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sábado, 6 de agosto de 2022

A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir

 


Prof. Martinho Condini

Caras amigas e amigos!

 

Quando achamos que todo o Brasil está contaminado pela herança maldita dessa carniça de presidência e seu repugnante governo, somos surpreendidos positivamente com trabalhos realizados por esse Brasilzão. Isso nos dá alento para lutar por um país melhor. E também perceber que somos constituídos em sua maioria por um povo que tem muita vontade em colaborar na construção de uma sociedade plena e digna. E um dos caminhos para essa construção é a educação, mas não qualquer educação, mas uma educação libertadora.

 

Estou dizendo isso porque tive a oportunidade de presenciar dias atrás, uma das experiências mais significativas e incríveis em minha vida como educador, e olha que são mais de trinta anos trabalhando com educação.

Essa grata surpresa quem me proporcionou foi a acolhedora cidade de Palmas de Monte Alto, no sudoeste da Bahia, por meio de dois projetos: “Escola em Tempo Integral” e “Profeintegral”, que estão sendo implantados pela prefeitura e a secretaria da educação do município, que possui uma equipe incrível de trabalho, muito competentes e comprometidos, secretária da educação, toda a equipe da secretaria,  gestoras, gestores, coordenadoras, coordenadores, educadoras e educadores, esses para mim, os mais importantes desse processo. Este audacioso projeto tem os educandos e educadores como os principais sujeitos a serem beneficiados, ambos em suas formações de maneira integral, por meio de ações pontuais, coletivas e dialogadas. Aos educadores a capacitação e para os estudantes a formação. 

Parafraseando o grande educador, escritor e poeta Rubem Alves, eu digo que ao chegar em Palmas de Monte Alto, eu vi a “A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir”, digo isso, porque é um projeto em andamento, sendo construído por toda a comunidade escolar.

No meu ponto de vista, para os padrões econômicos e financeiros de Palmas de Monte Alto, desenvolver um projeto como esse, é algo surpreendente, encantador, é de encher os nossos olhos d’água e o coração de esperançar e acreditar, sim, que a “utopia possível” é algo atingível quando se pensa de maneira homogênea e com o intuito de alcançar um ideal coletivo.

É claro que no processo há dificuldades e desafios, mas esses serão superados na luta diária e com muita coragem, e isso não falta para as educadoras e educadores de Palmas de Monte Alto.

O que vi lá, foram escolas muito bem cuidadas com toda a infraestrutura que as crianças precisam desde a creche até o ensino médio. Nesta Escola em Tempo integral os estudantes fazem três refeições ao dia, há o acompanhamento de nutricionistas, psicólogos e fonoaudiólogos. Há escolas que possuem hortas. Desenvolve-se projetos de formação musical e esportes.

No período da manhã os estudantes têm as disciplinas do núcleo comum e a tarde estão sendo instituídos e aprimorados o desenvolvimento de projetos, escolhidos por eles, que terão a autonomia para desenvolve-los, com a orientação de um educador ou educadora das áreas afins ao projeto escolhido. Isso significa para o estudante pertencimento e autonomia no processo de ensino aprendizagem. Está escola está proporcionando a esses estudantes construir o seu conhecimento libertador e não “bancário”, relembrando o mestre Paulo Freire.  

A maneira que Palmas de Monte Alto encontrou para dar melhor qualidade de vida aos seus filhos foi investindo num projeto arrojado em Educação em Tempo Integral que possibilitará a cristalização cidadã de suas crianças, jovens e adultos e uma formação humana e intelectual para a vida e vida em abundância.

 Estou plenamente convencido que este grande projeto está sendo e será ainda mais um divisor de águas para todas e todos os habitantes de Palmas de Monte Alto, porque o investimento na educação traz benefícios para toda a coletividade.

Boa sorte e ninguém solta a mão de ninguém.      

 

 

 

  

 

 

 

sábado, 9 de julho de 2022

A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir

 



Prof. Martinho Condini

Caras amigas e amigos!

