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terça-feira, 9 de agosto de 2022

Quando fé e religião entram em conflito

 Marcelo Barros


 

Na compreensão judaico-cristã, a fé significa a opção de assumir um modo de viver que traduza o projeto divino para o mundo. Isso implica em conversão progressiva da própria pessoa e empenho na transformação do mundo. Não se deve confundir fé e crenças. Alguém pode ser muito crédulo; pode acreditar em coisas extraordinárias e não ter a fé como opção.

Atualmente, é comum pensar a fé como algo privado que diz respeito apenas à intimidade de cada pessoa. De fato, o ser humano só se torna plenamente pessoa no convívio social. A fé reduzida à privacidade de cada um é proposta falsa do individualismo capitalista. Só se vive a fé em comunidade. Isso é que fez com que, no decorrer da história, surgissem tantas religiões, cada uma com sua riqueza e suas originalidades. A religião sistematiza a experiência comunitária da fé, sem com ela se confundir. Nem esgota em si a riqueza da espiritualidade. Existem espiritualidades não ligadas a uma religião concreta.

Por seu caráter institucional, a religião se baseia em tradições e tende sempre a ser mais conservadora. Infelizmente, no decorrer da história, muitas vezes, as religiões contribuíram não para a paz e a justiça e sim para a manutenção de preconceitos que dividem a humanidade em pessoas puras e impuras, santas e pecadoras. Em nome de Deus, semearam ódio e violências e, assim, contribuíram para guerras e conflitos. Muitas guerras que, hoje, dominam o mundo desapareceriam, se, realmente, as religiões fossem forças construtoras de Justiça e de Paz.

Na América Latina, o Cristianismo veio com os conquistadores. Em nome de Deus, legitimou a colonização. Até hoje, há padres e pastores, grupos católicos e evangélicos que apoiam políticas que sustentam injustiças estruturais da sociedade de classes. Quando pessoas que se dizem ministros de Igrejas defendem uma política baseada no ódio e na violência, é sinal de que trocaram o evangelho de Jesus por interesses pessoais ou grupais de lucro e prestígio. Jesus só pode se sentir ofendido com a tal Marcha para Jesus, convertida em palco de propaganda de um governo genocida. 

Em cada religião, ou mesmo fora delas, os/as profetas são pessoas que insistem para que as Igrejas voltem à Palavra libertadora de Deus e retomem o projeto divino do Amor e da Solidariedade como Justiça. Nas diversas religiões, sempre há novos profetas. No Hinduísmo, fazem o que, na primeira metade do século XX, o Mahatma Gandhi fez na Índia ao lutar contra o colonialismo a partir da não-violência ativa. Nos Estados Unidos,  o pastor Martin-Luther King liderou a luta pacífica pelos direitos civis do povo negro. Na América Latina, Dom Oscar Romero e milhares de homens e mulheres deram a sua vida para testemunhar que Deus é Amor e, como afirmou  o profeta Jeremias: “o seu nome é Justiça” (Jr 23, 6). O evangelho é força de libertação moral e espiritual, mas também social e política.  

Na atual campanha política do Brasil, quem crê que Deus é Amor e busca viver a espiritualidade, precisa testemunhar que se Deus existe, não pode ser de direita. Não deveríamos permitir que o seu nome seja manipulado por pessoas que gritam “Deus acima de tudo” e propõem discriminações, ódio e violência. O Conselho Mundial de Igrejas, que reúne 349 Igrejas cristãs, realizará neste mês de agosto a sua XI Assembleia geral  que ocorrerá na Alemanha e terá como tema: “O amor de Cristo conduz o mundo à reconciliação e à unidade”. É importante que, no Brasil, crentes das mais diferentes confissões cristãs compreendam isso e aceitem ser testemunhas dessa boa notícia.

 

 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

DA MÍDIA DE CONSENSO À DE CONFLITO




Por Frei Betto

      Definha o interesse por notícias impressas ou televisivas. Pesquisas revelam que o público prefere notícias online.

      Nos séculos XIX e XX, o modo de pensar da sociedade tendia a ser moldado pelos grandes meios de comunicação: mídia impressa, rádio e TV. Tudo indica que termina aquela era. Trump se elegeu atacando a grande mídia dos EUA. Só a Fox o apoiou. Os principais veículos da mídia britânica se opuseram ao Brexit. Ainda assim a maioria dos eleitores votou a favor dele. Bolsonaro fez campanha presidencial quase ausente da grande mídia. Criticou os principais veículos, e ainda assim se elegeu. O que acontece de novo?

