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quarta-feira, 7 de abril de 2021

"PÁSCOA DEPOIS DA PÁSCOA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS"

 


FREI ALOÍSIO FRAGOSO

(06/04/2021)

 

     Terminada a festa da Páscoa, na liturgia da Fé, retornamos de imediato ao drama da Paixão, ao cenário pandêmico de dores e medos, sem prazo definido de encerrar-se. Na Páscoa revivemos a ressurreição de Jesus, penhor da nossa ressurreição. Mas fica no ar uma pergunta para todos os tempos: quem removerá a pedra do túmulo, tornando visível o renascer da vida, a supremacia da vida?

     Dos que ocupam os poderes constituídos neste país, nada mais temos a esperar. Cansamos do circo, cansamos de oportunistas e prestigitadores (eles parecem querer dançar sobre 330.000 caixões mortuários).

      Quem removerá a pedra do túmulo? - Nós, nós o faremos, armados de ousadia, criatividade, inconformismo, rebeldia, paciência, guiados pelo poder revolucionário da Fé.

      Sinais vivos da ressurreição é o que não  falta, eles se espalham por toda parte, ao alcance de quem tem olhos para ver:

     São as crianças que trouxemos para habitar este mundo infectado. Elas clamam por vida, exigem as garantias para o seu futuro. Seu olhar evidencia que a vida já venceu a morte.

     São pais e mães que se sacrificam ao extremo, a fim de assegurar a unidade e a feliz convivência familiar, neste tempo de quarentena compulsória.

      São profissionais da saúde de todas as categorias que, sem pensar duas vezes, oferecem suas vidas no cuidado de outras vidas.

     São cientistas e pesquisadores que se fecham em seus laboratórios, impelidos pela obsessão de aperfeiçoar a arma confiável de vencer o vírus exterminador.

     São trabalhadores e trabalhadoras humildes, coveiros, zeladores, maqueiros, e outros mais, cumprindo sua missão de preservar visualmente a dignidade da pessoa humana.

      São pensadores geniais pondo ao nosso dispor idéias profundas que dão fundamento ideológico e místico às nossas lutas (Leonardo Boff, Jessé de Souza, Boaventura de Souza Santos, Marilena Chauí, Noam Chomsky, Djanira Ribeiro, José Mujica, Márcia Tiburi e outros tantos).

      São cantores clássicos e populares, poetas e repentistas que     nutrem nosso espírito de poesia e ternura ("hay que endurecer-se, pero sin perder la ternura, jamás").

     É a voz profética de um homem do povo, que ecoa universalmente, acompanhada de um refrão cada dia mais retumbante: "brilha uma estrela, cresce a esperança".

      São milhões de vozes de todas as crenças elevando-se ao Criador em súplicas incessantes: "Vinde, o' Deus, em nosso auxílio!"

     É o testemunho, que comove e convence, de um ancião que se tornou a referência moral da humanidade, o Papa Francisco.

      São claros sinais de que esta pandemia, e outras do passado e a previsão de outras no futuro, não conseguem deter a marcha da humanidade na execução do seu destino.

      E Deus, onde fica Deus neste palco, que Ele mesmo montou, desde o início da Criação? Se Ele estivese alheio a tudo isso, não mereceria o título de Deus, desabitaria nossas almas para sempre, mas não, nem pensar, Ele está presente e atuante, não como um pai "bonzinho" que faz os deveres de casa dos filhos e filhas, e sim como o Pai sensato, que aguarda, enquanto eles aprendem as lições de seus desacertos, e chega na hora oportuna com a sua misericórdia.

      Considerados no seu conjunto, estes sinais abrem o nosso entendimento para o mistério insondável da Cruz: a morte que carrega em si a imortalidade. Este mistério transfere-se para nossa experiência,

pois ao grito de uns "meu Deus, por que me abandonaste?" sucede-se o holocausto de outros que se sacrificam amorosamente. Aí está o derradeiro e supremo anúncio pascal: "Mais forte do que a morte é o amor" Ct.8,6.

     Só assim poderemos entender a morte de um Deus. E teremos razões suficientes de exclamar, neste tempo de Páscoa depois da Páscoa: FELIZ  PÁSCOA!

