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quarta-feira, 30 de março de 2022

PALAVRAS DE PEDRO : DITADURA NUNCA MAIS.




Aqui, perto, os militares são meus “inimigos”, na medida em que são inimigos do Povo. Porque estão a serviço do Capitalismo e da Ditadura; porque vivem servilmente entregues aos assistencialismos mistificadores, aos “projetos-impacto”, à repressão e até à tortura. Não falo decorado, mas do vivido.

Apesar de não saber bem o que dizer — na real prática angustiante sobre a Violência, detesto mais que nunca todas as armas, e gostaria de saber que serão dispensados, um dia, todos os exércitos do mundo e que “de suas espadas se forjarão enxadas e de suas lanças, podadeiras”...

 

Pedro Casaldáliga, Creio da Justiça e na Esperança


#PedroCasaldáligaPresente!

#Casaldáliga

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

BRASIL RUMO À DITADURA?

Frei Betto


 

       Onde há fumaça, há fogo, reza o ditado popular. A maioria dos brasileiros e a opinião pública mundial sabem que o Brasil é governado por um homem de convicções fascistas. Bolsonaro sempre exalta torturadores da ditadura militar implantada no Brasil em 1964 e lamenta que não tenham sido fuzilados “ao menos 30 mil subversivos”.

       Eleito presidente na onda do moralismo desencadeado pela fraudulenta operação Lava Jato, Bolsonaro nomeou para importantes funções civis no governo mais de 6 mil militares; desencadeou orquestrada veiculação de fake news; ignorou a gravidade da pandemia, que qualificou de “gripezinha”; recomendou medicamentos sem comprovação científica; demorou a importar vacinas e, apesar de quase 600 mil mortos pela Covid 19, o Ministério da Saúde até hoje não adotou um protocolo de testagem e imunização nacional e, agora, é investigado pelo Senado como antro de corrupção na compra de vacinas superfaturadas, na qual haveria militares envolvidos.

       Bolsonaro repete: “só Deus me tira do poder”. Isso apesar de 15 milhões de desempregados, 30 milhões de pessoas na miséria, 19 milhões padecendo fome crônica e uma inflação de mais de 8% ao ano. 

       Haverá eleições presidenciais em 2022. Todas as pesquisas apontam Lula como candidato preferido dos eleitores. Embora muitos deles se arrependam de ter votado em Bolsonaro em 2018, e outros continuem a recusar voto ao PT, o fato é que, até agora, não se encontrou um candidato alternativo à polarização Lula X Bolsonaro. Há vários nomes em pauta, mas nenhum que angarie suficientes votos para ameaçar um dos dois candidatos e representar uma alternativa entre a esquerda e a direita.

       Ao prever que Lula pode derrotá-lo em 2022, como indicam as pesquisas, Bolsonaro passou a defender o voto impresso. Há 25 anos o Brasil adota urnas eletrônicas, e jamais houve qualquer suspeita de fraude. O passado eleitoral brasileiro ensina que o voto impresso é, sim, vulnerável à fraude. Eleitores de baixa escolaridade e renda costumam ser pressionados por “coronéis” (milicianos, policiais, fazendeiros, patrões, pastores e padres) para dar seu voto a determinado candidato em troca de dinheiro, favores ou por medo de ameaças.

       No voto eletrônico não há como comprovar o voto do eleitor. Mas o voto impresso passa recibo. Há comprovação no papel se o eleitor votou de fato no candidato indicado. E isso favorece a fraude eleitoral – o único recurso com o qual Bolsonaro conta para tentar evitar uma derrota no próximo ano.

       Para o retorno do voto impresso, que se somaria ao eletrônico (à urna seria acoplada uma impressora) é preciso de emenda constitucional aprovada pelo Congresso Nacional. A questão deveria ter sido votada pela Câmara dos Deputados na primeira metade de julho. Quando os deputados bolsonaristas perceberam que seriam derrotados, fizeram uma manobra que transferiu a decisão para agosto, após o recesso parlamentar. 

        A democracia brasileira não estaria ameaçada se dependesse do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, contrários ao voto impresso. Ocorre que, a 9 de julho, o comandante da Aeronáutica, Carlos Baptista Junior, declarou ao jornal “O Globo” que cabe às Forças Armadas tutelarem a democracia brasileira. Na mesma entrevista, afirmou: “Não abriremos mão disso”. E pontificou: “Homem armado não ameaça”. 

