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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Helder Camara e a atualidade da sua profecia

 

Marcelo Barros


 

Quanto mais a situação social e política se apresenta complexa e difícil, mais a fé suscita manifestações da profecia para assegurar que o projeto divino é de transformar essa realidade. Nesse contexto, neste 07 de fevereiro, recordamos os 113 anos do nascimento do profeta Helder Camara no Ceará, enquanto no sul do Brasil, o povo celebra o martírio do cacique Sepé Tiaraju e a destruição da República Guarani pelos exércitos de Portugal e Espanha (1756).

Quem crê deve atuar para que esse mundo se transforme de acordo com o projeto divino de paz, justiça e comunhão com a Terra e a natureza. Até hoje, a profecia de Helder Camara nos convoca: "Deus deu ao ser humano o poder e a responsabilidade de não se conformar com o sofrimento e com a dor do inocente, mas de combater o mal e a injustiça. Esta é a tarefa de todos nós”.

Para crentes e não crentes, é urgente recordar quatro elementos desta profecia:

1 - Qualquer ser humano só pode ser verdadeiramente feliz no dia em que o mundo for um só e justo para todos. Desde que Dom Hélder peregrinou pelo mundo todo afirmando esta profecia da inclusão, o mundo piorou muito. As injustiças se agravaram, fazendo com que os países do norte triplicassem sua riqueza, enquanto o sul explorado e roubado afunda na fome e na miséria.

Os Estados Unidos e a Europa Ocidental erguem novos muros de discriminação e isolamento do mundo dos pobres. Dentro de nosso próprio país, a diferença entre pobres e ricos tem se agravado. É, então, urgente nos pronunciar sobre o grito que ele nos repete ainda hoje: "Nenhuma felicidade pode basear-se na infelicidade dos outros, porque ofenderia o sentido de justiça que diz respeito a todos".

2 – Cada vez mais soa atual o apelo de Helder Camara para nos constituirmos como "minorias abraâmicas" O mundo não mudará pela ação isolada de líderes esclarecidos e sim pelo empenho comunitário de grupos de resistência e de profecia que se consagrem a transformar o mundo a partir de uma profunda convicção de fé no ser humano e na vida. Estes grupos que não precisam ser multidões e podem mesmo ser minoritários na sociedade (Dom Hélder os chamava minorias abraâmicas) são fecundos fermentos de uma humanidade nova. Só neste caminho de humanização, tem sentido falar em fé cristã para as pessoas que querem crer e viver o Evangelho.

3 - O compromisso com a Paz e a não-violência A transformação do mundo começa pelo nosso compromisso com a Paz, através de um método de vida que elimine qualquer violência em nossa forma de ser e de agir. Dom Hélder vivia isso profundamente. Sempre conviveu com pessoas que discordavam de seu pensamento e nunca os agrediu ou se valeu do fato de ser arcebispo para removê-los de suas paróquias ou cargos eclesiais. Mas, sua opção pela não-violência não o levava a ser menos forte na defesa da justiça. Sempre apoiou e defendeu os lavradores sem-terra que continuam indefesos em sua caminhada e incompreendidos em sua causa. O cuidado com a Paz e a não-violência era também sua forma de viver as relações humanas na Igreja e no seu ministério de pastor. É preciso que, ao celebrar agora a sua memória, nos sintamos convocados/as de novo para este mutirão de esperança e solidariedade tão urgente no mundo.

Não pode ser coincidência que neste mesmo dia, recordemos a resistência do povo Guarani que, junto aos outros povos originários, depois de todo esse tempo, continua a recordar ao mundo a profecia da Terra sem Males. Estamos juntos nesse caminho.

 

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O PESSIMISMO OTIMISTA DE HELDER CAMARA


 


Por Eduardo Hoornaert

 

Em sua Carta Circular de 7-8 de março de 1964, Helder Camara escreve os seguintes versos:

 

O pessimismo otimista

Me parece

A maneira sólida e cristã

De ser otimista (Volume I, Tomo I da publicação das Cartas pelo Cepe, Recife, p. 411).

 

O que significam essas palavras?