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

O CAMINHO DA HUMANIDADE DEPOIS DA PANDEMIA

 



 

Por Marcelo Barros 

Muita gente se pergunta como será o caminho da sociedade depois da pandemia. A elite que se beneficia do modo como a sociedade está organizada imagina voltar quanto antes ao mundo de antes e a seus lucros maravilhosos. A quebra geral de empresas em todos os setores não indica que isso será tão fácil. Os que se beneficiam do capital produtivo sabem que o prejuízo maior da crise cai principalmente nas mãos dos assalariados e dos trabalhadores de base. Como sempre, os patrões sairão mais ricos. No entanto, esta mágica que sempre funcionou assim começa a dar sinais de cansaço. Outro tipo de capital que é o financeiro continua garantindo aos bancos e aos que operam em bolsas de valores os lucros possíveis. Entretanto, dificilmente serão os 400% de lucro aos quais estavam habituados antes da pandemia. Quanto ao que hoje se chama de capital de rapina, isso é, os que ganham da grilagem de terras no Mato Grosso e na Amazônia, os que exploram trabalho escravo e invadem terras indígenas e quilombolas estes continuam a apoiar o atual governo federal porque este lhes garante liberdade e espaço de ação. “Pena que índios, negros e quilombolas sejam ruins até pra morrer”, pensa em voz alta o ocupante do palácio.

Enquanto o mundo inteiro se escandaliza com o fato de que o Brasil convive com o recorde de mais de 114 mil pessoas mortas e mais de três milhões de pessoas contaminadas pela Covid 19, o governo de Minas Gerais joga 300 policiais militares contra 450 famílias do Acampamento Quilombo em Campo Grande, MG, que produziam alimentos saudáveis em uma produção de agroecologia comunitária. Em Águas Belas, em Pernambuco, os índios Fulniô veem sua escola destruída e os Pankararu, no médio São Francisco recebem ameaças de morte. Chegando ao céu, o nosso profeta Pedro Casaldáliga joga o manto do seu espírito para dar força na luta a índios, lavradores sem terra e todas as pessoas famintas e sedentas de justiça.

Na Europa, cada vez mais aumenta o número de pessoas que percebem é preciso  disciplinar e mesmo frear o crescimento econômico e deter o progresso tecnológico. Na França, desde 2006, existe um PPLD (Partido em Prol do Decrescimento), fundado pelo deputado Vincent Cheynet que advoga a salvação do planeta e da humanidade pelo caminho do “voltar atrás”: renunciar a muitos confortos desta sociedade de consumo e, assim preservar melhor o planeta e o essencial da vida. Esta proposta se espalha por minorias na Itália e em outras nações do Ocidente.

Para todos os continentes e para cada ser humano, vale a proposta do cientista social Serge Latouche dos oito R: Reavaliar, Reconceituar, Reestruturar, Redistribuir, Redimensionar, Reduzir, Reutilizar e Reciclar.

Não se trata de voltar ao passado, nem de condenar qualquer forma de progresso, mas de compreender que o atual modelo de desenvolvimento, baseado no petróleo, na exploração da natureza e na competição entre as pessoas está falido e nos conduzirá à catástrofe. O inimigo maior de nossa civilização não é o Coronavírus, por mais cruel qu esse seja. É sim a destruição ecológica e a ambição de uma elite do mundo que não hesita em matar para ter mais dinheiro e poder. Esta elite nega os direitos à vida e à dignidade de seus próprios irmãos e irmãs e destrói a terra e a natureza. Precisaríamos de três planetas Terra para suportar a exploração que o modelo civilizatório capitalista comete contra a vida.

A Organização das Nações Unidas está fazendo uma consulta a populações do mundo inteiro para saber a opinião das pessoas quanto às perspectivas e principais necessidades da humanidade pós-pandemia. Todos nós podemos responder. A pesquisa tem a seguinte introdução: 

“A pandemia de COVID-19 é um aviso claro da necessidade de cooperação entre países, entre setores e entre gerações. A este respeito, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou:

«Tudo o que fizermos durante e depois desta crise deve ter uma forte tónica na construção de economias e sociedades mais igualitárias, inclusivas e sustentáveis, mais resilientes às pandemias, às alterações climáticas e aos muitos outros desafios com que nos confrontamos à escala mundial.». Eis o link para quem quiser responder a estas perguntas:

https://social.un75.online/partner/un75?lang=prt

As tradições vindas das culturas indígenas têm proposto para toda a humanidade o paradigma do bem-viver, da revalorização dos bens comuns como bens públicos aos quais toda a humanidade tem direito de acesso gratuito: terra, água, saúde e educação. Movimentos sociais se mobilizam para pedir à Assembleia Geral da ONU que proclame as vacinas contra os vírus como bens comuns que devem ser de acessso gratuito e público para todos os seres humanos.

De um modo ou de outro, o Bem-viver e o bem-conviver corresponde ao Shallom bíblico, paz e salvação, assim como o Axé das religiões afrodescendentes. É a alegria da pessoa se sentir em sintonia com as outras e em comunhão com todo o universo. Amar e se saber amado/a é o dom divino presenteado a todo ser humano e que pode ser fonte íntima desta alegria, deste bem-viver, caminho para a humanidade depois desta pandemia.