 

Quando achamos que todo o Brasil está contaminado pela herança maldita dessa carniça de presidência e seu repugnante governo, somos surpreendidos positivamente com trabalhos realizados por esse Brasilzão. Isso nos dá alento para lutar por um país melhor. E também perceber que somos constituídos em sua maioria por um povo que tem muita vontade em colaborar na construção de uma sociedade plena e digna. E um dos caminhos para essa construção é a educação, mas não qualquer educação, mas uma educação libertadora.

 

Estou dizendo isso porque tive a oportunidade de presenciar dias atrás, uma das experiências mais significativas e incríveis em minha vida como educador, e olha que são mais de trinta anos trabalhando com educação.

Essa grata surpresa quem me proporcionou foi a acolhedora cidade de Palmas de Monte Alto, no sudoeste da Bahia, por meio de dois projetos: “Escola em Tempo Integral” e “Profeintegral”, que estão sendo implantados pela prefeitura e a secretaria da educação do município, que possui uma equipe incrível de trabalho, muito competentes e comprometidos, secretária da educação, toda a equipe da secretaria,  gestoras, gestores, coordenadoras, coordenadores, educadoras e educadores, esses para mim, os mais importantes desse processo. Este audacioso projeto tem os educandos e educadores como os principais sujeitos a serem beneficiados, ambos em suas formações de maneira integral, por meio de ações pontuais, coletivas e dialogadas. Aos educadores a capacitação e para os estudantes a formação. 

Parafraseando o grande educador, escritor e poeta Rubem Alves, eu digo que ao chegar em Palmas de Monte Alto, eu vi a “A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir”, digo isso, porque é um projeto em andamento, sendo construído por toda a comunidade escolar.

No meu ponto de vista, para os padrões econômicos e financeiros de Palmas de Monte Alto, desenvolver um projeto como esse, é algo surpreendente, encantador, é de encher os nossos olhos d’água e o coração de esperançar e acreditar, sim, que a “utopia possível” é algo atingível quando se pensa de maneira homogênea e com o intuito de alcançar um ideal coletivo.

É claro que no processo há dificuldades e desafios, mas esses serão superados na luta diária e com muita coragem, e isso não falta para as educadoras e educadores de Palmas de Monte Alto.

O que vi lá, foram escolas muito bem cuidadas com toda a infraestrutura que as crianças precisam desde a creche até o ensino médio. Nesta Escola em Tempo integral os estudantes fazem três refeições ao dia, há o acompanhamento de nutricionistas, psicólogos e fonoaudiólogos. Há escolas que possuem hortas. Desenvolve-se projetos de formação musical e esportes.

No período da manhã os estudantes têm as disciplinas do núcleo comum e a tarde estão sendo instituídos e aprimorados o desenvolvimento de projetos, escolhidos por eles, que terão a autonomia para desenvolve-los, com a orientação de um educador ou educadora das áreas afins ao projeto escolhido. Isso significa para o estudante pertencimento e autonomia no processo de ensino aprendizagem. Está escola está proporcionando a esses estudantes construir o seu conhecimento libertador e não “bancário”, relembrando o mestre Paulo Freire.  

A maneira que Palmas de Monte Alto encontrou para dar melhor qualidade de vida aos seus filhos foi investindo num projeto arrojado em Educação em Tempo Integral que possibilitará a cristalização cidadã de suas crianças, jovens e adultos e uma formação humana e intelectual para a vida e vida em abundância.

 Estou plenamente convencido que este grande projeto está sendo e será ainda mais um divisor de águas para todas e todos os habitantes de Palmas de Monte Alto, porque o investimento na educação traz benefícios para toda a coletividade.

Boa sorte e ninguém solta a mão de ninguém.      

 

 

 

   

 

 

 

sábado, 30 de outubro de 2021

Se a escola não for democrática, vai educar como?

 Prof. Martinho Condini


 

 Acredito que essa pergunta possibilita a reflexão de muitos gestores, gestoras, professoras, professores, alunas, alunos, pais e mães envolvidos na comunidade escolar.

