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terça-feira, 31 de outubro de 2017

PARA UMA REFORMA PERMANENTE


Por Marcelo Barros

Nessa semana, o mundo inteiro e especialmente as Igrejas encerram as celebrações dos 500 anos da Reforma. Conforme a tradição, no dia 31 de outubro de 1517, o monge Martinho Lutero pregou nas portas da catedral de Wintemberg as suas 95 teses para reformar a Igreja e fazê-la voltar ao espírito do Evangelho. De fato, aquele momento foi o estopim que desencadeou o surgimento das igrejas luteranas e evangélicas. No entanto, o que se chamou de “reforma protestante” foi um movimento eclesial muito mais amplo e diversificado do que aquele, liderado por Lutero, Melanchton, Zwinglio, Catarina de Bora, Katherine Zell e outras mulheres que faziam parte do grupo dos reformadores. Atualmente, cristãos de várias Igrejas concordam que na história da Igreja do Ocidente, houve três grandes movimentos de reforma.

A primeira reforma ocorreu ainda nos inícios do segundo milênio. Nos séculos XII e XIII, esse movimento de reforma foi conduzido por pessoas como Francisco de Assis, Valdo de Lyon, Joaquim de Fiori, Catarina de Sena e o movimento das místicas (beguinas) que, no norte da Europa, se constituíam como comunidades livres e, em muitos casos, em tensão com a hierarquia católico-romana. De fato, quando Lutero, Calvino e os/as reformadores/as iniciaram o seu movimento, o combate ao mundanismo do clero, o apelo evangélico à simplicidade e a centralidade da Sagrada Escritura já estavam no coração de muitos cristãos. Tanto que o movimento da reforma coincidiu também na Igreja Católica com movimentos de espiritualidade como de Teresa de Ávila e João da Cruz e o Concílio de Trento não foi apenas convocado para combater os protestantes, mas para fazer uma reforma na estrutura e no caminho da Igreja Católica.

Não seria exagero afirmar que, atualmente, na maioria das Igrejas cristãs, vivemos um movimento espiritual que é como uma terceira reforma. Desde os seus inícios, o Ecumenismo sempre se afirmou como um movimento de renovação do Cristianismo. Só é possível pensar uma aproximação profunda das diversas confissões cristãs e um caminho de unidade entre elas, a partir de um esforço evangélico de renovação das mentalidades e das estruturas. E o que é novo, ao menos na América Latina é a convicção de que a renovação da Igreja só pode ter uma direção: tornar as nossas Igrejas mais aptas para cumprirem com fidelidade a sua missão no mundo. Tanto na Igreja Católica, na comunhão anglicana como nas Igrejas evangélicas e pentecostais, essa nova reforma tem um conteúdo social e político claro. Em um mundo cada vez mais excludente e desigual, não é possível para quem tem fé se conformar com as gritantes desigualdades sociais, com as injustiças sofridas pelas minorias raciais, étnicas e sexuais. Se existe Deus e se cremos que Jesus de Nazaré é seu enviado, só podemos testemunhar isso se, de todas as formas, trabalhamos para transformar esse mundo de acordo com o projeto divino da paz, justiça e defesa da criação.

Há 500 anos, Lutero atualizou um ditado medieval que afirmava: “A Igreja cristã tem por missão se renovar permanentemente”. As comunidades e fieis cristãos podem verificar como está o seu índice de fidelidade ao Evangelho e à proposta de Jesus por sua disponibilidade em se renovar tanto no âmbito interior de cada pessoa, como no plano da comunidade. O eixo fundamental dessa reforma permanente em nós e na Igreja é nossa abertura ao mundo e nossa sensibilidade para com os grandes problemas sociais do nosso país.

Há 50 anos, em Medellín, na Colômbia, a 2ª conferência geral dos bispos católico-romanos da América Latina lançaram um apelo que se dirige até hoje aos cristãos e cristãs de todas as Igrejas e retoma o grito da reforma de Lutero há 500 anos e o atualiza para nossa realidade: “Devemos dar às nossas Igrejas na América Latina o rosto de uma Igreja missionária e pascal (isso é, uma Igreja que sempre se renove e se abra ao futuro). Uma Igreja comprometida com a caminhada de libertação de toda a humanidade e a libertação de cada pessoa humana em todas as suas dimensões pessoais e suas potencialidades”.
                      (Documento 5 das Conclussões de Medellín, n. 15).

