza, teremos colocado os fundamentos sobre os quais se construirá um novo modo de nos relacionar  e de viver na Casa Comum, a Terra. O cuidado é a grande medicina que nos pode salvar e a irmandade geral nos permitirá a sempre desejada comensalidade e o amor e a feto entre todos.

Então continuaremos a brilhar e a nos desenvolver sobre esse pequeno e belo planeta.

Esta consideração sobre o cuidado concerne a todos os que cuidam da vida em sua diversidade e do planeta, especialmente agora, sob  pandemia do Covid-19, o corpo médico, os enfermeiros e enfermeiras e outros que trabalham nos hospitais, pois, o cuidado essencial cura as feridas passadas, impede as futuras e garante o nosso futuro de nossa civilização de irmãos e de irmãs, juntos na mesma Casa Comum.

 

Leonardo Boff escreveu O cuidado necessário e Saber cuidar, ambos pela Editora Vozes de Petrópolis.

 

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O NECESSÁRIO DIÁLOGO ENTRE A FÉ E A CIÊNCIA


 

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 

O caos que se apossou do Brasil com a chegada do coronavírus apresenta várias dimensões: sanitária, política, ideológica, econômica.  No entanto, há igualmente uma outra dimensão, que eu chamaria aqui de caos do discurso pseudocientífico – em boa parte artificialmente produzido.

 Enquanto os cientistas – médicos, pesquisadores, sanitaristas, técnicos em saúde – explicam à população como se porta a doença, quais as medidas necessárias para combatê-la, outras vozes parecem interferir no processo dessa comunicação adotando uma linguagem que instaura a confusão.   

A ciência é um dos motores do desenvolvimento da humanidade e da vida. Seu progresso tem sido responsável por grandes melhorias na vida humana, sobretudo no decurso do último século, ainda que os frutos desse progresso não tenham sido repartidos equitativamente pelo mundo.  Por outro lado, o mau uso que muitas vezes é feito dos conhecimentos científicos foi, no mesmo século passado, causa das piores provações pelas quais a humanidade teve que passar. Por isso, ainda que o progresso da ciência que a racionalidade moderna possibilitou seja altamente positivo; ainda que se considere correta a afirmação de que a ciência é o motor do desenvolvimento em todas as frentes; os esforços feitos por muitos países e regiões do globo no domínio científico ainda permanecem muito aquém de um mínimo julgado desejável. E boa parte das razões para tal é a manipulação que interesses econômicos, políticos e ideológicos fazem contra a objetividade e a excelência que deve caracterizar toda ciência.  

No momento em que explodiu a pandemia viral, a ciência – a medicina, a biologia, a infectologia e todas as áreas científicas que tratam da vida – ocuparam a linha de frente das atenções.  Buscaram-se orientações, explicações, argumentos lógicos que ajudassem a administrar a tragédia que vivíamos. 

Por outro lado, competições ideológicas e embates políticos, muitas vezes se atravessaram no caminho do trabalho científico.  E isso aconteceu por diversas formas: seja a do obscurantismo, que ataca retoricamente a liberdade de pesquisa científica, seja com políticas públicas retrógradas que cortam verbas e esvaziam institutos e laboratórios de pesquisa.  Em um momento em que a crise ecológica atinge proporções nunca antes vistas, os impactos climáticos são minimizados, e os alertas emitidos pela comunidade científica desprezados como se não fossem evidências objetivas e sim opiniões casuais e não fundamentadas. 

Com o Covid-19 a ciência voltou a ocupar seu papel de baluarte da verdade objetiva e verificável. Tornou-se um refúgio firme para uma sociedade assustada e vulnerabilizada pelo avanço descontrolado da doença e a subida dos números de vítimas fatais. A ciência é, hoje, a linha de frente no combate à pandemia. Fornece à população números, informações, percentagens que permitem ter um quadro do que se passa.  E podem ser vistos ao mesmo tempo inúmeros laboratórios empenhados em encontrar remédios que tratem a doença causada pelo vírus, sequenciando o genoma do vírus em tempo recorde, buscando pelos caminhos da pesquisa apaixonada e responsável uma vacina. 

Há, no entanto, tentativas de travar esse trabalho, muitas delas invocando o nome de Deus.  Contestam-se os dados fornecidos pela ciência, contradizem-se informações precisas e objetivas e se dão orientações conflitantes à população. Afirma-se que Deus salvará a todos do vírus, que o que os cientistas dizem é um exagero, e que o que há que fazer é orar porque Deus nos salvará do vírus.

Desde sempre, em todas as religiões, mas muito concretamente nas religiões monoteístas e mais especificamente no judeu-cristianismo, Deus não se imiscui nos negócios humanos para interferir na ação da própria humanidade na resolução de seus problemas.  O Espírito de Deus inspira, anima, orienta, consola, mas não toma as ferramentas das mãos da humanidade para resolver, em um passe de mágica, as dores e os problemas que essa própria humanidade está passando. 

Toda tentativa ao longo da história de converter Deus em árbitro da ciência, impedindo-a de avançar, já foi suficientemente desmascarada e situada em seu devido lugar: é falsidade e embuste. Assim, governantes despóticos e irresponsáveis que buscam desautorizar os cientistas que dizem a verdade em meio a um momento grave como o que estamos vivendo terão que responder diante do tribunal da história.  E também diante do tribunal divino, que fará cair os véus, desvelando suas tentativas de vendar os olhos do povo com ilusões e falácias, na sua mais atualizada forma: as fake news. 

Em meio à pandemia, a comunidade científica tem construído uma rede sólida de informações, colocando a ciência na vanguarda das políticas de combate à pandemia. Assim, se pode combater o obscurantismo institucionalmente, usando de transparência e honestidade, atualizando constantemente as medidas adotadas e procurando adequar as condições da saúde às reais necessidades decorrentes da própria pandemia.  E a fé não pode estar ausente dessa rede e desse diálogo. 

