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quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Natal: Jesus X Papai Noel


Prof. Aquino Júnior


O natal é a celebração do nascimento de Jesus: “A Palavra de Deus que se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14); o Emanuel – “Deus conosco” (Mt 1, 23) que veio trazer a salvação, como indica o nome Jesus: Deus salva (Lc 1, 31). E os evangelhos narram essa salvação se concretizando na vivência do amor fraterno, até com os inimigos, especialmente com os caídos à beira do caminho, os pobres e marginalizados. Jesus mostra como o amor a Deus é inseparável do amor ao próximo e como nosso amor ao próximo é critério e medida de nosso amor a Deus. Nisso consiste a Boa Notícia do reinado de Deus anunciado/realizado por Jesus: Quando Deus reina sobre um povo, reina a fraternidade, a justiça, a misericórdia e a paz. E isso é uma Boa Notícia sobretudo para os pobres e marginalizados deste mundo.

Infelizmente, o natal tem sido cada vez mais associado a mercado. É um tempo bom para o comércio. Tempo de comprar e dar presente. A imagem de “papai Noel” tem se tornado muito mais presente e representativa do natal que o Menino Jesus na manjedoura. Mas há uma diferença fundamental entre Jesus e papai Noel: Jesus anuncia e instaura a justiça do Reino que é Boa Notícia para os pobres e marginalizados e escândalo para os ricos e poderosos; papai Noel movimenta o mercado que enriquece cada vez mais os ricos e exclui os pobres. Se no reinado de Deus há lugar para todos os que queiram viver como irmãos, a começar dos últimos da sociedade; no mercado só há lugar para quem tem o que vender ou comprar. Enquanto Jesus movimenta a sociedade em função da fraternidade, o mercado movimenta a sociedade em função do lucro, transformando tudo em mercadoria – até a religião, o natal…

Mas para muitas pessoas religiosas parece não haver contradição entre Jesus e papai Noel ou entre o reinado de Deus (lógica da fraternidade) e o mercado (lógica do lucro). Por isso não se escandalizam ou nem se sentem incomodadas com o fato de a imensa maioria da população brasileira se declarar cristã (católica ou protestante) e o Brasil ser o país com a 2ª maior concentração de renda do mundo: 1% mais rico concentra 29% da renda total. Já quando se trata do Índice de Desenvolvimento Humano, o Brasil ocupa a 79ª posição no ranking mundial. Não percebem que isso é fruto de uma sociedade organizada em função do lucro e não em função da fraternidade e que o verdadeiro senhor dessa sociedade é o Mercado e não Jesus Cristo.

Celebrar o natal de Jesus Cristo é ir na contramão dessa sociedade de mercado que transforma tudo em mercadoria, que identifica felicidade com consumo e que faz do lucro o valor e o objetivo supremos da vida. É voltar às galileias/periferias e assumir a causa dos malditos/amaldiçoados desse mundo. É cultivar uma cultura da solidariedade. É movimentar a sociedade em função da fraternidade. É defender os direitos humanos. É fortalecer os movimentos populares nas lutas por direitos e justiça social.

Numa sociedade que marginaliza e exclui tanta gente é preciso voltar às periferias e fazer ecoar de novo (com a própria vida!) a Boa Notícia que vem do Céu: “Nasceu para vós um salvador, que é o Cristo Senhor”!

 

Francisco Junior Aquino é Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

PAPAI NOEL OU MENINO JESUS?



por Maria Clara Lucchetti Bingemer 

            
            Quando chega o Natal há uma insistência contumaz em temas de concórdia, paz, consenso e solidariedade.  Natal não é momento de conflito e dissenso.  Há que buscar, outrossim, caminhos de concórdia, superando as desavenças familiares, eclesiais, políticas ou que tais.

            No entanto, no imaginário sobretudo infantil, mas não menos no adulto, a concepção do Natal repousa hoje sobre um conflito dificilmente reconciliável: Papai Noel ou o Menino Jesus? Enquanto muitos de minha geração ouviam falar de Papai Noel, montavam a árvore, mas tinham o foco da festa sobre o presépio e o Menino recém-nascido, hoje estes são senão ignorados pelo menos obscurecidos pelos presentes sob a árvore. E sobretudo pelo Papai Noel que vem em meio a 40 graus de temperatura, em pleno verão, vestido para o mais rigoroso inverno do hemisfério norte.

