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quarta-feira, 15 de setembro de 2021

AMOR AO PRÓXIMO E AMOR A DEUS, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(13/09/2021)

 

 

     No intento de prosseguir em nossa abordagem sobre o amor divino e o amor humano, entregamos a palavra a um novo personagem, unanimamente reconhecido como o maior orador sacro da língua portuguesa, Pe. Antônio Vieira. Desta vez invertemos a ordem dos fatores, sem afetar o valor essencial, partindo do amor humano para chegar ao amor de Deus.

     Foi no ano de 1643. Na capela do hospital real em Lisboa. Chamado a fazer a homilia festiva, Vieira pegou o mote do ambiente hospitalar e escolheu, como tema, o amor, o amor magoado, fraturado, enfermo. Iniciou lembrando que estavam todos reunidos numa casa de doentes e que ele tinha certeza de que Deus encontrava-se também ali internado. Mas sua doença era incurável, era excesso de amor.

     A partir daí, Vieira discorre longamente sobre as ilusões e a provisoriedade do amor humano, em confronto com a segurança e perenidade do amor divino. Confesso que não escuto de bom grado esse antagonismo entre dois amores que, na verdade, procedem de uma única fonte. Decerto Vieira está alertando para os desvios e engodos dos amores,  quando postos em corações humanos.

 

     Ele trata da cura para a enfermidade do amor e aponta 4 remédios eficazes: o tempo, a ausência, a ingratidão e outro amor maior.

     Já vimos que a mitologia grega representa o amor na figura de um menino, o famoso Cupido, armado de flechas e asas. "O amor é sempre menino, afirma Vieira, porque não envelhece, sendo verdadeiro. O tempo tira a novidade das coisas; descobre-lhes os defeitos; enfastia-lhes o gosto e basta que sejam  usadas para não serem as mesmas. O próprio amor é causa do não amar e o se ter amado muito, de se amar menos. Para as outras enfermidades a dilatação do tempo é perigo, para os males do amor, no entanto, é cura". Neste caso, Vieira está se referindo àquele amor marcado pela fraqueza, pela inconstância, pela carência de razão, pelo excesso de apetite. Este amor é doença, não é amor. O amor verdadeiro está preservado da ação do tempo. Nem os anos o diminuem, nem os séculos o enfraquecem, nem a eternidade o cansa. Nas demais situações da vida, as coisas que deixaram de ser é porque já foram;  no amor, ao contrário, o deixar de ser   é sinal do nunca ter sido. Deixastes de amar? Então nunca amastes! Teu amor chegou ao fim? Então nunca teve princípio!"

     O segundo remédio para curar a enfermidade do amor é a ausência. Vieira lembra que o amor é como a lua, havendo a terra no meio, acontece o eclipse. Semelhantemente, a distância entre as pessoas, aqui na terra, tira as forças do amor. Ele descreve um exemplo com cenas metafóricas: "despediram-se com grandes demonstraçôes de afeto os que muito se amavam. Apartaram-se enfim. E, se tomardes o pulso ao mais enternecido, achareis que palpitam no coração as saudades; que rebentam nos olhos as lágrimas; que saem da boca alguns suspiros;  são as últimas respirações do amor. Mas, se voltardes, depois deste ofício de corpo presente, que achareis? Os olhos enxutos, a boca muda, o coração sossegado; tudo esquecimento, tudo frieza; a ausência fez seu ofício, como a morte: apartou e, depois de apartar, esfriou".

     Tratando-se, porém, do verdadeiro amor, a distância não pode desfazê-lo porque ele não é a união de lugares e sim a união de vontades. A distância, neste caso, pode apartar os corpos, mas não pode dividir os corações, pode impedir a vista, mas não esfriar o afeto"

     Neste ponto Vieira faz uma belíssima associação com o amor transcendental da Santíssima Trindade, cuja versão o limite do espaço nos obriga a adiar para a próxima Reflexão.

     A pandemia do coronavirus trouxe-nos exemplos de sobra, ilustrando estas idéias do Pe. Vieira. Lembremos o caso real, divulgado nas "redes", do jovem infectado pelo virus da covid, desenganado pelos médicos, consciente de sua morte próxima.  Seu último gesto foi pedir o celular do médico. Queria falar com sua mãe. Na hora de confrontar-se com o Grande Mistério, ele buscou a luz do amor distante. Naquele momento, amor filial e amor materno,  conectados,  transcenderam, divinizaram-se e fundiram-se numa só coisa.

-Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

AMOR DESDE SEMPRE, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(04/09/2021)

 

     Parece ser uma tarefa difícil tomar a defesa do amor contra as ameaças dos preconceitos e discriminações. Afinal de contas, se dois parceiros decidem amar-se, nada poderá impedi-los, enquanto perdurar sua convergência de desejos e sentimentos. Isso seria uma verdade irrefutável, caso eles pudessem confinar seu amor no mundo dos sentimentos e das palavras. Porém o amor é sobretudo uma construção de vidas em parceria. Vidas humanas não se constroem à margem dos acontecimentos em sua volta. Amor algum é uma ilha.

     Ao contrário, somos enriquecidos pela experiência dos que, antes de nós, caminharam pelas suas trilhas. E no amor encontraram o valor único, em função do qual se nasce, se vive, se morre.

     Da antiga civilização grega herdamos a figura de EROS, símbolo do amor romântico, associado ao prazer, ao desejo, à paixão. Quem foi Eros? Segundo a narrativa de Platão, os deuses banqueteavam-se, celebrando o aniversário da deusa  AFRODITE. Então PORO, a abundância, embebedou-se de nectar e adormeceu no jardim. Foi aí que PÊNIA,  a penúria, aproveitando-se da situação, manteve com ele uma relação carnal. Desta união da abundância com a penúria nasceu EROS, esta figura de garoto travesso, ambivalente, sedutor e matreiro, atraente e ilusório, às vezes de venda nos olhos, armado de arco e flecha  pronto a "ferir" quem se oferece ao seu alvo. No entanto, AFRODITE desgostava-se do filho porque ele permanecia criança, não crescia. Consultou TEMIS, a prudência, e esta lhe fez ver o motivo: EROS vivia muito solitário, precisava de companhia, precisava de um irmão. AFRODITE deu à luz outro filho, ANTEROS, e, daí em diante, o pequeno deus passou a crescer e tornou-se o mais belo deus do Olimpo.

      A sabedoria dos gregos nos legou também a ciência dos quatro elementos planetários, terra, água, fogo, ar. Alguns de seus pensadores julgaram necessário acrescentar mais dois: o amor e o ódio; o primeiro como força de atração e o segundo como força de repulsão. Daí firmou-se a crença no amor cósmico, a saber, nada que tem vida sobrevive sem o impulso de uma energia amorosa. As plantas amariam a terra através das leis da vegetação. Os animais se amariam através dos instintos naturais. Até os corpos químicos participariam desta lei universal pela afinidade de uns com os outros.

     O Cristianismo abandonou esta concepção do amor cósmico. O amor é distintivo exclusivo do ser humano, único feito à imagem e semelhança do Criador. Nem por isso devemos descartar o legado luminoso da mitologia grega. O amor exige parceria e relação pessoal. Onde isso não se dá, a pessoa não está habilitada a crescer e aperfeiçoar-se. Na solidão ela perde suas energias vitais, apenas subsiste, apenas circula em volta de si, (como diz Raul Seixas), "esperando a morte chegar".

     A pandemia do coronavirus remontou-nos àquela visão bipolar do amor cósmico. Quem olhou  atento às reações emocionais de algumas pessoas logo após a vacinação, decerto vislumbrou algo de sobrenatural, uma espécie de êxtase, o ápice de um ato de amor gerado de muitos fatores: o trabalho silencioso e oculto dos cientistas, o serviço dos profissionais de saúde ali presentes e também o movimento da matéria química penetrando no corpo agraciado.

    Simultaneamente eclode a força oposta do caos. Ele acomete nas atitudes do mandatário da nação e seus asseclas, pregando a intolerância ideológica, o preconceito patológico, a xenofobia, acionando a energia repulsiva do ódio .

     É hora de acionar Princípio Unificador, pelo poder da Fé.  O Deus que esteve em quaisquer manifestações de amor, desde o princípio do mundo, que esteve em Eros, estará, infinitamente, em nós. E, neste momento, nos convoca para a ação.

-Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

quarta-feira, 14 de abril de 2021

O NECESSÁRIO E O SUPÉRFLUO, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 



FREI ALOÍSIO FRAGOSO

(14/04/2021)

     Surpreendido pela repercussão da nossa Reflexão anterior, com o título acima, proponho-me a dar-lhe um segundo capítulo, embora não previsto. Mais do que aplausos, valeram os comentários enriquecedores e complementares de leitores e leitoras. Deles colhi  o sentimento de que esta tensão real entre o supérfluo e o necessário bate pesado na consciência de muita gente. E dói. Se esta dor produzir conversão de vida, movimento de pés e mãos, bendita seja ela!