 

1. Quem lê o texto corrido das Cartas de Helder Camara, só encontra textos animadores e motivadores, mas não se dá o mesmo com os poemas inseridas em ditas Cartas. Ali, não raramente, aparece um Helder irrequieto, angustiado e mesmo pessimista.  Uns meses antes dos versos acima citados, em final de outubro de 1963, ele escreve:

 

Se uma sombra de angústia

Me visita de repente,

É ao passar nas terras secas

Nos desertos

Onde um poço no oásis

É o sonho

Dos homens e dos camelos

Tantas vezes seduzidos

Pelas miragens (Carta Circular 21-22/10/1963, I, I, pp. 220-221).

 

E pouco depois de escrever sobre o pessimismo otimista, ele pede a Deus de não se ofender com seus sentimentos negativos:

 

Tu te ofendes

Se eu Te disser

Que o mundo surge aos meus olhos

Informe,

Dolorido,

Inacabado? (Carta Circular 3-4/04/1964, I, I, p. 390).

 

No início de 1965, preparando-se a viajar a Roma para a última Sessão do Concílio Vaticano II, Helder se premune:

 

Há instantes

Em que os ouvidos

Devem estar

Juntinho dos olhos.

 

Há instantes

Em que os olhos

Devem estar

Distantes, muito distantes,

Dos ouvidos (Carta Circular 1-2/03/1965, II, II, p. 236).

 

Como se fosse um aguilhão, ele sente a mesquinhez, o medo, a reticência, enfim, os sentimentos que ele espera encontrar em Roma. Ele procura se livrar do alçapão traiçoeiro:

 

Quando se livra um pássaro

Do alçapão traiçoeiro

Em que caiu.

Ele sai espantado,

Assustadiço,

Mas incólume e feliz (ibidem, p. 237).

 

Pássaro incólume e feliz, ele encontra, no final do Concílio, uma oportunidade de extravasar o que sente diante da assembleia mundial de bispos, que já dura quatro anos. Quem oferece, inesperadamente, a oportunidade, é o próprio amigo Papa Paulo VI. Em meados de novembro 1965, poucos dias antes da solene encerramento do concílio, ele pede ao Bispo brasileiro  sugestões para as cerimônias finais.

Helder empenha-se com tanto afinco na tarefa de preparar tais ‘sugestões’ que nem tem tempo para participar da assinatura do Pacto das Catacumbas, do qual foi um dos principais arquitetos, no dia 16 de novembro, com os amigos do Grupo da Pobreza.

Cobertas pelos mais efusivos protestos de atendimento filial ao Papa, as Sugestões para o Encerramento do Concílio são, na realidade, uma ‘obra de malandro’, uma paródia, a expressão irônica do pessimismo que afeta Helder.

Ele propõe que o Papa se disponha a uma série de diálogos, preces, encontros, ao longo dos sete últimos dias do Concílio, ou seja, entre os dias 2 e 8 de dezembro de 1965. O programa se iniciaria, no dia 2, por um Diálogo do Santo Padre com um grupo de Ateus, em homenagem a todos os que têm fome e sede de verdade, na Biblioteca do Vaticano; no dia seguinte uma Prece ecumênica com os Hinduístas na Pinacoteca do Vaticano; no dia 4, Prece ecumênica com os Budistas no Museu do Vaticano; no dia 5, Um Encontro inesquecível, que dê oportunidades excepcionais ao Espírito Santo, em uma Sala dominada pela figura de Abraão ou da Virgem (aqui talvez um encontro com muçulmanos, pela alusão à figura de Abraão);  no dia 6, Prece ecumênica com os Judeus, na Antiga Sinagoga de Roma, transformada em Igreja católica, ou em Sala dominada pela figura de Moisés; no dia 7, Vigília Bíblica com os Observadores não católicos, na Basílica de São Pedro;  finalmente, no dia 8, Santo Padre, daríeis permissão para que, sob Vossa autoridade e convosco, o Concílio canonizasse, publicamente, o Papa João XXIII, na Praça de São Pedro? (Carta Conciliar 6-7/11/1965, I, III, pp. 215-216).

