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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A IGREJA CUBANA DEPOIS DE FIDEL


 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer  
       


A morte de Fidel Castro vinha sendo preparada há tempos pelo regime cubano. O comandante envelhecia e havia que pensar no futuro. Em 2008, Fidel passou a presidência a seu irmão, Raúl Castro. Este deu sinais de abertura em todas as direções.   Em termos políticos, foi sob sua presidência que, com apoio do Papa Francisco, a distensão das relações com os Estados Undos começou a acontecer.  

         Na área da religião, Fidel já dava há algum tempo sinais de maior abertura. Os irmãos Castro conheceram e praticaram o cristianismo em sua infância e juventude, sendo educados pelos padres jesuítas.  Posteriormente abraçaram o marxismo e com essa ideologia política governaram Cuba.  Assim o entende e interpreta Frei Betto, dominicano brasileiro, que conheceu de perto Fidel e seu irmão Raúl. O religioso escreveu o livro “Fidel e a Religião”, que vendeu milhares de cópias e abriu caminho para a ida do Papa João Paulo II a Cuba, em 1998.

         Neste livro, fica patente que Fidel caminhava para uma atitude de crescente abertura à Transcendência e experimentava simpatia pelo cristianismo e seus princípios de justiça e fraternidade.  A notícia de que um comunista podia sentir-se próximo do cristianismo escandalizou alguns. Foi, porém, perfeitamente compreendida por cristãos ilustres, como o Papa Francisco.  Em entrevista ao jornal italiano “La Republica”, Sua Santidade declarou que “os comunistas pensam como os cristãos.  Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os fracos e os excluídos são os que decidem.”

Nesse sentido, pode-se compreender que para muitos cristãos a revolução cubana seja atraente em muitos aspectos. Ali se pode ver alguns pontos da justiça pregada pelo cristianismo acontecendo de fato.  Embora seja igualmente certo que certas restrições como a falta de liberdade política e o fechamento das comunicações com o exterior sejam incompatíveis com a doutrina cristã.

         Por isso, a Igreja universal olha para a Igreja cubana perguntando-se que mudanças trará para seu futuro a morte do líder político da ilha.  Ainda que o estado cubano seja laico e não filiado a nenhum credo específico, não se pode negar que o substrato católico presente em Cuba desde a colonização espanhola ainda se encontra presente e tem raízes profundas. 

         Quando da visita de João Paulo II, contra todas as expectativas, as ruas da ilha foram tomadas por um milhão de pessoas.  Quando o Papa Bento XVI lá esteve também provocou vasta mobilização.  No ano passado, com o Papa Francisco o interesse não foi menor.

         O mesmo acontece quando a imagem da Virgen de la Caridad del Cobre, padroeira de Cuba - por eles carinhosamente chamada de Cachita – é levada às ruas e faz sua peregrinação anual pelas cidades.  Sem publicidade no jornal ou na televisão, as ruas se enchem de cubanos que acompanham a imagem, com oração e piedade.  

         Em 2015, o Papa argentino conseguiu mover a hierarquia eclesiástica cubana a uma aproximação ainda maior com o regime de Castro.  A convocação central do Pontífice foi ao diálogo, ao encontro com o ser humano.  Por isso, igualmente, Francisco evitou arestas – ainda que com o risco de decepcionar alguns – e abriu para uma Cuba em dificuldades a opção de comunicar-se com o mundo.  Com suma habilidade, foi ao encontro do que já vinha falando o próprio Fidel sobre a inevitabilidade de mudanças na ilha.  O Papa valorizou o testemunho e exemplo que Cuba é para o mundo, com suas conquistas inegáveis de justiça e igualdade.

         Uma pesquisa de opinião indicou que em Cuba somente 27% das pessoas se reconhecem católicas.  Mas, ao mesmo tempo, aponta para o fato de que 8 em cada 10 têm uma imagem positiva do Papa Francisco.  E também – talvez em boa parte devido a isso – confiam na Igreja como instituição.

         Que futuro se pode esperar, então, para esta Igreja após a morte de Fidel Castro? Não nos cabe aqui fazer exercícios de futurologia.  Mas sempre há espaço para desejos e esperanças.  Talvez o mais urgente seja a Igreja ter mais possibilidades de atuação no campo da educação.  

         Isso já acontece de maneira informal e discreta.  Há casas e instituições religiosas que oferecem cursos muito bem aceitos e procurados por numerosos cubanos.  Também universidades de outros países enviaram delegações com propostas de desenvolvimento de projetos comuns em Cuba e foram bem recebidas.  Tais projetos se vão pouco a pouco fazendo realidade.

