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sexta-feira, 3 de setembro de 2021

O padre Júlio Lancellotti: o Gandhi do Brasil

                                                       Leonardo Boff 


O padre Júlio Lancellotti acaba de publicar um livro Amar à maneira de Deus  (Planeta 2021). Existe imensa literatura sobre o amor e grande parte dela eu mesmo li. Mas entre todos que conheço, este do padre Lancellotti comparece como um dos mais impressionantes e verdadeiros. Não se trata de discorrer sobre o amor. Mas vive-lo concretamente e dar testemunho dele. E esse testemunho é convincente.

O grande naturalista francês Jacob Monod legou-nos uma frase que nos deixa perplexos:”Os seres humanos experimentaram tudo, menos o amor”. Mas entenderemos esta afirmação surpreendente se lermos o que o padre Lancellotti escreveu, bem na esteira do que o Papa Francisco  também afirmou como um sonho  na sua encíclica Fratelli tutti, “um mundo  de uma fraternidade universal e de um amor social:” O amor social é o centro.

Diz-nos o padre Lancellotti:”Numa sociedade como a nossa, onde está o amor? Existe amor na cidade de São Paulo? Talvez fiquemos em dúvida. Falando de modo individual é claro que há. Mas devemos ver se a estrutura, se a forma de organizar  a sociedade manifesta o amor. Alguém de fora, olhando para São Paulo poderia dizer, que nesta cidade, todos se amam? As favelas, o povo abandonado pelas ruas, os presídios, a violência, o desemprego mostram amor em São Paulo”(p.100)?

O amor do qual aqui se trata é o amor social. Ele está praticamente ausente no mundo  todo, o que a pandemia  mostrou claramente na forma absolutamente desigual como foram distribuídas as vacinas, como, por exemplo, a África com apenas 4%. É esse amor social que nunca foi experimentado, pelo menos, nas sociedades que conhecemos, particularmente, as modernas. O padre Lancellotti nos tira a ilusão do amor como romance. Em suas palavras:”O amor é engajamento transformador; amor é uma palavra provocativa porque é um verbo de ação; é transformar, enfrentar mesmo com vulnerabilidade; não é cala; amar é se manifestar e defender; issso é terrivelmente transformador”(p.91).

Ele define de que lado está:”eu não trabalho com os moradores de rua. Eu convivo com eles. E essa convivência tem uma senha:o olhar”(p.108). O olhar para eles como a um irmão LGBTI ou irmã, lésbica ou trans; cumprimentá-los, perdi-lhes o nome e tocar a sua pele para que se sintam da mesma humanidade que a nossa.

Explicitamente declara:”Meu lugar de fala tem como base os jovens infratores, as mulheres e os homens presos, a população de rua e a questão geral da fome, da miséria e da violência”(p.77). Fundou a Casa Vida para crianças com HIV mesmo contra o protesto de toda a vizinhança, liderada por uma médica.

O título do livro marca o sentido de seu amor por todos estes  desprezados pela sociedade: Amar à moda de Deus. Como é amar à moda de Deus? É aqui que o padre Lancellotti revela aquilo que é a essência da mensagem de Jesus: Deus ama a todos indistintamente. pouco importa sua condição moral,sexual e racial Ama até os ingratos e maus, como assevera São Lucas em seu evangelho (6,35); ama os últimos, os invisíveis, os pecadores, aqueles que sentem longe de Deus e perdidos: a mulher samaritana, a estrangeira, a adúltera. Todos e todos são os destinatários do amor gratuito de Deus. Por isso Jesus que encarnava esse amor de Deus, de seu Pai (Abba, paizinho querido) comia com os pecadores e andava com pessoas de má companhia. É para assegurar-lhes: não importa o que são, se obedecem ou não às leis, se são piedosos ou não, se não a boa gente ou não: Deus está no meio de nós e busca a nossa intimidade.