 

Pura paródia: Helder declara - sem mais nem menos - que o Concílio falhou. Não conseguiu nem acenar ao que pertence ao âmago do cristianismo: o amor acima de quaisquer clausuras e divisões. Um papa que abraça ateus, hinduístas, budistas, islamitas, judeus e não-católicos nada mais faz que seguir o ensinamento de Jesus. Mas isso é impossível em Roma 1965. Daí o pessimismo de Helder. Ele sabe perfeitamente que o Papa não vai fazer nada do que sugere: sei que o Santo Padre não vai poder fazer nada disso. Mas sinto necessidade de apresentar-lhe estas sugestões que, no íntimo, ele gostará de receber (ibidem. p. 215)O Papa bem que gostaria de seguir Jesus, mas não o consegue. Melhor ir ao circo: hoje - não se espantem - pretendo, às 16 horas, ver o Circo Orfeu. Preciso mergulhar no mundo das crianças: elas acreditam no impossível. Pois é disso que se trata: propor o impossível. E é continuando a insistir no impossível que Helder, teimoso, ainda acrescenta: Talvez, Santo Padre, o discurso de encerramento seja a hora providencial para dizer que, permanecendo amigo de todos os povos e justamente para sê-lo sempre mais, pensais em despedir-vos do Corpo Diplomático e em trazer de volta os Vossos Núncios (ibidem, p 215). E então termina se desculpando pela franqueza: Santo Padre, a única escusa para esta Carta é reafirmar que ela é um gesto de puro amor. Muito filialmente em Jesus Cristo (ibidem, p. 216).

O texto vai imbuído de pessimismo, e mesmo assim há um vislumbre de otimismo na alusão ao fato que o Papa, no íntimo, gostará de receber as sugestões do intrometido Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro (ibidem, p. 215). 

 

Não é só a assembleia de bispos que entristece Helder. É também, e talvez de modo mais angustiante, a situação em que vive a maioria da população de Recife, a cidade à qual foi enviado como Arcebispo em 1964:

 

Ah! Como são tristes meus dedos,

Arrancarão, instintivamente, do violão,

Canções magoadas.

Modelarão na argila

Bonecos severinos (do poema ‘Vida e morte severina’, do poeta pernambucano Cabral de Melo)

De olhares angustiados

E sorrisos tristes (Carta 22-23/3/1966, III, I, p. 155).

 

O Bispo vai assistir ao filme ‘Zorba, o grego’, e volta entusiasmado com a ‘dança do fracasso’ de Antony Quinn.  Mas a chuva que cai abundante sobre os mocambos de Recife o angustia:

 

Chuva, dá um jeito

De abrir goteiras

Em todo o meu corpo,

De gelar meus ossos,

De alagar a minha alma.

Mas deixe em paz

Os mocambos de minha gente

Que precisa descansar

Da realidade triste

E esquecer no sono

A fome impertinente (Carta 20-21/3/1966, III, I, p. 204),

 

Não aguenta ver tanta miséria em seu redor:

 

Já não aguento, Pai,

ver tanta miséria, ouvir tanto lamento.

Sabes que comida perde, dia a dia,

qualquer interesse

para quem carrega nos olhos

as imagens que eu carrego,

para quem guarda nos ouvidos

as vozes que registro para sempre? (Carta 18.19/2/1965, II, II, p. 193).

 

2. Diante desses acessos de pessimismo por parte de Helder Camara, algumas figuras paradigmáticas da literatura nos vêm à memória. Se Helder, no Concílio, não canta qual pássaro preso em gaiola, mas se livra do alçapão, como então caracterizar seu comportamento ao longo do Concílio Vaticano II? Imagens alucinantes o acometem ao ver a corte romana em torno do papa, as procissões, as cerimônias. Helder vê o Imperador Constantino atravessando a Basílica de São Pedro, o Papa jogando sua Tiara no Rio Tibre e distribuindo as riquezas do Vaticano com os pobres de Roma e indo morar num apartamento numa das pracinhas da cidade. 