 

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

 

 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O QUE PODERÁ VIR DEPOIS DO CORONAVÍRUS?



por leonardo boff

Muitos já sentenciaram: depois do coronavírus não é mais possível levar avante o projeto do capitalismo como modo de produção nem do neoliberalismo como sua expressão política.O capitalismo é somente bom para os ricos; para os demais é um purgatório ou um inferno e para a natureza, uma guerra sem tréguas.
O que nos está salvando não é a concorrência – seu motor principal – mas a cooperação, nem o individualismo – sua expressão cultural – mas a interdependência de todos com todos.
Mas vamos ao ponto central: descobrimos que a vida é o valor supremo, não a acumulação de bens materiais. O aparato bélico montado, capaz de destruir por várias vezes, a vida na Terra se mostrou ridículo face a um inimigo microscópico invisível, que ameaça a humanidade inteira. Seria o Next Big One (NBO) do qual temem os biólogos, “o próximo Grande Vírus”, destruidor do futuro da vida? Não cremos. Esperamos que a Terra tenha ainda compaixão de nós e nos dê apenas uma espécie de ultimato.
Já que o vírus ameaçador provém da natureza, o isolamento social nos oferece a oportunidade de nos questionarmos: qual foi e como deve ser nossa relação face à natureza e, em termos mais gerais, face à Terra como Casa Comum? Não são suficientes a medicina e a técnica, por mais necessárias. Sua função é atacar o vírus até exterminá-lo. Mas se continuarmos a agredir a Terra viva,”nosso lar com uma comunidade de vida única”como diz a Carta da Terra (Preâmbulo) ela contra-atacará de novo com pandemias mais letais, até uma que nos exterminará.
Ocorre que a maioria da humanidade e dos chefes de Estado não têm consciência de que estamos dentro da sexta extinção em massa. Até hoje não nos sentíamos parte da natureza e nós humanos a sua porção consciente; nossa relação não é para com um ser vivo, Gaia, que possui valor em si mesmo e deve ser respeitado mas de mero uso em função de nossa comodidade e enriquecimento. Exploramos a Terra violentamente a ponto de 60% dos solos terem sido erodidos, na mesma proporção as floresta úmidas e causamos uma espantosa devastação de espécies, entre 70-100 mil por ano. É a vigência do antropoceno e do necroceno. A continuar nesta rota vamos ao encontro de nosso próprio desaparecimento.
Não temos outra alternativa senão, fazermos nas palavras da encíclica papal “sobre o cuidado da Casa Comum” uma “radical conversão ecológica”. Nesse sentido o coronavírus é mais que uma crise como outras, mas a exigência de uma relação amigável e cuidadosa para com natureza. Como implementá-la num mundo montado sobre a exploração de todos os ecossistemas? Não há projetos prontos. Todos estão em busca. O pior que nos pode acontecer, seria, passada a pandemia, voltarmos ao que era antes: as fábricas produzindo a todo vapor mesmo com certo cuidado ecológico. Sabemos que grandes corporações estão se articulando para recuperar o tempo e os ganhos perdidos.
Mas há que conceder que esta conversão não poderá ser repentina, mas processual. Quando o Presidente francês Maccron disse que “a lição da pandemia era de que existem bens e serviço que devem ser colocados fora do mercado” provocou a corrida de dezenas de grandes organizações ecológicas, tipo Oxfam, Attac e outras pedindo que os 750 bilhões de Euros do Banco Central Europeu destinados a sanar as perdas das empresas fossem direcionados à reconversão social e ecológica do aparato produtivo em vista de mais cuidado para com a natureza, mais justiça e igualdade sociais. Logicamente isso só se fará ampliando o debate, envolvendo todo tipo de grupos, desde a participação popular ao saber científico, até surgir uma convicção e uma responsabilidade coletivas.
De uma coisa devemos ter plena consciência: ao crescer o aquecimento global e ao aumentar a população mundial devastando habitats naturais e assim aproximando os seres humanos aos animais, estes transmitirão mais vírus que encontrarão em nós novos hospedeiros para os quais não estamos imunes. Daí surgirão as pandemias devastadoras.
O ponto essencial e irrenunciável é a nova concepção da Terra, não mais como um mercado de negócios colocando-nos como senhores (dominus), fora e acima dela mas como um super Ente vivo, um sistema autoregulador e autocriativo, do qual somos a parte consciente e responsável, junto com os demais seres como irmãos (frater). A passagem do dominus (dono) a frater (irmão) exigirá uma nova mente e um novo coração, isto é, ver de modo diferente a Terra e sentir com o coração a nossa pertença a ela e ao Grande Todo. Junto a isso o sentido de inter-retro-relacionamento de todos com todos e uma responsabilidade coletiva face ao futuro comum. Só assim chegaremos, como prognostica a Carta da Terra, a “um modo sustentável de vida”e a uma garantia de futuro da vida e da Mãe Terra.
A atual fase de recolhimento social pode significar uma espécie de retiro reflexivo e humanístico para pensarmos sobre tais coisas e a nossa responsabilidade face a elas. O tempo é curto e urgente e não podemos chegar tarde demais.
Leonardo Boff escreveu Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2018 e A opção Terra: a solução da Terra não cai do céu, Record 2009.


quinta-feira, 2 de abril de 2020

E DEPOIS DA PANDEMIA?




