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segunda-feira, 6 de junho de 2016

ESTUPRADORES:ERA UM, ERAM DOIS, ERAM TRINTA…E TRÊS


Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



Depois do horror… a contabilidade: este só olhou, não estuprou. Aquele só gravou o vídeo, não estuprou. O outro só jogou nas redes sociais, mas não estuprou. Perversa contagem, como perverso é o fato em si. Vários homens – um, dois, trinta e três – que importa o número? Violaram uma mulher, na verdade uma menina de 16 anos. E o Brasil e o mundo olharam estarrecidos a banalização do horror, reduzido a cifras, números, quantidades.

Depois veio o machismo com suas retorcidas ilações. O delegado que interroga impertinente e violentamente a vítima, pergunta se ela tinha o hábito de fazer sexo coletivo. E depois, por whatsApp, declara enfaticamente estar convencido de que não houve estupro, que a vítima não estava dopada, que não foram 33 homens, porque aquilo é letra de um funk etc. etc. Um dos rapazes detidos e interrogados disse que ela “queria safadeza”. Saiu triunfante da delegacia, com os polegares para o alto, cantando vitória.

Foi um dos que só filmaram, só olharam, só divulgaram, só viram… Só foi cúmplice como tantos de nós ao olharmos essas barbaridades divulgadas na mídia e nas redes sociais e permanecemos silentes, ou omissos, ou coniventes. Ou quando rimos de palavras de ordem machistas, sem criticar sua repugnante violência: “Mulher gosta de apanhar.” “Quando você bate numa mulher pode não saber por que está batendo, mas ela sabe por que está apanhando.”

Assim vai crescendo e se consolidando a cultura do estupro. Quando um deputado diz a outra colega deputada que só não a estuprará porque ela não merece. Ou quando um pré-candidato a prefeito é denunciado e conhecido como espancador e nada lhe acontece, sendo que até a esposa o perdoa e defende. São pequenos consentimentos ao mal e à agressão que parecem não ser tão significativos, mas cuja culminância pode e infelizmente deverá culminar no estupro coletivo da adolescente, cujo nome não foi divulgado.

A perversão vem de longe. As sociedades primitivas eram matriarcais. A mulher detinha a superioridade porque possuía o segredo da fonte da vida em seu corpo. Diante deste mistério, o homem temia e tremia. Até o dia em que descobriu que podia vencê-la pela força física. E assim se estende até hoje o complexo de Brucutu, o homem das cavernas das histórias em quadrinhos, que portava permanentemente um tacape e arrastava sua mulher Ula pelo chão, puxando-a pelos cabelos.

Daí para todos os espasmos da violência que passa pelas sociedades tribais com a excisão dos clitóris das meninas, pelo matrimônio infantil onde crianças de oito anos são obrigadas a casar-se com homens de cinquenta, pelas tradições religiosas onde as viúvas devem enterrar-se junto com os maridos, é uma linha reta. O estupro coletivo da adolescente que poderia haver resultado em morte é apenas o ponto álgido desta linha.

Por baixo da ponta deste iceberg estão todos os outros estupros nossos de cada dia. Na maneira desrespeitosa de olhar, de falar, de tratar. No encostar do corpo forçando um contato não desejado. Na necessidade permanente de humilhar, de menosprezar e diminuir. Na política salarial desigual e injusta.

A mulher vem lutando e obtendo algumas vitórias contra todos esses pequenos “estupros” cotidianos. Conseguiu chegar ao espaço público, a postos de chefia, a salários mais ou menos competitivos. Mas quando a questão é seu corpo desejado com instinto animal pelo homem, todo o caminho se esvanece. E o que fica apenas é o triste espetáculo de seres humanos animalizados, brutalizados. E um conflito onde perversamente se tenta culpar a vítima pelo crime indefensável do agressor.

Não importam as circunstâncias de vida da vítima. A agressão sofrida a torna vítima sem discussões. E o abuso e a agressão que sofreu é um mal em si mesmo. Não se pode encontrar atenuantes alegando que ela provocou, ou desejou, ou instigou. Pois então o crime deixa de ser crime quando é fruto de uma provocação? Não, senhores, chamemos as coisas pelos seus nomes. Uma mulher, uma menina foi violentada naquilo que tem de mais sagrado: seu corpo, sua forma de presença no mundo, sua identidade de mulher. Sua sexualidade criada para o amor e o gozo foi profanada ignobilmente.