 

É aqui que emerge a figura de Dom Quixote. Aliás, vale lembrar que diversos observadores da cena conciliar reparam, com sentimentos diversos, algo ‘quixotesco’ nos comportamentos e nas inciativas do Bispo Auxiliar de Rio de Janeiro. Quando Helder ouve falar disso, ele não se esquiva, mas pelo contrário, demonstra que gosta da comparação, ao ponto de escrever que ela lhe dá um sentimento de maior aproximação com Jesus Cristo:

 

Quem não sabe

que o verdadeiro Dom Quixote

se chama Jesus Cristo? (Carta Circular 1-2/10/1969, IV, IV, p. 135).

 

Onde reside mesmo o segredo do romance de Cervantes, que conquistou milhões de pessoas ao longo desses cinco últimos séculos, em 2002 foi escolhido melhor obra de ficção de todos os tempos pelo Clube Norueguês de Livros e conta com a admiração geral? Como entender que Dom Quixote é o livro mais difundido do mundo, depois da Bíblia, que conta com nada menos de 450 milhões de cópias impressas, em cinquenta línguas e é considerado, por escritores como o argentino Jorge Luís Borges, um ‘patrimônio da humanidade’? O ‘cavaleiro da triste figura’, que anda desolado pelos campos da Espanha, guarda na alma a amarga ironia em ver que os sonhos mais lindos esbarram na dura realidade. Um pessimismo resiliente perpassa sua alma: não há lugar para o puro amor, o puro compromisso com um mundo melhor. O sonho impossível.

De outro lado, na opinião de muitos comentaristas, o segredo do sucesso de Cervantes está no fato que Quixote, apesar de não se conformar com a realidade em seu redor e cultivar - desse modo – o pessimismo, nunca abandona seu supremo sorriso, sua refinada ironia, seu otimismo igualmente resiliente. O romance de Cervantes constitui, por conseguinte, um excelente exemplo do pessimismo otimista que anima pessoas como Helder Camara.

 

Emerge também a figura do Príncipe Michkin, do romance ‘O Idiota’ de Dostoievski. Inadaptado, ridicularizado, desajeitado, um príncipe fracassado e ‘decaído’. Sua compaixão sem limites por pessoas indefesas é uma idiotice. Enquanto todos o consideram ingênuo, ele é capaz de descobrir a intimidade das pessoas por um simples olhar. A sociedade não suporta tanta pureza e decide que o sanatório é o lugar apropriado para o Príncipe Michkin. Raskolnikov, do romance ‘Crime e Castigo’ (do mesmo escritor) contracena. Estudante talentoso, ele se sente chamado a colaborar com a melhoria de seu país. Cultiva grandes planos, mas não tem dinheiro para realizá-los. Ora, ele vive numa pensão mantida por uma velha senhora, uma agiota que tem muito dinheiro e pouca cabeça. Para Raskolnikov, ela é uma ‘pessoa ordinária’, descartável, enquanto ele é extraordinário, pode quebrar regras estabelecidas em prol do avanço humano. Assombrado com sua imensa responsabilidade, Raskolnikov planeja e concretiza o assassinato da velha agiota e consegue se apropriar de seu dinheiro. Isso o faz extraordinário, acima de leis e costumes, sentimentos e afetos banais (como amar um neto, por exemplo). Ele vive num plano superior, não teme infringir regras estabelecidas e contradizer opiniões generalizadas. Enxerga longe, faz parte do seleto grupo de sujeitos que são capazes de mudar o rumo da história. E nisso se torna um criminoso. Aí acontece o inesperado. A própria consciência de Raskolnikov passa a se insurgir contra ele e o empurra, inexoravelmente, à autodestruição. A consciência sufoca Raskolnikov, esfacela seu íntimo, causa doença. No final do romance, ele chega a vislumbrar sua própria baixeza, sua desumanidade, e perde o mínimo senso de respeito por si mesmo. Sua única âncora de salvação é o amor de uma mulher. 

 

Eis três figuras literárias que me vêm à memória ao me aprofundar nos escritos de Helder Camara: Dom Quixote, Michkin e Raskolnikov.  Os dois primeiros por vivenciar o pessimismo otimista de Helder, o último vivenciando um otimismo ilusório que leva ao crime, ao seguir impulsos egocêntricos de poder e glória.