Todas as religiões buscam a Deus. A religião hebraico-cristã afirma que Deus busca o ser humano: mesmo o mais distante e fora dos quadros sociais e morais. Essa é a grande novidade trazida por Jesus:a proximidade amorosa de Deus. Ele tentou dize-la e mostrá-la a todo mundo. O verdadeiro drama consistiu e consiste em que a grande maioria não acolheu ou não acolhe a amorosidade de Deus. Pelo fato de não aceitá-la Jesus foi perseguido, caluniado e finalmente condenado à morte de cruz. Mas nunca deixou de amar, mesmo na cruz, o ladrão ao lado.

O padre Lancellotti comprendeu esse tipo de amor à moda de Deus e de Jesus, amor único e o vive com aqueles que nunca recebem amor da ninguém. E sofre o mesmo destino de Jesus: a perseguição, a calúnia e as ameaças sérias de morte. Só pelo fato de amar aqueles que são covardemente espezinhados e excluídos, os empobrecidos, “os irmãos e as  irmãs”menores de Jesus (Mt 25,40).

Respeitadas as diferenças de lugar e de situações, podemos dizer que o padre Júlio Lancellotti é o Mahama Gandhi do Brasil. Bem dizia este:”Entrei na política por amor à vida dos fracos; morei com os pobres, recebi párias como hóspedes, lutei para que tivessem direitos políticos iguais aos nossos, desafiei reis, esqueci-me das vezes que estive preso”. Algo parecido pode dizer o padre Lancellotti. Fez e faz tudo porque “ama à maneira de Deus” que é a forma mais humana de amar, pois inclui a todos e “não manda ninguém embora”(Jo 6,37).

Leonardo Boff é teólogo e escreveu Jesus Cristo Libertador, Vozes muitas ediçõe 2020.

 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

A URGÊNCIA DE GANDHI NO MUNDO ATUAL

 


Marcelo Barros

 

 

Assim como termômetro denuncia a febre, se houvesse um instrumento que mostrasse o grau de intolerância e violência presente na sociedade, talvez tivéssemos inventar números acima de cem. Parece que, a cada dia, as pessoas se tornam mais incapazes de lidar com diferenças políticas, culturais e religiosas. Há quem se pergunte porque e como chegamos a esse ponto. No Brasil, nenhuma rede de televisão ou órgão de comunicação vai publicar tudo o que tem feito para semear, ódio, racismo e para sustentar no poder não apenas um Bozo qualquer, mas os/as representante daquilo que, com razão, Jessé de Souza chama de “elite do atraso”. Por isso, é urgente buscar algum antídoto para a epidemia da raiva e reencontrar motivos para teimar em termos fé na humanidade. Assim sendo, nunca foi tão necessário e oportuno, nestes últimos dias de janeiro, nos unir aos irmãos e irmãs da Índia, no aniversário do martírio do Mahatma Gandhi. Que a memória da sua vida e da sua mensagem de paz e não violência possam nos ajudar.

Em Dehli, no dia 30 de janeiro de 1948, um hindu fanático assassinou Gandhi pelo fato de que o mestre, sendo hinduísta, decidiu morar em um bairro de muçulmanos para vivenciar o diálogo entre as religiões. Até hoje, na Índia, um partido político prega que ser hindu de nacionalidade significa pertencer à religião hinduísta. E assim todos os hindus que são muçulmanos, judeus ou cristãos são considerados traidores.

Infelizmente, mais de 70 anos depois, o mundo de hoje ainda está menos tolerante e menos capaz de convivência nas diferenças. Por isso, é urgente recordar a herança do Mahatma Gandhi e atualizá-la para nós e para toda a humanidade. Alguns de seus pensamentos percorrem o mundo inteiro e propõem um novo modo de agir: “Comece por você mesmo a mudança que propõe ao mundo”.Você pode se considerar feliz somente quando o que pensa, diz e o modo como age estiverem em completa harmonia”. Aí está uma profunda indicação de caminho.

