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terça-feira, 20 de junho de 2023

Festas juninas e a cidadania

 Marcelo Barros



Na segunda quinzena de junho, em várias regiões do Brasil, o clima é de festas juninas. Em São Luis e algumas cidades do Maranhão, os festejos do Bumba-meu-boi recordam costumes que vêm de séculos. Por todo o Nordeste, a fogueira e comidas de milho verde são acompanhadas por Quadrilhas e brincadeiras próprias da festa. Caruaru e Campina Grande disputam entre si quem tem o maior São João do mundo.

Para as culturas tradicionais, tanto dos povos indígenas, como das populações do campo e do sertão, junho representa o tempo da colheita do milho no Nordeste e no sul, a coleta do mate. Ainda há povos indígenas, para os quais esses festejos comemoram o início do ano novo. Na cordilheira dos Andes, as comunidades indígenas festejam o Inti-Rami, a festa do rei Sol, inscrita nos calendários oficiais da Bolívia, Peru e Equador. Na Argentina, Paraguai e sul do Brasil, os Guarani chamam este tempo de Ara Pyaú (Tempo Novo). É o batismo da erva mate, o ka’a  nheemongaraí, cujas projeções sobre o ano novo são interpretadas pelo Xeramoi (pajé). Também se celebra a cerimônia de nominação, quando as crianças recebem o nome guarani dado pelo pajé. Devido a influências católicas, esse ritual é chamado de “batismo guarani”.

As danças juninas mais comuns vieram das cortes da Europa. Quadrilhas eram danças da nobreza europeia nos tempos da colonização. O povo se apropriou delas e as democratizou. Atualmente, nos chamados “casamentos caipiras”, figuras como a do padre e do juiz da roça são caricaturados. Assim, pessoas pobres que não têm voz na sociedade expressam sua crítica social e seu protesto. O fato de tomar como padroeiros das festas juninas Santo Antônio, São João Batista e São Pedro se vincula aos tempos em que tudo era religioso. Revela resistência cultural e liga esses santos à realidade dos pobres de hoje. O espírito dessas festas pede que as pessoas e comunidades possam ir além da criatividade com a qual ensaiam uma dança de quadrilha ou encenação caipira. É urgente ensaiar uma sociedade nova na qual todos e todas sejam protagonistas e restabelecer a dignidade da Política, colocada a serviço do Bem Comum.

Enquanto o povo brinca as festas juninas, políticos de direita se organizam para impedir o governo federal de cumprir suas metas e fazer o Brasil voltar. O presidente da Câmara mostra suas garras de coronel que faz política em função de si mesmo.  O governo que, para vencer eleições teve de fazer acordo com ampla faixa de partidos e bancadas, é coagido a pagar preço altíssimo.  Em meio a tudo isso, a governabilidade oficial, garantida pela relação entre os três poderes, acaba dificultando a comunicação direta do governo com o povo que continua sendo mais testemunha e assistente da politicagem dos grandes do que participante ativo em uma Política na qual todos possam ser cidadãos e cidadãs.  

Para quem vive um caminho espiritual, religioso ou não, se trata de sinalizar o projeto de um mundo novo possível. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, as festas juninas traduzem uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque o projeto divino no mundo está próximo!” (Mt 3, 2).

terça-feira, 28 de junho de 2022

Festas juninas e Ecologia

 Marcelo Barros


No momento atual que vivemos no Brasil, a cada dia, os movimentos sociais e o povo mais pobre têm ido às ruas para se manifestar pela Democracia. Em geral, por trás dessas manifestações, está a defesa da Constituição e o apelo para que o voto do povo seja respeitado. No entanto, toda manifestação popular pode ser ensaio de democracia. Um bom exemplo disso é o cuidado com o qual, em quase todo o Brasil, as pessoas preparam e organizam os festejos juninos.

Ainda há quem olhe as festas populares como expressões de mera alienação social. De fato, no tempo do antigo império romano, cada vez que alguma guerra se aproximava, ou uma lei iria tornar a vida mais difícil, os pensadores do império promoviam o que chamavam de “pão e circo”. Essa fórmula vigora até hoje em certos círculos do sistema opressor. Até hoje, jornais televisivos sem compromisso com a transformação do mundo alternam notícias de massacres e crimes com cenas de futebol. Depois de mostrar imagens da seca e fome no nordeste, filmam na mesma região algum forró de São João .