A pandemia nos provou que a democracia passa muito longe das nossas escolas públicas. (às escolas privadas tem dono e cada um deles toca a banda e afinam os instrumentos da maneira que os agradam).

Durante a pandemia quantos jovens ficaram sem acesso às aulas por não terem recursos tecnológicos para assistir as aulas, e mesmo que alguns tivessem precários recursos, faltaram a eles o essencial no processo de ensinagem e aprendizagem, a relação humana, a ausência da amorosidade e a dialogicidade tão fundamentais para a construção da cidadania e do conhecimento.  

Mas quando me refiro à ausência de escolas democráticas, me refiro a democracia social e racial e a igualdade de oportunidade para todos na escola.

 Esta semana saiu uma pesquisa publicada no jornal a Folha de São Paulo sobre o racismo e preconceito nas escolas. 

Preconceito e Racismo, por serem estruturais em nossa cultura estão ainda muito presentes no ambiente escolar. E quando digo estrutural, significa que eles são construídos em outros espaços como a família e a religião. E a escola como espaço laico e público tem a obrigação e o dever de trabalhar essas questões a fundo, até a exaustão.  

Não podemos nos esquecer que a supremacia branca, os valores judaico-cristãos e o espírito capitalista sempre estiveram presentes na formação da nossa cultura e carregam consigo valores preconceituosos e raciais que ao longo da nossa história foram transmitidos pela escola.   

Escola pra que se ela não está dando conta de fazer as principais discussões que aflige a nossa sociedade no que tange os preconceitos e os racismos?

 É inadmissível que se possibilite manifestações de preconceito e racismo numa escola.

Isso nos aponta para um norte, a principal função da escola é formar seres humanos, humanistas na melhor concepção da palavra, em primeiro lugar.

A escola que não se importa com a formação humana, não tem comprometimento com os seres humanos e com o planeta.  

Para que isso ocorra a escola deve ser forjada nos princípios éticos e morais universais que sustentam a verdadeira democracia, isto é,  o direito de todas e todos que nela estão inseridos falarem o que pensam e serem respeitados como sujeitos da história que são.  Uma escola que não permita o diálogo, a reflexão, o debate, a discussão construtiva, a transformação e a libertação daquele que a freqüenta esta fadada ao fracasso e a inutilidade.

Sabemos que por esse Brasil a fora temos maravilhosos exemplos de práticas democráticas em instituições de ensino públicas, a custo de muito trabalho e muita luta de professoras e professores progressistas comprometidos com a liberdade e respeito a dignidade humana acima de tudo. Os tempos são difíceis e sombrios não se pode esmorecer, e como diz o ditado popular, não podemos dar sopa para o azar. 

 O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com 

sábado, 18 de julho de 2020

PAULO FREIRE EM TEMPOS DE NEOCONSERVADORISMO[1], NOTÍCIAS FALSAS E ESCOLA SEM PARTIDO



por Prof. Dr. Martinho Condini 
 

[Este artigo é uma adaptação do texto que foi publicado no capítulo 30 do livro Paulo Freire em Tempos de Fake News [livro  eletrônico]/ Paulo Roberto Padilha...[Et  al.] organizadores – São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2019. p.196 a  p.199].

 

               Expurgar Paulo Freire da Educação Brasileira”, “Anular o decreto lei que instituiu o título de ‘Patrono da Educação Brasileira’ a Paulo Freire”, ambas notícias são verdadeiras que estão juntas e misturadas a outras milhares de notícias falsas que fazem parte de um contexto neoconservador que assolam nossa sociedade e nosso país.

Essa avalanche de notícias falsas compõem um arcabouço para desqualificar Paulo Freire, o homem, sua obra e sua prática. Por isso, o tema ‘Paulo Freire em Tempos de Neoconservadorismo: Notícias Falsas e Escola Sem Partido’ ser pertinente, instigante e provocador. No entanto, podemos pensar várias possibilidades de reflexão e relação entre Paulo Freire, notícias falsas, neo conservadorismo e Escola Sem Partido.

