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quinta-feira, 30 de abril de 2020

REALIDADE QUE PARECE FICÇÃO





por Frei Betto

        Seria espantosa uma versão atual de 1984, de George Orwell, em que toda a população mundial fosse proibida de sair de casa, enviar os filhos à escola, ter contato com os entes queridos que não vivem sob o mesmo teto. Um governo ditatorial que fechasse todas as fronteiras do país, controlasse cada cidadão pelo celular e soubesse exatamente qual a porcentagem de pessoas que ontem foram à rua. E cuja polícia multasse ou prendesse quem fosse encontrado fora de casa sem justificativa aceitável. No entanto, tudo isso a Covid-19 tornou realidade.

        Como declarou Yuval Noah Harari, “os governos que pouparam gastos nos últimos anos, reduzindo os serviços de saúde, agora gastam muito mais por causa da epidemia“ (El País 22/03/20).

        Agora se calam os que ardorosamente defendiam as privatizações e as políticas de austeridade. E palavras outrora estigmatizadas voltam a aparecer no noticiário econômico: nacionalizar, repatriar, reindustrializar. Até a palavra solidariedade soa na boca dos arautos do sistema.

        As perspectivas de futuro não são animadoras. Dos 195 países do mundo, 170 terão crescimento negativo em 2020. Mais 250 milhões de pessoas devem se somar às atuais 820 milhões que passam fome. Cenário mais drástico do que em 1929. Empresários e empregados se perguntam de que haverão de morrer, de infecção ou falência.

        Em meio aos prognósticos negativos, a natureza agradece. O ar está mais limpo, há menos lixo nas cidades, a vegetação se revigora. E a Pax Coronavirica faz as armas se calarem na Líbia, na Síria, no Iêmen e no Afeganistão. Nem o Conselho de Segurança da ONU teria tanta autoridade para suspender guerras.

        Ainda sabemos pouco sobre o Covid-19. Muitas perguntas permanecem sem respostas. Por que os idosos estão mais ameaçados que os jovens? Por que atinge mais homens que mulheres? Os assintomáticos podem vir a contrair o vírus e disseminá-lo? Os curados podem ser de novo infectados?

        Existem sete tipos de coronavírus. Quatro causam gripes comuns. Os três mais recentes produzem sintomas letais, como a SARS (síndrome respiratória aguda grave), surgida em 2002; a MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio), de 2012; e, agora, a Covid-19.
        O que os cientistas se perguntam é por que o vírus atual se dissemina tão rápido e supera todas as previsões das autoridades sanitárias do mundo. Por que a SARS e a MERS não se espalharam em escala planetária como agora?

        Os vírus são enigmáticos. Não estão vivos nem mortos. Não estão vivos porque são incapazes de se reproduzir por si mesmos. Não estão mortos porque penetram em nossas células e se replicam. Ao ingressar na primeira célula, cada coronavírus gera até 100 mil cópias de si mesmo em 24 horas, segundo o Centro Nacional de Biotecnologia da Espanha. Os vírus procuram sempre um modo de burlar o nosso sistema imunológico.

        O que é peculiar na Covid-19 é a sua propagação silenciosa, sem levantar suspeitas. Nos primeiros dias a pessoa infectada não demonstra nenhum sintoma de enfermidade. E pode nem ter sintomas e, ao mesmo tempo, repassar o vírus a outras pessoas.

        As utopias são matéria de ficção. Em meio à pandemia, soam opiniões de que a humanidade sairá melhor dessa crise, cujas lições são muito duras. Haverá mais cooperação, menos gastos bélicos e mais com proteção social, melhor infraestrutura sanitária e, quem sabe, uma renda mínima universal para cada pessoa. Tomara que a ficção se torne realidade.

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros. 

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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A QUE SE PARECE O REINO DE DEUS?



 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Impressiona-me o fato de que cada vez menos escrevo sobre a conjuntura do país e do mundo. Será talvez porque não contêm esses relatórios de desgraças que ouço todo dia na mídia e leio nos jornais e nas redes sociais nenhuma fonte de inspiração.  Atiram para baixo, desestimulam, não são geradores de criatividade e entusiasmo. 

            Comentar novamente as roubalheiras, as prisões preventivas, as denúncias, os três poderes se engalfinhando?  Não há mais desejo nem forças.  A corrupção atinge até mesmo a afetividade, aquele nível da identidade pessoal onde nascem e brotam as ideias, as intuições, as novidades, as emoções.