De fato, os festejos juninos têm origens pré-cristãs nas mudanças de estação. Na Bolívia, Peru e Equador, os índios festejam o ano novo andino. No Brasil, o povo faz brincadeiras caipiras, quadrilhas e comidas típicas de cada região. Algumas das danças juninas vieram das cortes da Europa e são hoje o que se chamam “quadrilhas” que ainda usam termos franceses e fazem as pessoas se vestir de caipiras e dançar como a nobreza de outros séculos. Assim, a própria história das festas juninas revela uma democratização de costumes, antes restritos aos nobres e dos quais os pobres se apropriaram. Nos casamentos matutos, figuras como padres e juízes da roça são caricaturadas porque só se interessam por dinheiro e poder. Essas críticas revelam o modo como as camadas mais empobrecidas do povo podem expressar, democraticamente, suas críticas e seu protesto social. Mesmo o fato de tomar santos da Igreja Católica, como Santo Antônio, São João Batista e São Pedro para fazer festas que revelam resistência cultural é bom porque liga os santos com a realidade da vida dos pobres de hoje.

Uma consequência positiva da tragédia que é a crise política pela qual o Brasil passa nesses dias é que os movimentos sociais conseguiram superar suas diferenças e se uniram. Não é fácil organizar uma comunidade de bairro ou ajudar as pessoas a pensar criticamente e a criticar as notícias impostas pelos grandes meios de comunicação. Em geral, nos bairros e periferias, as pessoas, crianças, jovens e adultas, se organizam com muita disciplina para ensaiar a quadrilha, preparar as danças caipiras e brincar. As festas juninas revelam que nosso povo tem uma surpreendente capacidade de se organizar,  quando deseja e se o assunto é do seu mundo afetivo. Quem, de fora, vê os ensaios e a eficiência da preparação da festa, muitas vezes, de forma espontânea e sem dinheiro, pode desejar que essa mesma energia de unidade e de organização apareça na caminhada social e política das bases e na direção da luta pacífica para transformar esse mundo.

Mesmo que não seja de forma consciente, ao preparar as brincadeiras juninas, as pessoas revelam uma capacidade de união que não se restringe apenas a uma dança de quadrilha ou uma encenação caipira. Elas se tornam capazes de ensaiar uma sociedade nova na qual todos serão protagonistas. Assim, na alegria e de forma despretensiosa, grupos e comunidades populares sinalizam uma realidade nova que se aproxima ao que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, parecem traduzir uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque a realização do projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2).

terça-feira, 15 de junho de 2021

FESTAS JUNINAS, PANDEMIA E DEMOCRACIA

 


Marcelo Barros


Em todo o Brasil, novamente neste ano, a ameaça de novo surto da pandemia impedirá ao povo se reunir nas manifestações próprias das festas juninas. Apesar do cuidado com o distanciamento físico que a prevenção sanitária exige com razão, nada impedirá que as comunidades tradicionais, as de cultura rural e principalmente nordestina vivam o espírito de festa que é próprio deste tempo de junho.

Essas festas têm origens pré-cristãs como festas para as mudanças de estação. Na Bolívia, Peru e Equador, os índios festejam o ano novo andino. No Brasil, o povo faz festas com brincadeiras caipiras, quadrilhas e comidas típicas de cada região. As danças juninas mais comuns vieram das cortes da Europa. Quadrilhas eram danças da nobreza europeia nos tempos da colonização. O povo se apropriou delas e as democratizou. Atualmente, nos chamados “casamentos caipiras”, figuras como a do padre e do juiz da roça são caricaturados. Assim, pessoas pobres que não têm voz na sociedade expressam sua crítica social e seu protesto.

O fato de tomar como santos da Igreja Católica, como Santo Antônio, São João Batista e São Pedro como padroeiros dessas festas juninas se vincula aos tempos em que tudo era religioso. Revela resistência cultural e liga esses santos à realidade dos pobres de hoje.

Para as culturas tradicionais, tanto dos povos indígenas, como das populações do campo e do sertão, junho representa o tempo da colheita. Ainda há povos indígenas, para os quais esses festejos comemoram o início do ano novo. Até hoje os Guarani Mbyá chamam este tempo de Ara Pyaú (Tempo Novo). No Nordeste é a colheita do milho. No Sul é o batismo da erva mate, o ka’a  nheemongaraí, cujas projeções sobre o ano novo são interpretadas pelo Xeramoi (pajé).

