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segunda-feira, 8 de agosto de 2022

SOBRE FRAGILIDADE, LUMINOSIDADE E IRMANDADE

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

Eu a chamava de Anete e ela a mim, de Claire.  Conhecemo-nos na PUC-Rio, no curso de Jornalismo, em 1968.  Ano de chumbo, mas também de valores vividos, utopias ardentes, buscas febris e verdadeiras. Ela vinha do Colégio Santa Úrsula e eu, do Sion. Órfãs de pai ambas, tínhamos mães fortes e “rochosas” em virtude, firmeza e dedicação. A amizade nasceu entre nós e nunca mais nos deixou. 

Nesse tempo ela ainda não era Ramalho, mas Abreu Monteiro.  E à medida que a conhecia mais descobria sua ascendência ilustre de Capistrano de Abreu, da Madre Honorina, aliás Teresa de Jesus, primeira santa brasileira, e a inteligência e cultura como marcas da família. Anna Maria era doce e forte ao mesmo tempo.  Muito feminina, vaidosa e elegante, era ao mesmo tempo capaz de enfrentar as mais fortes tempestades com coragem e determinação.  Conjugava sensibilidade e racionalidade, sabia combinar inteligência privilegiada com humor invejável, que se refletia em sua escrita jornalística apurada, de estilo irônico inigualável.

Ela se formou antes de mim, pois me casei no meio do curso.  Presente ao meu casamento, foi também uma das primeiras a nos receber de volta do ano passado na França, já com a primeira filha nos braços. Anna Maria também casou-se e deu à luz o filho Christiano, nascido um mês antes de minha filha caçula. 

Ela acompanhou minha entrada na teologia e a trajetória acadêmica pela pós-graduação em Roma.  Eu segui de perto sua carreira de jornalista brilhante: trazia saborosas notas sobre a vida social carioca, fazia análises interessantes e sempre atualizadas sobre política, cultura e acontecimentos recentes na vida do país. 

Sua maior característica sempre foi a alegria com a qual seduzia as pessoas que a conheciam.  Sua presença era garantia de festa, bem-estar e boas gargalhadas.  Mas também de papo sério, inevitavelmente marcado por um otimismo indestrutível.  Crítica mordaz, sempre sabia salvar o lado bom das coisas e iluminar os ambientes com seu refinamento e brilho.  

Vibrei com ela quando Christiano, seu filho, tornou-se um chef renomado e talentoso.  E quando Antônia e Olívia, suas netas, inauguraram um novo e precioso capítulo em sua história luminosa de vida. A beleza das meninas refletia-se no rosto da avó, que a devolvia multiplicada e cheia de brilho. 

Eu a vi fragilizada em algumas ocasiões.  Notadamente quando morreu sua mãe, dona Honorina, por quem tinha verdadeira adoração.  Ou durante a enfermidade de Fernando, seu companheiro querido, falecido ainda muito jovem.   No entanto, essa fragilidade vinha sempre banhada da luminosidade do amor à vida e da alegria que a tudo vencia.  Nossa irmandade se construía na interlocução desses seus traços luminosos com minha, às vezes, excessiva seriedade.  Com seu jeito de ser ungia e flexibilizava minhas articulações um tanto rígidas e seu humor insuperável acabava vencendo qualquer dureza. 

Anna Maria tinha uma irmã mais nova a quem era muito unida.  Eu era filha única e ela se tornou de certa maneira minha irmã, a amiga que meu coração escolheu e que comigo partilhou praticamente uma vida inteira. Minha mãe a amava como filha, meu marido como irmã e meus filhos a tinham em conta de tia muito amada, aberta e de escuta pronta, captando bem seus desejos vindos de outra geração. 

Quando ela me contou que tinha um problema sério de saúde, acompanhei seu otimismo e acreditei com fé firme em sua recuperação.  Claro.  Anna Ramalho só combina com vida, e mais vida, e força e vitória.  Segui de perto o tratamento, animada com sua atitude positiva e certa de sua cura. 

É por isso que me encontro hoje desarvorada e sem entender nada.  A piora em poucos dias, as últimas mensagens trocadas, a visita marcada em sua casa adiada e que não acontecida.  Depois o silêncio.  As mensagens não respondidas e as notícias cada vez piores chegando até a notícia de sua morte.