A realidade do mundo atual é muito diversa da época de Gandhi na qual a Índia era dominada colonialmente pela Inglaterra. No entanto, apesar disso, as principais intuições de Gandhi se mantêm necessárias.  Sua luta pacífica, através da Satyagraha, o caminho da verdade e da Ahimsa, a não violência podem ser  para nós instrumentos de nossa ação social e política para transformar o mundo.

No século XX, a ação de Gandhi conduziu a Índia à sua independência política. Na África do Sul, inspirou líderes como o bispo Desmond Tutu e Nelson Mandela. Nos Estados Unidos, norteou o pastor Martin-Luther King em sua luta contra a discriminação racial. No Brasil,  foi a inspiração para o trabalho de Dom Hélder Câmara contra a ditadura militar e por uma insurreição evangélica, a partir da justiça e da paz.

Na América Latina, muitos movimentos sociais têm se firmado no caminho da não violência ativa como instrumento de luta pacífica pela justiça e pela libertação dos povos. Na Argentina, Adolfo Perez Esquivel, escultor e ativista cristão pelos Direitos Humanos, recebeu o prêmio Nobel da Paz. Também, em 1992, Rigoberta Menchu, índia Maya da Guatemala foi agraciada com o mesmo prêmio por sua luta pacífica pela libertação do seu povo e sua mensagem de esperança para todo o continente.

 Nas novas Constituições nacionais, aprovadas no Equador e na Bolívia, um dos princípios fundamentais colocados como meta do Estado é garantir o “bom viver” que cada povo indígena chama de uma forma diferente (suma kawsay ou suma kamana ou ainda com outros nomes), mas significa a opção por uma vida plenamente sadia, baseada no princípio da sustentabilidade ecológica e social e na dignidade de todas as pessoas. O “bom viver” privilegia o coletivo e não o individual e busca uma cultura da sobriedade e da partilha solidária na relação com a Terra e na forma de desenvolver a educação e a saúde. Quem é cristão, logo se recorda de que esta busca de uma vida que seja verdadeira e plenamente vivida é o objetivo pelo qual Jesus de Nazaré define a sua missão: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10, 10).

Apesar de que estes caminhos políticos são intuições latino-americanas e a partir das necessidades do mundo deste século XXI, sem dúvida, podem se considerar uma digna e bela realização da herança do Mahatma Gandhi na vida de nossos povos. 

 


 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019
. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

 

 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A MAIS ATUAL HERANÇA DE GANDHI




Por Marcelo Barros

A cada ano, no dia 30 de janeiro, a Índia e o mundo inteiro recordam o martírio do Mahatma Gandhi e sua vida consagrada à paz e  à justiça. É mais urgente valorizar a herança que Gandhi nos deixou nesses tempos nos quais governos e setores da sociedade internacional refazem campos de concentração para aprisionar migrantes. A herança de Gandhi precisa ser recordada quando a sociedade dominante convive com um presidente norte-americano que acha normal perseguir e prender crianças menores de seis anos de idade, afastando-os dos seus pais. No Brasil militarizado e no qual se abre a temporada de caça aos índios, aos lavradores e aos movimentos de direitos humanos, é imprescindível  valorizar a inestimável herança que Gandhi deixou para a humanidade.

Infelizmente, mais de 70 anos depois do martírio de Gandhi, o mundo atual não está mais tolerante. Menos ainda do que no passado, a nossa sociedade se dispõe a ser um espaço de convivência nas diferenças. Ao contrário, tem se revelado mais intransigente e violenta.