   





 Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo. Autor de mais de 50 livros, é assessor de comunidades eclesiais de base e movimentos sociais. Atualmente é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Email:contato@marcelobarros.com

terça-feira, 24 de outubro de 2017

PARA UM FÓRUM PERMANENTE DOS POVOS



Por Marcelo Barros

Nessa semana, o mundo recorda o 24 de outubro de 1945, quando foi proclamada a Carta das Nações Unidas e fundada a ONU. Agora, 72 anos depois, boa parte da humanidade percebe que continua necessária uma organização internacional que regule as relações entre os Estados. Apesar de fragilizada e ter o seu Conselho de Segurança dominado pelas grandes potências e a serviço de suas causas, a ONU ainda reúne os governantes em função da paz e do bem de toda a humanidade. No entanto, cada vez fica mais clara a urgência de se constituir um organismo com perfil semelhante que reúna cidadãos da sociedade civil. A paz, a justiça entre os povos e o cuidado que a humanidade deve ter com a Terra são questões por demais importantes para serem deixadas apenas aos cuidados de técnicos e governantes. Um princípio jurídico dos tempos antigos afirmava: "Aquilo que diz respeito a todos deve ser tratado e decidido por todos".

Nessa direção, nas últimas décadas, foram tentadas várias tentativas. Em junho de 1992, no Rio de Janeiro, enquanto os chefes das nações faziam a Rio 92, os movimentos e organizações sociais se reuniam no Aterro do Flamengo. Foi um encontro de cidadãos/ãs do mundo inteiro. O plenário dessa movimentação se chamava "Cúpula dos Povos". A partir do levante dos índios do Sul do México (1994), em Chiapas aconteceram três encontros que se chamaram: "Encontros da humanidade pela Vida e contra o neoliberalismo". Ao mesmo tempo, na Itália e na França, grupos tentavam organizar uma "ONU dos povos". Em 2001 começou o processo dos fóruns sociais mundiais. Quase vinte anos depois, esse processo continua vivo e interpelador. O próximo Fórum Mundial ocorrerá em Salvador, BA, de 13 a 17 de março de 2018.

Esses eventos são oportunos e úteis. No entanto, precisamos de uma articulação que vá além das manifestações ocasionais para algo permanente e cotidiano. No Brasil atual, dezenas de movimentos e organizações sociais se juntam em coletivos como a "Frente Brasil Popular" e ainda a "Frente Povo sem Medo".

Dos povos andinos, se espalha pelo continente a proposta de que o Estado e todas as organizações sociais, políticas e econômicas devem tomar como prioridade o paradigma que os índios chamam: o Bem Viver. Corresponde ao que, no evangelho, Jesus propõe como "vida em plenitude", ou vida de qualidade (Cf. Jo 10, 10).

No Oriente Médio, alguns povos como os armênios e os curdos vivem sem direito a se sentirem plenos cidadãos da terra em que nasceram. São considerados como estrangeiros em seus próprios países de origem: a Turquia, a Síria e o Iraque. Abdulah Ocalan, líder dos curdos, atualmente está em uma prisão da Turquia e foi condenado à morte. Ele propõe como novo caminho político o Confederalismo Democrático. Trata-se de uma administração política não estatal. É uma democracia sem Estado. Ao constatar que os Estados se fundamentam sob o poder das armas e da coerção, ele propõe um caminho democrático que busque no diálogo o consenso coletivo que seja possível, a convivência com a diversidade étnica, cultural e religiosa. Esse caminho, diferente e até contrário ao caminho trilhado pela sociedade dominante só é possível a partir de uma forte educação comunitária, uma profunda fé na dignidade humana e na capacidade de juntos desenvolvermos as sementes de bondade que existem em cada ser humano.