Deixemos-lhe ao menos o direito de ser aquilo que é: uma vítima que sofreu abuso de estupro coletivo e pede justiça. As duas mulheres que a defendem, uma advogada e uma delegada, vão lutar para que a justiça se faça. Ambas devem saber bem o que é ser mulher em uma sociedade machista.

Maria Clara Luchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ e uma profunda conhecedora de questões femininas.
A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão” (Edusc)


sexta-feira, 3 de junho de 2016

NOVOS ATORES NO CENÁRIO POLÍTICO BRASILEIRO



Por Leonardo Boff



Ocorrem coisas estranhas no reino que não é da Dinamarca mas do Brasil: uma presidenta é afastada por erros menores de administração financeira que ocorrem em todo os governos no mundo inteiro e que não representam motivos para sua destituição pelo simples fato de não haver proporção entre o eventual erro e a pena máxima. É pretexto para outra coisa.

Recentemente descobriu-se por gravações entre líderes da oposição, nomeadamente do PMDB e do PSDB com um dos diretores da Petrobrás que o real motivo do afastamento da presidenta não era tanto a alegada irresponsabilidade fiscal. O afastamento era necessário para encerrar a investigação na Petrobrás, do famoso Lava-Jato, que envolvia corruptos não só do PT mas dos principais partidos: ministros, senadores e deputados da oposição. Para escaparem dos processos e das prisões, precisavam encerrar aquela “sangria desatada”(R. Jucá) que envolvia milhões e milhões de dólares, ameaçando os políticos.

Essa é a razão rasa do processo de impeachment da Presidenta. Bem disse Noam Chomsky que vive com uma brasileira, trata-se de “um bando de ladrões acusando uma mulher inocente, contra a qual sequer há indícios de crime.” Esse bando se uniu com o conspirador-mor, o vice-presidente Michel Temer, com setores do próprio STF, conivente e omisso. com a PF e o MP para escaparem ilesos de seus crimes e salvarem suas carreiras políticas. A intenção originária e perversa era desestabilizar o governo do PT, o que em parte conseguiram, apoiados por uma imprensa conservadora e caluniosa, das mais concentradas do mundo. Buscava-se desconstruir a figura carismática de Lula. Elites regressivas, saudosas da Casa Grande, buscam o poder que perderam nas eleições e consideram inaceitável a ascensão dos pobres na vida social e universitária.

O vice-presidente, um homem fraco e sem qualquer liderança, esqueceu-se que era vice e que deveria substituir a presidenta, enquanto durasse o processo contra ela, mantendo a máquina governamental. Sequestrou o cargo como se fosse presidente, com um projeto político não apresentado ao povo, montando todo um governo novo com gente da pior espécie política, alguns acusados por corrupção, todos brancos e ricos. Os ministérios que tinham alma (como da Cultura, dos Direitos Humanos, das Mulheres, da Diversidade racial, nos Negros e Índios e outros) foram reduzidos ou abolidos ficando apenas com aqueles que são esqueletos da administração (planejamento, fazenda e outros).

Como é sabido, e a jornalista canadense Noemi Klein, o explicitou há dias numa entrevista sobre a situação do Brasil: em momentos de crise e de caos político, o propulsores do projeto radical do neoliberalismo, projetado pelos “chicagoboys”(Milton Friedman) aplicam sem piedade a “Doutrina do Choque”. Aproveitam a fraqueza das instituições e do poder central para impor seu projeto absolutamente anti-popular e anti-social que privatiza bens públicos, corta benefícios sociais para beneficiar as classes endinheiradas. Pois esse projeto descaradamente liberal está sendo imposto ao povo brasileiro.

José Serra, ministro das relações exteriores, sem qualquer qualificação para o cargo e bronco nas relações, está correndo o mundo para vender parte do Brasil, especialmente a privatização de bens públicos e o pre-Sal.