Uma dessas possibilidades é a questão da prospectividade no pensamento e prática de Paulo Freire, como bem já mencionou o Prof. Scocuglia , “Paulo Freire é um dos mais importantes educadores do século XX, com pensamento absolutamente atual e prospectivo”. (SCOCUGLIA, In: Instituto Paulo Freire, 2019. Videoaula 3/16.)

Alguém poderia fazer o seguinte questionamento: na época de Paulo Freire não tínhamos a prática desse fenômeno social que aflige milhares de pessoas, denominado notícias falsas? Com certeza, havia sim, com a denominação de informações mentirosas ou fofocas. A constatação dessa afirmação, se justifica por meio das falas e atitudes dos militares e seus apoiadores do golpe militar de 1964 que exilaram Paulo Freire por dezesseis anos, até 1980.

É importante destacar que no período pré exílio e pós exílio, havia no pensamento e na prática freireana[2] aspectos fundantes  sendo colocados em prática, que atualmente,  contribuiria, ou melhor, contribuirá e muito, para o combate a essa maneira grotesca, intolerante e preconceituosa das pessoas se relacionarem nas redes sociais e fora dela, nas escolas e fora delas, que são as notícias falsas. Vamos destacar algumas delas nesse artigo.

Alguns aspectos fundantes na perspectiva freireana, contribuem para combater a divulgação e expansão de notícias falsas, sobre Paulo Freire ou não, por exemplo a apropriação do conhecimento para a libertação das pessoas, algo significativo para que consigamos discernir uma notícia verdadeira de uma notícia falsa.

Um segundo aspecto é como o processo educativo deverá envolver as pessoas a partir de uma perspectiva dialógica construtivista, para que as mesmas tenham recursos para contestar possíveis manifestações de preconceito ou falsas informações sobre Paulo Freire, sua prática e sua obra.

Um terceiro aspecto está relacionado ao pensamento político pedagógico freireano que tem como espinha dorsal a inerência entre educação e política. Possibilitando-nos um entendimento mais amplo do contexto político pelo qual estamos passando para poder então transformá-lo.

         E um quarto e último aspecto é a dialogicidade como elemento esclarecedor, sobre coisas que Paulo Freire jamais mencionou ou escreveu  (notícias falsas).  A dialogicidade no caso das notícias falsas ganha uma dimensão importantíssima, porque sem o diálogo não será possível chegar a verdadeira informação, então chegamos naquele impasse do “dito pelo não dito”, e todos nós sabermos a força que tem um boato. Por isso seja tão importante no processo ensino aprendizagem dizer sempre a verdade. Dizendo a verdade, significa que educador e educando estarão sempre do lado certo.

          Atrelado a esse contexto social e político nacional de expansão do neoconservadorismo, há um alvo específico a ser atingido: o processo educacional e as escolas. Nos últimos quatro anos – de 2016 a 2019, alas conservadoras da nossa sociedade e do congresso nacional, também conhecidos como a bancada do “Boi, da Bala e da Bíblia ou ‘BBB’”[3] , adeptos da educação conteudista, bancária e de resultados, constroem caminhos tortuosos onde surgem conceitos, preconceitos, juízos e falsos juízos sobre Paulo Freire, sua obra e sua prática. Chegou-se ao absurdo de mencionarem que o fracasso escolar brasileiro ocorre por causa das práticas educacionais freireanas desenvolvidas nas escolas brasileiras.

A partir do pressuposto acima foi estabelecido pela extrema-direita e neoconservadores no congresso nacional brasileiro uma agenda parlamentar, com o intuito de aprovar o projeto Escola Sem Partido, que não obtiveram ainda na aprovação de suas propostas, graças à resistência das alas progressistas do congresso nacional, apoiados pelos  setores mais engajados na educação brasileira, educadoras e educadores freireanas e freireanos espalhados pelo nosso país.   

