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domingo, 9 de dezembro de 2012

OSCAR LITERATURA, MÍSTICA E GÊNERO: ADÉLIA PRADO

por MARIA CLARA BINGEMER

Em poucos poetas e escritores — brasileiros ou não — pode-se notar uma intimidade e uma proximidade explícitas com o mistério divino como em Adélia Prado, essa mineira de Divinópolis, esposa de José e mãe de cinco filhos, professora e formada em filosofia, catequista e católica praticante, vivente e vibradora da espiritualidade franciscana.

A poesia de Adélia é crente. Mas de uma crença que não pretende nem “consegue” ser convencionalmente litúrgica ou teológica ou catequética ou religiosa no sentido mais tradicional do termo. Pelo contrário. A fé e a crença que perpassam o discurso poético em Adélia Prado atravessam igualmente todas as correntes mais puramente humanas da vida cotidiana e ali descobrem e dizem o Transcendente, presente em epifania e diafania.

O modo como Adélia concebe sua poesia a constrói enquanto derivada e nascida da fonte mesma de todo Poema que é a Palavra de Deus. A poesia adeliana é, pois,  exercício espiritual, estando permanentemente em contato estreito e tangibilidade concreta e incessante com a corporeidade humana. O corpo é o território onde o espírito é experimentado e o sagrado experienciado. E disso é feita a poesia. E no caso de Adélia é seu corpo feminino, de mulher, com todas as conseqüências e características biológicas que isso implica, o lugar onde a epifania divina acontece e se dá.

Sendo Adélia poeta e mística, nela o Eros e o Mysterion não são terrenos separados e antagônicos, mas, pelo contrário, se tocam em harmoniosa síntese. Adélia, como todos os místicos autenticamente cristãos, não tem pudor em usar expressões eróticas e sexuais para expressar sua experiência de Deus e traduzi-la em poesia.A poesia adeliana é igualmente pascal. A síntese entre dor e alegria, entre sofrimento e gozo é nela uma constante. E assim sendo,  encontra feliz analogia com todo o mistério cristão expresso através dos tempos, na teologia, na mística, na oração, na liturgia, por ter em seu centro o mistério que se depreende da Encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, Verbo de Deus encarnado, vivo, morto e ressuscitado.

O texto poético, materno-teologal de Adélia Prado é, portanto, texto revelado e aderido na fé que, feito poesia, traduz em linguagem artística e estética, literária, os mistérios escondidos e revelados desde a fundação do mundo.

Ler Adélia Prado é como adentrar-se nas origens misteriosas da experiência de Deus do povo da Bíblia, que experimentou a presença do Eterno como Palavra. Palavra que desde o silêncio eterno foi livremente pronunciada no tempo e na história, penetrou os ouvidos humanos e fez cair os véus que velavam aos olhos interiores o dinamismo existencial sobrenatural que os habitava.

Nos primórdios da Revelação ao povo de Israel, os homens e mulheres que captaram e falaram sobre essa revelação identificaram Deus como Palavra. Palavra que rompe o silêncio e fala. Mas se sabe e se declara que fala porque existe um ouvinte, ser humano ou mulher, que ouviu, ouve e fala daquilo que ouviu.

A linguagem humana, na medida em que toma consciência de si mesma, perceberá que fala do que lhe foi dado, fala do que ouviu, do que recebeu, do que acolheu do dom primordial, do mistério indecifrável e inefável que é fonte de tudo e de todos e está na origem sem origem que foi caos e agora é cosmos.

Se físicos e cientistas se debatem com a pergunta sobre o porquê de existir algo em vez de nada, o poeta, pelo contrário, em sua inspiração, “sabe” o porquê, porque o apalpa em sua povoada ignorância que o faz dizer o que não diria por que não sabia, mas que sabe o que lhe é ensinado gratuita e amorosamente.

No poema “Antes do nome” está, pois, parece-nos, uma chave primordial para começar a percorrer a trajetória de Deus na poesia adeliana.