            Nem mesmo o senso do ridículo de um velho de barbas brancas vestido de roupas quentíssimas em meio ao calor desperta o já intumescido senso crítico de adultos e pequenos, que adejam em torno de símbolos natalinos totalmente estranhos ao trópico, ávidos pela troca de presentes, que se tornou o momento álgido da festa.

  Comer e gastar: infelizmente esse é o lema em que se transformou o Natal, sob a batuta do bom velhinho que vai aos shoppings e tira fotos com as criancinhas no colo. E isso nos revela tristemente que estamos rapidamente involuindo para um neo paganismo. Expulsam-se as tradições religiosas e culturais que fizeram nossa civilização, para dar lugar a seres lendários e mágicos que possam povoar nosso imaginário de magia e crenças supersticiosas em maior ou menor grau. 

            Quem é Papai Noel.  Trata-se de figura lendária cuja existência encontra sua origem em contos hagiográficos tendo ao fundo a figura histórica de São Nicolau. Varia e tem simulacros em outras latitudes, como na Grécia, onde em 1 de janeiro, celebra-se Basílio de Cesareia, respeitável padre da Igreja, responsável pela teologia do Espírito Santo no Credo Niceno-Constantinopolitano e que jamais deve ter imaginado que iriam associar seu nome à troca de presentes na festa natalina. Já na Espanha e nos países de língua espanhola em geral, o dia dos presentes é 6 de janeiro, quando são celebrados os Reis Magos. A data tenta preservar a conexão com o Cristianismo, já que os três sábios do Oriente levaram ao Menino presentes carregados de simbolismo: ouro, a realeza; incenso, a divindade;  mirra, a humanidade. 

            Miméticos que somos dos estadunidenses e nórdicos, ficamos com o Papai Noel da neve, do Norte, que teve sua imagem associada à Coca Cola e a todas as marcas comerciais possíveis e imagináveis.  Fazemos neves de algodão, rodeamos o velhinho de renas (animal inexistente em nossas paragens) e caímos de boca nos presentes, fazendo listas e percorrendo-as de alto a baixo. Até de São Nicolau, responsável pela origem do Papai Noel nos afastamos, uma vez que este era arcebispo de Mira, na Turquia, e viveu no século IV.  Destacou-se pela caridade, ajudando anonimamente os pobres, distribuindo moedas de ouro pelas chaminés das casas.  Sua transformação em símbolo natalino ocorreu na Alemanha e a partir daí correu mundo.    
     
            São Nicolau, com seus trajes de bispo foi substituído pelo velhinho de roupa vermelha e botas.  Mora numa terra de neve eterna, ou em sua casa no Polo Norte.  E tem até uma esposa, Mamãe Noel, que não tem tanta popularidade entre nós. O que tem, sim, popularidade nos trópicos é seu séquito de renas voadoras, que trazem num trenó os brinquedos para depositá-los nas chaminés, e os elfos mágicos que os fabricam, todos vindo ao encontro dos desejos daqueles que têm poder aquisitivo, inundando as casas e as festas natalinas.  As crianças fazem listas e cartas ao velhinho, pedindo os presentes, e os pais se servem disso para fazê-los se comportar bem.  

            Mas esse bom comportamento é quase impossível, já que não há ceia de Natal que possa fluir em conversação agradável e afetuosa com os pequenos indóceis e rondando a árvore, gemendo e gritando de ansiedade por seus presentes, olhando ávidos os misteriosos embrulhos que ali faíscam como pepitas de ouro.  Há que proceder a distribuição, dizendo que foram trazidos por Papai Noel, para ver se eles se acalmam, embora ao fim da noite já estejam entediados do que lhes coube e comecem a brigar pelo presente do irmão ou do primo.

            Ninguém ou muito poucos se recordam daquele que é ou devia ser o centro da festa: a criança divina que se fez carne e nos trouxe a salvação.  Ninguém olha para ela, tão quietinha e humilde na manjedoura ao lado de seus pais, Maria e José, jovens e honrados israelitas, obrigados a obedecer as absurdas leis do ocupante romano.  Lembro-me quando no colégio, ainda pequena, íamos à missa do Galo.  E uma de nós era sorteada para carregar o Menino Jesus e depositá-lo no presépio.  Nunca em toda a minha vida, em alguns momentos de vitória profissional, de alegria celebrativa ou de reconhecimento acadêmico, lembro-me de haver-me sentido tão honrada, tão privilegiada como naquela ocasião em que carreguei com imenso cuidado a imagem rosada do Menino com os braços abertos até o altar.