Novamente, neste ano, movimentos sociais e muita gente do povo, em geral, têm se manifestado nas ruas ou ao bater panelas pela Democracia e em defesa da Vida. De certa forma, toda manifestação popular e até o modo cuidadoso como em tempos normais as comunidades ensaiam e organizam os festejos juninos já constituem um verdadeiro ensaio de democracia.

Uma consequência da crise atual é que os diferentes movimentos sociais do campo e da cidade estão se unindo. As juventudes que frequentemente se manifestam através de seus ritmos próprios, de danças e movimentos artísticos, estão muito presentes e ativas nessas manifestações.

Mesmo se, neste ano, não será possível reunir as comunidades em torno das fogueiras ou nas danças juninas, o espírito dessas festas pede que as pessoas e comunidades possam ir além da criatividade com a qual ensaiam uma dança de quadrilha ou encenação caipira. É urgente ensaiar uma sociedade nova na qual todos e todas sejam protagonistas.

Mesmo a pandemia não pode nos impedir de viver um tempo novo de participação popular nos destinos do país. A Amazônia, a proteção da mata, dos rios e, no Brasil, todo o ambiente natural nunca foram tão agredidos e ameaçados de destruição. É também urgente restabelecer a dignidade da Política, colocada a serviço do Bem Comum.

Mesmo se, nestes dias, não podemos nos reunir para as festas juninas tradicionais, vamos prepara-las no coração e vamos ensaiá-las nos articulando virtualmente e de todos os modos possíveis para restabelecermos uma sociedade do cuidado comunitário. Para quem tem fé se trata de sinalizar aquilo que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, as festas juninas traduzem uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque o projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2).


  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

terça-feira, 18 de junho de 2019

FESTAS JUNINAS NO BRASIL DOS NOSSOS DIAS



Por Marcelo Barros

No calendário turístico de várias cidades brasileiras, o mês de junho é marcado pelas festas juninas. Desde o começo do mês, de norte  a sul, o país é tomado por festejos tradicionais, próprios dessa época. Conforme a região, mudam de estilo e de forma e envolvem, desde crianças nas escolas até clubes de futebol e grupos de vizinhos nas ruas das cidades. No interior do Nordeste, as festas juninas chegam a ser mais importantes e envolventes do que o Natal e mesmo o Carnaval.

Há quem considere as festas juninas como resíduos anacrônicos de uma sociedade rural, sem mais espaço na cultura urbana do século XXI. No entanto, é nas cidades que as duplas sertanejas mais fazem sucesso. São as cidades de médio porte que mais investem no turismo que cresce nesses dias de festa. É claro que a cultura contemporânea, marcada pela urbanização e pelo cuidado ecológico exige algumas mudanças. Não se veem mais fogueiras nas portas de muitas casas, como ocorria antigamente. E as brincadeiras ganham sentido mais simbólico e conteúdo social mais explícito. Muitas vezes, jovens em situação de risco, que não entram em outras atividades pedagógicas, quando se fala em quadrilha ou casamento caipira, se organizam quase espontaneamente e com grande disciplina comunitária e louvável capacidade de mobilização social.

Desde que a humanidade existe, gosta de celebrar festas religiosas por ocasião do solstício do verão que, no sul, corresponde ao inverno. Na noite de 21 de junho, em toda a cordilheira dos Andes e em alguns outros pontos da América do Sul, as comunidades autóctones celebram o ano novo andino. A passagem de ano é marcada pelo solstício do inverno. No hemisfério norte ocorre no 1º de janeiro e no sul neste momento de junho. O próprio mês de junho herda o nome de Juno, antiga deusa-mãe dos romanos, responsável pela fertilidade da terra e pela fecundidade feminina. Quando o cristianismo se impôs, os ritos pagãos da fertilidade assumiram vestes cristãs e passaram a venerar santos, aos quais o povo atribuiu poderes semelhantes às divindades antigas. Santo Antônio herdou o título de “santo casamenteiro”, São João Batista ficou ligado à fogueira, enquanto São Pedro vê sua festa tomada pelos festejos do boi-bumbá. O povo continuou a comemorar divindades ancestrais, mas convenceu os padres de que as fogueiras que acendiam nessa noite eram em honra de São João. Os nobres conseguiam reproduzir nos palácios danças simbólicas que, disfarçadamente, reviviam ritos antigos. Nas senzalas e terreiros, criados e pessoas da plebe ridicularizavam seus patrões e patroas, parodiando seus costumes e imitando suas danças juninas. No começo, as quadrilhas feitas pelos pobres eram estritamente secretas e só se faziam em ambientes de muita confiança. Depois, os nobres perderam seus títulos e os pobres assumiram, em tom de farsa, a subversão de sua imitação da corte. Até hoje, nessas festas, se veem pessoas marginalizadas chamando-se de cavalheiros e damas; mulheres e homens do campo fantasiados de ricos e brasileiros analfabetos dirigindo a quadrilha com expressões francesas, por eles reinventadas. A ordem “Anarriê” substitui o francês “en arrière” (para trás); “anavã” entra no lugar de “en avant” (para frente); “changedidame” faz o pessoal mudar de par e “otrefuá” serve para dizer “outra vez”.  Nos casamentos matutos ou caipiras, as figuras do padre e do juiz da roça são sempre ridicularizadas e a moral tradicional se revela falsa e vazia.