     Desta vez, no entanto,  eu gostaria de me substituir por uma voz mais confiável, uma voz que, neste momento da História humana, tornou-se uma espécie de eco da consciência universal. Estou falando do Papa Francisco. Este tema a que nos propomos tem sido uma constante em suas declarações escritas, faladas ou testemunhadas.

     Na sua encíclica "Laudato Si" ele propõe uma sociedade de superação do supérfluo. Uma sociedade onde as riquezas superabundantes postas à disposição de uma minoria de afortunados sejam convertidas em bens suficientes em favor de todos os necessitados. Não é apenas a tendência natural, a que chamamos de pecado original, que nos faz hedonistas insaciáveis, é também a oferta infinita de seduções consumistas, a que chamamos de objetos do desejo. Mal começamos a usar um produto, já aparecem dezenas de outros da mesma natureza, forçando-nos a adquiri-los, sob pena de sermos tidos como ultrapassados ou decadentes. O Papa chama esta situação de "cultura do descarte". Os objetos transformam-se rapidamente em detritos e a terra corre o risco de virar um imenso depósito de lixo. (Em lugar algum lugar este lixo será jogado e outros seres humanos irão catar aí a sua sobrevivência).

      Daí suas propostas práticas: é preciso acabar com o mito de um progresso material ilimitado. Somos frágeis, vivemos em um mundo frágil, temos que reduzir nossos impulsos e desejos. E mais, temos de comprender uma coisa: este mundo não é um bem sem dono. Somos seus usuários, não seus proprietários. Precisamos também regular o direito de propriedade, levando em conta que,  sobre cada propriedade privada, pesa uma hipoteca social, uma vez que as riquezas da terra destinam-se, em primeiro lugar, ao bem comum.

     Tudo isso está condicionado a uma mudança de estilo de vida, a sermos capazes  de nos contentar com o bastante necessário, sem nos apegar ao que temos nem nos entristecer com o que não possuimos. Daí não resultará uma vida de menos prazer ou menor intensidade, ao contrário, resultará um prazer duradouro, com um novo significado para a convivéncia humana, fundada na essencial.

     O Papa lembra ainda que nada disso significa perda ou empobrecimento. "Feitos para o amor, existe em cada um de nós uma espécie de êxtase que nos leva a sair de nós mesmos para encontrar nos outros um acréscimo do nosso ser" ("Fratelli Tuti," 88).

     No Sermão da Montanha Jesus nos manda abrir os olhos em nossa volta: "Olhai as aves do céu, olhai os lírios do campo. Não ceifam nem semeiam, no entanto o Pai do Céu não permite que lhes faltem alimento nem vestimenta" Cf. Mt.6,26. A estes irmãos, e a outros tantos, que vivem no mesmo habitat nosso, basta-lhes o essencial. E alguém já viu um pássaro envelhecer?  Um rouxinol deixar de cantar? Ou algum outro bicho precisar de psicanalista?

       É certo  que alguns dos nossos fizeram a experiência do "não" absoluto ao supérfluo. Um deles foi um gênio, um dos maiores da História, Einstein. Um só? Não importa. Basta um para provar a possibilidade aberta a todos.

     É assim que interpreto este diálogo entre Albert Einstein e Charles Chaplin:

     - "O que mais admiro em tua arte, Chaplin, é que não dizes uma palavra e o mundo inteiro te entende".

     - "Maior é tua glória, Einstein, o mundo inteiro te admira sem entender o que dizes."

     Um não precisava de palavras para fazer-se entender. Outro nem precisava ser entendido pela razão, para deixar seu legado de sabedoria.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor 

 


sábado, 13 de fevereiro de 2021

"MUDANÇA DE VIDA EM TEMPOS DE CORONAVIRUS"(2)

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


10/02/2021

 

     Nossa última reflexão deixou suspensa no ar uma pergunta endereçada aos cristãos conscientes de seu papel neste mundo controverso: haverá nele espaço confiável onde possa medrar nossa esperança? Ou temos que criar um outro mundo paralelo e aí nos estabelecer?