Vale recordar que a população já se deu conta das tramoias golpistas. Onde quer que apareçam deputados ou senadores nos aeroportos ou ruas são apupados de golpistas ou submetidos a “escrachos”. O vice presidente sequer pode sair de casa em São Paulo ou do palácio em Brasília pois as multidões gritam ”fora Temer”. Sua popularidade está por 1% de aceitação. Só mesmo a vaidade o mantem no poder, pois não passa de um figurante de forças que o manejam como o grupo do mafioso, corrupto e chantagista de Eduardo Cunha. O silêncio de setores do STF está na tradição de 1964, como apoiadores do golpe, contra qualquer ética jurídica e imparcialidade como é o caso inegável do Ministro Gilmar Mendes.

Mas um novo sujeito político surgiu nas últimas semanas: as multidões nas ruas, gritando pela democracia e “fora Temer”. Protagonistas estão sendo as milhares de mulheres, revoltadas contra a cultura do estupro e também em solidariedade à mulher Dilma. vítima do inveterado machismo brasileiro.

Outro protagonista novo são jovens de todas as idades, conscientemente distanciados dos partidos mas que reclamam por democracia, ocupam escolas por melhor educação e cobram reformas. Todos os dias são milhares e milhares enchendo as ruas com suas bandeiras e músicas. Seguramente, quem vai derrubar o impeachment serão as ruas.

Os senadores pró-impeachment muito deles sob acusações, dificilmente se livrarão, pela vida afora, do epíteto de golpistas.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor


quinta-feira, 2 de junho de 2016

MEU FIO DE ESPERANÇA

Por Frei Betto



      Sou vivido. Vi o Brasil passar por muitas crises. O suicídio de Vargas, em agosto de 1954, estragou meu aniversário de 10 anos. JK soube, em 1956, contornar a rebelião militar de Jacareacanga. A renúncia de Jânio, em 1961, me levou às ruas pela primeira vez, em defesa da democracia.

      O golpe militar de 1964 me arrancou da faculdade de Jornalismo para atirar-me nas masmorras do CENIMAR (Centro de Informações da Marinha). O AI-5 me desempregou do jornal e, meses depois, me conduziu a quatro anos de prisão.

      Meu sonho, ainda hoje, é o socialismo. Fora da Igreja há salvação. Mas não há salvação para a humanidade fora de um sistema no qual haja partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano, e onde os direitos humanos estejam acima dos privilégios do capital.

      Para um sonho se tornar realidade são necessárias mediações. Busquei-as na Ação Católica. Os bispos, pressionados pela ditadura, a desmantelaram. Apoiei organizações revolucionárias contra a ditadura. A repressão as derrotou. Tornei-me eleitor do PT. O partido se deixou contaminar pelo elitismo e a corrupção, em treze anos de governo não promoveu nenhuma reforma estrutural, e calou-se quanto ao socialismo. Hoje, voto PSOL.

      Meu fio de esperança se prende aos movimentos sociais. Não são perfeitos. Neles há também oportunistas e corruptos. Mas estes são exceções. Porque a base da maioria dos movimentos é a gente pobre que luta com dificuldade para sobreviver. Essa gente costuma ser visceralmente ética. Não acumula, partilha. Não se entrega, resiste. Não se deixa derrotar, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

      Não sei o que será do nosso Brasil nos anos vindouros. Sei apenas que fora dos movimentos sociais a nação não tem salvação. O PT tentou e se deu mal. Em uma sociedade tão marcadamente dividida em classes sociais, somente o vínculo orgânico com os pobres nos mantém com os pés no chão, a alma repleta de fome de justiça e a cabeça fiel à utopia socialista.

      A democracia é uma senhora muito ciosa de suas origens. Todas as vezes que tentam prostituí-la, sequestrá-la, corrompê-la, reage e desmascara seus algozes. Ela prefere sempre se abrigar em seu ninho: o protagonismo popular.

      O capitalismo tenta nos ludibriar, convencer-nos de que democracia é sinônimo de rotatividade eleitoral. Ora, a verdadeira democracia se apoia na economia, na partilha das riquezas; na ecologia, ao cuidar da proteção ambiental; na cultura, ao assegurar a todos o direito de criar e se expressar; e na política, ao dotar todos os cidadãos e cidadãs de poder para monitorar os rumos do Estado e, portanto, da sociedade.