Falar de Deus em tempos de coronavírus implica  dialogar com a ciência e deixar-lhe plena autonomia no campo e competência que lhe é própria. Não misturar epistemologias ou querer tratar o que releva do campo do biológico com instrumentos falsamente espirituais que matam em vez de curar e alimentam políticas genocidas, empurrando as pessoas para o contágio e muito provavelmente para a morte. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros

 

Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

INTERVENÇÃO: UM MAL NECESSÁRIO?



     Por  Maria Clara Lucchetti Bingemer 

            O Estado do Rio de Janeiro está sob intervenção federal. O presidente da República nomeou interventor o general de Exército Walter Souza Braga Netto, do Comando Militar do Leste, sediado na Cidade do Rio.  O oficial assumirá o comando das forças de segurança e da ordem no Estado, a saber: as Polícias Militar e Civil e o Corpo de Bombeiros.  Seus comandados do Comando Militar do Leste serão mobilizados para interferir nos problemas de segurança, respondendo apenas ao Presidente da República. 

            Ninguém nega que o estado precisa encontrar um caminho para resolver a situação de insegurança em que se encontra.  Com um governo inoperante, uma prefeitura da cidade do Rio ausente e o poder paralelo do tráfico armado até os dentes e cada vez mais organizado, as mortes se multiplicam e os cidadãos não conseguem sequer exercer seu direito de ir e vir com um mínimo de tranquilidade.

            Porém é fato igualmente inegável que intervenção militar desencadeia em nossa memória recente recordações – e, portanto, reações – muito mais negativas que positivas.  O Brasil conheceu por décadas o gosto amargo da intervenção militar feita ditadura, com um saldo irreparável de violência, medo, torturas e morte.  Continuam sendo encontradas ossadas de uma geração ferida de morte por aqueles que saíram dos quartéis para garantir a ordem que acreditavam perturbada e tardaram muito em retornar a eles. 

Por isso, intervenção é palavra ambígua e movediça. Com origem no vocábulo latino interventĭo, intervenção é formada pelos vocábulos “inter” e “venire”, e indica a ação ou o efeito de intervir.  E isso faz referência direta a diversas questões onde identidade e alteridade se cruzam e se esbarram mutuamente. Abrange desde o ato cirúrgico que, em medicina, destina-se a solucionar um problema de saúde com a ciência exercida na prática, até o ato de dirigir os assuntos que correspondem a outro, seja este pessoa física ou entidade coletiva. 

Uma intervenção militar supõe o fracasso da sociedade civil em resolver seus próprios problemas, sua incapacidade de controlar uma situação que está sob sua alçada.  Outra esfera da sociedade vem então e intervém para solucionar aquilo que a sociedade não consegue administrar.  Assim foi nos tristes idos de março de 1964.  Acreditando o Brasil em perigo diante do comunismo internacional, o Exército interveio e assumiu o controle do país. Quando se trata de relações internacionais, a intervenção diz respeito a dirigir, de forma temporária, os assuntos internos de outra nação. 

Na recente história da humanidade, podemos contar várias destas intervenções, protagonizadas por distintas potências estrangeiras, como a Alemanha nazista e a Rússia comunista.  Ambas fracassaram em seus intentos e a médio ou longo prazo foram derrotadas e substituídas por regimes democráticos.  Ainda que essas democracias não sejam perfeitas, os povos que se encontravam sob o tacão intervencionista preferem as dificuldades que têm hoje do que se sentir invadidos em casa e ver sua soberania atacada. 

Os Estados Unidos – muitas vezes com o auxílio de outras potências mundiais – têm se especializado nessas intervenções, que se revelam tanto militares como políticas.  Na América Latina, contamos mais de um caso, como o Panamá do General Noriega, El Salvador, a Nicarágua entre outros.  Hoje, o Oriente Médio – Iraque, Afeganistão, etc. -  é o palco principal dessas intervenções que pretendem forçar uma mudança de rumo político com o pretexto da segurança mundial e do bem-estar do povo local.  

E o que temos visto como consequência é um constante recrudescimento da violência e dos fanatismos os mais diversos como resposta de povos que não desejam ser tutelados por outros povos e reagem negativamente a este tipo de intervenções que ameaçam sua autonomia. 

É o profundo desejo da sofrida população carioca que a intervenção federal agora decretada não acrescente mais sangue, mais luto e mais dor aos que já povoam diariamente seu cotidiano.  Que seja uma medida destinada a restabelecer a segurança no território do Rio de Janeiro apenas por um tempo até que a situação melhore e atinja níveis um pouco menos traumáticos. Para tal, os métodos não podem ser mais violentos do que a violência já presente na situação estabelecida. 

Violência gera violência. Dinâmicas de paz não poderão ser aplicadas se o ponto de partida for a intervenção truculenta e agressiva.  Isso só gerará revolta e mais agressividade, sobretudo naqueles que diariamente sofrem as consequências da injustiça.  A violência é filha da injustiça.  Se a intervenção pode ser uma necessidade para dirimir uma situação que chegou a um ponto de estrangulamento, pode ser um profundo fator de risco que tende a piorar esta situação em lugar de minorá-la ou resolvê-la. 

Que não se deixe de, a par das ações que a intervenção federal realizará na cidade e no estado, buscar construir soluções a longo prazo.  E isso implica  escolhas políticas que tragam governantes mais capacitados e desejosos de investir naquilo que realmente importa: educação, saúde e superação das injustiças.  Só aí estará o caminho para uma paz dinâmica e realista para o Rio, que já não suporta mais contar cadáveres e deseja voltar a viver com dignidade. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer é  professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.
A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)

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