     Nossa resposta tem como ponto de partida algo que Sto. Agostinho escreveu, ao relembrar sua tardia conversão: "Tarde Te conheci, oh Beleza tão antiga e sempre nova, tarde Te  conheci. Tu estavas em mim e eu, fora de mim, Te procurava". Nossa resposta, portanto, não procede de lógica, de cálculos, de filosofias. Ela é um ato de Fé. Ela já está dentro de nós antes de acontecer, e, a partir de nós, pode ser gerada. (São Paulo sugere que somos responsáveis por esta gestação quando escreve: "O mundo está grávido de Deus"). No entanto ela se comprova  em fatos incessantes, vividos e partilhados historicamente, nestes mais de  2000 anos de Cristianismo.

     Caso eu tivesse de filmar um documentário sobre a História da Humanidade, lhe daria um título plagiado de Érico Veríssimo: "O Tempo e o Vento". De fato, homens e mulheres, habitantes deste planeta, jamais estacionaram em algum tempo da História, jamais atingiram uma espécie de plenitude, um "non plus ultra" (não mais além), o gozo de uma felicidade que lhes parecesse plena e definitiva.

     Nas páginas da Bíblia, percebe-se como, dia a dia, século a século, milênio a milênio, o mundo vai se desviando do Projeto original do Criador. Aquele lance inicial, "Deus viu tudo o que tinha feito e tudo era muito bom" Gen.1, 31, perde sua validade. O que era bom de início, como semente geradora de outras coisas boas, passa a gerar também coisas más. A despeito disso, nunca se desfez a utopia primordial da Criação. Do que se conclui que nossa História é movida por um "Sopro Divino", um Vento impetuoso que a Bíblia chama "ruah" e se traduz por Espírito Superior. Somos conduzidos pelo Tempo e o Vento.

      O Covid 19 veio fazer-nos algumas sérias advertências. Que devemos estar em alerta contra a tentação do Shangri-lá. Ele arrancou-nos do colo da Mãe Terra, onde muitos se assentavam comodamente para mamar e mamar e mamar, indiferentes ao cansaço da mãe e ao seu desejo materno de oferecer o peito fértil aos outros filhos e filhas, com os mesmos direitos e carências. (Bem feito! Gritou o Universo.)

     Que não devemos medir o tempo da História pelo breve percurso da nossa experiência. Só por alguns anos o mundo está em nossas mãos, e nossa tarefa é a mesma de nossos antepassados, que será também a dos nossos descendentes: apressar

a consumação do Plano do Criador.

     Nestes últimos anos, surgiu das trevas do tempo um monstro mais mortífero do que o coronavírus, inimigo visceral de toda utopia, um movimento neo-nazista, querendo desenterrar o fantasma de uma "raça superior" para o comando dos povos. Seus ataques concentram-se nas redes sociais, em Centros globais produtores de fake-news, com capacidade de espalhar, em segundos, milhões e milhões de mentiras que, de tão repetidas, viram uma nova versão da verdade, na mente de milhões de pessoas. Não nos amedrontemos. Quando a mentira se avoluma e se espalha  imensuravelnente, e se  universaliza, ela atinge um ponto de saturação auto-destrutivo. Atinge uma situação-limite em que não é mais possível fazer qualquer distinção entre verdade e mentira. Isso implica na total  destruição da linguagem humana, no fim de qualquer possibilidade de comunicação entre criaturas racionais. Acontece que nenhum Sistema, nem o Capitalismo, pode sobreviver sem isso, sem uma confiabilidade

funcional. Daí as empresas poderosas capitalistas já começam a cortar os recursos técnicos destes grupos fascistas. A derrota recente de Trump (inconcebível para ele e os seus) é uma prova deste limite.

      É  em momentos assim que nós cristãos somos convocados por outras instâncias da sociedade. É a hora de entrarmos com nossos espaços de Fé, espaços que Dom Helder chamava de "minorias abraâmicas", a Antiga Aliança chamava de "resto de Israel", Jesus chamava de "pequeno rebanho". Jesus mesmo nos adverte para a inutilidade de usarmos apenas as armas convencionais, a bondade convencional, a piedade convencional, as palavras convencionais, as beneficências convencionais. Ele diz: "Não adianta remendar roupa velha com pano novo nem por vinhos novos em odres velhos" Mt.9, 14-17. O cristão não é batizado para ser uma boa pessoa (isso até um ateu pode vir a ser) mas sim, para ser uma boa pessoa que assume a construção do Reino de Deus.