            Havia peças de teatro que encenávamos nós mesmos sobre o Evangelho do Nascimento de Jesus.  Já fui rei, já fui pastora, já fui Maria nessas ocasiões.  De todas as vezes sentia fundo a narrativa que ao longo de mais de vinte séculos vem inspirando e resgatando o gênero humano da banalidade assassina do biológico des-animado (sem alma) e do consumismo desenfreado. 

            Tudo isso parece que vai se esvaindo, esfumando na noite dos tempos.  Não totalmente, graças a Deus.  Por isso é urgente resgatar essa memória que não se pode perder.  As futuras gerações necessitam de esperança e Papai Noel não pode dar-lhes isso.  Necessitam crer em Deus e não numa figura lendária, que é como um anão da Branca de Neve mais alto.  E de São Nicolau ficar com a parte importante: a caridade que ele fazia com os pobres, deixando para as mesmas peças de ouro na chaminé. 

            O Deus de Israel em quem cremos como o Pai amoroso de Jesus de Nazaré não se identifica nem com fenômenos da natureza, ou com ciclos de fertilidade ou menos ainda com figuras de lendas.  As lendas são o que são: podem interessar o senso estético, mas não podem provocar e convocar a fé.  No Natal, o gesto mais inaudito de Deus desencadeia no mundo o fato cristão: a Encarnação, Deus que se faz carne, um de nós igual em tudo menos no pecado.  O Infinito no finito, o Absoluto no relativo, o Rico na pobreza e no despojamento. 

            Se esse mistério for banido de nossas vidas, se o Menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura for definitivamente substituído pelo velhinho de vermelho em seu trenó de renas voadoras, não teremos nos tornado menos religiosos ou menos crentes.  Mas sim, infelizmente, menos humanos. 

            Que Deus não permita que isso nos aconteça.  E que venha o Natal, com muito menino Jesus e pouco Papai Noel, como diz meu querido amigo Frei Betto.  Que o mistério de Belém não perca o poder de encantar-nos e, sobretudo, a capacidade de voltar nosso olhar para os pobres e necessitados.  FELIZ NATAL! 


Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-RioA teóloga é autora de  Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial.
 Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O materialismo do Papai Noel e a espiritualidade do Menino Jesus