Antes do nome
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”, o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror
Para Adélia, Deus é mistério santo reservado e revelado. Que se entrega na mesma medida em que se esconde. Que, inapreensível pela indústria humana, pronuncia sobre o “esplêndido caos” primigênio a palavra assistida pelo sopro do Espírito, fazendo emergir as coisas que não são para que sejam.

Adélia “sabe” porque lhe foi dado saber. E este saber doado é a fonte de sua poesia, da palavra que chama com nomes menores, “corriqueira”, “muleta”, pois na verdade é derivada da única e fundamental substantiva Palavra divina que cria e gera vida ali onde antes só havia o nada.

A inspiração poética adeliana é, consciente e assumidamente, inspiração divina. Antes do nome, portanto, está o Nome que a tudo nomeia e por nada nem ninguém pode ser nomeado. “Coisa grave e surda, inventada para ser calada.” Nome existente no silêncio e nele eloquente como dom amoroso que se experimenta indizível e inexprimivelmente. Nome impronunciável pelos lábios humanos, mas que misericordiosamente se faz acessível à carne perecível e mortal capaz de Deus, destinada à morte e transpassada de finitude
.



Maria Clara Lucchetti Bingemer, é professora do   Departamento de Teologia da  PUC-Rio e Autora de  "Simone Weil - A força e a fraqueza  do  amor” (Ed.  Rocco).

http://agape.usuarios.rdc.puc-rio.br


Copyright 2012 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

sábado, 1 de dezembro de 2012

ESCREVER-SE


por MARIA CLARA BINGEMER
    Um escritor francês de quem muito gosto, Gilbert Cesbron, dizia que o único critério de verificação para alguém saber se é realmente ou não um escritor é perguntar-se se pode viver sem escrever.

          Fiz a mim mesma esta pergunta algumas, várias, muitas vezes.  E a resposta foi sempre a mesma.  Não, não consigo viver sem a página em branco – agora tela em branco -  que me convoca e a pena na mão que treme, hoje substituída pelos dedos no teclado... que também tremem.
          Por que o tremor? Por causa do temor... íntimo, profundo e quase santo da responsabilidade que é criar um texto, formar palavras, agrupar letras, encadear sílabas que outros lerão.  E quando o leitor ou leitora é apenas o eu que treme não é menor o temor, nem menos avultada a responsabilidade. 


          Pois escrever é fixar, é guardar, é inscrever no tempo e no espaço da folha ou da tela algo que, mesmo desconhecido para a maioria, passará a fazer parte da história da humanidade como síntese única e experiência irrepetível.  E porque sabiam disso, os grandes mestres espirituais da história sempre disseram a seus discípulos que escrevessem.  


          E porque os discípulos obedeceram temos hoje a monumental obra de Teresa de Ávila acessível a nossos olhos, corações e mentes.  Algo análogo aconteceu com muitos outros e outras que, mesmo não obedecendo a outro em quem reconheciam autoridade para tal, escolheram escrever-se e narrar-se a página de um anônimo caderno impulsionados por razões interiores profundas e verdadeiras.


          Pois ao lado da escolha por escrever para dar sentido à vida está presente igualmente a pulsão pela escrita de si para salvar-se da morte.  Quem escreve um diário busca, além de entender-se e ao mundo que o rodeia, colocar-se protegido do caos e do tempo que passa, inexorável.  E assim, como afirma Maurice Blanchot, salvar o vivido no escrito e salvar a vida mediante a escrita.  


          Em todo caso, exercício ascético, literário ou filosófico, o fato é que escrever-se é uma prática recorrente e viva por parte da humanidade.  Testemunhas disso são os preciosos diários e livros confessionais e de memórias que brotaram da experiência e da pena de tantos gênios e santos (como Santo Inácio de Loyola, Etty Hillesum.  E também Pedro Nava, Walter Benjamin e inúmeros outros e outras).