 

3. Podemos cavar mais fundo. Em última instância, o pessimismo otimista de Helder remete a uma figura que apareceu no palco da história numa das periferias do Império Romano, dois mil anos atrás: Jesus de Nazaré. Lembro que o próprio Helder se compara com Quixote e Jesus:

 

Quem não sabe

que o verdadeiro Dom Quixote

se chama Jesus Cristo? (Carta Circular 1-2/10/1969, IV, IV, p. 135).

 

Enquanto o Evangelho de Mateus relata que a última exclamação de Jesus, na cruz, expressa um profundo pessimismo (‘meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’), no Evangelho de João (Jo 19, 30), Ele se mostra otimista: ‘cumpri a missão’ (em grego ‘tetelestai’, do verbo ‘teleô’: terminar uma tarefa, cumprir um compromisso). Jesus quase não aguenta o sofrimento físico, mas no íntimo da alma está satisfeito com o percurso realizado. Vivencia um pessimismo otimista.

Difícil exagerar quando se trata de avaliar a importância de Jesus na história da humanidade. Enquanto, antes dEle, os líderes mais expressivos do mundo, como César, Augusto e Xerxes, além de tantos criadores de grandes impérios como o assírio, babilônico, egípcio, persa, grego e romano, trabalham a vida toda para humilhar, submeter, escravizar e submeter (‘Dominare populos memento, Roma’), o camponês da Galileia vivencia exatamente o contrário. Ele simplesmente parte da ideia bíblica, já expressa no primeiro capítulo do Livro Gênesis, que todas as pessoas humanas são criadas ‘segundo a imagem e semelhança de Deus’ e por conseguinte merecem o respeito que deve reinar entre iguais. Uma ideia revolucionária, que não se encontra nem nas ordenanças gravadas na ‘stèlè’ de Hamurabi, nem em algum documento ou monumento que nos reste do antigo mundo clássico. A morte de Jesus é o acontecimento mais revolucionário de que se tem memória no mundo ocidental, talvez no mundo inteiro. Assassinado como inconcebível crueldade, pregado numa cruz, supremo suplício que desqualifica definitivamente uma pessoa (segundo opinião generalizada da época), Jesus prova que o débil pode se converter em poderoso por meio da suprema humilhação, que a concepção igualitária e fraterna pode se tornar realidade. Revolução em estado puro, a matança do ‘gen’ darwinista que existe no ser humano, revolução que contesta de modo frontal a ideia que o forte destrói o fraco e desse modo melhora a espécie humana, como ensina certa ciência baseada na ‘evolução das espécies’. A vida de Jesus, pelo contrário, demonstra que a espécie humana melhora quando o forte se curva diante do fraco e lhe dá a mão, a mão do bom samaritano. Aqui, a rigor, não se trata de fé ou de religião, mas de princípios éticos. O cristianismo bem entendido constitui a transformação mais importante da consciência humana no decurso da história ocidental (talvez da história em geral). Eis o que, vinte anos após a morte de Jesus, entende o fariseu Paulo de Tarso, quando solta o grito:  ‘Ele ressuscitou’. Grito nascido de uma experiência de pessimismo otimista: da morte nasce a vida, do sofrimento nasce o espírito revolucionário, das injustiças sofridas por Jesus de Nazaré nasce um dos movimentos mais revolucionários da história da humanidade: o cristianismo.

 

Sim, o pessimismo otimista constitui a maneira sólida e cristã de ser otimista, como escreve Helder Camara.

 


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

HELDER CAMARA: POEMAS DE DESALENTO.




Por Eduardo Hoornaert.

A prosa epistolar de Helder Camara está invariavelmente impregnada de entusiasmo, o que se compreende, pois ela serve basicamente para animar a Família Messejanense, ou seja, o grupo feminino & companhia que o acompanha em pensamento, sonho e espiritualidade. Ela contrasta com a poesia helderiana, como já demonstrei aqui em diversos textos de meu blog. Questionadora, expressando até desânimo, sentimento de abandono e frustração, essa poesia revela um Helder crítico, que não teme emitir opiniões um tanto inconvenientes para um bispo.