Frei Betto

       Como será o “dia seguinte” dessa pandemia? O que mudará em nossos países e em nossas vidas?

       Ainda é cedo para previsões. Alguns sinais, porém, já indicam que, ao contrário do que diz a canção, não viveremos como os nossos pais.

       Por que a China conseguiu deter a epidemia em tempo relativamente curto, se considerarmos que, numa população que ultrapassa 1 bilhão de pessoas, não é fácil exercer tão eficiente controle? E é justamente esta palavra – controle – o indício de que, agora, a ficção de George Orwell, no romance “1984”, chegou à realidade.

       As nossas frágeis instituições democráticas estão ameaçadas. A China logrou conter o coronavírus porque, por meio de celulares, manteve cada cidadão sob vigilância. Inclusive capaz de mapear onde o usuário do celular, portador da infecção, esteve nas últimas duas semanas. O mundo tende, agora, a se transformar em uma gigantesca casa do Big Brother, na qual todos sabem o que todos fazem, em especial aqueles que detêm o controle dos algoritmos.

       A exigência de ficar em casa demonstra ser possível manter a sociedade em funcionamento sem obrigar milhares de pessoas a se deslocarem diariamente de casa para o local de trabalho. Isso traria muitas vantagens para o capitalismo: não precisar manter tantos prédios com escritórios e outros espaços laborais, nem funcionários para cuidar de limpeza, refeições, manutenção, energia, mobiliário etc.

       Muitos serão como empregadas domésticas antes da lei de 2015 que assegura direitos a elas: sem carteira assinada, leis trabalhistas, vínculos sindicais e queixas pelos corredores. Todos dormindo no serviço, sem hora para entrar e sair, obrigados a comprar o próprio alimento, sem direito a descanso no fim de semana e obrigados a fazer do espaço doméstico um local de trabalho, o que certamente afetará as relações familiares. Seremos todos prestadores de serviço, uberizados pela atomização das relações de trabalho.

       Outra possibilidade de esgarçamento democrático é as autoridades, por mero capricho autoritário, decidirem nos impor, com frequência, o toque de recolher. O “fica em casa” passa a ser rotineiro, e nossa mobilidade controlada pela polícia. E as fronteiras de nossos países podem ser periodicamente fechadas, o que nos faria experimentar o que significa viver na Coreia do Norte.

       Contudo, há malas que vêm de trem, como se diz em Minas. A pandemia desmoralizou o discurso neoliberal de eficiência do livre mercado. Como em crises anteriores, mais uma vez se recorreu ao papel interventor do Estado. Os países que privatizaram o sistema de saúde, como os EUA, enfrentam mais dificuldade para conter o vírus que os países que dispõem de sistema público de atenção aos enfermos. Talvez isso suscite cautela frente às propostas de privatização, e até mesmo incentive reestatizações.

       Fator positivo é, em meio à crise, estreitar laços de solidariedade, partilhar bens, cuidar dos vulneráveis, resgatar antigas brincadeiras para entreter as crianças e, sobretudo, descobrir que podemos ser felizes curtindo o âmbito familiar e sem muitas atividades fora de casa.

       A palavra crise deriva do verbo acrisolar, que significa aperfeiçoar. Porque ela nos ensina muitas lições. Se em poucos dias foi possível transformar estádios, como o Pacaembu em São Paulo, e pavilhões, como o Riocentro no Rio, em hospitais dotados de instalações de primeira linha, por que não é possível adotar medidas semelhantes para reduzir o déficit habitacional no Brasil?

       Há, porém, quem nada aprende com a crise, como aqueles que, na contramão da ética e dos mais universais princípios religiosos, consideram ser mais importante salvar o lucro dos bancos e das empresas que vidas. Padecem de uma miopia que os impede de ver que o coronavírus não faz distinção de classe. Portanto, se equivocam ao supor que a epidemia matará apenas idosos (aliviando as contas da Previdência Social), portadores de outras doenças (diminuindo a fila do SUS), moradores de ruas (higienizando as cidades) e favelados (reduzindo os gastos com a área social).

       Essa perversa ideologia é, ela sim, um caso grave de saúde política e que exige medidas urgentes de profilaxia.

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros.
  

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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

DEPOIS DO FOGO



  Por  Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Recebi de uma amiga a notícia: o Museu Nacional está pegando fogo!  Incrédula, liguei a televisão e ali estava o registro do horror, em movimento.  As chamas lambiam lascivamente a instituição científica e cultural mais antiga do Brasil e não conseguiam ser controladas pelos bombeiros.  Seu destruidor apetite deixou um saldo aterrorizante horas depois: mais de 20 milhões de peças de valor incalculável poderiam ter sido perdidas para sempre. 