Ainda não realizei plenamente o que vai significar não poder mais ouvir sua voz alegre, suas piadas inteligentes, suas observações finas e perfeitamente coerentes.   Não acredito que não vou ouvir mais meu nome na versão que ela criou – Claire – em seus áudios e chamadas telefônicas. O vazio que sinto corresponde ao tamanho da irmandade que nos unia e me fez experimentar a graça de ter uma irmã em minha unicidade filial. 

Querida Anna, recuso-me a dizer adeus.  Digo até já, até breve, porque sei que em cada momento, em cada esquina do que ainda me resta viver vou encontrar seu rosto alegre, seu sorriso inspirador.  Vou ouvir sua voz dizendo coisas sábias e ao mesmo tempo me fazendo rir às gargalhadas. Você habita em mim e é parte intrínseca desta vida que vivemos, tão rica e fecunda.  E que continuaremos a viver, pois ambas temos fé e esperança. Nosso Deus é o Deus da vida e sua última e definitiva Palavra só pode ser de vida.  Vida essa que já se pode sentir nas milhares de mensagens de carinho das pessoas que foram afetadas por sua passagem e expressam o que você é: fonte de vida para tantos e tantas. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “Teologia latino-americana:raízes e ramos” (Editora Vozes), entre outros livros.

 

   

Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

EM TEMPOS DE COVID: O CUIDADO NECESSÁRIO E IRMANDADE AFETUOSA

 


Leonardo Boff

 

Nos dias atuais, especialmente durante o isolamento social, devido a presença perigosa do Coronavírus, a humanidade despertou de seu sono profundo: começou  ouvir os gritos da Terra e os gritos dos pobres e a necessidade do cuidado de uns para com os outros  e também da natureza e da Mãe Terra. De repente, demo-nos conta  de que o vírus não veio do ar. Não pode ser pensado isoladamente, mas dentro de seu contexto; veio da natureza. Ele é uma resposta da Mãe Terra contra o antropoceno e o necroceno, vale dizer, contra a sistemática dizimação de vidas, devida à agressão do processo industrialista, numa palavra, do capitalismo mundialmente globalizado. Ele avançou sobre a natureza, desflorestando milhares de hectares, na Amazônia, no Congo e em outros lugares onde se encontram as florestas úmidas. Com isso destruiu o habitat dos centenas e centenas de vírus que se encontram nos animais e até nas árvores. Saltaram em outros animais e destes a nós.

Em consequência de nossa voracidade incontrolada, cada ano desaparecem cerca de cem mil espécies de seres vivos, depois de milhões de anos de vida sobre a Terra e ainda, segundo dados recentes, há um milhão de espécies vivas sob risco de desaparecimento.

A ideia-força da cultura moderna era e continua sendo o poder como dominação da natureza, dos outros povos, de todas as riquezas naturais, da vida e até dos confins da matéria; esta dominação ocasionou atualmente as ameaças que pesam sobre o nosso destino.  Essa ideia-força tem que ser superada. Bem dizia Albert Einstein: “a idéia que criou a crise não pode ser a mesma que nos vai tirar da crise; temos que mudar”.

A alternativa será esta: ao invés do poder-dominação deve-se colocar a fraternidade e o cuidado necessário. Estas são as nova ideia-força. Como irmãos e  irmãs, somos todos interdependentes e devemos nos amar e cuidar. O cuidado implica numa relação afetuosa para com as pessoas e para com a natureza; é amigo da vida, protege e confere paz a todos que estão à sua volta.

Se o poder-dominação significava o punho cerrado para submeter, agora oferecemos a mão estendida para se entrelaçar com outras mãos, para cuidar e para afetuosamente abraçar. Essa mão cuidadosa traduz um gesto não agressivo para com tudo o que existe e vive.

Portanto, é urgente criar a cultura da fraternidade sem fronteiras e do cuidado necessário que a tudo enlaça. Cuidar de todas as coisas, desde o nosso corpo, da nossa psiqué, do nosso espírito, dos outros e mais comezinhamente do lixo de nossas casas, das águas, das floresta, dos solos, dos animais, de uns e de outros, começando pelos mais vulneráveis.

 

Sabemos que tudo o que amamos, cuidamos, e tudo o que cuidamos também amamos. O cuidado sana as feridas passadas e impede as futuras.

É neste contexto urgente que ganha sentido um dos mais belos mitos da cultura latina, o mito do cuidado.