       Lembro-me do Brasil às vésperas do golpe de 1964, que implantou 21 anos de ditadura militar. Líderes da esquerda, na qual eu militava via movimento estudantil, diziam não temer golpe, as instituições democráticas eram sólidas, o presidente Jango contava com forte respaldo militar contrário à violação da Constituição. 

       Agora ouço o mesmo discurso de solidez das instituições democráticas e de falta de condições conjunturais para uma volta à ditadura, inclusive de vozes da direita. Contudo, nenhum militar da ativa ousou discordar da ameaça golpista do comandante da Aeronáutica. Nenhum jamais se manifestou perante as repetidas bravatas golpistas de Bolsonaro. E, a 8 de julho, o ministro da Defesa, que comanda as três armas, general Braga Netto, teria comunicado ao presidente da Câmara dos Deputados que “se não houver voto impresso e auditável em 2022, não haverá eleições”. No mesmo dia, Bolsonaro declarou em público: “Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”. Ele teme que o parlamento rejeite a emenda constitucional que visa a permitir o voto impresso.

       Autoridades civis receberam as manifestações golpistas como “blefe’”, na opinião de um ministro do STF que não quis se identificar. Mas, repito, onde há fumaça, há fogo. É preocupante o ensurdecedor silêncio dos militares da ativa. Nenhum ousa discordar.

       O povo brasileiro tem ocupado as ruas em massivas manifestações contrárias ao governo Bolsonaro. Este o recurso que temos para salvar a democracia. Mas se os militares optarem pelo golpe, institucionalizando Bolsonaro como ditador, basta rever o passado entre 1964 e 1985 para se ter ideia do futuro que nos aguarda.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Batismo de sangue” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

      

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

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quinta-feira, 24 de maio de 2018

ARQUIVOS DA DITADURA E MEMÓRIA SUBVERSIVA





Por Frei Betto

      As Forças Armadas brasileiras preferem tergiversar a respeito dos arquivos da ditadura. Insistem na versão de que foram queimados. Não haveria nada a ser trazido a público. Ora, impossível apagar a memória daqueles 21 anos de atrocidades.

Mais de 70 anos após o inferno nazista, novos dados ainda vêm à tona. Não será aqui no Brasil que haverão de borrar da história o longo período no qual crimes hediondos foram cometidos pelo Estado, em nome do Estado e por ordem do Estado chefiado por militares, como constam nos documentos da CIA.

      À semelhança do genocídio nazista, aqui também vítimas sobrevivem. E jamais haverão de esquecer o tempo em que a arma do Direito deu lugar ao direito das armas. Há mortos e desaparecidos, conforme apurou a Comissão da Verdade, e seus parentes e amigos não admitem que se adicione à supressão de suas vidas o selo indelével do silêncio.

      O governo dos EUA, que patrocinou o golpe militar de 1964 e adestrou muitos de seus oficiais, mantém robusto arquivo com o registro das confissões dos algozes. A história é feita de fatos cujos significados dependem de versões. Raramente a versão do poder prevalece sobre a dos vencidos, ainda que esta última demore a emergir, como foi o caso do genocídio indígena cometido por espanhóis e portugueses na colonização da América Latina.

      O exemplo emblemático de memória subversiva é a que coloca no centro da história do Ocidente um jovem palestino preso, torturado e assassinado na cruz há mais de dois mil anos. Tudo se fez para que as versões do Império Romano prevalecessem. Os discípulos de Jesus de Nazaré foram perseguidos e mortos, a cidade na qual ele morreu foi invadida e arrasada no ano 70, e os historiadores da época, como Flávio Josefo e Plínio, não lhe dedicaram mais do que uma linha.

      Seus feitos e suas palavras, no entanto, não caíram no olvido. As comunidades mediterrâneas que nele reconheceram Deus encarnado preservaram os relatos daqueles que com ele conviveram. Trinta anos depois de o pregarem na cruz, as narrativas, hoje conhecidas como evangelhos, se difundiram. O que se tentou apagar veio à luz.

      As Forças Armadas brasileiras podem insistir em não separar o joio do trigo, ao contrário do que fizeram os militares da Argentina, do Uruguai e do Chile, que se livraram do estigma de cumplicidade com o horror. Jamais, porém, haverão de apagar da memória nacional as graves violações dos direitos humanos cometidas pela ditadura.