No projeto Escola Sem Partido, uma de suas intenções é calar as escolas, e escolas caladas, não têm razão de existir. A função primordial da educação e da escola é propiciar a seus educandos a dialogicidade, a criticidade, a politicidade, a fim de que conquistem a sua libertação. Por isso, é de suma importância que educadoras e educadores freireanos ou não, estejam atentos a essas novas configurações educacionais que pretendem impor ao processo de ensino aprendizagem, a proposta de uma ‘Educação Bancária’ em detrimento de uma ‘Educação libertadora’, onde não haja a prática do dialogar, do debater e de não se fazer a leitura de mundo sobre diferentes perspectivas, onde os educandos possam ver o mundo e se ver no mundo, condição sine qua nom para os seus processos de transformação.

          Uma das principais engrenagens para o êxito da Escola Sem Partido é impedir que educadoras e educadores eduquem seus alunos com consciência crítica, que não conheçam o pensamento de educadores como Anísio Teixeira, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Rubem Alves e o patrono da educação brasileira, Paulo Freire. 

No atual contexto a ética freiriana adquire um papel importantíssimo, porque mais do que nunca temos um grande desafio,  mostrar aos nossos educandos que educar é dizer sempre a verdade, dizerem suas palavras e que estabeleçam os seus lugares de fala. Essa é a maneira de combatermos as notícias falsas dentro e fora da escola, utilizando a ‘Pedagogia da Verdade’, a ‘Pedagogia da Indignação’, afinal de contas o processo de formação se dá em todos os lugares e espaços sociais como afirmava o mestre Paulo Freire.

Diante do descrito creio que essa trilogia - o neo conservadorismo, a ação orquestrada de notícias falsas, não só em relação a Paulo Freire, mas a tudo e todos que estejam relacionados aos movimentos sociais ou as minorias sociais, e a Escola Sem Partido – tem como objetivo impossibilitar que a sociedade civil organizada ou representada ou não por instituições não governamentais ou não e entidades de classe progressistas possam lutar pelo direito ao trabalho e à proteção as leis trabalhistas, direito a uma aposentadoria justa, direito a moradia e à terra, direito à  educação, à saúde e a cultura; direito aos jovens de serem protagonistas da sua história, direito dos negros, dos indígenas, da população LGBT, das mulheres, direito de todos se manifestarem independente de raça, gênero, cor e religião sem serem reprimidos.  

Concluindo, quero relembrar o mestre Paulo Freire, onde em uma de suas falas ele mencionou a alegria e satisfação de pensar na retomada das marchas como instrumento de luta, acredito que é chegada a hora de retornarmos às ruas em prol de uma educação libertadora que possibilite a construção de um país justo e digno para todos.       

 

Referências

A ideologia do movimento Escola Sem Partido: 20 autores desmontam o discurso. Ação Educativa Assessoria, Pesquisa e Informação (Org.). São Paulo: Ação Educativa, 2016.

 

INSTITUTO PAULO FREIRE. A noção de fake news, pós-verdade e as contribuições de Freire à educação. Docente Moacir Gadotti. Curso Paulo Freire em tempos de fake news: atualidade, metodologias e práticas. Produção EaD Freiriana, São Paulo: Coordenação Geral: Paulo Roberto Padilha, 2019. Video aula 1/16 (22:33 minutos).

 

INSTITUTO PAULO FREIRE. Educomunicação: uma herança dialógica freiriana.  Docente Ismar Soares. Curso Paulo Freire em tempos de fake news: atualidade, metodologias e práticas. Produção EaD Freiriana, São Paulo: Coordenação Geral: Paulo Roberto Padilha, 2019. Video aula 3/16 (22:46 minutos).

INSTITUTO PAULO FREIRE. As bases e as conexões do pensamento político pedagógico de Paulo Freire. Docente Afonso Celso Scocuglia.Paulo Freire em tempos de fake news: atualidade, metodologias e práticas. Produção EaD Freiriana, São Paulo: Coordenação Geral: Paulo Roberto Padilha, 2019. Video aula 3/16 (22:46 minutos).

 STRECK, Danilo R. REDIN Euclides. Zitkoski (orgs). Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte: Autêntica Editora,2008. 8º]

 

 

 

 

 

 



[1]No Brasil, a extrema-direita e o neoconservadorismo lutam contra o comunismo e o antagonismo às minorias, num país onde nunca teve um governo comunista, ou mesmo esteve sob a ameaça efetiva de um levante “vermelho”. Ressuscitam o discurso sobre a necessidade de combater os “ativismos”, que teriam hegemonizado as universidades por meio do “marxismo cultural” que seriam responsáveis pela degradação dos valores da verdadeira nação brasileira. O seu nacionalismo populista é neoliberal e cosmopolita, pretendendo preterir as indústrias, o emprego nacional e uma educação libertadora pelo regresso as relações econômicas norte-sul uma educação bancária e a um papel de clara subserviência aos interesses dos EUA. O neoconservadorismo brasileiro é ultraliberal, neopentecostal, homofóbico, racista, sexista, reacionário e militarista, aspectos esses presentes na estrutura do atual governo brasileiro.

 

[2] A utilização dos termos freireana ou freireano, é uma opção e preferência do autor, para ele os termos freireana ou freireano escritos com a letra e fortalecem o sobrenome Freire.   

 

[3] Parlamentares do Congresso Nacional, deputados federais e senadores representantes dos ruralistas, militares e as alas conservadoras da igreja católica e das igrejas neo pentecostais.


   O texto: Prof. Martinho Condini. Mestre em Ciências da Religião e doutor em Educacao ambos pela PUCSP. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara. Publicou pela Paulus Editora ' Dom Helder Camara um modelo de Esperança, ' Helder Camara um Nordesino Cidadão do Mundo', ' Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o dvd ' Educar para a Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire'.


quinta-feira, 28 de novembro de 2019

ESCOLA COMPARTIDA





Frei Betto

         Eis aqui um exemplo de Escola Compartida, democrática, oposta à proposta de Escola sem Partido.

         Confirmada a vitória de Bolsonaro em 29 de outubro de 2018, estudantes de Porto Alegre, alunos de uma escola pública (Aplicação) e três particulares (Marista Rosário, Bom Conselho e Santa Inês) promoveram manifestações contrárias ao eleito. Exibiram faixas com as cores LGBT+ e bradaram: “Seremos resistência!”

         No Marista, outro grupo revidou vestido de verde e amarelo, empunhando a bandeira do Brasil e gritando “Mito” e “Fora PT”.

         Pais bolsonaristas protestaram junto à direção das escolas e exigiram a expulsão dos manifestantes insatisfeitos com o resultado da eleição. O Marista esclareceu que a manifestação “foi espontânea e voluntária” e defendeu a liberdade de expressão: “Salientamos a importância de diálogo para a discussão sobre a promoção e a defesa dos direitos, fortalecendo a nossa missão de formar cidadãos comprometidos com a promoção da vida e da cultura de paz.”

         O Aplicação emitiu comunicado “em defesa da liberdade de expressão, e considera o ambiente escolar e universitário como um lugar plural, de discussão e pensamento crítico.” Os outros dois colégios se posicionaram na mesma linha, ressaltando a isenção partidária.

         O protesto dos jovens fez surgir, na capital gaúcha, a Associação Mães & Pais pela Democracia, suprapartidária, que acaba de lançar o livro “Educação com amor e liberdade – ensaios sobre maternidade, paternidade e política” (Tomo Editorial), organizado por Aline Kerber, socióloga especialista em segurança pública.

         Os depoimentos reunidos são impactantes pelo modo como mães e pais, todos profissionais liberais com graduação universitária, declaram que anseiam ver seus filhos, quando adultos, livres de preconceitos e atitudes discriminatórias. Descrevem o que significa ser pai e mãe nessa conjuntura na qual ainda vigoram o racismo, o trabalho infantil, a perseguição ideológica e as tentativas de impor nas escolas o pensamento único contrário aos direitos humanos.