O que nos interessa aqui é o seguinte: o contraste entre prosa entusiasta e poesia questionadora nos permite penetrar mais fundo na personalidade e nos posicionamentos de um dos mais importantes expoentes do pensamento brasileiro nos anos 1960-1990. Neste texto me restrinjo a apresentar doze poemas que aparecem nas Cartas Circulares de 13-14 de março 1971 e de 16-17 do mesmo mês (respectivamente pp. 127-130 e 136-138 do Volume V, Tomo III da Edição Cepe, Recife).

Na noite de 13-14 de março aparecem sete poemas, Por sete vezes repetidas, Helder se queixa diante de Deus: por que Te escondes tanto?, por que és tão vingativo? por que quase me levas a resmungar? o pouco que consigo fazer não vale nada? a culpa é toda minha? por que Tu amaldiçoas? por que não me dás a mão? Sete amargas exclamações de impaciência diante do silêncio de Deus. É verdade: o início do ano 1971 é particularmente angustiante para o Bispo Helder, perseguido pelo governo, abandonado por parte do clero, incapaz de realizar o que planeja e que constata que o pouco que consegue realizar não é valorizado.

Por que Te escondes tanto?.

Se perguntarem por Teu Nome
que devo responder?
Se rirem de Ti
e disserem
que já morreste,
já não és necessário
e estás sobrando?
Não precisas de conselhos, é claro.
Se tivesse em Teu lugar,
não esmagaria ninguém,
não faria prodígios para exibir-me.
Mas ficaria menos distante,
menos ausente...
Ao menos dos mais íntimos
Não me esconderia tanto (pp. 127-130).

Por que és tão vingativo?

Viste a miséria
de Teu Povo
no Egito.
Não estás cego,
nem surdo,
nem insensível,
nem sem poder.
Precisarei lembrar-Te
que há continentes inteiros
que viraram Egito?...
Salva-nos,
através do Mar Vermelho.
Mas, por Quem és,
não afogues nas águas
os modernos Faraós
e nem mesmo
os seus cavalos (ibidem).

Por que quase me levas a resmungar?

Não me deixes murmurar
Sei
a impressão tristíssima,
que Te causam
os murmuradores (alusão aos ‘murmuradores’ do Livro Êxodo)
Em lugar
de falar entre os dentes,
de soprar desconfianças,
de envenenar,
especializar-me
em ver
o lado bom da vida
e o que há de positivo
no segundo que passa (ibidem).

O pouco que consigo fazer não vale nada?

É verdade, Senhor
que não tenho figos (alusão a Lc 13, 1-9, a parábola da figueira estéril)
ou, quando muito, produzo
figos abortivos,
que até os animais rejeitam...
Mas não vale
a sombra que ofereço?
Não contam
os ninhos
que as aves constroem
confiantemente
em meus ramos?...
Poda-me, Senhor!
Faze enxertos, se preciso.
Não me deixes falhar
aos planos misteriosos
do Senhor e Pai! (ibidem).

A culpa toda é minha?

Pensas em arrancar-me
porque não produzo figos...
Perdoa que te pergunte:
a culpa é toda minha?
não entras em nada,
não tens parte alguma
na minha condição tristíssima
de figueira estéril? (ibidem).

Por que Tu amaldiçoas?

Não creio que ninguém
seja estéril
pelo gosto de não-produzir.
Não creio
que ninguém se alegre
de ser infecundo,
incapaz de reproduzir-se,
de multiplicar-se,
de vencer a morte
prolongando-se nos frutos.
Revê, Senhor, tuas maldições.
Não amaldiçoes ninguém!
E, sobretudo, cuidado:
não cometas a injustiça
de castigar
quem já arrasta a humilhação
de acabar em si mesmo (ibidem).

Por que não me dás a mão?

Exigiste figos
Tentei um esforço máximo.
Forcei as raízes
a sugar, ainda mais, a terra.
Sacrifiquei folhas
pelos frutos.
Os figos estão aí
sem ninguém
que os apanhe...
Manda, ao menos, teus passarinhos,
para que não experimente
a pior das esterilidades
– a de criar frutos inúteis
que acabam caindo
de maduros e podres! (ibidem).

