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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

PEDOFILIA, CRIME HEDIONDO




Frei Betto

       Ao visitar o Chile, em janeiro deste ano, o papa Francisco recebeu denúncias de abusos sexuais cometidos por padres e bispos. Estes o convenceram de que as acusações não procediam. As vítimas reagiram. Então, o papa enviou emissários ao Chile para investigar as denúncias. Conclui-se que as acusações eram verídicas, e havia empenho de bispos para acobertar os crimes.

       Francisco chamou a Roma todo o episcopado chileno e exigiu autocrítica penitencial e renúncia coletiva. Agora, a situação de cada bispo é criteriosamente analisada para mantê-lo ou não à frente de sua respectiva diocese.

        Escândalo idêntico ecoa na Igreja da Pensilvânia, nos EUA. Ao menos 301 padres abusaram de mais de mil crianças. O papa emitiu dura carta sobre o tema: “É essencial que nós, como Igreja, sejamos capazes de reconhecer e condenar, com dor e vergonha, as atrocidades perpetradas por pessoas consagradas, clérigos e todos aqueles a quem confiamos a missão de zelar e cuidar dos mais vulneráveis.” E, pela primeira vez, um pontífice qualifica de “crime” o procedimento pedófilo, e nos conclama a juntar forças “para extirpar essa cultura da morte”.

       Desde o pontificado de João Paulo II vêm à tona denúncias de pedofilia na Igreja Católica. Esse crime ocorre também em muitas outras instituições que lidam com crianças e jovens e, sobretudo, no âmbito familiar, onde é calado por medo e vergonha.

       É hora de a Igreja Católica trazer à tona as causas da pedofilia eclesiástica, além de apurar as denúncias e punir com rigor os casos comprovados, incluindo a indenização às vítimas. Uma das causas é a falta de cuidadosa seleção dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa. Questões relacionadas à sexualidade não são debatidas, como se a suposta vocação sacerdotal de um jovem fosse atestado de propensão à vida celibatária e à castidade.

       Na Igreja, a excessiva ênfase no mito da pureza e na exaltação da virgindade faz a sexualidade parecer um equívoco de Deus. Como se os santos, tão venerados, não tivessem nascido de uma relação sexual entre um homem e uma mulher. Até o papa Francisco, tão esclarecido, mostra-se tributário de formação homofóbica ao sugerir, na volta de sua visita à Irlanda, que sinais de homossexualidade na infância podem merecer “ajuda psiquiátrica”.

       Frente a isso tomei a iniciativa de publicar a cartilha popular intitulada “Sexo, orientação sexual e ‘ideologia de gênero’”, na qual trato abertamente dos temas, em apoio à comunidade LGBTTI. Quanto mais se escamoteia a pauta da sexualidade na Igreja, mais se favorecem atitudes hediondas.

       É espantoso ver padres e bispos gays proferirem sermões homofóbicos e falarem de sexo ancorados na teologia da Idade Média. Ainda hoje a doutrina oficial católica reza que, no matrimônio, ao casal só é permitido manter relação sexual quando houver intenção de procriar...

       Meu professor de Teologia Moral, ao abordar tal ensinamento, observava: “Isso não é teológico, é zoológico.” E sabemos que mesmo entre animais, em especial mamíferos, há intimidade física motivada apenas pelo afeto.

       Malgrado tanto sofrimento causado, espero em Deus que o escândalo da pedofilia tire a Igreja do armário do moralismo farisaico e adote a atitude de Jesus que, sem canonizar o celibato, escolheu, para chefiar a comunidade dos apóstolos, Pedro, um homem casado, cuja sogra Jesus curou (Marcos 1, 30).

       Como na Igreja primitiva, o celibato deveria ser facultativo. E as mulheres, tão aceitas na comunidade de Jesus (Lucas 8, 1-3), terem acesso ao sacerdócio e às funções hierárquicas. É bom lembrar que a primeira apóstola, a anunciar publicamente que Jesus era o Messias, foi uma mulher, a samaritana do poço de Jacó. E a primeira testemunha da ressurreição, que comunicou o fato aos apóstolos, outra mulher, Maria Madalena.

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.
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segunda-feira, 28 de maio de 2018