Para as culturas indígenas e populares, mais do que para a sociedade secularizada do Ocidente, a passagem de um ano a outro é símbolo e deve significar a entrada de um tempo novo não só na natureza, mas na vida da comunidade e de cada pessoa. Diante de governantes que se pronunciam contra a educação, revelam preconceitos sociais contra minorias e tomam posições contra o interesse dos mais pobres, é significativo ver que o povo não se intimida. Nos últimos meses, o país tem visto aumentar o número de pessoas que vão às ruas para expressar o seu desacordo com o desmonte da educação e o seu protesto contra projetos como a Reforma da Previdência. Nas festas juninas desse ano, certamente esses temas aparecerão em forma de sátira e deboche. Em todo o Brasil, as festas juninas mostram um povo que, apesar de pobre, sofrido e castigado, não perde a alegria e a capacidade de brincar.
  
Assim, pode vencer a tentação da violência e contribuir para uma cultura de paz.  

Nesses dias, o Brasil é governado por pessoas que manifestam claramente posições antissociais e preconceituosas contra pobres e contra as comunidades originárias.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


terça-feira, 19 de junho de 2018

FESTAS JUNINAS E PROFECIA





Por Marcelo Barros

Por todo o Nordeste, principalmente no interior, o mês de junho é marcado pelas festas juninas. No entanto, em todas as regiões do Brasil, a festa de São João Batista ultrapassa os limites da celebração religiosa para se tornar festejos da natureza, com fogueiras, fogos de artifício e danças características da época. Na cordilheira dos Andes, no solstício do inverno, ou seja, por volta do 21 de junho, a festa do Inti Rami, o renascimento do Sol, manifesta a vitalidade das culturas indígenas e a união de diversos povos originários em defesa da natureza ameaçada.

As festas juninas pedem organização, ensaios e disciplina. Muitas de suas brincadeiras, como o casamento caipira e a quadrilha, envolvem críticas à sociedade desigual em que vivemos. Figuras como juiz e padre são ridicularizadas por seu apego ao dinheiro e às aparências sociais. Esses costumes unem o povo em expressões de igualdade e liberdade, que, mesmo de modo espontâneo, podem ser sinais antecipadores da festa da liberdade social e política que o Brasil precisa.

No Brasil do Catolicismo popular, mesmo sem saber, as pessoas que vivem as festas juninas cumprem a profecia que, segundo o evangelho,  Zacarias, pai de João Batista, recebeu do anjo a respeito do nascimento do seu filho: "Por seu nascimento, muitos se alegrarão".

Na época de Jesus, há tempos, o povo esperava um profeta que viesse anunciar um tempo novo de justiça e de graça divina. De acordo com o evangelho, o nascimento de João Batista revelou que esse tempo novo teve sinais muito claros. Isabel, uma mulher velha e estéril, engravidou e deu a luz. O pai Zacarias que tinha ficado mudo, assim que o menino nasceu, se pôs a falar e a cantar a bondade divina. Esses fatos maravilhosos provocaram em todos alegria porque serviram como sinais de que, em todos os tempos, Deus é sempre capaz de tornar fecundo o útero estéril das sociedades humanas e não apenas das pessoas. Isso significa que o amor divino pode renovar o que, em nosso modo de ser e nas nossas vidas, ainda é envelhecido e estéril. Ele nos faz superar a mudez e a apatia para proclamar o seu projeto de libertação.