      O novo são as redes digitais, as novas tecnologias ao alcance da mão. Elas deslocam a notícia dos grandes veículos para computadores e smartphones. Têm o mérito de democratizar a informação, rompendo a barreira ideológica que evitava opiniões contrárias à orientação editorial do veículo.

Contudo, pulverizam a notícia. O que é manchete na TV não merece destaque na comunicação interpersonalizada na internet. O receptor corre o risco de perder ou não adquirir critérios de valoração das notícias. Pode ser que lhe seja mais importante ficar ciente de que seu colega tem nova namorada do que inteirado do golpe de estado no país vizinho ou da nova lei que regula o trânsito em seu bairro.

      Essa informação individualizada, embora mais cômoda, prêt-à-porter, tende a evitar o contraditório. Cada interessado se isola no interior de sua tribo no Whatsapp, no Twitter, no Facebook, no Instagram, no YouTube, no Telegram, nos serviços de mensagens no Google e do Periscope. Não há interação dialógica. Não interessa o que dizem as tribos vizinhas, potenciais inimigas. O que transmitem não merece crédito. A única verdade é a que circula na tribo com a qual o internauta se identifica. Ainda que essa “verdade” seja fake news, mentira deslavada, farsa. Apenas um dialeto faz sentido para o internauta. Desprovido de visão conjuntural, ele se agarra ao que propagam seus parceiros como quem acolhe oráculos divinos.

Querer mudar-lhe o foco é como se alguém tentasse convencer os astecas contemporâneos de Cortés de que o sol haveria de despontar no horizonte ainda que eles não despertassem de madrugada para celebrar os ritos capazes de acendê-lo. Com certeza não ousariam correr o risco de ver o dia inundado de escuridão.

      Eis a privatização da notícia. Essa seletividade individualizada faz com que o internauta se encerre com a sua tribo na fortaleza virtual dotada de agressivas armas de defesa e ataque. Se a versão emitida pela tribo inimiga chegar a ele, será imediatamente repelida, deletada ou respondida por uma bateria de impropérios e ofensas. É dever de sua tribo disseminar em larga escala a única verdade admissível, ainda que careça de fundamento, como a teoria do terraplanismo.

      Os efeitos dessa atomização das comunicações virtuais são deletérios: perda da visão de conjunto; descrédito dos métodos científicos; indiferença ao conhecimento historicamente acumulado; e, sobretudo, total desprezo por princípios éticos. Qualquer um que se expresse em linguagem que não coincida com a da tribo merece ser atacado, injuriado, difamado e ridicularizado.

      O que fazer frente a essa nova situação? Desconectar-se? Ora, isso seria bancar a tartaruga que recolhe a cabeça para dentro do casco e, assim, se julga invisível. A saída deve ser ética. O que implica tolerância e não revidar no mesmo tom. Como sugere Jesus, “não atirar pérolas aos porcos” (Mateus 7,6). Deixar que chafurdem na lama sem, no entanto, ofendê-los.

      A vida é muito curta para que o tempo seja gasto em guerras virtuais. Quanto a mim, prefiro ignorar ataques e atuar propositivamente. Sobretudo, não trocar a sociabilidade real pela conflituosidade virtual. E muito menos livros por memes e zapps que nada acrescentam à minha cultura e à minha espiritualidade.

Frei Betto é escritor, autor de “Fé e afeto – espiritualidade em tempos de crise” (Vozes), entre outros livros.
Copyright 2019 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 
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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

DO CONFLITO À COMUNHÃO


  Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



 Oikos é uma palavra grega que pode ser traduzida como “casa”, “ambiente habitado” ou “família”. Na Grécia Antiga, oikos era o nome dado à unidade básica de uma sociedade, formada pelo chefe, representado pelo homem mais velho, sua família (filhos e esposa) e todos os que conviviam em um mesmo ambiente doméstico.
“Ecumenismo” provém dessa bela palavra grega:  oikos.  Mas aqui a casa é o mundo.  E ecumenismo deseja alcançar exatamente isso: toda a terra habitada,  buscando criar pontes e não barreiras,  estender a unidade e superar qualquer divisão.
Em termos teológicos, ecumenismo é a busca da unidade entre todas as igrejas cristãs. É um processo de entendimento que reconhece e respeita a diversidade entre as igrejas. Inicialmente, se refere apenas ao mundo cristão. Na prática, porém, o movimento compreende diversas religiões inclusive aquelas não cristãs.