CHILE: A PEDOFILIA E A VERDADE QUE LIBERTA



Por Maria Clara Bingemer

 A Igreja do Chile vive tensos momentos. Depois de seguidas denúncias de abusos sexuais por parte de sacerdotes e o encobrimento das mesmas por membros da hierarquia católica, o Papa Francisco foi procurado pelas vítimas. Em um primeiro momento não aceitou as denúncias por considerá-las falsas.  Uma vez convencido por seus emissários que investigaram os fatos in loco, constatou que havia sido mal informado, pediu perdão às vítimas e convocou todos os bispos do país a Roma.
A reunião entre os bispos e o Papa foi dura, dolorosa, mas franca e transparente. Ao final da mesma, a Igreja e o mundo se surpreenderam ao saber que todos os bispos se colocaram à disposição do pontífice para que atuasse com toda liberdade quanto ao futuro deles. Trata-se de algo inusitado em termos eclesiais. E por isso não se sabe o desfecho que terá.
Quem permanecerá? Quem sairá?  Quem será confirmado na missão que desempenha agora?  Quem deverá deixá-la? Sobre isso nada se sabe.  Sabe-se, porém, que neste tema tão tenebroso da pedofilia na Igreja pela primeira vez as feridas são expostas sem complacência ou meias medidas.  O processo poderá ser muito difícil, mas existe uma real oportunidade de sanar o futuro.
Desde o momento em que constatou claramente que as vítimas diziam a verdade com suas denúncias, Francisco atuou de forma transparente. Ao reunir-se por três dias com os bispos chilenos, entregou-lhes um documento de dez páginas.  Nele, não poupava expressões e chamava as coisas pelo nome: negligência, omissão, erros graves, vergonha. Os bispos refletiram sobre o que lhes era dito e chegaram conjuntamente à posição de deixar o Papa  decidir e agir com toda liberdade
Não é de hoje que o fantasma da pedofilia assombra a Igreja Católica. Todos recordamos o drama que Bento XVI teve que enfrentar logo no início de seu pontificado. O caso do Chile soma-se a essa lamentável lista de escândalos  que fragiliza o tecido eclesial e a credibilidade da instituição. Por ser tão grave, não pode ser tratado com medidas paliativas.  Há que reconhecer o erro, pedir perdão e procurar reconstruir integralmente o que foi destruído. 
O gesto dos bispos é admirável em sua radicalidade.  Agradecem às vítimas por haver, com suas denúncias, permitido que a verdade venha à luz. Elogiam sua perseverança e coragem ao expor publicamente suas feridas e persistir em tentar ser ouvidos em meio às incompreensões e ataques inclusive da comunidade eclesial. Pedem perdão à Igreja como um todo e particularmente à do seu país. Agradecem ao Papa sua escuta paternal, sua correção fraterna e o honesto diálogo que com eles manteve.
Admirável igualmente foi a atitude de Francisco.  Se em um primeiro momento não aceitou as denúncias por considerá-las falsas, não deixou de mandar apurar e investigar os fatos.  E uma vez constatada a pertinência do que diziam as vítimas, teve a coragem de pedir perdão e mudar sua decisão.
Por mais chocante que pareça todo o acontecido, na verdade, o decurso de todo o processo deixa perceber claramente a força do Espírito que conduz à verdade e é  verdade em si mesmo.  Já diz a Escritura que o outro nome do demônio é Pai da mentira.  Tudo que é falso, camuflado, encoberto não vai na direção da justiça, da paz e do amor.  Entra, pois, em rota de colisão com a Boa Nova que o Evangelho traz e não sintoniza com o projeto do Reino de Deus. 
É preciso, pois, romper.  E foi essa ruptura – dura e dolorosa – mas poderosamente sanadora que aconteceu. Aconteceu no confronto do qual foram personagens as vítimas dos abusos, os bispos chilenos e o Papa. Aconteceu na percepção de Francisco de onde estava a verdade que urgia que se corrigissem rumos e tomassem medidas enérgicas.  Aconteceu na abertura sincera dos bispos que renunciaram a controlar seu destino e o puseram em mãos do Papa. 
De fato, com tudo que tem de sombrio, trata-se de um evento luminoso. Finalmente está para sempre banida a secreta convicção de que o clericalismo que ainda habita a Igreja protege os abusadores, confiantes no silêncio das vítimas.  É evidente que estas não mais estão dispostas a calar seu sofrimento e o dano que lhes foi feito. Isso permite esperar para as novas gerações um clero mais responsável e adulto.  Igualmente um episcopado mais cuidadoso na formação de seus seminaristas e mais vigilante sobre o que se passa em suas comunidades. 
Fica claro igualmente que quando se busca com sinceridade o caminho do bem, o medo é vencido e emerge a honesta disposição de reparar os erros cometidos. Mesmo que não seja fácil, que isso implique viver momentos de incerteza e de insegurança, confiando apenas na misericórdia divina. 
O que sucede neste momento com a Igreja do Chile permite esperar tempos melhores com respeito às relações intra eclesiais. A pedofilia acontece em todos os setores da sociedade.  Não é prerrogativa da Igreja Católica tê-la em suas fileiras.  No entanto, talvez o modo como essa mesma Igreja, sob a direção do Papa Francisco, está administrando algo tão conflitivo possa ser um testemunho que ajude a sociedade como um todo ao deparar-se com o mesmo problema. 
Se. como disse Jesus Cristo, só a verdade liberta, parece que há reais motivos para celebrar o processo libertador que hoje vive a Igreja do Chile. 

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão, entre outras obras. 

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