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terça-feira, 13 de abril de 2021

IGREJA CONFESSANTE E UMA FÉ ADULTA


 


Marcelo Barros

 

No mundo todo, a realidade da pandemia revela que este modelo de sociedade não funciona mais. Isso se tornou ainda mais evidente no Brasil que se transforma em um grande cemitério. Entre nós a Covid teve como principais aliados a sociedade baseada nas injustiças sociais e um governo que parece feliz em facilitar o trabalho do vírus assassino. Em tudo isso, um dos elementos mais escandalosos é o apoio por parte de amplos setores do Cristianismo católico e evangélico a essa política que ama a violência, prega discriminações sociais e se proclama inimigo da Amazônia e da natureza.

Diante dessa realidade, no mês de abril recordamos a vida de dois mártires cristãos, ambos vindos de Igrejas evangélicas. No dia 04 de abril de 1968, nos Estados Unidos, era assassinado o pastor batista Martin-Luther King por sua luta em defesa dos direitos civis da população negra. No dia 09 de abril de 1945, no campo de concentração de Flossemburg, na Alemanha, foi enforcado o pastor Dietrich Bonhoeffer por ter se colocado contra o Nazismo e pregar que a Igreja só é cristã se se opuser a qualquer política totalitária de ódio e se assumir a defesa de negros, judeus e quaisquer minorias oprimidas.

Martin-Luther King afirmava: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons. Mais do que a violência de poucos, me assusta a omissão de muitos”.

Quando em 1933, na Alemanha, Hitler chegou ao poder, muitos bispos, padres e pastores acolheram favoravelmente o advento do Nazismo. Em particular, o grupo dos chamados "cristãos-alemães" tornou-se porta-voz da ideologia nazista dentro da Igreja. Eles chegaram a pedir que as Igrejas eliminassem de suas Bíblias o Antigo Testamento, por ter sido escrito por judeus. Na Igreja Luterana, os pastores aceitaram fazer um acordo com o governo. Por este acordo, concordavam em não ordenar padre ou pastor que não fosse branco, de raça ariana. Bonhoeffer foi o primeiro a se opor a isso e a defender publicamente que a Igreja tinha o dever de se opor à injustiça política. Ele passou a organizar a resistência política dentro das Igrejas.

A Igreja se dividiu em duas e a maioria dos ministros e comunidades era favorável ao regime. Ao contrário, se chamava Igreja Confessante a minoria de pastores e comunidades que se opunham ao Nazismo. Eram os que se pronunciavam claramente contrários à prisão e assassinato de judeus, comunistas e homossexuais perseguidos pelo sistema. Em 1943, Bonhoeffer foi preso, acusado de ajudar um grupo de judeus a fugirem da Alemanha. Na prisão e depois no campo de concentração, Bonhoeffer escreveu livros e uma coleção de cartas. Ali ele afirmava: “Ninguém que tenha fé cristã tem o direito de fugir para a dimensão religiosa e não assumir posição crítica frente ao que está acontecendo”.  Conseguiu ser libertado, mas, em julho de 1944, foi preso novamente, desta vez por ter participado de um atentado contra Hitler. Desta vez, foi condenado à morte e acabou executado.

Bonhoeffer é considerado um dos maiores teólogos cristãos do século XX. Ele viveu a fé engajada no mundo em uma ação social crítica e libertadora. Essa espiritualidade o levou a dar a sua vida como mártir contra a política assassina. Denunciou um modelo de Igreja ligado ao poder político opressor. Ele rejeitava um deus tapa-buraco das necessidades humanas, ao qual recorremos quando não conseguimos resolver nossos problemas. Pregava contra uma piedade que nos tira do mundo. Propunha “viver na intimidade de Deus, mas como se Deus não existisse”. Isso significava assumir uma responsabilidade humana de adultos que não precisam de Deus para ser pessoas justas, dignas e solidárias.

A celebração da Páscoa pode nos ajudar a viver isso. Conforme a fé cristã, a partir da ressurreição, o Cristo não está nos templos. Está em nós para nos tornar mais humanos/as e capazes de amar.

 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

quinta-feira, 30 de julho de 2020

IDADE ADULTA, FÉ INFANTIL


 

por Frei Betto

    Jesus nada tinha dessa figura angélica alimentada por eflúvios piedosos. Era “sinal de contradição”. Colocou-se ao lado dos injustiçados. Denunciou os ricos e as autoridades de seu tempo. Incomodou os opressores. Não admitiu que corresse dinheiro no Templo, casa de Deus transformada em “covil de ladrões”.

 

       Um dos fatores de evasão de católicos da Igreja ou indiferença à pratica religiosa é o fato de muitos fiéis adultos não possuírem outra formação na fé senão a que receberam na infância via família e catequese. Assim, quando as pernas crescem a calça curta já não serve...

       Conheço muitos cristãos que não leem a Bíblia por uma razão óbvia: nada entendem do texto. E não sabem onde buscar ajuda. A Igreja Católica dispõe de poucos leigos, religiosas e padres capacitados para administrar cursos bíblicos. Uma das mais promissoras iniciativas é o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) com seus cursos e publicações, mas infelizmente pouco valorizado pela hierarquia da Igreja Católica.

       A maioria dos padres conhece apenas noções de lições de seminário, em geral utilizadas para reforçar tradicionais conteúdos devocionais. Muitos não suportam questionamento dos fiéis e, por isso, não se atrevem a ministrar cursos. Preferem o monólogo do sermão de missa, pois ali não convém à assembleia fazer perguntas e muito menos contestações.