         Por que não se poderia ampliar mais esse espaço, de forma que a Igreja fosse novamente chamada a atuar em um campo em que é pioneira, como o da educação? Esperemos que, passado este momento de perplexidade com a morte de Fidel, um novo horizonte de trabalho educativo se abra efetivamente para a Igreja da ilha, tão corajosa e fiel ao longo de todos esses anos.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer é  professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 

Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

O PAPA ENTRE CUBA E EUA

por Frei Betto



      HAVANA - A iniciativa de recorrer ao papa Francisco para que interviesse no reatamento de relações diplomáticas entre EUA e Cuba foi do senador estadunidense Patrick Leahy. Católico e amigo de Cuba, o democrata enviou carta ao papa, no ano passado, insistindo que aproveitasse o pouco tempo que resta a Obama no poder para lograr a reaproximação entre os dois países.

      Em meados de 2014, Francisco convocou ao Vaticano o cardeal Jaime Ortega, de Cuba, e confiou a ele duas cartas, uma para Raúl Castro, outra para Obama, com a proposta de reconciliação. O papa preferiu não correr o risco de recorrer a um cardeal dos EUA para enviar a carta à Casa Branca, receoso de que a influência anticastrista naquele país desfavorecesse o objetivo da missão.

      Após entregar a carta ao presidente cubano, o cardeal viajou a Washington e, fora de agenda oficial, foi recebido pelo presidente dos EUA, que deu seu acordo ao teor da correspondência.

      Iniciaram-se, então, os entendimentos entre delegações de ambos os países em território neutro: Canadá. Tudo sob sigilo, para evitar ressonâncias negativas, sobretudo entre os “duros” que cercam Obama.

      A 17 de dezembro de 2014, os dois presidentes, na mesma hora, anunciaram a decisão de reaproximar seus países. Detalhe curioso: 17 de dezembro é a data de aniversário do papa Francisco e o dia da mais popular festa religiosa de Havana, a peregrinação ao santuário de São Lázaro, a quem muitos atribuíram o “milagre” do início da distensão entre EUA e Cuba.

      Dos pronunciamentos do papa em Havana, destacam-se, na saudação ao desembarcar, a ênfase de que já nos encontramos “na terceira guerra mundial, feita por etapas” e, na missa campal na Praça da Revolução, seu apelo em favor das negociações de paz que transcorrem na capital cubana, entre o governo da Colômbia e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

      Um papa não improvisa. Nem quando profere sermão. Considerado infalível em questões de fé e moral, todos os seus pronunciamentos são lidos após cuidadosa preparação.

      Francisco fugiu à regra e à tradição. Na tarde de domingo, 20, deixou de lado a preleção escrita e, comovido pelo testemunho de uma jovem religiosa que cuida de portadores de deficiências, exortou religiosos e clero a abraçar a pobreza e a misericórdia.

      Os cardeais da Cúria Romana que o acompanham nesta viagem às Américas devem ter ficado em pânico, imaginando o que aconteceria se o papa dissesse algo equivocado ou dúbio. Francisco criticou duramente os que, na Igreja, se apegam ao dinheiro. Declarou que é uma bênção de Deus quando uma instituição religiosa é tão mal administrada que acaba falindo. Combateu também o moralismo de sacerdotes incapazes de perdoar os penitentes. Recordei-me de um pintor amigo que encontrara no aeroporto, na noite de meu embarque para Cuba, desolado porque decidira se confessar e o padre lhe fizera uma peroração farisaica ao ouvir que ele é casado pela segunda vez.

      “Sejam misericordiosos como Jesus”, disse Francisco aos padres. E recordou a frase de Santo Ambrósio: “Onde há misericórdia, aí está o Espírito de Deus. Onde há rigidez, aí estão os Seus ministros...”

      Agora, nos EUA, o papa Francisco enfrenta a etapa mais difícil de sua viagem às Américas. Em plena campanha eleitoral à sucessão de Obama, qualquer coisa que diga agradará ou desapontará republicanos e democratas. Hoje, pela primeira vez na história, um papa fala no Congresso dos EUA. Amanhã, discursa na assembleia geral da ONU. Deverá ser o seu pronunciamento mais contundente. No sábado e domingo, em Filadélfia, enfrenta os polêmicos temas de novos perfis de família, gênero e sexualidade.

      João XXIII fez uma revolução na Igreja, ao convocar o Concílio Vaticano II (1962-1965). Francisco faz na Igreja e no mundo, ao explicitar a dimensão social, política e econômica da mensagem evangélica.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.
  http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
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