É impressionante que esse tipo de proposta venha de um líder social e não de ministros religiosos. Esses, em geral continuam a pensar o seu ministério e as relações entre pessoas, mesmo em uma comunidade religiosa, como relação vertical de mando e obediência. Para os cristãos, é importante recordar que, segundo o evangelho, na hora da última ceia, ao despedir-se do seu grupo de discípulos e discípulas, Jesus lhes disse: "Os reis e governantes dominam sobre os povos. Os que têm poder querem ser chamados de benfeitores. Entre vocês, não deve ser assim. Quem quiser ser o maior se torne o menor e quem se propõe a governar seja como quem se coloca a serviço dos outros" (Lc 22, 25- 26).  


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países    

terça-feira, 1 de novembro de 2016

IGREJA: LABORATÓRIO DE REFORMA PERMANENTE


Por Marcelo Barros



O mundo inteiro se espantou em ver que, nessa segunda-feira, o papa Francisco viajou a Lund, na Suécia, para participar da abertura das comemorações do quinto centenário da Reforma Protestante. De fato, há 500 anos, segundo a tradição, naquele 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero fixou suas 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wintenberg. Assim ele iniciou a Reforma Protestante que se desdobrou em diversos movimentos e frações que foram a origem das Igrejas evangélicas. Com essa visita à Federação Luterana Mundial, o papa Francisco manifesta todo o seu apoio e a comunhão da Igreja Católica com a Igreja Luterana e as outras Igrejas nesse caminho de reforma permanente.

Quem vê Lutero como o provocador da divisão do Cristianismo Ocidental em inúmeras Igrejas considera a Reforma um acontecimento negativo. O Ecumenismo sempre nos ensinou que a vontade de Deus é a unidade e qualquer divisão é oposta à oração de Jesus pela unidade dos seus discípulos. No entanto, se olharmos criticamente a História, sabemos que, desde suas origens, o movimento cristão sempre se destacou pela diversidade de teologias, organização e expressões culturais. O Cristianismo primitivo era constituído por Igrejas locais confederadas, mas autônomas em sua forma de expressar a fé e de se organizar. Nos tempos medievais, o papa se constitui como autoridade máxima e chefe de toda a Igreja. E a luta pelo poder na Igreja tem sempre provocado divisões. Desde o século IV e V, diversas divisões opunham Igrejas do Oriente e a Igreja Latina. No século XI, os patriarcas das Igrejas de Constantinopla e de Roma se excomungaram reciprocamente. A partir daí, as Igrejas do Oriente e do Ocidente nunca mais se uniram.  Durante a Idade Média, no Ocidente, os papas conseguiram manter a Igreja Católica como uma só, mas ao preço de muitas repressões, violências, condenações de hereges e até guerras e massacres.

No século XVI, o movimento da Reforma, iniciado por Lutero e continuado por Calvino, Zwinglio, Melancton e outros, possibilitou formas diversas de comunidades cristãs, (congregacionais, episcopais, presbiterianas, etc), todas firmadas em "uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos que age em todos e através de todos" (Ef 4, 1- 4).

Cinco séculos depois, a Igreja Católica e as Igrejas da Reforma vivem um diálogo teológico e institucional que praticamente deixou no passado os motivos doutrinais das divisões. Representantes oficiais de Igrejas Luteranas, Calvinistas, Anglicanas e outras assinaram entre si e também com a Igreja Católica diversas declarações e acordos. Esses documentos mostram que há uma unidade fundamental no modo de compreender e interpretar a fé, a missão da Igreja, o batismo, a eucaristia e os ministérios. Os próprios princípios que fizeram Lutero se insurgir contra o papa, como a justificação pela fé, já foram aceitos pelo magistério de Roma. Entretanto, apesar de todas essas aproximações, as Igrejas continuam não apenas diferentes e autônomas, o que seria positivo, mas divididas. O Conselho Mundial de Igrejas que reúne 349 Igrejas cristãs propõe a meta de uma "diversidade reconciliada". Em várias de suas alocuções, o papa Francisco parece ter assumido esse princípio como possível caminho de unidade. Para isso, de um lado e do outro, é preciso superar pecados ligados à compreensão quase divinizada do poder, a arrogância cultural, a dificuldade de aceitar o diferente e principalmente o princípio medieval que foi retomado por Lutero e também diversas vezes lembrado pelo papa Francisco: "A Igreja deve se reformar permanentemente".

