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quinta-feira, 26 de maio de 2022

VAI TER GOLPE?

 


Frei Betto

 

      Meu pai lutou contra a ditadura de Vargas. Esteve preso e assinou o “Manifesto dos Mineiros”, estopim político que detonou o regime de terror implantado pelo caudilho.

      Meu pai, em 1945, acreditou que nunca mais o Brasil seria governado por outra ditadura. A democracia havia recuperado fôlego.

      Em 1962, troquei Belo Horizonte pelo Rio, disposto a me dedicar à política estudantil em âmbito nacional. Jânio Quadros havia sido eleito presidente da República em 1961 e renunciado oito meses depois. Houve breve período de instabilidade política. A Constituição, entretanto, prevaleceu, e João Goulart, vice de Jânio, tomou posse.

      Como candidato, Jânio visitou Cuba em março de 1960 e, poucos dias antes de renunciar, condecorou Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a principal comenda da República. Para os setores conservadores, era mais um sinal de que o país se deslocava da órbita dos EUA para a comunista. De fato, não eram os países socialistas que atraíam o governo de Jango. Era a coalizão dos Não Alinhados que congregava 115 países decididos a ficarem distantes das grandes potências. 

      Tal independência, contudo, foi encarada pela Casa Branca como alinhamento ao comunismo. Na polarização da Guerra Fria entre EUA e a União Soviética, Tio Sam não admitia neutralidade.

      Na política interna, Jango apregoava o óbvio: promover reformas de base, como a agrária, tão necessárias ao Brasil ainda hoje. Movimentos sociais, como as Ligas Camponesas, davam respaldo às intenções do governo. 

      Diante das mobilizações de apoio à política reformista de Jango, a direita brasileira, monitorada pela CIA, como hoje comprovam documentos oficiais, desencadeou articulações para impedir que as estruturas anacrônicas do país, tão convenientes aos interesses dos EUA e à elite agroindustrial, fossem alteradas. O fantasma do comunismo ocupou as manchetes da mídia. Entidades foram fundadas para aglutinar as forças de direita, como o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Havia cheiro de golpe no ar...

      As forças progressistas, no entanto, não tiveram suficiente olfato para captá-lo. Acreditavam que as mobilizações populares, comandadas pela UNE (União Nacional dos Estudantes), a CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) e os partidos progressistas e grupos de esquerda (PC, PCdoB, Ação Popular etc.) haveriam de conter qualquer aventura golpista.

      Líderes da esquerda garantiam que Jango estava firmemente respaldado por um fiel “esquema militar”. Tinha em mãos o controle da situação. Embora as ruas do país fossem ocupadas pelas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, encabeçadas por um sacerdote estadunidense remetido pela CIA ao Brasil, a democracia não sofria ameaça. Oito anos de ditadura de Vargas (1937-1945) haviam imunizado o país do vírus golpista.

      O dilúvio desabou em 1º de abril de 1964. Sem disparar um único tiro, as Forças Armadas derrubaram o governo constitucionalmente eleito, rasgaram a Constituição e disseminaram o regime de terror que cassou políticos e lideranças sociais, prendeu, torturou, assassinou, fez desaparecer e/ou baniu do país militantes de movimentos populares, pastorais, sindicais e políticos. O regime de trevas durou 21 anos!

      Hoje, o Brasil é governado por um cúmplice das milícias que ostensiva e repetidamente ameaça a democracia e promete sabotar as eleições presidenciais de outubro caso as urnas não lhe deem vitória. E, de novo, vozes se levantam em defesa da democracia e asseguram que ela está sólida. São vozes do Judiciário, do Legislativo, da grande mídia, e até de quem admite ter dado, em 2018, seu voto ao neofascista que ocupa o Planalto.