         O movimento Mães e Pais pela Democracia reage contra os pais que, à porta das escolas e pelas redes digitais, defendem o medo, a educação acrítica, e até mesmo absurda, quando abraçam a hipótese de que “a Terra é plana”, e consideram a educação escolar mera mercadoria pela qual pagam e, portanto, se sentem no direito de tratar os professores como seus empregados.

         Sublinha Diana Corso no prefácio, “como todos os ideais, a capacidade de ser democráticos se demonstra na prática: nossos filhos não se pautam pelo que dizemos, eles se formam a partir do que observam que realmente fazemos.”

         Na Escola Compartida ou Compartilhada, pais, professores, alunos e funcionários se empenham na formação, não apenas de profissionais qualificados para o mercado de trabalho, mas, sobretudo, de cidadãos dotados de consciência crítica e responsabilidade social.

         O Brasil precisa exorcizar, urgentemente, sua herança escravagista, que faz o patrão se julgar dono do funcionário; o doutor se considerar melhor que o analfabeto; o político mirar os eleitores como mera massa de manobra. Não há ninguém mais culto do que outro. Existem culturas distintas e socialmente complementares. O juiz é mais culto do que a cozinheira analfabeta? Faça-se a pergunta: quem pode prescindir da cultura do outro? É um engodo confundir escolaridade com cultura. Grandes atrocidades foram cometidas por pós-doutorados, como as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

         Sem base ética e liberdade de expressão, a educação se torna mero adestramento para fomentar, na expressão de La Boétie, a “servidão voluntária”, o que será agravado com essa nova medida do governo Bolsonaro de criar um canal para receber denúncias contra professores. Eis o Ministério da Deseducação.

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros.
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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

ESCOLA SEM PARTIDO – DEVERES DETALHADOS





Frei Betto

      
      O projeto de lei (PL 7180/14) conhecido como Escola Sem Partido propõe adicionar à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional afixar em salas de aula esta lista de seis deveres do professor:

      1)“O professor não se aproveitará da audiência cativa dos alunos para promover os seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias.”

      Entenda-se: o professor não deve criar expectativa de “audiência cativa” na sala de aula. A balbúrdia, a anarquia e a bagunça generalizadas são sinais de boa pedagogia, contrária à ideia de que alunos são cativos e, portanto, escravos. 

      Convém ao professor, para evitar “promover os seus próprios interesses”, não ter opiniões, concepções, nem preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias. Assim, recomenda-se às escolas manter um corpo docente de amebas.

      2) “Não favorecerá nem prejudicará ou constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas.“

      Entenda-se: é vetado o acesso à sala de aula de professores que tenham qualquer espécie de convicção ou não tenha nenhuma (a “falta delas”). Cabe à escola encontrar docentes anódinos e invertebrados, desprovidos de qualquer convicção.

      3) “Não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.”

      Entenda-se: o professor deve ensinar que a política é uma atividade danosa e os partidos, nefastos. E apontar como traidores da pátria, arruaceiros e vândalos todos que participaram de manifestações, atos políticos e passeatas, como Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Frei Caneca, Gandhi, Mandela, Luther King, a jovem Malala, Chico Mendes e Marielle Franco, entre outros.

      4) “Ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa – isto é, com a mesma profundidade e seriedade -, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito da matéria.”

      Entenda-se: cabe ao professor ser isento. Exemplo: ao tratar da atual economia do Brasil, deverá destacar as principais versões, a dos analistas da mídia, que ressaltam o aumento da pobreza, da violência e da inflação, o recuo do PIB e a disparada do desemprego. E também a versão do governo, de que não há pessoas jogadas pelas calçadas, a violência e a inflação estão sob controle, o PIB volta a crescer, bem como a abertura de novos postos de trabalho. 

      5) “Respeitará o direito dos pais dos alunos a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções.”

      Em respeito ao direito de educação dos pais, os professores devem manter estrito silêncio quando um aluno bradar em classe “Viva Stálin!” e outro revidar “Viva Hitler!”. Também não poderá impedir que alunos advoguem a submissão da mulher ao homem e a intolerância religiosa.