Atualmente, no Brasil, em meio à crise social e política que vivemos, não deixa de ser profecia de esperança e de resistência ver as pessoas superarem os muitos e justificados motivos de tristeza e colocarem suas melhores energias na festa que, nesses dias, organizam e vivem de forma tão comunitária e criativa.

Quem tem fé aprende a valorizar esses costumes populares e pode neles vislumbrar sinais de um tempo novo. Conforme os evangelhos, João Batista propôs a todos uma renovação de vida baseada na justiça e na relação com a Terra e as águas. O seu batismo era um rito inspirado na cultura e na religião popular do seu tempo e significava uma ruptura com uma sociedade injusta e desigual, legitimada por uma religião que tinha se tornado, quase somente cultual e baseada em normas legalistas. João Batista propõe uma espiritualidade não apenas baseada no culto e sim na Ética e na pratica da solidariedade (Lucas 3).

Ao ser batizado por João no rio Jordão, Jesus se revelou discípulo de João profeta e começou sua missão profética.  Assim também, podemos esperar que as pessoas que participam dos festejos que lembram São João, homens e mulheres de várias Igrejas cristãs, assumam a missão de profetas e profetizas de Deus que nos pede para construirmos uma sociedade irmanada em uma humanidade renovada e renovadora.
 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.

terça-feira, 14 de junho de 2016

FESTAS JUNINAS E DEMOCRACIA


Por Marcelo Barros



No momento atual que vivemos no Brasil, a cada dia, os movimentos sociais e o povo mais pobre têm ido às ruas para se manifestar pela Democracia. Em geral, por trás dessas manifestações, está a defesa da Constituição e o apelo para que o voto do povo seja respeitado. No entanto, toda manifestação popular pode ser ensaio de democracia. Um bom exemplo disso é o cuidado com o qual, em quase todo o Brasil, as pessoas preparam e organizam os festejos juninos.

Ainda há quem olhe as festas populares como expressões de mera alienação social. De fato, no tempo do antigo império romano, cada vez que alguma guerra se aproximava, ou uma lei iria tornar a vida mais difícil, os pensadores do império promoviam o que chamavam de “pão e circo”. Essa fórmula vigora até hoje em certos círculos do sistema opressor. Até hoje, jornais televisivos sem compromisso com a transformação do mundo alternam notícias de massacres e crimes com cenas de futebol. Depois de mostrar imagens da seca e fome no nordeste, filmam na mesma região algum forró de São João .

De fato, os festejos juninos têm origens pré-cristãs nas mudanças de estação. Na Bolívia, Peru e Equador, os índios festejam o ano novo andino. No Brasil, o povo faz brincadeiras caipiras, quadrilhas e comidas típicas de cada região. Algumas das danças juninas vieram das cortes da Europa e são hoje o que se chamam “quadrilhas” que ainda usam termos franceses e fazem as pessoas se vestir de caipiras e dançar como a nobreza de outros séculos. Assim, a própria história das festas juninas revela uma democratização de costumes, antes restritos aos nobres e dos quais os pobres se apropriaram. Nos casamentos matutos, figuras como padres e juízes da roça são caricaturadas porque só se interessam por dinheiro e poder. Essas críticas revelam o modo como as camadas mais empobrecidas do povo podem expressar, democraticamente, suas críticas e seu protesto social. Mesmo o fato de tomar santos da Igreja Católica, como Santo Antônio, São João Batista e São Pedro para fazer festas que revelam resistência cultural é bom porque liga os santos com a realidade da vida dos pobres de hoje.

Uma consequência positiva da tragédia que é a crise política pela qual o Brasil passa nesses dias é que os movimentos sociais conseguiram superar suas diferenças e se uniram. Não é fácil organizar uma comunidade de bairro ou ajudar as pessoas a pensar criticamente e a criticar as notícias impostas pelos grandes meios de comunicação. Em geral, nos bairros e periferias, as pessoas, crianças, jovens e adultas, se organizam com muita disciplina para ensaiar a quadrilha, preparar as danças caipiras e brincar. As festas juninas revelam que nosso povo tem uma surpreendente capacidade de se organizar,  quando deseja e se o assunto é do seu mundo afetivo. Quem, de fora, vê os ensaios e a eficiência da preparação da festa, muitas vezes, de forma espontânea e sem dinheiro, pode desejar que essa mesma energia de unidade e de organização apareça na caminhada social e política das bases e na direção da luta pacífica para transformar esse mundo.