      Nenhuma esquerda ideológica se sustenta por muito tempo sem este respaldo fisiológico: o contato direto com os movimentos nos quais os pobres se organizam e lutam por seus direitos.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil – o mistério das cabeças degoladas” (Rocco), entre outros livros.
 ca do Universo” (José Olympio), entre outros livros.




Copyright 2016 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail


quarta-feira, 1 de junho de 2016

UMA CONFERÊNCIA DE PAZ ENTRE MUÇULMANOS E CRISTÃOS “PARA LEVAR FELICIDADE À HUMANIDADE”

por Juracy Andrade


Estamos precisando muito disso. Meus pacientes leitoras e leitores. Dei uma paradinha nestes nossos encontros virtuais porque andei com umas doenças estranhas, que demoraram mais de um mês, mas, graças a Deus, passaram com tratamento via acupuntura e outras pajelanças alternativas. Diz a medicina chinesa que são toxinas querendo ir embora; e eu já tenho 84 anos de toxinas acumuladas.

Hoje desejo voltar ao papa Francisco, um cristão que afinal pintou no assim dito trono de Pedro. Impossível imaginar São Pedro montado num trono. Vocês não acham? Não dá, gente. Francisco, sem trono, sem palácio e sem coroa, fez mais uma das suas encontrando-se com o grande imã Ahmed al-Tayeb, da mesquita Al-Azhar do Cairo, onde funciona também uma universidade muito antiga. A mesquita é a principal instituição do Islã sunita e esse encontro veio após uns dez anos de tensão devido a infelizes declarações do papa Ratzinger (o renunciante Bento 16) relacionando a violência ao Islã.

Para receber o líder sunita com mais solenidade, Francisco deixou por algum tempo o hotel onde ocupa modesto apartamento e subiu ao assim dito Palácio Apostólico Também impossível imaginar os apóstolos morando em palácios. Ele resumiu o encontro ao dizer que é “uma mensagem por si só”. Os dois líderes abordaram temas como (segundo comunicado oficial do Vaticano) “o compromisso das duas grandes religiões pela paz no mundo, a rejeição à violência e ao terrorismo”. Eles também analisaram “a situação dos cristãos no contexto dos conflitos e tensões do Oriente Médio, assim como a sua proteção”.

A mesquita do Cairo também divulgou comunicado informando que os dois líderes religiosos decidiram “convocar uma conferência para a paz”, sem falar de local ou data, justificando que “Precisamos assumir uma posição conjunta, de mãos dadas, para levar a felicidade à humanidade”. Nada melhor neste momento tão tenso, principalmente devido às barbaridades praticadas por um equivocado Califado (Estado Islâmico), com as quais se procura justificar a islamofobia que se espalha pelos países ricos e que rechaça refugiados que buscam exatamente escapar daquelas barbaridades e de guerras insanas, como a da Síria.

Convém observar que o profeta do Islã, Maomé, tinha grande consideração por Jesus Cristo, por Maria. Depois da sua morte, uma facção belicosa se impôs e conquistou muitas terras no Oriente, indo até a Indonésia; e também avançando para o Ocidente: norte da África, Espanha, Portugal, chegando, pelo outro lado da Europa, até as portas de Viena. Na Espanha, o último reduto islamita foi o Reino de Córdoba, onde conviviam numa boa muçulmanos, judeus e cristãos e onde se destacaram os filósofos Avicena e Averroes, que nos legaram muitos escritos de Aristóteles que poderiam ter-se perdido antes de inspirar tanto a filosofia ocidental.


A grande ruptura entre as duas religiões deu-se com as malfadadas Cruzadas, na Idade Média, que foram o primeiro avanço do colonialismo europeu, seguido, mais tarde, pelos pretensos “descobrimentos”. Sob o pretexto de libertar a Terra Santa, muito sangue foi derramado, inclusive de cristãos orientais, que evidentemente não se vestiam à europeia e foram vistos como islamitas. E qual o sentido, para um autêntico cristianismo, da “libertação” da Terra Santa? 

Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia