Vamos ouvir a reflexão do evangelho de hoje, 22 de agosto de 2021, conclusão da leiotura do evangelho segundo São João, feita por Pe José Oscar Beozzo.
É só clicar e assistir. Vamos assistir?
Vamos ouvir a reflexão do evangelho de hoje, 22 de agosto de 2021, conclusão da leiotura do evangelho segundo São João, feita por Pe José Oscar Beozzo.
É só clicar e assistir. Vamos assistir?
(breve reflexão para
crentes ou não)
Chico Alencar
No trecho de Evangelho de
João (6, 60-69), lido hoje em milhares de comunidades cristãs pelo mundo, há um
chamamento que vale para tod@s os seres
humanos - religiosos, agnósticos ou ateus - em todas as époocas. Trata-se de
saber escolher, decidir, optar.
Jesus de Nazaré, aqui, o
faz de maneira contundente. Sua pregação incomodava, intrigava, questionava os
fundamentos da cultura de seu tempo, uma espécie de
"templocentrismo", e da aceitação da "pax romana" - o
globalismo da época.
Ele falava não de rituais,
"ofertas" materiais a um Deus distante e submissão ao Império, mas do
pão da vida, repartido, e da entrega à lei maior, a do amor. De não guardar o
sábado (dia sagrado dos judeus) se o irmão estivesse em necessidade. De não se
acomodar a uma ordem injusta. De romper com os grilhões da acumulação material:
"O Espírito é que dá a vida, não a carne".
Decidir é escolher, pois
há vários caminhos e temos o livre arbítrio. No caso de Jesus, "muitos
discípulos voltaram atrás, e não andavam mais com Ele". Temiam os
percalços, as incompreensões, as perseguições, o fracasso. Queriam só ir
"na boa", uma vidinha sem ousadia e riscos.
Hoje também é assim:
somos constantemente seduzidos para uma rotina burguesa, instalada, que
"não vá contra a corrente". Nada do que acontece da porta de casa
para fora nos diz respeito. Tudo está pronto, oferecido nas prateleiras do
"compro, logo existo" (para os que temos casa e podemos comprar
coisas).
Até nossas emoções são
controladas pelo que vem de telas coloridas, não do nosso interior adormecido.
Vamos criando camadas de gordura e neuroses que matam: a da indiferença
("e eu com isso?), da passividade ("sempre foi assim mesmo"), do
pensamento fechado, dogmático ("é a minha opinião, pronto").
Toda escolha consciente
por uma existência solidária traz serena alegria e... exigências. Semear
implica em pisar pedras. As rosas exalam perfume mas seu caule tem espinhos.
Amor, por vezes, rima com dor. Pedro,
aquele que depois negou três vezes - a incerteza e o medo também nos constituem
- fez a opção: "a quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida
eterna".
Viver é garimpar a
preciosidade de existir, aderir a valores que a traça não come nem a ferrugem
consome. É ter grandeza, sem apegos e mesquinharias, mesmo sendo pequeninos.
Livrar-se de tudo o que pesa na caminhada. Ser fraterno para ser eterno.
Um outro Pedro, o
Pellegrino (1950-1996), psicanalista, poeta e cristão arrebatado, inspirado,
orientou: "Não devemos perguntar o que será de nossas vidas, jamais.
Devemos arregaçar as mangas, cuspir nas mãos, pegar na pá. De pá em pá, chegar
à pá-ciência".
Assim sejamos. Bom
domingo!
Chico Alencar é um historiador, professor e político
brasileiro, filiado ao Partido Socialismo e Liberdade. Foi deputado federal
pelo PSOL do Rio de Janeiro exercendo quatro mandatos consecutivos. É, atualmente, vereador do Rio de
Janeiro.
Prof. Martinho Condini
Estamos celebrando este ano o centenário do educador Paulo
Freire (1921-2021), patrono da Educação
Brasileira, título esse concedido por meio do projeto de Lei de autoria da
Deputada Federal Luiza Erundina e certificado pela presidenta Dilma Rousseff em
2012.
Diante das comemorações do centenário muitos trabalhos de
pesquisa, artigos e livros estão sendo publicados por pesquisadores(ras), estudiosos(as)
e escritores(ras) que utilizam em seus escritos as expressões freiriano(a) com
“i” ou freireano(a) com “e”.
O Prof. José Eustáquio Romão e outros pesquisadores(as) freirianos(as) justificam a utilização da
expressão freiriano(a) com “i” a partir de três informações:
- Os gramáticos afirmam
que “os sufixos são regrados de sentido, e por isso, são invariáveis; então na
junção entre Freire e iano, deve-se permanecer o sufixo inalterado e
suprir a vogal repetida. Logo o denominativo daquilo que é ou se refere a
Freire, deve ser freiriano.