Na América do Sul, tornou-se mais feroz e cruel a intensa e permanente perseguição do Império e das elites a ele submetidas a quaisquer governos que ousem contestar a hegemonia do Capitalismo internacional e do governo dos Estados Unidos no continente. Depois de 60 anos, o bloqueio econômico e social a Cuba se revelou fracassado e contraproducente mesmo para os interesses do Império. Mesmo assim, ele foi refeito para a Venezuela, esmagada por uma guerra de publicidade desonesta e violenta. O governo, eleito pela maioria dos cidadãos, em eleições que os organismos internacionais sempre consideraram democrática e válida, é chamado de ditatorial. Todos os dias, a imprensa chama o bolivarianismo de comunismo violento e atrasado.  

Todos sabem que Simon Bolívar foi um jovem venezuelano que no inicio do século XIX formou um exército de índios e negros para libertar os países latino-americanos do domínio espanhol e das injustiças internas como a escravidão e a miséria de tanta gente. Bolívar propunha fazer de toda a América do Sul uma única “pátria grande”, livre e solidária. Para isso, propunha uma revolução baseada na educação para todos e no reconhecimento dos direitos civis e igualdade de todos os cidadãos, índios, negros e lavradores. Foi esse processo que, na Venezuela, o presidente Hugo Chávez chamou de “revolução bolivariana”. Durante o governo de Rafael Correa, no Equador, se considerava a “revolução cidadã”. Até hoje, na Bolívia, inspira a “revolução indígena”. Nesses países e em outros, esse caminho tem se dado através dos instrumentos democráticos das eleições e da discussão de novas constituições que garantam os direitos de todas as pessoas e grupos até aqui marginalizados. É um processo baseado nas culturas ancestrais dos povos indígenas e com a participação de muitas comunidades cristãs de base. Na América Latina, esse caminho tem assumido como método a não violência de Gandhi e o exemplo de muitos homens e mulheres que consagram a sua vida pela justiça e pela libertação dos povos no caminho da paz. Na Argentina, Adolfo Perez Esquivel, escultor e ativista cristão pelos Direitos Humanos, recebeu o prêmio Nobel da Paz. Também, em 1992, Rigoberta Menchu, índia Maya da Guatemala foi agraciada com o mesmo prêmio por sua luta pacífica pela libertação do seu povo e sua mensagem de esperança para todo o continente.

É nesse contexto que precisamos lembrar a luta pacífica do Mahatma Gandhi através da Satyagraha, o caminho da verdade e ahimsa, a não violência. Além de trazer para a Índia a independência política, Gandhi inspirou líderes como o bispo Desmond Tutu e Nelson Mandela na África do Sul. Também motivou o pastor Martin-Luther King na luta contra a discriminação racial nos Estados Unidos. No Brasil dos anos 60 e 70, todo o trabalho de Dom Hélder Câmara por uma insurreição evangélica a partir da justiça e da paz, se apoiava na espiritualidade da não violência.

Assim, a herança de Gandhi ainda mobiliza milhares de pessoas e comunidades em todo o mundo. Seus pensamentos ainda nos iluminam de esperança e propõem um novo modo de agir: “Comece por você mesmo a mudança que propõe ao mundo”. “Você pode se considerar feliz somente quando o que pensa, diz e o modo como age estiverem em completa harmonia”. Aí está uma profunda indicação de caminho.

Quem é cristão se recorda de que a busca de uma vida que seja verdadeira e plenamente vivida e para todos e todas é o objetivo pelo qual Jesus de Nazaré define a sua missão: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10, 10). Essa certeza de que conta com a inspiração do Espírito Divino é o que fortalece os movimentos sociais e a sociedade civil mais consciente, organizada em fóruns e ágoras sociais. É isso que nos faz perseverar no caminho. As intuições e o caminho das comunidades e dos movimentos sociais partem das necessidades do mundo deste início do século XXI. Respondem à urgência de construir um novo mundo necessário e possível na comunhão com todos os seres vivos. Em sua luta, índios, lavradores e movimentos sociais podem se considerar, sem dúvida, herdeiros fieis do Mahatma Gandhi e profetas da humanidade atual. 


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br