“Certo dia, ao caminhar na margem de  um rio,  Cuidado viu um pedaço de barro . Foi o primeiro a ter a ideia de tomar  um pouco dele  e moldá-lo  na forma de um ser humano. Enquanto contemplava, contente consigo mesmo, com  o que havia feito, apareceu Júpiter, o deus supremo dos gregos e dos romanos.

Cuidado pediu-lhe que soprasse  espírito na figura que acabara de moldar. O que Júpiter  acedeu  de bom grado.

Quando, porém, Cuidado quis dar um nome  à criatura que havia projetado, Júpiter o proibiu. Disse que essa prerrogativa de impor um nome era missão dele. Mas cuidado insistia que ele tinha esse direito por ter, por primeiro pensado e moldado a criatura em forma de um ser humano.

Enquanto Júpiter e o Cuidado discutiam acaloradamente, de súbito, irrompeu a deusa  Terra. Quis também ela conferir um nome à criatura, pois, argumentava, que ela  fora feita de barro, material do  corpo, da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada sem qualquer consenso.

De comum acordo, pediram, ao antigo Saturno, também chamado de Cronos, fundador da idade de ouro e da agricultura, que funcionasse como árbitro. Ele apareceu na cena. Tomou a seguinte decisão que pareceu a todos   justa:      

“Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito quando essa  criatura morrer”.

“Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer”.

 

Mas como, você, Cuidado foi quem, por primeiro, moldou essa criatura, ela ficará  sob o seu cuidado enquanto  ela viver”.

“E uma vez que entre vocês há consenso  acerca do nome, decido eu:  esta criatura será chamada Homem (ser humano), isto é, feita de húmus, que significa terra fértil”.

Vejamos a singularidade deste mito. O cuidado é anterior a qualquer outra coisa. É anterior ao espírito e anterior à Terra. Em outras palavras, a concepção do ser humano como composto de espírito e corpo não é originária. O mito é claro ao afirmar que “foi o cuidado o primeiro a moldar o barro na forma de um ser humano”.

O cuidado comparece como o conjunto de fatores sem os quais não existiria o ser humano. O cuidado constitui aquela força originante da qual jorra e se alimenta o ser humano. Sem o cuidado, o ser humano continuaria a ser apenas um boneco de barro ou um espírito desencarnado e sem  raiz em nossa realidade terrestre.

O Cuidado, ao moldar o ser humano, empenhou amor, dedicação, devoção, sentimento e coração. Tais qualidades passaram à figura que ele projetou, isto é, a nós, seres humanos. Estas dimensões entraram em nossa constituição, como um ser amoroso, sensível, afetuoso, dedicado, cordial, fraternal e carregado de sentimento. Isso faz o ser humano emergir verdadeiramente  como humano.

Cuidado recebeu de Saturno a missão de cuidar do ser humano  ao longo de toda a sua vida. Caso contrario, sem o cuidado, não subsistiria  nem viveria.

Efetivamente, todos nós somos filhos e filhas do infinito cuidado de nossas mães. Se elas não nos tivessem acolhido com carinho e cuidado, não saberíamos como deixar o berço e buscar nosso alimento. Em pouco tempo teríamos morrido, pois não contamos com nenhum órgão especializado que garanta nossa sobrevivência.

O cuidado, portanto, pertence à essência do ser humano. Mas não só. Ele é a essência de todos os seres, especialmente dos seres vivos. Se não os cuidarmos, eles definham e lentamente adoecem e por fim morrem.

 

O mesmo vale para a Mãe Terra e para tudo o que nela existe. Como disse bem o Papa Francisco em sua encíclica que leva como sub-título ”Cuidando da Casa Comum”: “devemos alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo”.

O cuidado é também uma constante cosmológica. Bem dizem os cosmólogos e astrofísicos: se as quatro forças que tudo sustentam (a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear fraca e a forte) não se tivessem articulado com extremo cuidado, a expansão ficaria demasiadamente rarefeita e não haveria densidade para originar o universo, a nossa Terra e a nós mesmos. Ou então seria demasiada densa e tudo explodiria em cadeia e nada existiria do que existe. E esse cuidado preside o curso das galáxias, das estrelas e de todos os corpos celestes, a Lua, a Terra e nós mesmos.

Se vivermos a cultura e a ética do cuidado, associado ao espírito de irmandade entre todos, também com os seres da natureza, teremos colocado os fundamentos sobre os quais se construirá um novo modo de nos relacionar  e de viver na Casa Comum, a Terra. O cuidado é a grande medicina que nos pode salvar e a irmandade geral nos permitirá a sempre desejada comensalidade e o amor e a feto entre todos.