- As filhas e filho de
Freire afirmam que Freire não gostaria que as coisas relativas a si
infringissem a língua portuguesa que ele amava (Freire foi professor de língua
portuguesa no Colégio Osvaldo Cruz em Recife – sua primeira experiência docente).
- A utilização de
freiriano(a) com “i” é pelo fato de Freire ter criado tantos neologismos em
suas obras e jamais ter infringido as regras gramaticais da nossa língua.
Os pesquisadores(as), estudiosos(as) e escritores (as)
freireanos (as), também têm as suas justificativas sobre a utilização da
expressão freireano (a) com “e”, e essas variam entre eles (as), dentre elas
podemos citar:
- A expressão freireano
(a) com “e”, fortalece e engrandece ainda mais o sobrenome Freire que está
diretamente ligado a sua história e ao seu legado.
- Sua utilização é uma
ação política, subversiva e libertadora, que demonstra o lugar de fala daquele
que a utiliza e como estes vêem e atuam com a práxis freireana.
- É uma expressão agradável
com uma sonoridade e boniteza ímpar.
Estou convencido que as escolhas das
expressões freiriano(as) ou freireano(as) na verdade estão diretamente
relacionadas à história e trajetória de vida, à formação profissional e intelectual,
à leitura de mundo ou à preferência estética de cada um(a). Por isso cada um(a)
têm o direito de utilizar a expressão que lhe é mais confortável e mais lhe agrada
em seu texto, artigo, livro, dissertação, tese ou em suas falas em sala de aula
ou palestras.
Acredito que independente da regra gramatical, da informação
da família, do rigor dos neologismos, do fortalecimento do sobrenome, da
questão política, da sonoridade e da boniteza, pode utilizar qualquer uma das
duas expressões sem medo de ser feliz.
Enfim, o que importa é que companheiros e companheiras freirianos
(as) e freireanos (as) permaneçam motivados(as), envolvidos(as), fortalecidos(as)
e irmanados(as) em diversas homenagens organizadas no Brasil e no mundo através
de universidades, cátedras, institutos, coletivos e Cafés com Paulo Freire, cada
um à sua maneira, afim de não só perpetuar a obra e o legado de Paulo Freire,
mas principalmente praticar o que o mestre nos recomendou, “não me copiem, me reinventem”.
Voa
Paulo Freire!!!!!!!!!!!!!
* O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com
Leonardo Boff
No dia 8
de agosto de 2021 o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas
(IPCC) publicou o relatório, feito a cada dois anos, sobre a
situação climática da Terra, fruto da pesquisa de mais de cem peritos de 52
países. Nunca o documento usou de tanta clareza, como agora, diferentemente dos
relatórios anteriores. Antes se afirmava que havia 95% de certeza que o
aquecimento global era antropogênico,vale dizer, de origem humana. Agora se
sustenta sem restrições que ele é consequência dos seres humanos e de sua forma
de habitar a Terra, especialmente, por causa do uso de energia fóssil
(petróleo, carvão e gás) e de outros fatores negativos.
O cenário
apresenta-se dramático.O Acordo de Paris especifica que os países devem
“limitar o aquecimento a bem abaixo de 2˚C, e perseguir esforços para limitar a
1,5˚C”. O relatório atual insinua que será difícil mas que temos
conhecimento científico, capacidade tecnológica e financeira para enfrentar as
mudanças climáticas, desde que todo mundo, países, cidades, empresas e
indivíduos, já agora se empenhem seriamente.
A
situação atual é preocupante.Em 2016 as emissões globais de gases de efeito
estufa somavam anualmente cerca de 52 gigatoneladas de CO2. Se não mudarmos de
curso atual chegaremos em 2030 entre 52 a 58 gigatoneladas. Nesse nível haveria
uma dizimação fantástica da biodiversidade e uma proliferação de bactérias e
vírus como jamais havidos antes.
Para
estabilizar o clima a 1,5 graus Celsius, afirmam os cientistas, as emissões
precisariam cair pela metade (25-30 gigatoneladas). Caso contrário,com a Terra
em chamas, conheceríamos eventos extremos aterradores.
Sou da
opinião de que não bastam apenas ciência e tecnologia para a diminuição
dos gases de efeito estufa. É demasiada crença na onipotência da ciência que
até hoje não sabe enfrentar totalmente o Covid-19. Faz-se urgente outro
paradigma de relação para com a natureza e com a Terra, que não seja destrutivo
mas amigável e em sutil sinergia com ritmos da natureza. Isso obrigaria uma
transformação radical no modo de produção atual, capitalista, que ainda se
move, em grande parte, na ilusão de que os recursos da Terra são ilimitados e
que permitem,por isso,um projeto de crescimento/desenvolvimento também
ilimitado. O Papa Francisco em sua encíclica Laudato Sì:sobre o cuidado da
Casa Comum (2020)denuncia esta premissa como
“mentira”(n.106):um planeta limitado,em grau avançado de degração e
superpovoado não tolera um projeto ilimitado. O Covid-19 em seu significado
mais profundo nos exige, pôr em ação,uma conversão paradigmática.
Na
encíclica Fratelli tutti(2021) o Papa
Francisco apreendeu este aviso do vírus. Contrapõe dois projetos: o vigente, da
modernidade, cujo paradigma consiste em fazer o ser humano dominus (senhor e dono) da natureza e o novo
proposto por ele, o de frater (irmão e
irmã), incluindo a todos, os humanos e os demais seres da natureza. Este novo
paradigma do frater planetário fundaria uma
fraternidade sem fronteiras e um amor social. Se não fizermos esta
travessia,”todos se salvam o ninguém se salva”(n.32).
Eis a
grande questão: o modo de produção capitalista mundializado mostra vontade
política, tem a capacidade e a razoabilidade suficientes para se permitir esta
mudança radical? Ele se fez o dominus (maître et possesseur de Descartes) da
Terra e sobre todos os seus recursos.Seu mantras são: o maior lucro
possível,conseguido por uma concorrência feroz, acumulado individual ou
corporarivamente, através de um exploração devastadora dos bens e serviços
naturais. Desse modo de produção se originaram o descontrole climático e, o que
é pior, uma cultura do capital, da qual, de alguma forma, todos somos reféns.
Como para nos salvar de ambas?
Temos que
mudar, senão, segundo Sygmunt Bauman, “vamos engrossar o cortejo daqueles
que rumam na direção de sua própria sepultura”.
Logicamente,esta
urgente conversão de paradigma,demanda tempo e implica um processo de
transformação, pois todo o sistema está azeitado para produzir e consumir mais.
Mas o tempo da mudança está expirando. Daí o sentimento do mundo de
grandes nomes,cuja credibilidade inquestionável não é de simples pessimismo,mas
de um realismo bem fundado.Cito alguns deles:
O
primeiro é o Papa Francisco de alertou na Fratelli tutti:”estamos
no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.32).
O
segundo, o formulador da teoria da Terra como super-organismo vivo, Gaia,
James Lovelock, cujo último título diz tudo:”Gaia:alerta final”(Intrínseca,
Rio 2010).
O
terceiro é Martin Rees, Astrônomo Real do Reino Unido: Hora final:o desastre ambiental ameaça o futuro da
humanidade (Companhia das Letras, SP 2005); dispensa
comentário.
O quarto
é Eric Hobsbawm, um mais renomados historiadores do século XX diz no final de
seu A era dos extremos (Companhia das Letras, SP 1995):”Não
sabemos para onde estamos indo.Contudo, uma coisa é clara:se a humanidade quer
ter um futuro significativo não pode ser pelo prolongamento do passado ou do
presente.Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base, vamos
fracassar.E o preço do fracasso, ou seja, a mudança da sociedade é a
escuridão”(p.562). Esta advertência vale para todos aqueles que pensam a
pós-pandemia como uma volta à antiga e perversa normalidade.
O quinto
é o conhecido geneticista francês Albert Jacquard com o seu “A contagem regressiva já começou? (Le compte à retours a-t-il
commence? Stock, Paris 2009).Sustenta:”temos um tempo contado
e à força de termos trabalhado contra nós mesmos, arriscamos de forjar uma
Terra na qual ninguém de nós gostaria de morar. O pior não é certo, mas temos
que nos apressar”(quarta capa).
Por fim,
um dos últimos grandes naturalistas, Théodore Monod com o livro E se a aventura humana vier a fracassar (Et si l’aventure
humaine devait échouer,Grasset,Paris 2003) assevera: “O ser humano é
perfeitamente capaz de uma conduta insensata e demencial; a partir de agora
podemos temer tudo, tudo mesmo, até a aniquilação da espécie humana”(p.246).
O
processo da cosmogênese e da antropogênse propiciaram também a emergência da fé
e da esperança. Elas são parte da realidade total. Não invalidam as advertências
citadas.Mas abrem outra janela que nos assegura que “o Criador criou tudo por
amor porque é o apaixonado amante da vida”(Sabedoria 11,26).Essa fé e esperança
permitem ao Papa Francisco falar “para além do Sol” com estas
palavras:”Caminhemos cantando,que as nossas lutas e a nossa preocupação por
este planeta não nos tirem a alegria da esperança”(Laudato Sì n.244).O
princípio esperança supera todos os limites e mantém sempre aberto o futuro. Se
não podemos evitar o descontrole climático, podemos nos precaver e minorar seus
efeitos mais danosos.É o que cremos e
esperamos.
Leonardo
Boff é filósofo e ecoteólogo e escreveu O doloroso parto da Mãe
Terra:uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social,Vozes
2020.