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terça-feira, 31 de agosto de 2021

HERANÇA DA PROFECIA PARA HOJE

 

Marcelo Barros

Enquanto em Brasília, o presidente se esmera em diariamente fabricar alguma crise para distrair o povo e desviar a atenção da tragédia atual que o Brasil atravessa, os movimentos sociais e os grupos  organizados nas bases preparam para a próxima semana mais um Grito pela Vida e pelos Direitos de todos/as. Nesse contexto, recordamos a memória de três bispos católicos que, pela sua atuação para além da Igreja, se tornaram profetas da paz e da justiça para todo o nosso povo. No mesmo dia 27 de agosto, recordamos o falecimento de Dom Helder Camara, (1999) que foi arcebispo de Olinda e Recife, Dom Luciano Mendes de Almeida (2006) que presidiu a conferência dos bispos católicos no Brasil e foi arcebispo de Mariana, MG e de Dom José Maria Pires (2017), arcebispo de João Pessoa, PB. Poucos dias antes,
lembrávamos Dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Crateús, que também nos deixou em agosto (12/08/2006). Cada um desses pastores tinha o seu carisma próprio e o seu jeito de ser profeta, mas todos viveram o serviço pastoral, procurando despertar a vocação profética de todas as pessoas movidas pelo amor solidário.

Nenhum desses pastores passou pelo sofrimento de ver, em nossos dias, setores das Igrejas cristãs se revelarem cúmplices do governo do ódio e defenderem a barbárie. Pastores e grupos eclesiais tradicionalistas parecem dar razão ao que dizia o famoso cineasta norte-americano Woody Allen: “Deus deve ser um cara bom, mas os amigos dele, eu não recomendaria”.

Esse é um desafio que vem desde a época de Jesus: o nosso modo de viver a fé e a nos inserir na vida social testemunha quem é o Deus no qual acreditamos. A maior revolução dos evangelhos foi que Jesus contestou a religião cultual e discriminatória do templo de Jerusalém e nos ensinou que Deus é Amor e só pode amar. Se é Deus, não poderia ser o Senhor todo-poderoso, amigo dos seus amigos e inimigo perigoso de quem não aceitar submeter-se aos seus caprichos.

Infelizmente, quando, na história, uma Igreja cristã adere a um império e se torna aliada dos poderosos do mundo, ela legitima uma visão cruel e mesquinha de Deus. Assim, os povos originários das Américas, assim como africanos e asiáticos, conheceram o Cristianismo colonizador e aliado dos europeus conquistadores.  Apesar da resistência de alguns missionários, quase todas as Igrejas foram coniventes com a escravidão e corresponsáveis pela perseguição e condenação às culturas originárias de nossos povos. Por isso, temos uma dívida histórica com as comunidades indígenas e negras. E esses bispos profetas, dos quais, neste final de agosto, recordamos a memória, nos deram exemplo de consagração a serviço dos mais pobres.

Atualmente, em todo o continente latino-americano, os povos indígenas se articulam em organizações independentes que propõem um novo paradigma de civilização para toda a humanidade: o bem viver. Trata-se de uma transformação social e política baseada na prioridade do bem comum e da relação do ser humano consigo mesmo e com a mãe Terra e toda a natureza. Essa busca do bem-viver radicaliza a democracia a partir do diálogo comunitário e aprofunda uma espiritualidade que vê o Amor divino presente em todo o universo. Exige profunda transformação cultural e social. Para quem é cristão, lembra o que escreveu Paulo aos romanos: “Não se conformem com esse mundo, mas o transformem pela renovação de suas mentes” (Rm 12, 1).


 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A MAIS ATUAL HERANÇA DE GANDHI




Por Marcelo Barros

A cada ano, no dia 30 de janeiro, a Índia e o mundo inteiro recordam o martírio do Mahatma Gandhi e sua vida consagrada à paz e  à justiça. É mais urgente valorizar a herança que Gandhi nos deixou nesses tempos nos quais governos e setores da sociedade internacional refazem campos de concentração para aprisionar migrantes. A herança de Gandhi precisa ser recordada quando a sociedade dominante convive com um presidente norte-americano que acha normal perseguir e prender crianças menores de seis anos de idade, afastando-os dos seus pais. No Brasil militarizado e no qual se abre a temporada de caça aos índios, aos lavradores e aos movimentos de direitos humanos, é imprescindível  valorizar a inestimável herança que Gandhi deixou para a humanidade.