     Se queremos contribuir com atitudes capazes de convencer e renovar as estruturas deste mundo, temos que manter a paciência histórica, a consciência  de que plantamos para outros colherem no futuro, de admitir a necessidade de grandes sacrifícios e até do sangue de novos mártires. E, contra toda adversidade, gravar na alma a legenda do evangelista S.João: "A vitória que vence o mundo é a nossa Fé".

1Jo.5,4.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

XENOFOBIA EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 

FREI ALOISIO FRAGOSO


(22/01/2021)

     Em nossa última Reflexão começamos a falar de um fenômeno  que está se alastrando por toda parte, como uma das mais cruéis  discriminações  entre seres humanos. Além de tenebroso, ele é subliminar, só aparece em seus efeitos, semelhante ao coronavirus, porém mais devastador porque é gerado conscientemente.

     Trata-se da xenofobia.

     Em tradução literal, esta palavra de origem grega significa "medo do estrangeiro"; em suas consequências, ela se amplia e se transforma em "ódio ao diferente".

         Escolhemos como parâmetro um grupo de brasileiros cujos ancestrais habitavam estas terras quando aqui aportaram os primeiros invasores portugueses. A irrupção  do coronavirus veio escancarar sua vulnerabilidade, a ameaça que enfrentam por serem diferentes.

     Faz pouco tempo, um alto funcionário da FUNAI apresentou uma proposta com o seguinte conteúdo: vamos matricular crianças  das tribos indígenas em escolas das aldeias vizinhas. Aí  elas se misturam com outras crianças brancas, negras, morenas. Com tempo se amigam, se gostam, se casam e então acontece, espontaneamente, a miscigenação.

       os idiotas não  percebem nesta política de aparência simplória, a mais sutil forma de genocídio: a eliminação da própria identidade de um povo, vale dizer, o aniquilamento de sua alma. Uma repetição disfarçada do que aconteceu há 500 anos. Presenciando a completa destruição dos lugares sagrados de suas tribos pelos invasores espanhóis, muitos pajés aztecas pensavam "se destroem nosso deuses, destroem nossas almas". Então sentavam-se à beira do caminho e deixavam-se  definhar até  a morte. Como viver sem alma, sem identidade, sem história, sem ser?

 

     Qualquer pessoa que perde a raiz de seus ancestrais, as referências que lhe dão  sustentação vital, passa a vagar como ser indefinido, à deriva, privado de auto-estima, igual a um louco, sem saber quem é.

     A maior parte da nossa população, condicionada, mal-informada, enxerga nessa gente que vive em contato permanente com a natureza, personalizando todo universo, tratando como pessoas os montes, os rios, os bichos, as plantas; chamando a terra de mãe e se negando a ser proprietários dela porque não se pode comprar e vender a própria mãe, vendo nos outros seres não apenas os provedores da sua subsistência, mas também o sentido da sua existência, recusando-se a contribuir com um progresso que nada tem a ver com sua idéia de progresso... a maior parte a vê como subhumanidade, não se apercebe que aí se revela uma cosmovisão, uma filosofia de vida. Quem garante que a nossa é melhor, em sentido vivencial? Não somos melhores, não somos piores, somos iguais. Melhor é quem alcança o bem supremo de conviver em paz, em felicidade. O resto vem a seu tempo, determinado pela evolução dos séculos, no tempo de cada povo.

     É  hora de reaprendermos as grandes lições  da História. As atuais políticas xenofóbicas refazem o plano de todos os sistemas totalitários: morte às minorias! E novos Adolfos Hitler se reencarnam prontos a impor a ideologia da raça superior e única  no domínio  das nações.

    Nossa consciência cidadã  nos adverte: o fato de sermos iguais em humanidade não nos obriga à uniformidade de idéias, valores e crenças, mas nos torna capazes de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças. Enquanto a Fé cristã nos remonta às origens do cristianismo: ele teve início, logo após o acontecimento de Pentecostes, quando os apóstolos começaram a pregar em Jerusalém, a um platéia heterogênea de judeus, partos, medos, ilamitas, e outros vindos do Egito, da Mesopotâmia, da Capadócia, da Frígia, da Panfília, (cfr. Atos 2,5ss). Todos estes ouviram decerto os apóstolos repetirem esta palavra de Jesus: "vocês sabem que os governantes deste mundo subjugam e oprimem seu povo; entre vocês não deve ser assim. Quem quiser ser o maior, seja o servo de todos" Mt.20, 25-26.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

domingo, 13 de dezembro de 2020

NATAL EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 



Frei Aloísio Fragoso

 

    Em um sábado qualquer do mês  de nissan,  Jesus entrou na sinagoga de Nazaré, na Galiléia. Abriu a Sagrada Escritura e leu o texto de Is. 61,1-2: "Ele me enviou para dar a boa notícia aos pobres, curar os corações feridos, proclamar a liberdade dos escravos, por em liberdade os prisioneiros e promulgar o ano da graça de Javé".