      Enquanto Carolina, com seus olhos fundos,  vê a banda passar e guarda tanta dor, a defesa da democracia se sustenta, até agora, em mera retórica. “Eu já lhe expliquei que não vai dar / seu pranto não vai nada ajudar”, pois não há mobilizações populares. Não há ações efetivas do Judiciário, do Legislativo e dos movimentos sociais para acuar o presidente nos demarcados limites da Constituição. O tempo passa na janela e só Carolina não vê. Ninguém sabe o que pensam as Forças Armadas, exceto que não se queixam do “cala boca” de tantas mordomias asseguradas pelo capitão, que lhes abriu o cofre, encastelou milhares de militares nas estruturas de governo e convoca, altissonante, a população a se armar e desconfiar do processo eleitoral. 

      Carolina vai continuar na janela e fazer de conta que não vê? Quem garante, hoje, que Lula será eleito e, se eleito, tomará posse? 

      Frágil não é a democracia brasileira, e sim a nossa capacidade de, como povo, transformar a nossa indignação em mobilização. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

      

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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sábado, 30 de outubro de 2021

Se a escola não for democrática, vai educar como?

 Prof. Martinho Condini


 

 Acredito que essa pergunta possibilita a reflexão de muitos gestores, gestoras, professoras, professores, alunas, alunos, pais e mães envolvidos na comunidade escolar.

A pandemia nos provou que a democracia passa muito longe das nossas escolas públicas. (às escolas privadas tem dono e cada um deles toca a banda e afinam os instrumentos da maneira que os agradam).

Durante a pandemia quantos jovens ficaram sem acesso às aulas por não terem recursos tecnológicos para assistir as aulas, e mesmo que alguns tivessem precários recursos, faltaram a eles o essencial no processo de ensinagem e aprendizagem, a relação humana, a ausência da amorosidade e a dialogicidade tão fundamentais para a construção da cidadania e do conhecimento.  

Mas quando me refiro à ausência de escolas democráticas, me refiro a democracia social e racial e a igualdade de oportunidade para todos na escola.

 Esta semana saiu uma pesquisa publicada no jornal a Folha de São Paulo sobre o racismo e preconceito nas escolas. 

Preconceito e Racismo, por serem estruturais em nossa cultura estão ainda muito presentes no ambiente escolar. E quando digo estrutural, significa que eles são construídos em outros espaços como a família e a religião. E a escola como espaço laico e público tem a obrigação e o dever de trabalhar essas questões a fundo, até a exaustão.  

Não podemos nos esquecer que a supremacia branca, os valores judaico-cristãos e o espírito capitalista sempre estiveram presentes na formação da nossa cultura e carregam consigo valores preconceituosos e raciais que ao longo da nossa história foram transmitidos pela escola.   

Escola pra que se ela não está dando conta de fazer as principais discussões que aflige a nossa sociedade no que tange os preconceitos e os racismos?

 É inadmissível que se possibilite manifestações de preconceito e racismo numa escola.

Isso nos aponta para um norte, a principal função da escola é formar seres humanos, humanistas na melhor concepção da palavra, em primeiro lugar.

A escola que não se importa com a formação humana, não tem comprometimento com os seres humanos e com o planeta.  

Para que isso ocorra a escola deve ser forjada nos princípios éticos e morais universais que sustentam a verdadeira democracia, isto é,  o direito de todas e todos que nela estão inseridos falarem o que pensam e serem respeitados como sujeitos da história que são.  Uma escola que não permita o diálogo, a reflexão, o debate, a discussão construtiva, a transformação e a libertação daquele que a freqüenta esta fadada ao fracasso e a inutilidade.

Sabemos que por esse Brasil a fora temos maravilhosos exemplos de práticas democráticas em instituições de ensino públicas, a custo de muito trabalho e muita luta de professoras e professores progressistas comprometidos com a liberdade e respeito a dignidade humana acima de tudo. Os tempos são difíceis e sombrios não se pode esmorecer, e como diz o ditado popular, não podemos dar sopa para o azar. 

 O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com