Infelizmente, mais de 70 anos depois do martírio de Gandhi, o mundo atual não está mais tolerante. Menos ainda do que no passado, a nossa sociedade se dispõe a ser um espaço de convivência nas diferenças. Ao contrário, tem se revelado mais intransigente e violenta.

Na América do Sul, tornou-se mais feroz e cruel a intensa e permanente perseguição do Império e das elites a ele submetidas a quaisquer governos que ousem contestar a hegemonia do Capitalismo internacional e do governo dos Estados Unidos no continente. Depois de 60 anos, o bloqueio econômico e social a Cuba se revelou fracassado e contraproducente mesmo para os interesses do Império. Mesmo assim, ele foi refeito para a Venezuela, esmagada por uma guerra de publicidade desonesta e violenta. O governo, eleito pela maioria dos cidadãos, em eleições que os organismos internacionais sempre consideraram democrática e válida, é chamado de ditatorial. Todos os dias, a imprensa chama o bolivarianismo de comunismo violento e atrasado.  

Todos sabem que Simon Bolívar foi um jovem venezuelano que no inicio do século XIX formou um exército de índios e negros para libertar os países latino-americanos do domínio espanhol e das injustiças internas como a escravidão e a miséria de tanta gente. Bolívar propunha fazer de toda a América do Sul uma única “pátria grande”, livre e solidária. Para isso, propunha uma revolução baseada na educação para todos e no reconhecimento dos direitos civis e igualdade de todos os cidadãos, índios, negros e lavradores. Foi esse processo que, na Venezuela, o presidente Hugo Chávez chamou de “revolução bolivariana”. Durante o governo de Rafael Correa, no Equador, se considerava a “revolução cidadã”. Até hoje, na Bolívia, inspira a “revolução indígena”. Nesses países e em outros, esse caminho tem se dado através dos instrumentos democráticos das eleições e da discussão de novas constituições que garantam os direitos de todas as pessoas e grupos até aqui marginalizados. É um processo baseado nas culturas ancestrais dos povos indígenas e com a participação de muitas comunidades cristãs de base. Na América Latina, esse caminho tem assumido como método a não violência de Gandhi e o exemplo de muitos homens e mulheres que consagram a sua vida pela justiça e pela libertação dos povos no caminho da paz. Na Argentina, Adolfo Perez Esquivel, escultor e ativista cristão pelos Direitos Humanos, recebeu o prêmio Nobel da Paz. Também, em 1992, Rigoberta Menchu, índia Maya da Guatemala foi agraciada com o mesmo prêmio por sua luta pacífica pela libertação do seu povo e sua mensagem de esperança para todo o continente.

É nesse contexto que precisamos lembrar a luta pacífica do Mahatma Gandhi através da Satyagraha, o caminho da verdade e ahimsa, a não violência. Além de trazer para a Índia a independência política, Gandhi inspirou líderes como o bispo Desmond Tutu e Nelson Mandela na África do Sul. Também motivou o pastor Martin-Luther King na luta contra a discriminação racial nos Estados Unidos. No Brasil dos anos 60 e 70, todo o trabalho de Dom Hélder Câmara por uma insurreição evangélica a partir da justiça e da paz, se apoiava na espiritualidade da não violência.

Assim, a herança de Gandhi ainda mobiliza milhares de pessoas e comunidades em todo o mundo. Seus pensamentos ainda nos iluminam de esperança e propõem um novo modo de agir: “Comece por você mesmo a mudança que propõe ao mundo”. “Você pode se considerar feliz somente quando o que pensa, diz e o modo como age estiverem em completa harmonia”. Aí está uma profunda indicação de caminho.

Quem é cristão se recorda de que a busca de uma vida que seja verdadeira e plenamente vivida e para todos e todas é o objetivo pelo qual Jesus de Nazaré define a sua missão: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10, 10). Essa certeza de que conta com a inspiração do Espírito Divino é o que fortalece os movimentos sociais e a sociedade civil mais consciente, organizada em fóruns e ágoras sociais. É isso que nos faz perseverar no caminho. As intuições e o caminho das comunidades e dos movimentos sociais partem das necessidades do mundo deste início do século XXI. Respondem à urgência de construir um novo mundo necessário e possível na comunhão com todos os seres vivos. Em sua luta, índios, lavradores e movimentos sociais podem se considerar, sem dúvida, herdeiros fieis do Mahatma Gandhi e profetas da humanidade atual. 


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br