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segunda-feira, 18 de abril de 2022

FRANCISCO: ESTRATÉGIA DA IGREJA E DO REINO DE DEUS

                                                           Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            O Papa Francisco tem demonstrado muitas qualidades e virtudes ao longo de seus nove anos de pontificado. Diferentes pessoas e instâncias têm apreciado e elogiado publicamente sua sensibilidade humana e pastoral, sua inteligência que responde prontamente às perguntas difíceis ou mesmo insidiosas de jornalistas e curiosos, sua capacidade de pensar de forma ampla e grande os problemas do mundo e as crises pelas quais passa a humanidade neste século XXI. 

            Sob sua liderança, a Igreja Católica – que ele sempre desejou “em saída” – ultrapassou realmente o nível eclesiástico como único fórum de diálogo e ganhou as praças, as ruas, os espaços acadêmicos, as instituições seculares.  Enfim, por todo o planeta, entre católicos e não católicos, crentes e não crentes, a figura de Francisco é respeitada e ouvida como única liderança positiva existente na atualidade. 

            Por outro lado, não são poucos igualmente os inimigos do Papa que, aberta ou em segredo, militam incansavelmente contra suas iniciativas.  Minam Francisco como pessoa, suas propostas, fazem movimentos que são obstáculos aos movimentos por ele iniciados, acusam-no infundadamente. E, sobretudo, adotam uma atitude de silêncio mal-intencionado, interpretado como macabra aposta que o Papa, agora com 84 anos, envelhece e seu pontificado não deve durar muito.  Nos bastidores correm nomes sobre seu possível sucessor. 

            No entanto, os detratores de Francisco fazem mal em não levar em conta uma das virtudes mais importantes do Papa: seu gênio estratégico.  Bergoglio é alguém que pensa e vê longe.  E age em consequência. Por isso, vem realizando desde o início de seu tempo à frente da igreja de Roma e como chefe da Igreja Católica uma reforma já iniciada com decisões pontuais e significativas. 

            É assim que a nomeação dos bispos com “cheiro de ovelha”, de perfil mais pastoral e mais próximos ao povo começa a ser visível e apresentar volume e espessura nas fileiras episcopais. Do mesmo modo, as nomeações de cargos importantes de coordenação e decisão dentro da cúria romana: de mulheres, leigos e outros segmentos representativos do povo de Deus, que até então permaneciam fora deste corpo que faz funcionar o cotidiano da Igreja Católica. 

            Criou também novos dicastérios, extinguindo outros ou reagrupando-os por afinidade.  Assim, foi promovendo um certo “enxugamento” de uma cúria que se encontrava pesada devido à existência de uma multiplicidade de organismos e setores para além de suas necessidades reais e, sobretudo, pastorais. Por trás da estratégia do pontífice pode-se vislumbrar o desejo de que uma cúria mais ágil e enxuta sirva melhor ao único propósito da existência da Igreja, qual seja, o de anunciar o Evangelho. 

            Como confirmação do que se diz acima, no último dia 19 de março, festa de São José, foi anunciada uma nova Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana e seu serviço à Igreja e ao mundo. A nova Constituição entrará em vigor a partir do domingo, 5 de junho, festa de Pentecostes. Seu título diz muito sobre o conteúdo e principalmente a respeito da intenção e objetivo com os quais é promulgada:  Praedicate evangelium.  

            O Papa não reforma a cúria apenas pelo desejo de reformá-la ou mesmo para afastá-la do que fizeram seus predecessores.  Reforma-a para que  possa realizar melhor seu serviço por excelência, que é a pregação do Evangelho, o anúncio da Boa Notícia de Jesus Cristo ao mundo de hoje. E a festa de Pentecostes é escolhida propositalmente para a entrada em vigor dessa reforma tão esperada e por fim realizada: é a festa da liberdade e da abertura universal.  A festa na qual o Espírito, como artífice da linguagem total, quebra as barreiras linguísticas e semânticas, rompe as barreiras das diferenças e abre ouvidos e línguas ao diálogo e ao entendimento.

            Uma cúria pesada e carregada de excessivas estruturas não ajuda a esse diálogo que Francisco vem tentando incansavelmente realizar.  Uma cúria reformada, mais enxuta e mais leve, seguramente será um instrumento poderoso para abrir caminhos e corações na direção de mais vida para todos, construindo uma fraternidade universal onde todos os seres vivos possam chegar à vida em plenitude.

            É hora de aplaudir e louvar o pontífice por sua estratégia que não recua diante de nada que possa ajudar a Igreja a realizar o sonho de Jesus: o Reino de paz, justiça e amor. 

Somos agradecidíssimos, Santo Padre.  Siga em frente e conte com nossa oração e nossa colaboração.  Amém. 