            Por isso, volto-me para o Evangelho, boa notícia, fonte perene de inspiração.  E procuro escutar Jesus de Nazaré, o poeta do Reino de Deus.  E ouço-o perguntar: a que se parece o Reino de Deus? Ponho toda a atenção em suas metáforas.  O Reino de Deus se parece ao fermento que uma mulher misturou com uma grande quantidade de farinha, e toda a massa ficou fermentada.  O Reino de Deus é semelhante a um homem que lança a semente sobre a terra.  Noite e dia, estando ele dormindo ou acordado, a semente germina e cresce, embora ele não saiba como. 

            O Reino de Deus é como as crianças inocentes e alegres que vinham até Jesus, desobedecendo aos discípulos que queriam tirá-las dali. É como a viúva que depositou para oferta no Templo tudo que tinha para viver.  É como o pai que tinha dois filhos e preparou uma festa cheia de vinho, comida e alegria para receber de volta o mais novo, que havia saído de casa e dilapidado todos os seus bens.  

            O Reino de Deus é como as pessoas, homens, mulheres e crianças.  E é como a terra que silenciosamente faz seu trabalho quando todos dormem, elaborando a germinação da vida. O Reino não deve ser procurado aqui e ali, pois já está no meio de nós.  Por quê? Porque nós o construímos. Porque nós o testemunhamos. 

            Essa reflexão brota quando entramos no tempo do Advento, da espera, da esperança que vai se depositar inteiramente em um menino nascido de mulher que andará pelo mundo como o Reino de Deus em pessoa. Esse menino, parecido com todos os meninos, fará sinais, dirá palavras, contará parábolas que falarão sobre o que é o Reino de Deus.

          O grande escritor português José Saramago tinha um avô que também era capaz de fazer sentir a proximidade do Reino de Deus com suas histórias e relatos.  O avô de Saramago não tinha fé nem religião.  Era analfabeto, pobre e camponês.  Criava porcos em uma aldeia do Ribatejo.  E, no entanto, seu neto escritor, que ganhou o prêmio Nobel, o identifica como “esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras.“ 

            O Reino de Deus é o universo em movimento, fiel à sua identidade de ser morada da vida.  Por isso, Jesus diz que ele é como a mulher que leveda a massa e cozinha o pão, como o homem que semeia a terra para que haja colheita e alimento, como o pai que perdoa o filho que se comportou mal porque o ama e a casa estava vazia sem sua presença.  É como a mãe terra, cujo útero se revolve incessantemente, fazendo germinar a semente, crescer o broto, acolher as raízes e levantar as árvores.  

            O mundo é a morada de Deus e todo aquele que nele habita e não bloqueia seu movimento é artífice do Reino que pode acontecer em seu seio.  Por isso, nesses tempos sombrios, de desesperança, de horizontes curtos, ética em vias de extinção, importa descobrir as palavras que podem pôr o universo em movimento.  Ou os gestos que fazem de ossos secos pessoas com músculos e carne, cheias de vida e forças.  Ou os segredos não totalmente desvendados que dizem respeito à vida e suas fontes.

            O Reino de Deus hoje, nesse início de Advento, para aqueles e aquelas que teimamos em acreditar na criança que há de vir, já está presente. A que se parece? À beleza do mundo, ao encanto das palavras, à alegria ruidosa das crianças. E pode ser acionado e visibilizado pela poesia, pelos relatos, pelas brincadeiras e jogos gratuitos, pelos beijos e abraços, pelos gestos de carinho.  

            O Reino de Deus se parece à humanidade que o próprio Deus assumiu em Jesus e sua Encarnação.  Iniciando o tempo litúrgico que prepara para o Natal, sinto que se não vemos o Reino acontecendo é porque estamos consentindo em que nossa humanidade seja roubada e vilipendiada.  

            Sejamos humanos, apenas humanos, como os personagens da infância de Saramago, que tinham pena de morrer porque o mundo era tão bonito e por isso reverenciavam a vida até mesmo dos filhotes de porquinhos que criavam. Sejamos apenas humanos, sabendo abrir os sentidos e o coração a todas as formas de amor, desde a justiça até o êxtase.  

            Ser humano é tarefa difícil, embora simples.  Aprender com as crianças ainda é o melhor caminho.  Aprender com essa Criança tão esperada que é ela mesma um relato de salvação é um desafio ao mesmo tempo profundo e belo. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)
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