          Michel Foucault, em seu memorável texto “A escrita de si”, reflete sobre  a escrita dos movimentos interiores como exercício ascético.  Escrever os próprios desejos, pensamentos, impulsos, é aprender a conhecê-los e consequentemente poder dominá-los e exercer controle sobre eles.  Assim também escrever tentações, maus desejos, pensamentos destrutivos, arranca o desejo do anonimato em que se encontra, escondido ao fundo da liberdade humana,  e o expõe no código da escrita.  


          Refletindo sobre a vida de Santo Antão, famoso padre do deserto, campeão de ascese e santidade, Santo Atanásio – citado por Foucault no texto acima -  exalta as virtudes da escrita como disciplina excelente que descobre os maus pensamentos, tentações e pecados ao próprio indivíduo e exerce papel semelhante ao da comunidade que corrige fraternamente o homem religioso que busca a perfeição. “Aquilo que os outros são para o asceta numa  comunidade, sê-lo-á o caderno de notas para o solitário” .


          No fundo, toda essa reflexão vai demonstrando que por mais objetiva que seja a escrita e por maior neutralidade que pretenda o escritor, escreve-se sempre para si mesmo e a partir de si mesmo.  Não escreve quem não passou pelo crivo da experiência a narrativa que constrói, os personagens que cria, as situações que inventa.  E tampouco as definições, argumentações e teses que rigorosamente encadeiam no texto acadêmico, dirigindo-se à razão alheia, mas não deixando de tocar nos elementos vitais sem os quais essa razão não merece o nome de humana. 


          Em um tempo em que a narrativa – como experiência, como exercício, como prática lúdica ou docente – parece estar em crise ou mesmo desaparecendo, a escrita de si adquire o cunho de resistência, resiliência, de quem não desiste de permanecer na contramão do tempo cronológico.
 


 
Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco) Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

Copyright 2012 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

ESTUDAR TEOLOGIA HOJE


por FREI BETTO


       Soa anacrônico falar em teologia – estudo dos temas relacionados a Deus – em uma época de hiper-racionalismo, dominada pelas duas filhas diletas da modernidade: a ciência e a tecnologia.


       Ora, se olharmos em volta vemos que a teologia se faz necessária e atual. Com a crise das ideologias libertárias, após a queda do Muro de Berlim, há emergência dos fundamentalismos religiosos, tanto no Ocidente quanto Oriente, pautando políticas agressivas que ignoram leis e princípios humanitários.


       Em nome de Deus, atos terroristas são perpetrados, o mundo é dividido entre “eixo do mal” e “eixo do bem”, pessoas de crenças religiosas diferentes são encaradas como hereges ou até mesmo diabólicas. Mesmo na eleições no Brasil o tema religião adquire preponderância.


       Não se pode entender o mundo atual e suas perspectivas futuras sem um mínimo de conhecimento teológico. Por que judaísmo, cristianismo e islamismo derivam do mesmo patriarca Abraão? Quais as convergências e diferenças entre essas três religiões do livro? O que têm a nos ensinar as religiões orientais, como o budismo? Como as tradições religiosas indígenas e africanas marcam a América Latina e o Brasil?


       O Concílio Vaticano II (1962-1965) procurou atualizar a Igreja Católica. Hoje, seus desdobramentos exigem um novo perfil de Igreja e uma nova evangelização, na qual os leigos desempenham papel preponderante. O aprendizado da teologia nos permite compreender melhor as resistências de setores católicos às decisões do Concílio, a tensão entre clericalismo e secularização, os impasses do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, os fenômenos do agnosticismo e do ateísmo.


       Enganam-se aqueles que pensam ser a teologia uma “metafísica dos anjos”, que exige necessariamente conhecimentos de grego e de latim. A teologia é um amplo leque de possibilidades de apreensão do Mistério que imprime à nossa existência um caráter transcendente. Graças a seu estudo, penetramos no mundo bíblico, desvendamos a história da Igreja, conhecemos a patrística grega e latina, entendemos melhor o papel das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação, identificamos nos fatos da atualidade política o pano de fundo religioso.