 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas Editora), entre outras obras.



 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

REINO DE DEUS E POLÍTICA: UMA REFLEXÃO






por Kinno Cerqueira [1]


O Brasil atravessa uma dupla crise: no contexto global, lida com os problemas de uma severa pandemia e no contexto nacional, com uma crise política de efeitos deletérios. Nesse cenário, erguem-se muitos discursos, dentre os quais ganham relevo os de natureza religiosa. Hoje, em particular, deparei-me com uma série de postagens nas quais se defende a tese de que Reino de Deus e política são realidades que não têm nada a ver uma com a outra. Uma dessas postagens, por exemplo, afirmava:
  
"A política não traz nenhum impacto no Reino de Deus, seja em nosso país ou em outro qualquer, lembre-se que Jesus disse: 'Meu Reino não é desse mundo'".
  
A adesão massiva à frase acima, atribuída a John MacArthur e compartilhada por milhares de pessoas, evidencia o quão deficiente são as formações cidadã e bíblica de significativa parcela do povo cristão. Sim, deficiência de formação, pois aí estão implícitas compreensões reducionistas sobre o significado básico de política e de Reino de Deus.
  
Política é uma palavra proveniente da língua grega, cujo significado é "a arte de viver em sociedade". Reino de Deus, por sua vez, é uma expressão que ocupou o centro da pregação de Jesus e significa, em linhas gerais, "a arte de viver em sociedade em fidelidade ao projeto divino de amor, justiça e solidariedade".

O modo como nos relacionamos em sociedade é política. Sermos solidários ou egoístas é uma opção política. Trabalharmos para fartar-nos de alimento e fecharmos os olhos diante de quem passa fome é uma decisão política. Sermos preconceituosos ou acolhedores é uma ação política. Agirmos com justiça ou desonestidade é uma decisão política. Devastarmos o meio ambiente ou protegê-lo é uma opção política. Numa só palavra: tudo quanto diz respeito às relações é política.

A sociedade é o resultado das opções políticas que fazemos. Jesus o sabia tão bem que, ao eleger um tema central para sua pregação, optou por Reino de Deus.
  
Na Bíblia, não há um conceito para Reino de Deus, pois Reino de Deus não é teoria nem doutrina. Reino de Deus é uma prática política oposta a todas as demais práticas políticas que rejeitam o amor, a justiça e a solidariedade.  

 No Evangelho de João, por exemplo, Jesus é condenado pela religião e pelo procurador do Império Romano por um simples motivo: enquanto as elites religiosa e imperial defendiam a política do enriquecimento pessoal, Jesus vivia e pregava a política da partilha do pão, da superação dos preconceitos e da paz internacional (Jo 6,1-15; 4,1-42; 20,19-23).

Quando Jesus estava sendo julgado pelo procurador romano Pôncio Pilatos, este perguntou a Jesus se ele era rei. A resposta de Jesus foi enérgica:

Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, meus guardas teriam combatido para que eu não fosse entregue aos judeus. Agora, porém, meu reino não é daqui (Jo 18,36).
  
A palavra mundo é a tradução da palavra grega cosmos que, nesta passagem bíblica, significa "modo de ser e agir". A política da elite religiosa valia-se do discurso religioso para coagir e explorar o povo. A política de Pilatos lançava mão do exército para manter a terra de Jesus como uma colônia do Império Romano. Jesus, ciente disso, deixa claro que seu reino não é deste mundo, quer dizer, que sua política não é como a política dos religiosos nem como a política de Pilatos. A política de Jesus apresenta um projeto distinto e convida a uma prática totalmente diferente. Este é o sentido da afirmação "Meu reino não é deste mundo".

 Reino de Deus é uma expressão política e seu sentido é político, pois diz respeito à maneira como vivemos nossa vida e às opções de vida que fazemos. Reino de Deus não se trata de um céu que nos espera após a morte, mas de um compromisso de viver, aqui e agora, lutando para que as relações entre os humanos e destes com a terra sejam mais amorosas, justas e solidárias. Afinal de contas, o Reino de Deus não vem com sinais grandiosos, nem se poderá dizer: "Está aqui!" ou "Está ali!", pois o Reino de Deus está entre vós (Lc 17,20-21).


[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) para a área de estudos bíblicos.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A QUE SE PARECE O REINO DE DEUS?



 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Impressiona-me o fato de que cada vez menos escrevo sobre a conjuntura do país e do mundo. Será talvez porque não contêm esses relatórios de desgraças que ouço todo dia na mídia e leio nos jornais e nas redes sociais nenhuma fonte de inspiração.  Atiram para baixo, desestimulam, não são geradores de criatividade e entusiasmo. 