Para essa renovação contínua, os critérios apontados pelo papa João XXIII são a volta ao Evangelho de Jesus e a busca sincera e profunda de atualização para "ouvir o que o Espírito diz, hoje, às Igrejas" (Ap. 2). Para cada cristão e para cada comunidade de Igreja, retomar a referência ao evangelho é assumir o compromisso permanente de uma conversão pessoal e comunitária que é progressiva e sempre mais exigente. Assim, nos abrimos ao amor divino que nos torna capazes de dialogar com a humanidade atual e nos dispor a sempre nos atualizar.


Nesse novo tempo de diálogo e de aproximação, as Igrejas aprendem umas com as outras e se influenciam mutuamente. As comemorações desse quinto centenário da Reforma vão estimular mais ainda as Igrejas evangélicas e a Igreja Católica a darem graças a Deus pelo caminho percorrido em comum e se unirem em um trabalho de reforma permanente. Cada vez mais, nossas Igrejas se unirão a outras religiões como o Budismo, o Islã e todos os caminhos religiosos para colaborar com a sociedade internacional na construção da justiça, paz e o cuidado com a Terra, nossa casa comum.  

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

UM DESAFIO PERMANENTE: CUIDAR DE SI MESMO

Por Leonardo Boff


  Ao assumir a categoria “cuidado” na relação para com a Mãe Terra e para com todos os seres, o Papa Francisco reforçou não só uma virtude mas um verdadeiro paradigma que representa uma alternativa ao paradigma da modernidade que é a da vontade de poder /dominação que tantos prejuízos trouxe.

Devemos cuidar de tudo, também de nós mesmos, pois somos o mais próximo dos próximos e, ao mesmo tempo, o mais complexo e o mais indecifrável dos seres.

Sabemos quem somos? Para que existimos? Para onde vamos? Refletindo nestas perguntas inadiáveis vale lembrar a ponderação de Blaise Pascal (+1662) talvez a mais verdadeira.

Que é o ser humano na natureza? Um nada diante do infinito, e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde veio e o infinito para onde vai (Pensées § 72).

Na verdade, não sabemos quem somos. Apenas desconfiamos como diria Guimarães Rosa. Na medida em que vamos vivendo e sofrendo, lentamene desvendamos quem somos. Em último termo: expressões daquela Energia de fundo (Deus ?) que tudo sustenta e tudo dirige.
Junto com aqulo que de fato somos, existe também aquilo que potencialmente podemos ser. O potencial pertence também ao real, quem sabe, a nossa melhor parte. A partir deste transfundo, cabe elaborarmos  chaves de leitura que nos orientam na busca daquilo que  queremos e podemos ser.

É nesta busca que o cuidado de si mesmo desempenha uma função decisiva. Não se trata, primeiramente, de um olhar narcisista sobre o próprio eu o que leva, geralmente, a não conhecer-se a si mesmo mas identificar-se com uma imagem projetada de si mesmo e, por isso, falsa e alienante.

Foi Michel Foucauld com sua minuciosa investigação Hermenêutica do sujeito (2004) que tentou resgatar a tradição ocidental do cuidado do sujeito, especialmente nos sábios do século II/III como Sêneca, Marco Aurélio, Epicteto e outros. O  grande motto era o famoso ghôti seautón, conheça-te a ti mesmo. Esse conhecimento não era algo abstrato mas muito concreto como: reconheça-te naquilo que és, procure aprofundar-te em ti mesmo para descobrires tuas potencialidades; tente realizar aquilo que de fato podes.

Neste contexto se abordavam as várias virtudes, tão bem discutidas por Sócrates. Ele advertia evitar o pior dos vícios que para nós se tornou comum:a hybris. Hybris é o ultrapassar os limites e colocar-se acima dos outros. Talvez o maior impasse da cultura ocidental, da cultura cristã, especialmente da cultura estado-unidense com o seu imaginado Destino Manifesto (o sentir-se o novo povo eleito por Deus) é a hybris: o sentimento de superioridade e de excepcionalidade, impondo aos outros nossos valores.