     A seguir fitou os presentes e declarou: "hoje se cumpre esta passagem que acabamos de ouvir" Lc.4,21.

     Surpreendidos com suas palavras, seus conterrâneos reagiram dizendo: "não é este o filho do carpinteiro José? De onde lhe vem toda esta sabedoria?"  Lc. 4,22. E não acreditaram nele.

     Eles precisavam de um Messias, deslumbrante, glorioso, poderoso, triunfante. Um Messias capaz de livrá-los do medo e do jugo de Roma, da Assíria, da Babilônia, das grandes potências. Capaz de restaurar o reinado do rei David e iniciar o processo de vingança e domínio. Esta figura postada ali, diante  diante de seus olhos, filho de carpinteiro,  nada tinha a ver com suas expectativas de 400 anos.

     E o expulsaram da aldeia . Cfr. Lc.4,29

     Passados mais de dois milênios, esta mentalidade permanece viva e influente.

     Faltam poucos dias para o Natal. Acendem-se novamente os letreiros luminosos com o nome de Jesus. Para os que crêem reacende-se um antigo e renovado desejo: "Queremos ver Jesus". Onde podemos encontrá-Lo?  Nos lugares  em que se expõem presépios armados, só vemos um Menino-Jesus feito de raios luminosos, sem nenhuma aparência de carne humana.

     Como enxergar Nele as duas crianças que, nestes dias, tiveram suas vidas ceifadas por balas perdidas, na grande metrópole de São Paulo? Ou o pequenino e pobre Miguel que despencou para a morte do alto de um edifício de luxo, nesta cidade de Recife,  por incúria de adultos?  Como lembrar aquele cadáver de criança boiando em águas rasas, à beira-mar, entre  os náufragos de um barco superlotado de migrantes?

     Se não temos olhos para descobrir esta identificação, que sentido tem proclamar que "O Verbo se fez carne e habitou entre nós"?

Jo. 1, 14.

     Durante a pandemia do COVID 19,  as crianças receberam o máximo de proteção, foram resguardadas do vírus e de suas sequelas, foram  incontestavelmente amadas. Contudo elas  aparecem sempre como figurantes, jamais protagonistas. Ninguém se dá ao trabalho de registrar os seus lances de criatividade, de genialidade, de engenho e arte para sobreviver à catástrofe e resistir  à quarentena. O mundo venera as crianças mas não escuta o que elas estão dizendo.

    Assim fazemos com o Menino Deus.  Olhamos para Ele como uma criancinha, um ser de passagem que precisa crescer para adaptar-se às nossas tradições. Ao contrário, Jesus vem romper com as nossas tradições e colocá-las em consonância com o plano original de Deus.

     Através dos séculos milhares de faces de Jesus já foram pintadas por grandes artistas. Um deles, o francês Rouault, deu-se ao trabalho de retratar dezenas destas faces, uma após outra, obcecado pela idéia de transmitir em uma delas a expressão de todos os sofrimentos da humanidade. Estes quadros estão hoje expostos em museus. Os fiéis preferem para seu uso e devoção pinturas que não pareçam com seus rostos. Refazem a mesma dificuldade, contestada por Jesus, descrita pelo evangelista, com o seguinte diálogo:

-" Eu vou para junto do Pai e vocês sabem  também o caminho de ir.

- Senhor, mostra-nos o Pai, é isso o que mais queremos!

- Há tanto tempo estou com vocês e vocês não me conhecem. Quem me vê, vê o Pai." Jo.14, ss

     Eles não conseguiam reconhecer na face humana do Filho o semblante do Pai.

     No Natal Deus desmonta nossos esquemas mentais. O que há de mais frágil, contido no que há de mais inocente, vem  revelar o seu maior segredo: "Deus amou tanto o mundo que lhe mandou seu Filho Unigênito". Jo.3,16.

     Desvendar este mistério seja nossa tarefa do Advento. E se concretize no esforço de identificar a face do Menino-Deus no semblante das pessoas com quem convivemos e das outras que vamos encontrando pelo caminho.

    Com estes personagens armaremos um presépio vivo, em nossa próxima reflexão.

 Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.