            Comentar novamente as roubalheiras, as prisões preventivas, as denúncias, os três poderes se engalfinhando?  Não há mais desejo nem forças.  A corrupção atinge até mesmo a afetividade, aquele nível da identidade pessoal onde nascem e brotam as ideias, as intuições, as novidades, as emoções.

            Por isso, volto-me para o Evangelho, boa notícia, fonte perene de inspiração.  E procuro escutar Jesus de Nazaré, o poeta do Reino de Deus.  E ouço-o perguntar: a que se parece o Reino de Deus? Ponho toda a atenção em suas metáforas.  O Reino de Deus se parece ao fermento que uma mulher misturou com uma grande quantidade de farinha, e toda a massa ficou fermentada.  O Reino de Deus é semelhante a um homem que lança a semente sobre a terra.  Noite e dia, estando ele dormindo ou acordado, a semente germina e cresce, embora ele não saiba como. 

            O Reino de Deus é como as crianças inocentes e alegres que vinham até Jesus, desobedecendo aos discípulos que queriam tirá-las dali. É como a viúva que depositou para oferta no Templo tudo que tinha para viver.  É como o pai que tinha dois filhos e preparou uma festa cheia de vinho, comida e alegria para receber de volta o mais novo, que havia saído de casa e dilapidado todos os seus bens.  

            O Reino de Deus é como as pessoas, homens, mulheres e crianças.  E é como a terra que silenciosamente faz seu trabalho quando todos dormem, elaborando a germinação da vida. O Reino não deve ser procurado aqui e ali, pois já está no meio de nós.  Por quê? Porque nós o construímos. Porque nós o testemunhamos. 

            Essa reflexão brota quando entramos no tempo do Advento, da espera, da esperança que vai se depositar inteiramente em um menino nascido de mulher que andará pelo mundo como o Reino de Deus em pessoa. Esse menino, parecido com todos os meninos, fará sinais, dirá palavras, contará parábolas que falarão sobre o que é o Reino de Deus.

          O grande escritor português José Saramago tinha um avô que também era capaz de fazer sentir a proximidade do Reino de Deus com suas histórias e relatos.  O avô de Saramago não tinha fé nem religião.  Era analfabeto, pobre e camponês.  Criava porcos em uma aldeia do Ribatejo.  E, no entanto, seu neto escritor, que ganhou o prêmio Nobel, o identifica como “esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras.“ 

            O Reino de Deus é o universo em movimento, fiel à sua identidade de ser morada da vida.  Por isso, Jesus diz que ele é como a mulher que leveda a massa e cozinha o pão, como o homem que semeia a terra para que haja colheita e alimento, como o pai que perdoa o filho que se comportou mal porque o ama e a casa estava vazia sem sua presença.  É como a mãe terra, cujo útero se revolve incessantemente, fazendo germinar a semente, crescer o broto, acolher as raízes e levantar as árvores.  

            O mundo é a morada de Deus e todo aquele que nele habita e não bloqueia seu movimento é artífice do Reino que pode acontecer em seu seio.  Por isso, nesses tempos sombrios, de desesperança, de horizontes curtos, ética em vias de extinção, importa descobrir as palavras que podem pôr o universo em movimento.  Ou os gestos que fazem de ossos secos pessoas com músculos e carne, cheias de vida e forças.  Ou os segredos não totalmente desvendados que dizem respeito à vida e suas fontes.

            O Reino de Deus hoje, nesse início de Advento, para aqueles e aquelas que teimamos em acreditar na criança que há de vir, já está presente. A que se parece? À beleza do mundo, ao encanto das palavras, à alegria ruidosa das crianças. E pode ser acionado e visibilizado pela poesia, pelos relatos, pelas brincadeiras e jogos gratuitos, pelos beijos e abraços, pelos gestos de carinho.  

            O Reino de Deus se parece à humanidade que o próprio Deus assumiu em Jesus e sua Encarnação.  Iniciando o tempo litúrgico que prepara para o Natal, sinto que se não vemos o Reino acontecendo é porque estamos consentindo em que nossa humanidade seja roubada e vilipendiada.  

            Sejamos humanos, apenas humanos, como os personagens da infância de Saramago, que tinham pena de morrer porque o mundo era tão bonito e por isso reverenciavam a vida até mesmo dos filhotes de porquinhos que criavam. Sejamos apenas humanos, sabendo abrir os sentidos e o coração a todas as formas de amor, desde a justiça até o êxtase.  

            Ser humano é tarefa difícil, embora simples.  Aprender com as crianças ainda é o melhor caminho.  Aprender com essa Criança tão esperada que é ela mesma um relato de salvação é um desafio ao mesmo tempo profundo e belo. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)
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