A primeira coisa que importa afirmar é que o ser humano é um sujeito e não uma coisa. Não é uma substância, constituída uma vez por todas mas um nó de relações sempre ativo que mediante a cadeia das relações está continuamente se construindo, como o faz o universo. Todos os seres consoante a nova cosmologia, são portadores  de certa subjetividade porque têm história, vivem em interação e interdependência de todos com todos, aprendem trocando e acumulando informações. Esse é um princípio cosmológico universal. Mas o ser humano realiza  uma modalidade própria  deste princípio que é o fato de ser um sujeito  consciente e reflexo. Ele sabe que sabe e sabe que não sabe e, para sermos completos, não sabe que não sabe.

Este nó de relações se articula a partir  de um Centro ao redor do qual organiza as relações com todos os demais. Esse eu profundo nunca está só. Sua solidão é para a comunhão. Ele reclama um tu. Melhor, segundo Martin Buber, é a partir do tu que o que eu desperta e se forma. Do eu e do tu nasce o nós.

O cuidado de si implica, em primeiríssimo lugar, acolher-se a si mesmo, assim como se é com suas aptidões e seus limites. Não com amargura como quem quer modificar a sua situação existencial. Mas com jovialidade. Acolher o próprio rosto, cabelos, pernas, seios, sua aparência e modo de estar no mundo,  em fim seu corpo (Veja Corbin e outros, O corpo, 3 vol. 2008). Quanto mais nos aceitamos menos clínicas de cirurgias plásticas existirão. Com as características físicas que temos, devemos elaborar nosso jeito de ser no mundo.
Nada mais ridículo que a construção artificial de uma beleza moldada em disssonância com a beleza interior. É  a tentativa vã de fazer um “photoshop” da própria imagem.

O cuidado de si exige saber combinar as aptidões com as motivações. Não basta termos aptidão para a música se não sentimos motivação para ser músico. Da mesma forma, não nos ajudam as motivações para sermos músico se não tivermos a aptidão para isso. Desperdiçamos energias e colhemos frustrações. Ficamos medíocres, o que não  engrandece.

Outro componente do cuidado para consigo mesmo é saber e aprender a conviver com a dimensão de sombra que que acompanha a dimensão de luz. Amamos e odiamos. Somos feitos com estas contradições. Antropologicamente se diz que somos ao mesmo tempo sapiens e demens, gente de inteligência e junto a isso gente de rudeza. Somos o encontro das oposições.

Cuidar de si mesmo é poder criar uma síntese onde as contradições não se anulam mas o lado luminoso predomina.

Cuidar de si mesmo é amar-se, acolher-se, reconhecer sua vulnerabilidade, poder chorar, saber perdoar-se e perdoar e desenvolver a resiliência que é a capacidade de dar a volta por cima e aprender dos erros e contradições. Então escrevemos direito apesar das linhas tortas.


Leonardo Boff é colunista do Jornal do Brasil on Line e ecoteólogo. É autor do livro Saber Cuidar.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

POR UM SÍNODO PERMANENTE



Por Marcelo Barros


Nesse domingo, o papa Francisco abriu em Roma a 13a sessão do Sínodo dos bispos, com representantes do episcopado católico do mundo inteiro. Esse sínodo extraordinário está reunido para refletir e tomar decisões que atualizem a posição da Igreja Católica em relação a questões da família e da moral sexual. Na semana passada, cinco cardeais, membros da Cúria romana, publicaram um livro coletivo. Nesse livro, afirmam que, em matéria de moral e disciplina, a Igreja nada tem a mudar, porque a lei é lei e vem de Cristo. No mundo inteiro, muitos padres e bispos são da mesma posição dogmática e rígida. Ao contrário, o papa Francisco e boa parte do povo, católico e não católico, pensa de modo diferente. O papa cita o Evangelho no qual Jesus diz claramente: “A lei foi feita para o ser humano e não o ser humano para a lei” (Mc 2, 27). “Eu vim chamar os pecadores e não os justos (Mc 2,17). Eu quero a misericórdia e não o sacrifício” (Mt 9, 13).