      O pacto de silêncio não cala a voz da história. A memória subversiva não confunde anistia com amnésia. Somente o silêncio das vítimas poderia salvar os algozes. Mas isso é impossível. O grito parado no ar ressoa. E exige justiça. 

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros.

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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ESTAMOS JÁ EM PLENA DITADURA CIVIL RUMO À MILITAR?


Por Leonardo Boff

O que vivemos atualmente no Brasil não pode sequer ser chamado de democracia de baixíssima intensidade. Se tomarmos como referência mínima de uma democracia sua relação para com o povo, o portador originário do poder, então ela se nega a si mesma e se mostra como farsa.

Para as decisões que afetam profundamente o povo, não se discutiu com a sociedade civil, sequer se ouviram movimentos sociais e os corpos de saber especializado: o salário mínimo, a legislação trabalhista, a previdência social, as novas regras para a saúde e a educação, as privatizações de bens públicos fundamentais como é, por exemplo, a Eletrobrás e campos importantes de petróleo do pré-sal, bem como as leis de definem a demarcação das terras indígenas e, o que é um verdadeiro atentado à soberania nacional, a permissão de venda de terras amazônicas a estrangeiros e a entrega de vasta região da Amazônia para a exploração de variados minérios a empresas estrangeiras.

Tudo está sendo feito ou por PECs, decreto ou por medidas provisórias propostas por um presidente, acusado de chefiar uma organização criminosa e com baixíssimo apoio popular que alcança apenas 3%, propostas estas enviadas, a um parlamento com 40% de membros acusados ou suspeitos de corrupção.

Que significa tal situação senão a vigência de um Estado de exceção, mais, de uma verdadeira ditadura civil? Um governo que governa sem o povo e contra o povo, abandonou o estatuto da democracia e claramente instaurou uma ditadura civil. Assim pensa um de nossos maiores analistas politico Moniz Sodré, entre outros. É exatamente isso que estamos vivendo neste momento no Brasi. Na perspectiva de quem vê a realidade política a partir de baixo, das vítimas deste tipo novo de violência, o país assemelha-se a um voo cego como um avião sem piloto. Para onde vamos? Nós não sabemos. Mas os golpistas o sabem: criar as condições políticas para o repasse de grande parte da riqueza nacional para um pequeno grupo de rapina que segundo o IPEA não passa de 0,05 de populacão brasileira, (um pouco mais de 70 mil milhardários) que constituem as elites endinheiradas, insaciáveis e representantes da Casa Grande, associadas a outros grupos de poder anti-povo, especialmente de uma mídia empresarial que sempre apoiou os golpes e teme a democracia.

Transcrevo um artigo de um atento observador da realidade brasileira, vivendo no semi-árido e participando da paixão das vítimas de uma das maiores estiagens de nossa história: Roberto Malvezzi. Seu artigo é uma denúncia e um alarme: Da ditadura civil para a militar.

“Antes do golpe de 2016 sobre a maioria do povo brasileiro trabalhador ou excluído, já comentávamos em Brasília, num grupo de assessores, sobre a possibilidade de uma nova ditadura no Brasil. E nos ficava claro que ela poderia ser simplesmente uma “ditadura civil”, sem necessariamente ser militar. Entretanto, como em 1964, ela poderia evoluir para uma ditadura militar. Naquele momento pouquíssimos acreditavam que o governo poderia ser derrubado.

Para mim não há dúvida alguma que estamos em plena ditadura civil. É um grupo de 350 deputados, 60 senadores, 11 ministros do Supremo, algumas entidades empresariais e as famílias donas da mídia tradicional que impuseram uma ditadura sobre o povo. As instituições funcionam, como dizem eles, mas contra o povo e apenas em favor de uma reduzidíssima classe de privilegiados brasileiros. Claro, sempre conectados com as transnacionais e poderes econômicos que dominam o mundo.

Portanto, nós, o povo, fomos postos de fora. Tudo é decidido por um grupo de pessoas que, se contadas nos dedos, não devem atingir mil no comando, com um grupo um pouco maior participando indiretamente.

Acontece que o golpe não fecha, não se conclui, porque a corrupção, velha fórmula para aplicar golpes nesse país, hoje é visível graças a uma mídia alternativa presente e cada vez mais poderosa. E a corrupção está em todos os níveis da sociedade brasileira, sobretudo nos hipócritas que levantaram essa bandeira para impor seus interesses.