Na noite entre 16 e 17 do mesmo mês, de novo uma carga de poemas desolados. Desta vez são cinco: cadê a terra onde jorra leite e mel? adianta tentar reconciliar oprimido com opressor? como cultivar a alegria nas condições em que vivo? e se o filho pródigo nem pensa em voltar para casa? Tu também não ficaste por vezes desanimado?

Cadê a terra onde jorra leite e mel?

Senhor, cadê o leite,
cada o mel? (alusão ao Livro Êxodo)
Nem maná,
nem as maravilhas
que prometeste.
Longe de mim murmurar.
Bem vês
como Te defendo,
no meio do nosso Povo.
Mas como salvar a alegria
Que tanto exiges
e é de fato sinal
de confiança plena
e de entrega sem limites,
se meu Povo faminto
nem pode dizer que tem fome,
se meu Povo explorado
se mostrar
o mais leve amuo
é preso,
e espancado,
e morto? (pp. 136-138).

Adianta tentar reconciliar oprimido com opressor?

Reconciliar
o oprimido com o opressor,
se este,
não cede uma linha,
continua a arrancar dinheiro
em nome do povo
e nem deixa o povo ver
a cor do dinheiro? (ibidem).

Como cultivar a alegria nas condições em que vivo?

Estas vendo, Senhor
como sem milagre
a alegria, este ano,
não brotará
da terra estorricada
e do chão
queimado de injustiça!? (ibidem).

E se o filho pródigo nem pensa em voltar para casa?

Senhor, o filho pródigo
não pensa em voltar.
Não está desempregado,
nem passando fome,
nem guardando porcos...
Teu dinheiro,
apesar de gastos loucos,
multiplicou-se.
Nem se lembra de Ti.
Nem sabe se existes! (ibidem).

Tu também não ficaste por vezes desanimado?

O demônio do desânimo e da tristeza
não investiu,
muitas vezes,
contra Ti?...
Quando Teus Apóstolos
não entendiam
parábolas simples
como a do Semeador;
quando insistiam
em discussões ridículas
para saber
quem o maior;
quando os Teus
te desafiavam
a fazer prodígios
e Te chamavam, com desprezo,
‘filho do Carpinteiro’;
quando Te acusavam
por andares
com publicanos e pecadoras
e Te chamavam
filho de Belzebu;
quando os mais íntimos
Te abandonavam,
traindo-Te,
negando-Te,
fugindo de Ti;
quando ficaste na Cruz
entre dois ladroes
e tiveste a impressão
de que o próprio Pai
Te abandonava
– que fazias,
como resistias
ao Mestre das intrigas
e Pai da mentira? (ibidem).

O interessante é que, apenas alguns meses antes, em julho de 1970 (talvez em circunstâncias mais favoráveis), Helder Camara escreve, de novo numa só noite, dois poemas que de certo modo contradizem e invalidam os poemas de março 1971. O silêncio de Deus, que tanto agonia o vigilante de março 1971, resulta ser, em última análise, falta de silêncio por parte de quem dEle se queixa.

No silêncio das árvores
Ainda há
o agitar dos ramos
movidos pelo vento...
No silêncio das águas,
ainda há
o marulho das vagas
ou o cantar da correnteza
atravessando as pedras...
No silêncio dos céus,
ainda há
o palpitar das estrelas,
carregado de mensagens...
Aprende
que não basta não falar
para atingires o silêncio.
Enquanto os cuidados te agitam,
ainda não penetraste
na área do grande silêncio.
E aí, somente aí
se escuta a voz de Deus! (Carta Circular 30-31/7/1970, V, II, pp. 40-41).

E, na mesma noite,

O ruído
que impede de ouvir
a voz de Deus
não é
de modo algum
o vozerio dos homens,
o trepidar das cidades
e, ainda menos,
o agitar dos ventos
ou o marulho das águas...
O ruído
que abafa de todo
a voz divina
é o tumulo interior
do amor próprio que estremece,
das desconfianças que se agitam,
da ambição que não dorme (ibidem).

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.