Mesmo que não seja de forma consciente, ao preparar as brincadeiras juninas, as pessoas revelam uma capacidade de união que não se restringe apenas a uma dança de quadrilha ou uma encenação caipira. Elas se tornam capazes de ensaiar uma sociedade nova na qual todos serão protagonistas. Assim, na alegria e de forma despretensiosa, grupos e comunidades populares sinalizam uma realidade nova que se aproxima ao que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, parecem traduzir uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque a realização do projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2). 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Com Jesus, faça-se hoje menino



Por Frei Betto


      Natal é festa de infância, ainda que tenhamos 90 ou 100 anos. A criança que fomos jamais morre em nós. Ao longo do tempo, ela inclusive nos salva da aridez da vida quando, na memória, a evocamos. São inesquecíveis as pessoas que cobriram nossa infância de carinho e cuidados.

      Falo por mim em meados do século XX, criança na Belo Horizonte com menos de 1 milhão de habitantes, toda arborizada e adornada de pulseiras de prata: os trilhos dos bondes. O tempo espreguiçava, e com tantas ladeiras e sem tantos prédios os olhos podiam admirar a policromia do crepúsculo que faz jus ao nome da cidade.

      Na Serra do Curral, escalávamos o pico, ponteado pela cruz que a mineração predatória decepou. No Parque Municipal, alugávamos canoas e aprendíamos a remar. No quintal dos Dolabella, nos fartávamos de mangas. No canteiro gramado, que dividia as pistas da Avenida do Contorno, jogávamos peladas. No Minas Tênis Clube, seu Macedo nos ensinava a nadar e a dominar cavaletes, barras e argolas de exercícios físicos. No Cine Pathé, as matinês de domingo protegiam no escurinho os primeiros namoricos. Ao fim da tarde, o incomparável sorvete de seu Domingos (que perdura e deveria ser tombado pelo Patrimônio Gastronômico Mineiro).

      O Natal se revestia de caráter religioso. Eram audíveis os sinos das igrejas, destacando-se o carrilhão da igreja do Carmo. Escrevíamos cartas a Papai Noel, para garantir os presentes, mas tínhamos plena convicção de que se tratava da festa de nascimento de Jesus. Na sala de casa, o presépio à luz da árvore toda enfeitada. No centro da cidade, a exposição do magnífico Presépio do Pipiripau (hoje no Museu de História Natural da UFMG), que encanta crianças e adultos. À noite, Missa do Galo, seguida da ceia em família, na qual jamais faltava rabanada.

      Viramos adultos, e muitos de nós ficaram indiferentes à religião e insensíveis à liturgia. Deixamos que a papainoelização da data obscurecesse sua origem cristã. Filhos e netos já nem sabem recitar de cor uma oração. O que era alegria de uma festa virou ânsia consumista para, inclusive, tentar encobrir nosso débito com outrem: já que não me faço presente, dou-lhe presente.
      O que era expectativa, advento, agora é preocupação de não esquecer ninguém a quem nos sentimos na obrigação de presentear. O que deveria ser gratuidade, torna-se compulsório. E somos tomados pela fissura de, seis dias depois, celebrar o réveillon, empanturrando-nos de comidas, bebidas e novos propósitos. Há que aproveitar o verão e as férias das crianças para sair de casa, viajar, descansar do trabalho, em busca de lazer na praia, no campo ou em algum recanto turístico, enfrentando estradas perigosas e preços abusivos.

      Que tal uma viagem à criança que fomos? Se ousássemos, tudo ficaria mais simples. Livres de preconceitos, seríamos e faríamos os outros mais felizes. Talvez aquele amigo prefira uma boa conversa do que o presente embalado sob selo de grife. Despojados de agressividade, ciúme e inveja, não haveríamos de discriminar ninguém. Prestaríamos inclusive atenção naqueles que se privam das boas festas para garantir as nossas: garçons, cozinheiras, camareiras, faxineiras, guardas rodoviários, porteiros e seguranças. 

      Então, sim, nossos corações, quais presépios, estariam abertos e prontos a acolher Deus que se fez um de nós no Menino de Belém.

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.


http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

Copyright 2013 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los, propomos assinar todos os artigos do escritor. Contato – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com)  

 
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