Mas, a corrupção é apenas o pretexto. Segundo a visão de Leonardo Boff, o objetivo do golpe é reduzir o Brasil que funcione apenas para 120 milhões de brasileiros. Os 100 milhões restantes vão ter que buscar sobreviver de bicos, esmolas e participação em gangs, quadrilhas e tráfico de armas e drogas.

Então, começam aparecer sinais do verdadeiro pensamento de quem está no comando, uma reunião da Maçonaria, um general falando a verdade do que vai nos bastidores, a velha mídia com a opinião de “especialistas”, nas mídias sociais os saudosos da antiga ditadura dizendo que “quem não é corrupto não precisa ter medo dos militares”.

Enfim, estão plantando a possibilidade da ditadura militar. Para o pequeno grupo que deu o golpe ela é excelente, a melhor das saídas. Nunca foram democráticos. Não gostam do povo. Inclusive nessa Câmara e nesse Senado, poucos vão perder seus cargos ou ir para a cadeia.

O pior de uma ditadura civil ou militar é sempre para o povo. As novas gerações não conhecem a crueldade de uma ditadura total.

É de gelar a alma o silêncio da sociedade diante das declarações do referido general”. 

Que Deus e o povo organizado nos salvem.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O PASTOR QUE DESAFIOU A DITADURA

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



Completar 95 anos não é pouca coisa. É muita vida vivida, sofrida e fruída. Quando se trata de uma vida toda ela de serviço aos mais pobres e humildes, de defesa dos direitos humanos, de exercício do profetismo, é uma grande celebração de ação de graças.  Ainda mais quando o aniversariante está lúcido e pode participar da festa.

É assim que o Brasil celebrou neste dia 25 de outubro os 95 anos do cardeal emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns.  Frade franciscano, teólogo e doutor em Letras pela Sorbonne, em Paris, foi ordenado bispo pelo beato papa Paulo VI.  Do coração e da pena daquele papa inteligente, culto e inquieto pelos frutos do pós-Concílio que não deixavam de trazer perplexidade, saiu a nomeação deste que foi a grande figura de Pastor do Brasil nos anos de chumbo.

Ao lado de seus bispos auxiliares dom Celso, dom Luciano, dom Angélico, dom Mauro e outros tantos, dom Paulo governou a arquidiocese de São Paulo assumindo um claro compromisso com os pobres e desfavorecidos.  A isso aliou a luta pelo fim das torturas que o regime militar praticava em seus cárceres e porões, e pelo restabelecimento da democracia no Brasil. Sua atuação pastoral foi integral e prioritariamente voltada para os habitantes das periferias da grande metrópole de São Paulo, para os trabalhadores e para a formação de Comunidades Eclesiais de Base. Era um incansável defensor dos direitos humanos, sobretudo  dos mais pobres. Ficou conhecido como o Cardeal dos Direitos Humanos, principalmente por ter sido o fundador e líder da Comissão Justiça e Paz de São Paulo.  

O momento-cume deste seu compromisso aconteceu há 41 anos, no dia 25 de outubro de 1979. O jornalista judeu Vladimir Herzog havia sido preso, torturado e morto nas dependências do DOI-CODI de São Paulo. Os militares sustentavam a tese de que Vlado – como era conhecido – havia se suicidado.   Na catedral da Sé da capital paulista, o cardeal juntamente com o rabino Henry Sobel, fez um culto ecumênico que até hoje é um marco na memória do povo brasileiro como ato de resistência contra a cruel ditadura que oprimia o país e matava jovens estudantes, intelectuais e pessoas idealistas. A catedral lotada respirava respeito e coragem, liderada por seu arcebispo e pelo rabino. Desmascarava-se a mentira do suicídio de Vlado e se denunciava seu assassinato, assim como se celebrava o direito à verdade que devia ser mostrada ao povo brasileiro, cansado de mentiras e falácias.

Também com o rabino Sobel, dom Paulo notabilizou-se por criar uma ponte entre as comunidades judaica e a católica pelo fim do arbítrio e restabelecimento das liberdades democráticas. Entre 1979 e 1985 coordenou juntamente com o Pastor Jaime Wright, de forma clandestina, o projeto “Brasil Nunca Mais”. Este projeto tinha como objetivo evitar o possível desaparecimento de documentos durante o processo de redemocratização do país. O trabalho foi realizado em sigilo e o resultado foi a cópia de mais de um milhão de páginas de processos do Superior Tribunal Militar (STM). Este material foi microfilmado e remetido ao exterior diante do temor de sua apreensão. Em ato público realizado dia 14 de junho de 2011, foi anunciada a futura repatriação, digitalização e disponibilização deste acervo para todos os brasileiros. O livro “Brasil nunca mais” é fruto do trabalho de dom Paulo feito sob risco de perseguição e morte em um tempo de muita repressão.