Por Leonardo Boff


Um dia, o Filho de Deus quis saber como andavam as crianças que outrora, quando andou entre nós,“as tocava e as abençoava” e que dissera:”deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o Reino de Deus”(Lucas 18, 15-16).
À semelhança dos mitos antigos, montou num raio celeste e chegou à Terra, umas semanas antes do Natal. Assumiu a forma de um gari que limpava as ruas. Assim podia ver melhor os passantes, as lojas todas iluminadas e cheias de objetos embrulhados para presentes e principalmente seus irmãos e irmãs menores que perambulavam por aí, mal vestidos e muitos com forme, pedindo esmolas. Entristeceu-se sobremaneira, porque verificou que quase ninguém seguira as palavras que deixou ditas:”quem receber qualquer uma destas crianças em meu nome é a mim que recebe”(Marcos 9,37).
E viu também que já ninguém falava do Menino Jesus que vinha, escondido, trazer na noite de Natal, presentes para todas as crianças. O seu lugar foi ocupado por um velhinho bonachão, vestido de vermelho com um saco às costas e com longas barbas que toda hora grita bobamente:”Oh, Oh, Oh…olhem o Papai Noel aqui”. Sim, pelas ruas e dentro das grandes lojas lá estava ele, abraçando crianças e tirando do saco presentes que os pais os haviam comprado e colocado lá dentro. Diz-se que  veio de longe, da Finlândia, montado num trenó puxado por renas. As pessoas haviam esquecido de outro velhinho, este verdadeiramente bom: São Nicolau. De família rica, dava pelo Natal presentes às crianças pobres dizendo que era o Menino Jesus que lhes estava enviando. Disso tudo ninguem falava. Só se falava do Papai Noel, inventado há mais de cem anos.
Tão triste como ver crianças abandonadas nas ruas, foi perceber como elas eram enganadas, seduzidas pelas luzes e pelo brilho dos presentes, dos brinquedos e de mil outros objetos que os pais e as mães costumam comprar como presentes para serem distribuídos por ocasião da ceia do Natal.
Propagandas se gritam em voz alta, muitas enganosas, suscitando o desejo nas crianças que depois correm para os pais, suplicando-lhes para que comprem o que viram. O Menino Jesus travestido de gari, deu-se conta de que aquilo que os anjos cantaram de noite pelos campos de Belém”eis que vos anuncio uma alegria para todo o povo porque nasceu-vos hoje um Salvador…glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa-vontade”(Lucas 2, 10-14) não significava mais nada. O amor tinham sido substituído pelos objetos e a jovialidade de Deus que se fez criança, tinha desaparecido em nome do prazer de consumir.
Triste, tomou outro raio celeste e antes de voltar ao céu deixou escrita uma cartinha para as crianças. Foi encontrada debaixo da porta das casas e especialmente dos casebres dos morros da cidade, chamadas de favelas. Ai o Menino Jesus escreveu:
Meus queridos irmãozinhos e irmãzinhas,
Se vocês olhando o presépio e virem lá o Menino Jesus e se encherem de fé de que ele é o Filho de Deus Pai  que se fez um menino, menino qual um de nós e que Ele é o Deus-irmão que está sempre conosco,
Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas, especialmente nos pobrezinhos, a presença escondida do Menino Jesus nascendo dentro deles.
Se vocês fizerem renascer a criança escondida no seus pais e nas pessoas adultas para que surja nelas o amor, a ternura, o carinho, o cuidado e a amizade  no lugar de muitos presentes.
Se vocês ao olharem para o presépio descobrirem Jesus pobremente vestido, quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente pobres e mal vestidas e sofrerem no fundo do coração por esta situação desumana e se decidirem já agora, quando grandes, mudar estas coisas para que nunca mais haja crianças chorando de fome e de frio,
Se vocês repararem nos três reis magos com os presentes para o Menino Jesus e pensarem que até os reis, os grandes deste mundo e os sábios reconheceram a grandeza escondida desse pequeno Menino que choraminga em cima das palhinhas,
Se vocês, ao verem no presépio todos aqueles animais, como as ovelhas, o boi e a vaquinha pensarem que o universo inteiro é também iluminado pela Menino Jesus e que todos, galáxias, estrelas, sois, a Terra  e outros seres da natureza e nós mesmos formamos a grande Casa de Deus,
Se vocês olharem para o alto e virem a estrela com sua cauda e recordarem que sempre há uma Estrela como a de Belém sobre vocês,  iluminando-os e mostrando-lhes os melhores caminhos,
Se vocês  aguçarem bem os ouvidos e escutarem a partir dos sentidos interiores, uma música celestial como aquela dos anjos nos campos de Belém que anunciavam paz na terra,
Então saibam que sou eu, o Menino Jesus, que  está chegando de novo e renovando o Natal. Estarei sempre perto de vocês, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia em que chegaremos todos, humanidade e universo, à Casa do Pai e Mãe de infinita bondade para sermos juntos eternamente felizes como uma grande família reunida.
                                    Belém, 25 de dezembro do ano 1.
                                    Assinado: Menino Jesus
Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra, proteger a vida: como evitar o fim do mundo, Record, Rio 2010.


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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

É Natal



por Roberta Barros



Os arcos das centenárias pontes são refletidos nas águas paradas do rio.
É noite e as estrelas adornam o céu.

Na praça, o presépio armado, faz parar o trânsito, que já caminha em ritmo lento.

Crianças circulam, adultos boquiabertos procuram os  banquinhos enfeitados para sentarem e contemplarem.

No centro um coreto adornado com pequenas luzes, nos remete a épocas passadas.

Do outro lado da avenida, a noite também chega.

Na penumbra, embaixo das marquises, crianças e adultos dormem, cobertos pelo sereno e ninados pelos ruídos infames dos motores que por ali circulam.

Nesta noite, por ali passou o papai Noel.

Caminhou, sentou, olhou as pessoas que estavam dormindo ao relento.
Inquieto não conseguiu conter as lágrimas.

Subiu novamente em seu reluzente trenó e seguiu viagem.

Confidenciou as estrelas, que voltará no próximo ano, quando com certeza não haverá pessoas morando nas ruas e praças.

 

Roberta Barros é pedagoga e fundadora da CAMM