      6) “Não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de estudantes ou terceiros dentro da sala de aula.”

      Entenda-se: esse samba da pedagogia maluca deve soar em alto e bom som na sala de aula, de modo a formar alunos destituídos de consciência crítica, espírito de cidadania e atuação solidária.

Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto – autobiografia escolar” (Ática), entre outros livros. 
  
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quinta-feira, 21 de julho de 2016

ESCOLA SEM PARTIDO?

por Frei Betto



      Nada mais tendencioso do que o Movimento Escola Sem Partido. Basta dizer que um de seus propagadores é o ator de filmes pornô Alexandre Frota. O movimento acusa as escolas de abrir espaços a professores esquerdistas que doutrinam ideologicamente os alunos.

      Uma das falácias da direita é professar a ideologia de que ela não tem ideologia. E a de seus opositores deve ser rechaçada. O que é ideologia? É o óculos que temos atrás dos olhos. Ao encarar a realidade, não vejo meus próprios óculos, mas são eles que me permitem enxergá-la. A ideologia é esse conjunto de ideias incutidas em nossa cabeça e que fundamentam nossos valores e motivam nossas atitudes.

      Essas ideias não caem do céu. Derivam do contexto social e histórico no qual se vive. Esse contexto é forjado por tradições, valores familiares, princípios religiosos, meios de comunicação e cultura vigente.

      Não há ninguém sem ideologia. Há quem se julgue como tal, assim como Eduardo Cunha se considera acima de qualquer suspeita. Como ninguém é juiz de si mesmo, até a minha avó de 102 anos tem ideologia. Basta perguntar-lhe o que acha da vida, da globalização, dos escravos, dos homossexuais etc. A resposta será a ideologia que rege sua visão de mundo.

      A proposta da Escola Sem Partido é impedir que os professores eduquem seus alunos com consciência crítica. É trocar Anísio Teixeira, Lauro de Oliveira Lima, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Rubem Alves por Cesare Lombroso e Ugo Cerletto.

      Ninguém defende uma escola partidária na qual, por exemplo, todos os professores comprovem ser simpatizantes ou filiados ao PT. Mesmo nessa hipótese haveria pluralidade, já que o PT é um saco de tendências ideológicas que reúne ardorosos defensores do agronegócio e esquerdistas que propõem a estatização de todas as instituições da sociedade.

      Não faz sentido a escola se aliar a um partido político. Muito menos fingir que não existe disputa partidária, um dos pilares da democracia.

      Em outubro, teremos eleições municipais. Deve a escola ignorá-las ou convidar representantes e candidatos de diferentes partidos para debater com os alunos? O que é mais educativo? Formar jovens alheios à política ou comprometidos com as lutas sociais por um mundo melhor?

      Na verdade, muitos “sem partido” são partidários de ensinar que nascemos todos de Adão e Eva; homossexualidade é doença e pecado (e tem cura!); identidades de gênero é teoria promíscua; e o capitalismo é o melhor dos mundos.

      Enfim, é a velha artimanha da direita: já que não convém mudar a realidade, pode-se acobertá-la com palavras. E que não se saiba que desigualdade social decorre da opressão sistêmica; a riqueza, do empobrecimento alheio; a homofobia, do machismo exacerbado; a leitura fundamentalista da Bíblia da miopia que lê o texto fora do contexto.

      Recomenda-se aos professores de português e literatura da Escola Sem Partido omitirem que Adolfo Caminha publicou, em 1985, no Brasil, Bom crioulo, o primeiro romance gay da história da literatura ocidental; proibirem a leitura dos contos D. Benedita e Pílades e Orestes, de Machado de Assis; e evitar qualquer debate sobre os personagens de Dom Casmurro, pois alguns alunos podem deduzir que Bentinho estava mais apaixonado por Escobar do que por Capitu.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial Hotel Brasil (Rocco), entre outros livros.


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