Durante sua gestão à frente da arquidiocese paulistana, as Pastorais Sociais conheceram grande crescimento.  Além de haver iniciado algumas, deu impulso a outras, que até hoje vigoram e trabalham junto à população carente da cidade.  Com sua irmã , a médica Zilda Arns, fundou a Pastoral da Criança, que fez cair a níveis incomparavelmente mais baixos as taxas da mortalidade infantil no Brasil. 

Como todos os profetas, o ministério e magistério episcopal de dom Paulo teve dores e sofrimentos.  Não foi compreendido pelas classes abastadas de sua diocese.  Sofreu incompreensão mesmo por parte de membros da hierarquia da Igreja Católica. Viu sua diocese ser dividida e restringido seu campo de atuação. Com fidelidade inquebrantável, a tudo suportava e não abandonava suas convicções. Todas as suas opções decorriam de sua fé no Deus dos pobres que é o Pai de Jesus Cristo e, portanto, não podiam ser abandonadas ou mitigadas.

Hoje, o Pastor celebra aniversário.  E o povo de Deus o cerca de carinho e gratidão por essa vida longa, bem vivida e cheia de frutos.  O Brasil agradece ao Pastor que soube atravessar os anos de chumbo e os perigos da repressão, abrindo caminho para que suas ovelhas pudessem aceder aos pastos onde a vida floresce e a paz é construída.  Que sua profecia nos inspire e nos mantenha firmes no caminho do Evangelho, que é boa notícia para os pobres e sofredores deste mundo. Neste obscuro momento que vive nosso país, possa ele ser uma luz que confirma o lema de seu brasão episcopal: “De esperança em esperança”.
   
Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão"(Edusc).


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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

NETO 114

Por  Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Não se trata do título de um filme de suspense.  Muito menos de um best seller policial recentemente publicado.  O neto em questão é real e a numeração que se lhe segue também.  E se é identificado assim, é porque assim o situa a contabilidade que já conseguiu, antes dele, trazer à luz outros 113.  Onde estavam?  Nas sombras da memória perdida, nos porões de uma cruel ditadura.

            O Neto 114 chama-se Ignacio Hurban, aliás Guido Montoya Carlotto, e apesar de ter 37 anos, somente há duas semanas soube quem na verdade era e pôde encontrar-se com sua verdadeira avó, que o buscou cheia de dor, mas também de esperança, durante todo esse tempo.  A história de perda, morte, dor e luta terminou agora com alegria e verdade. 

 Estela de Carlotto é a avó tenaz e persistente que buscou o neto durante 36 anos. E é também a presidente do movimento “Abuelas de la Plaza de Mayo”, que busca filhos de desaparecidos no tempo da ditadura argentina.   Ignacio/Guido é seu neto, finalmente encontrado. É o 114º neto que o movimento consegue encontrar.

            De sua mãe, Laura Guido, não tem nenhuma lembrança.  Restam-lhe as fotos que mostram uma jovem de extraordinária beleza, grandes olhos negros.  E os relatos que lhe dizem da bravura da mãe, que entrou na luta armada por seu país sabendo o risco que corria.  E que em meio a esse risco assumiu outro: apaixonar-se por Walmir Montoya e ficar grávida.  Carregava essa vida, fruto da paixão nascida em meio à luta e à comunhão de ideais, quando a levaram presa. Deu à luz no hospital da prisão, acorrentada à cama e encapuzada. Sussurrou ao ouvido do bebê aquele que desejava que fosse seu nome: Guido, como o avô. O bebê ficou apenas cinco horas com a mãe.  Como não queria soltá-lo, foi sedada e depois reconduzida à prisão.  Disseram-lhe que o bebê havia sido entregue a sua mãe.  Na verdade, foi outro o destino do bebê.  E o da mãe. 