Então continuaremos a brilhar e a nos desenvolver sobre esse pequeno e belo planeta.

Esta consideração sobre o cuidado concerne a todos os que cuidam da vida em sua diversidade e do planeta, especialmente agora, sob  pandemia do Covid-19, o corpo médico, os enfermeiros e enfermeiras e outros que trabalham nos hospitais, pois, o cuidado essencial cura as feridas passadas, impede as futuras e garante o nosso futuro de nossa civilização de irmãos e de irmãs, juntos na mesma Casa Comum.

 

Leonardo Boff escreveu O cuidado necessário e Saber cuidar, ambos pela Editora Vozes de Petrópolis.

 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A IGREJA SE FAZ FÓRUM DE IRMANDADE



Por Marcelo Barros


Nesses dias, a Igreja Católica entra no 50o ano do encerramento do Concílio Vaticano II, em Roma, em 1965. Até o próximo ano, no mundo inteiro, diversos eventos recordarão o Concílio que deu início a uma grande renovação da Igreja. Ele a pôs em diálogo respeitoso e construtivo com o mundo contemporâneo. O papa Francisco tem insistido: para ser fiel ao que, hoje, o Espírito diz às Igrejas, essas devem prosseguir, com coragem e determinação, o diálogo com a humanidade. Só assim cumprirão o exigente trabalho da sua renovação interna para melhor servir ao projeto divino de justiça, paz e comunhão com o universo.  
Na celebração desse jubileu do Concílio, ministros e fieis avaliam o caminho feito desde então. Quando o papa João XXIII convocou todos os bispos do mundo para renovar a Igreja Católica, tinha em vista preparar o caminho para a unidade com outras Igrejas cristãs. Agora, 50 anos depois, apesar de muitas experiências de diálogo e serviço em comum, as Igrejas continuam divididas. E a mística da unidade, pela qual João XXIII deu a vida, não se converteu em preocupação fundamental da maior parte dos ministros e fiéis da Igreja Católica e de outras Igrejas. 

Desde esta época, o mundo viveu grandes transformações. Em todo o mundo, sociedades de cultura agrária se urbanizaram. O mundo atual se caracteriza por rápidas e incessantes mudanças, não apenas no campo tecnológico, mas também no plano da cultura e dos costumes. Dentro desse contexto, as religiões continuam se definindo como sociedades que se caracterizam pelo apego a suas tradições e pela imensa dificuldade de mudar a linguagem e o modo de ser. Isso é um obstáculo sério ao diálogo das instituições religiosas com a humanidade e a sua inserção na construção de um novo mundo possível.    
No Evangelho, Jesus propõe: “Não adianta colocar remendo novo em roupa velha. O remendo repuxa o pano e rasgão fica maior ainda. Ninguém coloca vinho novo em barris velhos porque o vinho novo arrebenta os barris velhos e tanto o vinho como os barris se perdem. Para vinho novo (que é o evangelho), temos de ter barris novos” (Mc 2, 21- 22). Essa palavra ressoa hoje para cristãos e não cristãos como um apelo para à permanente transformação inspirada pelo Espírito nas Igrejas e no mundo. Atualmente, muitos cristãos desejam um novo concílio, dessa vez, reunindo não somente bispos católicos, mas pastores e fiéis de várias Igrejas cristãs. Apesar de, hoje, contarmos com a proposta renovadora do papa Francisco, o estilo de Igreja que ainda persiste na maioria dos lugares é o modelo medieval dogmático  e autoritário. Por isso, mais do que um grande evento, a ser realizado em Roma ou em outra parte do mundo, um grande grupo de bispos, padres e fieis preparam uma proposta que se chama de “novo processo conciliar”. Seria um fórum permanente de diálogo e busca em comum. As comunidades locais são convidadas a  aprofundar os  grandes desafios do mundo atual e a missão das igrejas em relação a eles. O tema de uma civilização ecologicamente sustentável e baseada na paz e na justiça seria o pano de fundo. A partir dessa missão, é preciso renovar o modo de expressar a fé e inserir-se no mundo. Isso fará os cristãos superarem uma concepção de Igreja voltada sobre si mesma para o caminho proposto por Jesus. Em 1971 na França, (Taizé), um Concílio de jovens propunha: “uma Igreja missionária e pascal, pobre e despojada dos meios de poder que se coloque como espaço de comunhão amorosa para toda a humanidade”.



 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.  


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