       Um bom curso de teologia supre esta grande falha da Igreja Católica: não oferecer aos adultos uma atualização catequética. Muitos guardam, na idade adulta, noções próprias da catequese infantil. Ora, não se pode dirigir um carro por ter aprendido a andar de velocípede. O estudo da teologia articula conhecimentos religiosos com outros ramos do saber, como filosofia, antropologia, ecologia, astrofísica etc.


       É essa atualização que a Escola Dominicana de Teologia, em São Paulo, oferece a seus alunos e alunas. Aberta a leigos(as), religiosos(as) e seminaristas, dispõe de uma biblioteca que abriga 50 mil volumes e conta com recursos de tecnologia da informática.


       Venha estudar teologia! Venha para a Escola Dominicana de Teologia!
       Contatos: secretaria@edt.edu.br
ou tel. (11) 2592-0372. Rua São Daniel, 119, próximo ao metro Alto do Ipiranga, São Paulo. Peça o programa do curso e outras informações.
 


PORQUE DAR GRAÇAS


por MARCELO BARROS


No Brasil, desde os anos da ditadura, os governos têm se esforçado para integrar no calendário festivo a última quinta feira de novembro como dia nacional de ação de graças. Apesar dos cultos feitos em catedrais e de shows de músicas religiosas, promovidos por prefeituras, esse feriado norte-americano não se enraizou no Brasil. Nos Estados Unidos e alguns outros países marcados pela cultura norte-americana, o dia de ação de graças é uma grande festa de confraternização. Só quem não dá graças é o peru morto na véspera para alimentar as famílias que agradecem. 

Sem dúvida, é positivo que sejamos educados e sempre convidados a desenvolver sentimentos de reconhecimento e gratidão. É importante ser gratos a Deus ou para quem não crê, cantar como Violeta Parra, “gracias à la vida”, uns aos outros e ao universo. A gratidão e a alegria de dizer sim fazem parte de uma postura de amor. E há sempre mil razões para se alegrar e para dar graças. Mas, para que a ação de graças seja verdadeira tem de ser coerente e justa. Não podemos usar a ação de graças como argumento para atribuir a Deus, ou ao destino e à vida, coisas que nada têm a ver com Deus ou com a bênção da vida. É provável que até hoje, muitas pessoas atribuam a Deus a riqueza que possuem, o êxito que tiveram ao explorar os outros ou o fato de que outros morreram, mas a tal pessoa que agradece escapou sã e salva. Há movimentos espiritualistas, católicos e evangélicos, que leem ao pé da letra o versículo do salmo que diz como palavra de Deus para o seu fiel: “Podem cair mil ao teu lado, dez mil à tua direita, a ti nada de mal atingirá” (Cf Salmo 91, 7). 

Sobre tudo isso, é preciso deixar claro: o Deus que salva alguns privilegiados e deixa morrer ou sofrer uma porção de outros filhos não é pai de todos. Ao contrário, é o Deus do capitalismo selvagem. Não merece nossa adoração. É o ídolo ao qual os ricos podem agradecer o fato de ter uma casa confortável, o carro do ano ou uma boa conta no banco. Assim, no dia de ação de graças, uma pequena elite tem muito o que agradecer, enquanto a multidão dos empobrecidos ou agradece os bens espirituais, já que não possuem nada, ou iludidos e alienados, agradece ao Deus da elite os benefícios dados aos seus patrões.

Na Bíblia, o livro dos Salmos é a coleção dos hinos de louvor e agradecimento a Deus. Os salmos nos ensinam a um louvor que sempre une a pessoa que ora à comunidade de todo o povo de Israel e à história real da humanidade. A relação com Deus não se dá na legitimação das estruturas injustas. No mundo, ocorrem muitas coisas que não são do agrado de Deus e nem correspondem à sua vontade. Agradecer a Deus a obtenção de riquezas injustas é insultá-lo e chamá-lo de protetor de ladrões e malfeitores, diz o livro do Eclesiástico (Eclo 18, 34 ss). Os evangelhos contam que Jesus agradeceu ao Pai de uma forma muito diferente: “Pai, eu te agradeço, porque escondeste tuas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos simples e aos pequeninos” (Mt 11, 25).