            Raras vezes vi tanta lágrima, choro, desolação.  Crianças choravam, jovens, adultos e idosos. Amigos do exterior expressavam seu pesar e  dor, enviavam sentimentos e condolências.  As redes sociais anunciavam luto de tantos.  E indignação de muitos mais. O fogo consumia nossa memória, nossa história, nossa cultura. 

 Devorava a instituição científica e cultural mais antiga do Brasil. 

            Agora, depois do fogo e da perda irreparável de muitas preciosidades, fazemos balanço.  O incêndio era uma morte anunciada.  As condições em que o Museu funcionava estavam muito aquém das aceitáveis e a ameaça sobre seu acervo era permanente. Não havia infraestrutura necessária para combate a incêndios, como portas corta-fogo, detectores de fumaça e jatos automáticos de água. 

            Era domingo, era noite, e a brigada de incêndio não estava trabalhando. O fogo avançara rapidamente.  Havia, segundo informações da direção,  um projeto para reforçar a segurança do museu, mas não saíra do papel. Os atrasos devidos ao descaso com a ciência e a cultura em nosso país foram fatais.  As tragédias e os acidentes de grandes proporções não marcam hora.  Acontecem e se não forem tomadas rigorosas providências corriqueiras para evitá-los, a perda é inevitável. 

            Perdeu-se ali mais que um museu, o mais importante do país e um dos mais importantes do mundo.  Mais do que peças preciosas, sem equivalentes em qualquer lugar do planeta.  O crânio do ser humano mais antigo que já se encontrou em nossas terras: Luzia, a mulher originária da qual todos descendemos.  Perdeu-se um elo insubstituível da memória da história, da cultura e da ciência brasileiras.

            Desapareceram nas chamas igualmente registros não digitalizados de línguas nativas de povos originários que não mais existem.  Mergulhada para sempre na noite do não saber, a cultura desses povos não encontra mais oportunidade de ser reconhecida e aprendida nos tempos do hoje e do amanhã. As palavras, os cantos, os lamentos e os rituais desses povos foram reduzidos ao silêncio e calados para sempre. Sua memória mergulhou no esquecimento. 

            Pesquisas que levaram anos de vida e trabalho de cientistas e estudiosos podem ter sido irremediavelmente reduzidas a pó. Entre elas estão todos os projetos iniciados a partir da descoberta do crânio de Luzia, que lançava uma luz insuspeita sobre as possibilidades do povoamento do Brasil e da América. A América Ameríndia parecia ser, depois de Luzia, uma Proto Afro América. Tudo isso foi lido nos traços que o crânio de Luzia revelava e se tornava memória ativa e fecunda de nossas origens. 

            A memória é uma categoria inestimável para o ser humano.  Segundo o grande filósofo Martin Heidegger, a memória é o recolhimento do pensar fiel.  Ela protege e guarda consigo tudo aquilo que é importante, que faz sentido, que une e harmoniza os fatos com uma linha mestra que permite recordá-los e lê-los com a razão e o conhecimento. A memória é, pois, a condição de possibilidade da cultura, da civilização e de tudo que o ser humano conhece e constrói sobre a terra. 

            Pela memória se narra e se conta sempre de novo a história das experiências e dos feitos, do diálogo que faz nascer e confirma a identidade.  Fazendo memória, narra-se e conta-se para as novas gerações, a fim de poder testemunhar  e não deixar esquecer aquilo que fez e deve continuar fazendo a humanidade viver, sofrer, rir, pensar, falar e conhecer.  No caso do Museu Nacional, tratava-se daquilo que fazia o povo brasileiro autocompreender-se e projetar-se para além de suas fronteiras. 

            Antes do fogo, nossas crianças e jovens podiam ali encontrar muito do que na história do Brasil era conteúdo digno e justo de ser refletido e recordado. Podiam conhecer e re-conhecer passos e caminhos que o povo brasileiro dera no encalço de sua identidade.  Podiam ver descortinar-se diante de si os horizontes do futuro possível da ciência e da cultura que o acervo do Museu tornava possível em novos projetos ali gerados e gestados. 

            Depois do fogo restam as cinzas e a dor, que convivem com a esperança do que se pode resgatar, juntamente com a indignação que obriga a desejar e trabalhar para que a verdade venha à tona, negligências sejam apuradas e obscuridades  esclarecidas. Que a cultura brasileira sobreviva ao fogo.  E que a memória não nos deixe esquecer de nossa responsabilidade diante do mais precioso que temos: aquilo que somos e que nos tornamos ao longo da história que construímos. 

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)
   
Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A IGREJA CUBANA DEPOIS DE FIDEL


 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer  
       


A morte de Fidel Castro vinha sendo preparada há tempos pelo regime cubano. O comandante envelhecia e havia que pensar no futuro. Em 2008, Fidel passou a presidência a seu irmão, Raúl Castro. Este deu sinais de abertura em todas as direções.   Em termos políticos, foi sob sua presidência que, com apoio do Papa Francisco, a distensão das relações com os Estados Undos começou a acontecer.  

         Na área da religião, Fidel já dava há algum tempo sinais de maior abertura. Os irmãos Castro conheceram e praticaram o cristianismo em sua infância e juventude, sendo educados pelos padres jesuítas.  Posteriormente abraçaram o marxismo e com essa ideologia política governaram Cuba.  Assim o entende e interpreta Frei Betto, dominicano brasileiro, que conheceu de perto Fidel e seu irmão Raúl. O religioso escreveu o livro “Fidel e a Religião”, que vendeu milhares de cópias e abriu caminho para a ida do Papa João Paulo II a Cuba, em 1998.

         Neste livro, fica patente que Fidel caminhava para uma atitude de crescente abertura à Transcendência e experimentava simpatia pelo cristianismo e seus princípios de justiça e fraternidade.  A notícia de que um comunista podia sentir-se próximo do cristianismo escandalizou alguns. Foi, porém, perfeitamente compreendida por cristãos ilustres, como o Papa Francisco.  Em entrevista ao jornal italiano “La Republica”, Sua Santidade declarou que “os comunistas pensam como os cristãos.  Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os fracos e os excluídos são os que decidem.”

Nesse sentido, pode-se compreender que para muitos cristãos a revolução cubana seja atraente em muitos aspectos. Ali se pode ver alguns pontos da justiça pregada pelo cristianismo acontecendo de fato.  Embora seja igualmente certo que certas restrições como a falta de liberdade política e o fechamento das comunicações com o exterior sejam incompatíveis com a doutrina cristã.

         Por isso, a Igreja universal olha para a Igreja cubana perguntando-se que mudanças trará para seu futuro a morte do líder político da ilha.  Ainda que o estado cubano seja laico e não filiado a nenhum credo específico, não se pode negar que o substrato católico presente em Cuba desde a colonização espanhola ainda se encontra presente e tem raízes profundas. 

         Quando da visita de João Paulo II, contra todas as expectativas, as ruas da ilha foram tomadas por um milhão de pessoas.  Quando o Papa Bento XVI lá esteve também provocou vasta mobilização.  No ano passado, com o Papa Francisco o interesse não foi menor.

         O mesmo acontece quando a imagem da Virgen de la Caridad del Cobre, padroeira de Cuba - por eles carinhosamente chamada de Cachita – é levada às ruas e faz sua peregrinação anual pelas cidades.  Sem publicidade no jornal ou na televisão, as ruas se enchem de cubanos que acompanham a imagem, com oração e piedade.  

         Em 2015, o Papa argentino conseguiu mover a hierarquia eclesiástica cubana a uma aproximação ainda maior com o regime de Castro.  A convocação central do Pontífice foi ao diálogo, ao encontro com o ser humano.  Por isso, igualmente, Francisco evitou arestas – ainda que com o risco de decepcionar alguns – e abriu para uma Cuba em dificuldades a opção de comunicar-se com o mundo.  Com suma habilidade, foi ao encontro do que já vinha falando o próprio Fidel sobre a inevitabilidade de mudanças na ilha.  O Papa valorizou o testemunho e exemplo que Cuba é para o mundo, com suas conquistas inegáveis de justiça e igualdade.

         Uma pesquisa de opinião indicou que em Cuba somente 27% das pessoas se reconhecem católicas.  Mas, ao mesmo tempo, aponta para o fato de que 8 em cada 10 têm uma imagem positiva do Papa Francisco.  E também – talvez em boa parte devido a isso – confiam na Igreja como instituição.

         Que futuro se pode esperar, então, para esta Igreja após a morte de Fidel Castro? Não nos cabe aqui fazer exercícios de futurologia.  Mas sempre há espaço para desejos e esperanças.  Talvez o mais urgente seja a Igreja ter mais possibilidades de atuação no campo da educação.  

         Isso já acontece de maneira informal e discreta.  Há casas e instituições religiosas que oferecem cursos muito bem aceitos e procurados por numerosos cubanos.  Também universidades de outros países enviaram delegações com propostas de desenvolvimento de projetos comuns em Cuba e foram bem recebidas.  Tais projetos se vão pouco a pouco fazendo realidade.

         Por que não se poderia ampliar mais esse espaço, de forma que a Igreja fosse novamente chamada a atuar em um campo em que é pioneira, como o da educação? Esperemos que, passado este momento de perplexidade com a morte de Fidel, um novo horizonte de trabalho educativo se abra efetivamente para a Igreja da ilha, tão corajosa e fiel ao longo de todos esses anos.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer é  professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 

Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


domingo, 4 de dezembro de 2016

“A IMITAÇÃO DE CRISTO”: DEPOIS DA BÍBLIA O LIVRO MAIS LIDO


 por Leonardo Boff


Ao completar mais de 50 anos de labor teológico, pus-me um desafio: retraduzir a “Imitação de Cristo” do latim medieval, arredondar o estilo no sentido de superar o tradicional dualismo da visão clássica e por fim, acrescentar-lhe mais uma parte escrita dentro da moderna cosmologia que procura articular e incluir todas as dimensões, mais adequada ao espírito contemporâneo. Foi uma diligência minuciosa que me custou dois anos de trabalho. Seria o meu canto de cisne da teologia mais sistemática., o meu “nunc dimitis, Domine” bíblico (“agora posso partir, Senhor”).
O autor é o venerável Tomás de Kempis (1380-1471) nascido na Alemanha. Foi durante toda vida mestre espiritual de jovens religiosos dos Cônegos de Santo Agostinho. Produziu uma obra de profunda espiritualidade que alimentou a cristandade até os dias de hoje, sempre lida, meditada e citada por nomes notáveis como Freud, Jung e Heidegger.
Há mais de mil edições da “Imitação de Cristo”,  espalhadas pelo mundo afora, sendo que no British Museum se colecionam mais de mil.
O livro é composto de quatro partes às quais eu ousei acrescentar uma quinta, usando o mesmo estilo do autor. Dei-lhe como título “O seguimento de Jesus pelos caminhos da vida”. O seguimento completa a imitação, de forma que pela imitação se procura alcançar o monte Tabor da alma e pelo seguimento, a planície e o vale onde lutam e labutam os seres humanos.
Tomás de Kempis possuía uma mente livre. Mesmo dentro do espírito da  tendência espiritual mais difundida da época, a assim chamada “Devotio Moderna não se deixou influenciar por nenhuma escola teológica ou tendência mística. Ao contrário, mostra certa distância e também uma velada suspeita de todo saber teológico e teórico e de revelações particulares. O que para ele conta, é a experiência  do encontro com Cristo, com sua cruz, com sua obediência ao Pai, com sua humildade, com sua misericórdia, com o amor incondicional e com sua paixão e cruz corajosamente suportadas. O tema do despojamento de si mesmo e de todos os apegos do ego ganham relevância especial a ponto de ter despertado a atenção dos mais argutos analistas da condição humana.
Em que reside a singularidade da Imitação de Cristo? O caminho da “Imitação de Cristo” sublinha o Cristo da fé e suas virtudes: sua humildade, seu amor aos pobres e pecadores, sua compaixão para com os doentes e discriminados, sua atitude face à condição humana que ele compartilhou conosco. A epístola aos Hebreus diz claramente que ele “passou pelas mesmas provações que nós”(4,15), estava “cercado de fraqueza”(5,2) e “aprendeu a obediência por meio do sofrimento”(5,8).
São Paulo vai mais longe ao nos admoestar para “termos os mesmos sentimentos que Cristo Jesus teve: não se prevaleceu do fato de ser Deus, mas por solidariedade a nós assumiu a condição de servo, apresentando-se como um simples homem e humilhou-se até à  aceitação da morte de cruz”(cf. Flp 2,  5-8), castigo infame para a época. Ele não se “envergonhou de chamar-nos irmãos e irmãs”(Hbr 2,11) e no juizo final refere-se aos pobres e penalizados conclamando-os como  “meus irmãos e irmãs menores”(Mt 25,40).
Estas atitudes são propostas pelo autor aos seus ouvintes para se alcançar um alto nível de vida spiritual. O Cristo fala à subjetividade da pessoa em busca de um caminho  spiritual e a leva a descobrir  todos os meandros da malícia humana mas também toda a grandeza das possibilidades de conquistar alto nível de vida interior.
Tomás de Kempis, melhor que qualquer psicanalista, entende os meandros mais escusos da alma humana, as solicitações do desejo, as angústias que produz mas também aponta caminhos de como enfrentá-las sempre confiados na graça de Deus, na misericórdia de Jesus e no completo despojamento de si mesmo.  Procura consolar o fiel imitador com o exemplo de Cristo e mostra-lhe a alegria inaudita da intimidade com Ele e, por fim, a grandeza da recompensa eterna que lhe está preparada na eternidade.
O livro oferece uma espiritualiidade cristalina como a água da fonte atrás da casa. Orienta e alimenta ainda nos dias atuais a busca humana por um encontro com o Mistério de todas as coisas: o Deus interior e exterior que tudo enche.
Leonardo Boff publicou pela Editora Vozes de Petrópolis, 2016, a “Imitação de Cristo” e o “Seguimento de Jesus”.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A VIDA DEPOIS DE AUSCHWITZ

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

  


No fim de janeiro, o mundo inteiro celebrou com seriedade e compunção um macabro aniversário: os 50 anos da tomada do campo de Auschwitz, coincidindo com o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho libertou o campo de concentração de Auschwitz, o maior do regime nazista. Era o fim de um espaço que se tornou o símbolo do ódio, da violência organizada e do racismo. Em suas câmaras de gás e crematórios foram mortas pelo menos 1 milhão de pessoas. No auge do Holocausto, em 1944, eram assassinadas 6 mil pessoas por dia. Auschwitz tornou-se sinônimo do genocídio contra os judeus, ciganos, eslavos, comunistas, homossexuais e outros grupos perseguidos pelo III Reich.

Teatro do maior crime contra a humanidade de que se tem notícia, Auschwitz, situado na Polônia, abrigou atrás de seus muros uma história de horrores que jamais prescreverá.  Pois, segundo o Direito Internacional, o genocídio não prescreve.  E não prescreve porque significa a exterminação sistemática de pessoas, tendo como principais motivações as diferenças de nacionalidade, raça, religião e, sobretudo, étnicas. É uma prática que visa a eliminar minorias étnicas em determinada região.

Genocídio é sinônimo de extermínio. A palavra é derivada do grego "genos", que significa "raça", "tribo" ou "nação", e do termo de raiz latina "-cida" que significa "matar". O termo foi criado por Raphael Lemkin, um judeu polonês, jurista e que foi conselheiro no Departamento de Guerra dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. A tentativa de extermínio total do povo judeu pelos nazistas, conhecida desde então por Holocausto (Shoa em hebraico), foi o que levou Lemkin a lutar para que o conceito fosse aplicado à ação nazista na Segunda Guerra.  A palavra passou a ser usada após 1944 e permanece até hoje para designar não apenas o holocausto, mas também outros extermínios em massa por motivos de discriminação e separatismo.

O campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau foi criado em 1940, a cerca de 60 quilômetros da cidade polonesa de Cracóvia. Concebido inicialmente como centro para prisioneiros políticos, o complexo foi ampliado em 1941, passando a receber os que passavam pelos campos de triagem, a fim de submetê-los a trabalhos forçados, torturas, experimentos científicos laboratoriais ou cirúrgicos e levá-los à morte.  

Nunca houve na história um genocídio tão documentado.  Cada prisioneiro era minuciosamente registrado e posteriormente, ao fim da guerra, a humanidade pôde seguir as pegadas do calvário vivido por cada um ou cada uma.  As execuções em massa eram realizadas nas câmaras de gás com o composto Zyklon B, altamente tóxico. Usada em princípio para combater ratos e desinfetar navios, a substância mata em questão de minutos quando entra em contato com o ar. Os corpos eram, então, incinerados em enormes crematórios.

Os prisioneiros que sobrevivessem eram obrigados a trabalhos forçados. Muitos morreram de fome, de fraqueza, de desespero. Outros tentaram fugir e foram capturados e enforcados diante de todos para servir de exemplo. Ao chegarem os soviéticos, 8 mil prisioneiros foram libertados, a maioria em situação deplorável devido ao martírio que enfrentaram.

O mundo que comemorou chorando a vitória dos aliados e dedicou-se a resgatar prisioneiros famélicos e moribundos, ao mesmo tempo em que cadáveres eram sepultados, defrontou-se então com a inevitável pergunta:  Como pode se conceber a vida depois de Auschwitz?  E como falar de Deus depois de Auschwitz? Esta pergunta ainda não se encontra respondida, pois a humanidade, após o horror da guerra, continua produzindo outros genocídios e extermínios em massa, com outros protagonistas e por outras causas. E, paralelamente, tenta distrair-se com a sociedade do espetáculo e do consumo, para anestesiar memórias e não olhar nos olhos dos cadáveres ambulantes produzidos por Auschwitz e pelos outros extermínios que a criatividade humana fabrica sem cessar.

Mas Deus, este sim, continua falando e fazendo ouvir sua voz. E sua voz não soa forte e tonitruante como a dos carrascos nazistas dando ordens no campo e organizando a morte.  Ele fala com o fio de voz das vítimas, em seu discurso suplicante e vulnerável, proclamando, no entanto, a dignidade da vida.  Portanto, a vida depois de Auschwitz só pode ser uma vida ressuscitada, que passou pela morte e não foi por ela destruída, mas pela força do Espírito levantou-se do túmulo e espalhou a alegria que nada pode destruir.  Que o macabro jubileu de Auschwitz possa ajudar a humanidade a cultivar a memória subversiva das vítimas, a fim de não repetir tragédias e dedicar-se a cuidar da vida.

  A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)

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