De fato, há mais de 50 anos, quando o papa João XXIII convocou os bispos católicos do mundo inteiro para se reunirem no Concílio Vaticano II, explicava que uma coisa é a verdade da fé e outra a expressão que, em cada época, toma essa verdade. A palavra de Deus é eterna e não muda. No entanto, a formulação de sua palavra é humana, histórica e contextual. Precisa ser interpretada à luz do projeto divino para o mundo que é justiça, paz e amor inclusivo e nunca desamor, incompreensão ou condenação de nenhuma categoria humana. No século II da nossa era, Tertuliano, um pai da Igreja do norte da África, afirmava: “Para quem é cristão, nada do que é humano pode ser estranho”.

De fato, o Concílio Vaticano II renovou profundamente a forma como a Igreja Católica interpreta a revelação divina, a relação com as outras Igrejas cristãs e sua missão no mundo. Na época do Concílio, a Igreja podia contar com muitos bispos que se colocavam como pastores do seu povo e profetas do projeto divino no mundo. Hoje, a Igreja continua contando com bispos que são homens espirituais e bons pastores do seu povo. No entanto, para garantir a continuidade dessa missão, é preciso rever a natureza e o estilo da atual formação dos padres nos seminários. Muitos bispos se dizem de acordo com a proposta de renovação eclesial do papa, mas mandam os jovens serem formados por seminários que os formam em uma linha contrária a qualquer renovação.

O que está em jogo não é apenas um modelo de atuação e de presença no mundo. O mais importante é que imagem de Deus as pessoas que creem e os ministros apresentam. Como disse alguém: “Sem dúvida, Deus é bom, mas parece que se deixa rodear de pessoas que não amam”.

No século I de nossa era, Igreja era um termo político. Designava as assembleias de cidadãos das cidades gregas do Império Romano. Tinham funções semelhantes à nossa câmara de vereadores. Em suas cartas, Paulo se apoderou desse termo (Igreja) para as primeiras comunidades cristãs. Ele fez isso para afirmar que os grupos cristãos deveriam sempre ser comunidades nas quais se pratica permanentemente o diálogo, a unidade nas diferenças, como parábola do projeto divino de justiça e de paz no mundo. Essa vocação é expressa pelo termo grego “sínodo” (caminhar juntos). Há algumas décadas, quando surgiu a teologia da libertação e alguns bispos e padres conservadores afirmavam que a Igreja não é uma democracia, Dom Pedro Casaldáliga, então bispo de São Félix do Araguaia, respondia: “Absolutamente de acordo. A Igreja não pode ser apenas uma democracia. Ela tem de ser muito mais. Deve ser e se mostrar como comunhão”.   

Infelizmente, durante séculos, as Igrejas cristãs adotaram modelos de organização vindos da cultura dominante na época. O papa se tornou chefe de Estado e era sempre visto como o pontífice reinante e os bispos, príncipes da Igreja. Desde que foi eleito no dia 13 de março de 2013, Francisco optou por se apresentar como bispo de Roma e tem sempre proposto uma Igreja descentralizada e em diálogo com a humanidade, diálogo que há mais de 50 anos, o papa João XXIII começou e depois dele, não teve mais continuidade. Agora, o papa Francisco o retoma e propõe uma Igreja voltada para o mundo e a serviço dos mais pobres. Uma Igreja sinodal que caminhe junto com a humanidade. Mesmo os ritos religiosos e a espiritualidade devem ser profundamente penetrados por essa mística do diálogo e da busca de comunhão. E a profecia e os sinais de contradição devem ser vividos em relação às estruturas injustas e excludentes da sociedade e não contra as pessoas. O atual sínodo dos bispos durará três semanas, mas o mais importante de tudo é que ele recoloque a Igreja em um processo de sínodo permanente e não somente de bispos  e sim de todas as pessoas que quiserem participar desse caminho. Como escreve o anjo do Apocalipse: “Quem tiver ouvidos, escute o que o Espírito diz hoje às Igrejas” (Ap 2, 5).

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.  


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