       Hoje em dia, os estudos bíblicos estão de tal modo avançados que muitos fiéis talvez se sentissem abalados em sua fé se enfocassem os relatos evangélicos à luz das pesquisas mais recentes e destituídos de invólucros míticos. A avalanche devocional recobriu de tal modo os personagens bíblicos, como o próprio Jesus, que fica difícil encará-los como humanos.

       Muitos cristãos ainda creem em um Deus cruel que, ofendido por nossos pecados, exigiu que a sua ira divina fosse aplacada por um sacrifício igualmente divino: a morte de seu filho na cruz!

       Mas qual pai se compraz de ver seu único filho crucificado?

       Como Jesus perdeu a vida todos sabemos: assassinado. Por quê? Não era ele uma pessoa tão boa, espiritualizada, que “passou a vida fazendo o bem”, como diz o evangelista João? Quem haveria de querer matá-lo?

       Ora, Jesus nada tinha dessa figura angélica alimentada por eflúvios piedosos. Era “sinal de contradição”. Colocou-se ao lado dos injustiçados. Denunciou os ricos e as autoridades de seu tempo. Incomodou os opressores. Não admitiu que corresse dinheiro no Templo, casa de Deus transformada em “covil de ladrões”.

       Por isso, foi assassinado por dois poderes políticos: o romano e o sinédrio judaico. Pilatos e Caifás. Morreu como prisioneiro político.   

Nada disso interessa a quem deturpa o Evangelho e sonega seu conteúdo para alimentar uma religiosidade de consolação, e não de compromisso; de evasão, e não de engajamento; de fuga do “vale de lágrimas”, e não de inserção amorosa e libertadora no mundo.

       A fé necessita de alimento sólido. Não se nutre adultos com papinhas de bebê. Daí o fato de muitos católicos migrarem para Igrejas nas quais a compreensão teológica da Palavra de Deus é trocada por interpretações míticas que reforçam a apatia diante das mazelas sociais. Já que não se tem acesso aos serviços de saúde, ao menos se espera confiante o milagre da cura e se deposita a fé e a poupança no pregador que promete prosperidade em curto prazo. Caso ela não venha, pode ter certeza de que você ainda não cortou definitivamente seus vínculos com o diabo...

       Menos religião e mais espiritualidade...

 

Frei Betto é escritor, autor de “Um Deus muito humano” (Companhia das Letras), entre outros livros.


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quinta-feira, 25 de junho de 2015

AUMENTO DA PENALIDADE ADULTA

por Frei Betto


      “O problema do menor é o maior”, já alertava o filósofo Carlito Maia. Somos todos frutos da (des)educação que recebemos.

      Vivi dois anos entre presos comuns. Conheci suas trágicas histórias de vida. Também eu e você seríamos perigosos bandidos se tivéssemos sido criados em uma “família” cujo pai, desempregado e bêbado, surrava mulher e filhos e, para se sustentar, os impedia de ir à escola e os induzia a praticar furtos.

      Reduzir a maioridade penal é lavar as mãos, como Pilatos, diante do descaso para com as nossas crianças e adolescentes. É não reconhecer que elas ingressam no crime porque a sociedade não lhes assegura direitos fundamentais, como educação de qualidade.

      O Brasil tem, hoje, quase 4 milhões de crianças e adolescentes, de 4 a 17 anos, fora da escola. As creches são raras e caras. Na campanha presidencial de 2010, Dilma prometeu 6 mil creches e pré-escolas, para crianças de zero a 5 anos, até 2014. O MEC admite que apenas 1/3 da meta foi cumprida.

      Por que, em vez de reduzir a maioridade penal, não se aumenta a oferta de educação de qualidade gratuita e em tempo integral? Educação é direito do cidadão e dever do Estado. Em países com plena escolaridade a criminalidade precoce é residual. E quando existe não se culpabiliza a criança, e sim a sociedade, que é responsável por educá-la e oferecer-lhe um futuro promissor.

      Em 2006, o Brasil se comprometeu, na OIT (Organização Internacional do Trabalho), a erradicar, até o fim de 2015, as 89 “piores formas de trabalho infantil”. A meta não será cumprida, já admitiu o governo. Embora nos últimos doze anos tenha sido de 58,1% a redução do trabalho infantil, ainda há 3,2 milhões de crianças e jovens, de 5 a 17 anos, no mercado de trabalho.

      O trabalho infantil fere a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente. No entanto, quem o utiliza não incorre em nenhum crime. Exploração do trabalho infantil não existe no Código Penal Brasileiro. Dos 715 mil presos que lotam nossas cadeias, nenhum se encontra ali por explorar crianças e adolescentes.
      O projeto para mudar tal anomalia trafega lentamente no Congresso. Há parlamentares que defendem, abertamente, ser preferível uma criança “trabalhando que roubando”. Ou seja, o adulto empregador pode, impunemente, explorar mão de obra infantil. Mas se a criança furtar, dá-lhe cadeia e penalidade severa. Charles Dickens deve estar se revirando no túmulo!

      Enquanto adultos tentam se eximir de suas responsabilidades e propõem reduzir a maioridade penal, sem enfrentar as causas da criminalidade infantil e da miséria, em Itaguaí (RJ) crianças de 9 a 13 anos chegam a ganhar R$ 1 mil por semana do narcotráfico para servirem de olheiros em bocas de fumo, vapores (vender pequenas quantidades de drogas) e monitorar o acesso aos pontos de venda.

      Não basta “pacificar”, com repressão policial, áreas dominadas por traficantes. É preciso introduzir ali escolas, praças de esportes, salas de arte, cursos profissionalizantes, aulas de teatro, música e dança. Enfim, educação.


Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros.


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