A Igreja Católica e as igrejas protestantes começaram a dar passos concretos e importantes na direção de uma vivência e uma prática ecumênica a partir do Concilio Vaticano II, nos anos 60. Desde então, o processo de busca da unidade tem crescido, ainda que muitas vezes tenha tido que superar percalços e dificuldades.

Em 2017, celebram-se os 500 anos da Reforma Protestante.  O monge agostiniano Lutero tinha duras críticas à Igreja e recebeu adesão de muitos que passaram a não mais considerar-se sob a autoridade do Papa.  Criou-se um cisma, uma divisão entre os cristãos, que só começou a ser superada cinco séculos depois, com o Vaticano II.

Por tudo isso, pela triste história de divisão entre os seguidores de Jesus Cristo, o deslocamento do Papa até Lund, a fim de participar da comemoração ecumênica dos 500 anos da Reforma organizada pela Federação Luterana Mundial e pelo Pontifício Conselho para a promoção da unidade dos cristãos, é de imensa importância. 

Antes de viajar a Lund o Papa declarou, em entrevistas, que a Reforma de Lutero aconteceu em um momento em que havia realmente coisas que necessitavam urgentemente ser reformadas na Igreja. Porém, devido a questões politicas, tornou-se, segundo o Papa, “um estado de separação e não um processo de reforma para toda a Igreja”.  Além disso, o movimento de Lutero devolveu a Bíblia às mãos do povo.  E essa devolução foi retomada pelo Concilio Vaticano II, oficializando o acesso dos católicos à Escritura, à Palavra de Deus.  O endurecimento das duas partes gerou a divisão que até hoje impera mas que todos – católicos e protestantes – desejam ver superada.

Francisco não pediu nem exigiu que viessem a ele.  Deslocou-se, pôs-se em movimento, foi ate lá.  Seu desejo era aproximar-se mais daqueles que chamou “meus irmãos e minhas irmãs”. Convicto de que a distância faz adoecer, enquanto a proximidade cura e revitaliza, saiu dos muros do Vaticano para ir ao encontro daqueles que, na Suécia, celebravam o início do movimento que deu origem a suas Igrejas.  Dispôs-se a entrar em terreno alheio como hóspede, esperando acolhida.

Foi acolhido fraternalmente.  Celebrou com os luteranos e falou intensamente em favor da superação da divisão e da necessidade de buscar a unidade.  Lembrou da necessidade de reconhecer os erros, pedir perdão e investir no que une e não no que separa. E insistiu em que o ecumenismo tem que dar-se na prática.  É preciso rezar juntos, celebrar juntos, trabalhar juntos e não apenas permanecer na teoria, esmiuçando questões e divergências doutrinais.
O documento, assinado em conjunto pelo Papa e pelo presidente da Federação Luterana Mundial, afirma: “Pedimos a Deus inspiração, ânimo e força para podermos continuar juntos no serviço, defendendo a dignidade e os direitos humanos, especialmente dos pobres, trabalhando pela justiça e rejeitando todas as formas de violência”.  E repudia "energicamente todo  ódio e violência, passado e presente, especialmente a cometida em nome da religião". 

Tanto católicos como luteranos desejam ardentemente a unidade, como afirma a declaração conjunta: “Desejamos ardentemente que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o objetivo dos nossos esforços ecumênicos, que desejamos levar adiante, inclusive renovando o nosso empenho no diálogo teológico”.  O documento consagra assim o “compromisso de passar do conflito à comunhão”.
A comunhão é sempre um desafio, pois deve acontecer em meio à vida que é dinâmica, se move e não se detém.  Seus protagonistas são pessoas vivas, seres humanos com desejos, ambiguidades, pecados e erros. Porém, se houver disposição de encontro, de proximidade, de escuta e acolhimento, a unidade será possível e virá.  O gesto do Papa Francisco comprova isso.  A acolhida que lhe deram também.  A declaração conjunta que se dirige a toda a oikumene é prova de que é preciso ter fé e esperança, porque todos receberam o mesmo batismo e professam a mesma fé.  Como declarou o Papa, há um ecumenismo de sangue.  Cristãos derramaram juntos seu sangue pela fé e a caridade de sua pertença a Jesus Cristo.  Aproximar-se cada vez mais e superar as divisões é ser fiéis a esse ecumenismo de sangue que nos faz sermos um só.

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 
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