      Laura foi morta com tiros no rosto e seus pais foram chamados em casa para identificar seu corpo em um furgão.  Não lhes deram acesso ao bebê.
 Seu companheiro Walmir também foi preso e morto.  Seus restos foram encontrados anos depois, em 2009, e identificados pela mãe e o  irmão. Para toda a família foi um ciclo que se fechou.  Walmir - Punho como o chamavam – já não era um desaparecido, mas alguém que fora preso e assassinado por suas convicções políticas, e a família pudera enterrar seu corpo.

       Para Estela de Carlotto, o ciclo também se fechou e pôde enterrar o corpo da filha.  Mas a luta continuou para encontrar seu neto desaparecido.  Ativa como nunca no movimento das avós da Plaza de Mayo, levava a luta diuturna e paciente, mas enérgica e forte de encontrar aquele que fora arrancado dos braços de sua filha em meio à escuridão da prisão. Sua luta passou a ser a esperança de muitos.  Como testemunha Jorge, irmão de Punho: “Nós sempre exercitamos muito a esperança e a paciência. Sabíamos que daqui, de tão longe - vivem no sul do país - não podíamos fazer nada, e decidimos confiar nas Avós. Caso contrário, passaríamos a vida em função disso. Elas, as Avós, sempre nos atenderam com amor”.

     O bebê de Laura foi entregue a uma família de agricultores em Olavarría, que o criou com carinho e cuidado, sem nunca mencionar a questão de sua verdadeira identidade.  Cresceu e sentiu-se irresistivelmente inclinado para a música, fazendo desta sua carreira e seu trabalho. Chamaram-no Ignacio, e o nome da família Hurban foi acrescentado ao seu. No entanto, sentia em seu íntimo uma intuição, algo sem explicação, que lhe dizia que sua identidade ia além do pacífico casal de Hurban de Olavarría.

     No último mês de julho, Ignacio/Guido se apresentou diante da Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (CONADI). As dúvidas sobre sua identidade o atormentavam e ele se dispunha a fazer o exame de DNA.  Graças a este, constatou-se que seu DNA coincide 99% com o que se pôde extrair dos restos mortais de Laura Carlotto e Walmir Montoya.  A juíza que acompanhava o caso telefonou a Estela e entre lágrimas de emoção lhe deu a notícia.  Sua busca de décadas havia chegado a bom porto.  Seu neto havia sido encontrado.

     Algumas perguntas de Estela foram respondidas: com quem se parece? que rumo tomou na vida? Guido/Ignacio é muito parecido com Walmir/Punho, seu pai.  E herdou a paixão pela música presente nas duas famílias: a de seu pai e a de sua mãe.  Mas outras continuam sem resposta, escondidas pela noite dos tempos: quem o levou até o casal que o criou?  Como o retiraram do hospital penitenciário?

     Haverá tempo agora para esta e outras respostas.  O importante é a força simbólica que a epifania do neto 114 traz.  Como declara Guido sobre este momento de recuperação de sua identidade: “Esta restituição não deixa de ser um símbolo. Isto é uma pequena vitória em uma grande derrota”.  
     Em meio à alegria de seu reencontro está a dor do que viveram seus pais e toda uma geração de compatriotas durante a cruel ditadura militar argentina. Por trás do sorriso de sua avó está o rosto lindo e jovem de sua mãe, desfigurado pela tortura.

     Mas Guido/Ignacio sabe que o mais importante foi feito.  Não se pode não olhar de frente a realidade e ter medo da memória.  A memória precisa ser desentranhada e exposta, para que a verdade apareça e liberte.  Para que os mais de 400 netos que ainda continuam desaparecidos possam viver o que ele vive.  Para que seja dado um passo mais, significativo na recuperação da memória coletiva da Argentina e – por que não? – da humanidade.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio 

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domingo, 13 de maio de 2012

A FACE NAZISTA DA DITADURA BRASILEIRA





por Frei Betto







A notícia é estarrecedora: militantes políticos  envolvidos no combate à ditadura militar tiveram seus corpos incinerados no  forno de uma usina de cana de açúcar em Campos dos Goytacazes, no norte do  estado do Rio de Janeiro, entre 1970 e 1980.

O regime militar, que governou o Brasil entre 1964 e  1985, merece, agora, ser comparado ao nazismo.

A revelação é do ex-delegado do DOPS (polícia  política) do Espírito Santo, Cláudio Guerra, hoje com 71 anos.

Segundo seu depoimento aos jornalistas Marcelo Netto e  Rogério Medeiros, no livro “Memórias de uma guerra suja” (Topbooks), no forno  da usina Cambahyba - de propriedade de Heli Ribeiro Gomes, ex-vice-governador  do Rio de Janeiro entre 1967 e 1971, já falecido -, foram incinerados Davi  Capistrano, o casal Ana Rosa Kucinski Silva e Wilson Silva, João Batista Rita,  Joaquim Pires Cerveira, João Massena Melo, José Roman, Luiz Ignácio Maranhão  Filho, Eduardo Collier Filho e Fernando Augusto Santa Cruz  Oliveira.

Os militantes teriam sido retirados de  órgãos de repressão de São Paulo – DEOPS e DOI-CODI – e do centro clandestino  de tortura e assassinato conhecido como Casa da Morte, em Petrópolis.

Cláudio Guerra acrescenta às suas denúncias que o  coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, um dos mais notórios torturadores de  São Paulo, teria participado, em 1981, do atentado no Riocentro, na capital  carioca, na véspera do feriado de 1º. de Maio.

Se a bomba levada pelos oficiais do Exército não  tivesse estourado no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário,  ceifando-lhe a vida, centenas de pessoas que assistiam a um show de música  popular teriam sido mortas ou feridas.

O objetivo da repressão era culpar os “terroristas”  pelo hediondo crime e, assim, justificar a ação perversa da ditadura.

Guerra aponta ainda os agentes que teriam participado,  em 1979, da Chacina da Lapa, na capital paulista, quando três dirigentes do  PCdoB foram executados. Acrescenta que a “comunidade de informação”, como eram  conhecidos os serviços secretos da ditadura, espalhou panfletos da candidatura  Lula à Presidência da República no local em que ficou retido o empresário  Abílio Diniz, vítima de um sequestro em 1989, em São Paulo, de modo a tentar  envolver o PT.

Uma das revelações mais bombásticas de  Cláudio Guerra é sobre o delegado Sérgio Paranhos Fleury, o mais impiedoso  torturador e assassino da regime militar, morto em 1979 por afogamento. Tido  até agora como um acidente, segundo o ex-delegado, teria sido  “queima de  arquivo”, crime praticado pelo CENIMAR, o serviço secreto da  Marinha.

Guerra assume ter assassinado o militante  Nestor Veras, em 1975, alegando que apenas deu “o tiro de misericórdia” porque  ele havia sido “muito torturado e estava moribundo”.

Das notícias da repressão há sempre que desconfiar.  Guerra fala a verdade ou mente? Tudo indica que o ex-delegado, agora  travestido de pastor adventista, não se limitou, na prática de crimes, à  repressão política. Em 1982, a Justiça o condenou a 42 anos de prisão pela  morte de um bicheiro, dos quais cumpriu 10 anos. Em seguida mereceu 18 anos de  condenação por assassinar sua mulher, Rosa Maria Cleto, com 19 tiros, e a  cunhada, no lixão de Cariacica, em 1980.

Ele alega inocência nos três casos, embora admita que  matou o tenente Odilon Carlos de Souza, a quem acusa de ter liquidado sua  mulher Rosa.

Espera-se que a presidente Dilma anuncie,  o quanto antes, os nomes dos sete integrantes da Comissão da Verdade, que  deverá apurar crimes e criminosos da ditadura. E investigar as denúncias do  policial capixaba. Infelizmente a comissão ainda não será da Verdade e da  Justiça.

O Brasil é o único país da América Latina  que se recusa a punir aqueles que cometeram crimes em nome do Estado, entre  1964 e 1985. O pretexto é a esdrúxula Lei da Anistia, consagrada pelo STF, que  pretende tornar inimputáveis algozes do regime militar.

Ora, como anistiar quem nunca foi julgado e punido?  Nós, as vítimas, sofremos prisões, torturas, exílios, banimentos, assassinatos  e desaparecimentos. E os que provocaram tudo isso merecem o prêmio de uma lei  injusta e permanecer imunes e impunes como se nada houvessem  feito?

O nazismo foi derrotado há quase 70 anos,  e ainda hoje novas revelações vêm à tona. Enganam-se os que julgam que a Lei  da Anistia, o silêncio das Forças Armadas e a leniência dos três poderes da  República haverão de transformar a anistia em amnésia. Como afirmou Walter  Benjamin, a memória das vítimas jamais se apaga.


Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando –  nos cárceres da ditadura militar brasileira”(Rocco), entre outros livros.
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