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sexta-feira, 7 de julho de 2017

DA RECESSÃO ECONÔMICA À DEPRESSÃO PSICOLÓGICA

por leonardo boff


Estamos numa situação generalizada de crises sobrepostas umas às outras e num ambiente de caos.
Os conceitos de crise e de caos podem nos ajudar a entender nossa realidade contraditória. Para esclarecer a crise se usa o diagrama chinês, composto por dois traços: um expressando o risco e o outro, a oportunidade. Efetivamente a crise contem o risco de desmonte de uma ordem até degenerar na barbárie. Mas também pode representar a oportunidade de refundação de uma nova ordem. Eu pessoalmente prefiro a origem filológica sânscrita de crise. Ela se deriva da palavra kir ou kri que em sânscrito significa limpar e purificar. Daí vem a expressão acrisolar: limpar de tudo o que é acidental até vir à tona o cerne. E crisol, o cadinho que purifica o ouro das gangas. Tanto em chinês quanto em sânscrito, as palavras são diferentes mas o significado é o mesmo.
Algo parecido ocorre com o caos consoante a cosmologia contemporânea. Por um lado, ele é destrutivo de uma ordem dada e por outro, é construtor de uma nova ordem diferente. Do caos, nos diz Ilya Prigogine, Nobel de química (1977), nos veio a vida.
Aplicando estes sentidos à nossa situação, podemos dizer que a crise generalizada e o caos dominante podem, se não soubermos manejar sua energia destrutiva, degenerar em barbárie e se aproveitarmos a positiva, numa nova configuração social do Brasil.
Atualmente vigora a oportunidade de fechar o ciclo de um tipo de política que nos vem desde a colônia, fundado na conciliação entre si das classes abastadas e sempre de costas para o povo, hoje atualizada pelo presidencialismo de coalizão. Parece que este modelo de fazer política e de organizar o Estado, controlado por estas classes e que implica grandes negociatas e muita corrupção, não pode ser mais levado avante. É demasiadamente destrutivo A Lava-Jato teve o mérito de desmascarar este mecanismo perverso e anti-social. Oxalá surja a chance de uma nova construção social
No entanto, o golpe parlamentar foi dado por estas classes no interesse de prolongar esta ordem que garantiria seus privilégios, no propósito de desmantelar os avanços sociais das classes populares emergentes e alinhar-se à lógica do Grande Capital em escala mundial, hegemonizado pelos USA.
Como observou Márcio Pochamann, um dos melhores analistas das desigualdades sociais e da riqueza e pobreza do pais, “a elite brasileira escolheu o lado errado”(O golpe e a traição das elites: http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2017/05/traicao-das-elites ). Ao invés de aliar-se ao novo, ao arranjo político, econômico e social, à maior iniciativa de desenvolvimento multilateral desde o final da Segunda Guerra Mundial, iniciada na Eurásia que propõe uma globalização inclusiva e que nós pelo BRICS estávamos incluidos, escolheu o alinhamento tardio às forças que detém a hegemonia mundial sob a regência dos USA. O orçamento desta nova iniciativa da Eurásia está estimado em US$ 26 trilhões até o ano de 2030 envolvendo 65 outras nações que responde por quase 2/3 de população mundial. Criam-se oportunidades de desenvolvimento, a começar pelos países mais necessitados. Aqui poderíamos estar e não estamos por causa de nossa inépcia e de nossa subserviência.
Esse projeto aponta para uma nova ordem mundial, uma espécie de keynesianismo global, inovador, com uma possível maior igualdade e justiça social, respeitada a soberania das nações.
O grupo ao redor de Temer optou pelo velho sistema militarista e imperial cuja segurança reside em bases militares distribuídas por todo o mundo. Entre nós estão na Argentina, no Paraguai, no Chile, no Peru, na Colômbia e também no Brasil através da cessão da base de Alcântara no Maranhão.
A venda de terras a estrangeiros, especialmente, lá onde existe grande abundância de água – por aqui passa o futuro da humanidade junto com a biodiversidade – fere profundamente nossa soberania e ofende o povo brasileiro, cioso de seu território.
Uma vez mais estamos perdendo a oportunidade do lado positivo da crise e do caos atuais. Desperdiçamos esta chance única, por falta de um projeto de nação livre e soberana. Deve-se, usando uma expressão de Jessé Souza à “tolice da inteligência brasileira” que está aconselhando Temer.
O efeito se nota por todas as partes: os 14 milhões de desempregados, os 61 milhões de inadimplentes, a desindustrialização, os 33 navios em construção entregues à ferrugem e a neocolonização imposta que nos faz apenas exportadores de commodities.
Assistimos, anestesiados, a este crime contra o futuro do povo brasileiro. Temer, sob vários processos, cuida de si mesmo ao invés de cuidar do povo brasileiro. Uma onda de indignação, de tristeza e de desamparo está se abatendo sobre quase todos nós. Da recessão econômica estamos passando à depressão psicológica. Se não reagirmos e não nos munirmos de coragem e de esperança, a barbárie poderá estar apenas a um passo. Recusamos aceitar este inglório destino.
Leonardo Boff é articulista do JB on line, escritor e escreveu De onde vem? Respostas da nova cosmologia, Mar de Ideias, Rio 2017.


terça-feira, 8 de maio de 2012

A TERCEIRA CRISE DO CAPITALISMO



por Frei Betto



    A atual crise econômica  do capitalismo manifestou seus primeiros sinais nos EUA em 2007 e já faz  despontar no Brasil sinais de incertezas.

       O sistema é um gato  de sete fôlegos. No século passado, enfrentou duas grandes crises. A  primeira, no início do século XX, nos primórdios do imperialismo, ao passar  do laissez-faire (liberalismo econômico) à concentração do capital  por parte dos monopólios. A guerra econômica por conquista de mercados  ensejou a bélica: a Primeira Guerra Mundial. Resultou numa “saída” à  esquerda: a Revolução Russa de 1917.

       Em 1929, nova crise,  a Grande Depressão. Da noite para o dia milhares de pessoas perderam seus  empregos, a Bolsa de Nova York quebrou, a recessão se estendeu por longo  período, com reflexos em todo o mundo. Desta vez a “saída” veio pela  direita: o nazismo. E, em consequência, a Segunda Guerra Mundial.

       E agora,  José?

       Essa terceira  crise difere das anteriores. E surpreende em alguns aspectos: os países que  antes compunham a periferia do sistema (Brasil, China, Índia, Indonésia),  por enquanto estão melhor que os metropolitanos. Neste ano, o crescimento  dos países latino-americanos deve superar o dos EUA e da Europa. Deste lado  do mundo são melhores as condições para o crescimento da economia: salários  em elevação, desemprego em queda, crédito farto e redução das taxas de  juros.  

       Nos países  ricos se acentuam o déficit fiscal, o desemprego (24,3 milhões de  desempregados na União Europeia), o endividamento dos Estados. E, na Europa,  parece que a história – para quem já viu este filme na América Latina – está  sendo rebobinada: o FMI passa a administrar as finanças dos países, intervém  na Grécia e na Itália e, em breve, em Portugal, e a Alemanha consegue, como  credora, o que Hitler tentou pelas armas – impor aos países da zona do euro  as regras do  jogo.

       Até agora não  há saída para esta terceira crise. Todas as medidas tomadas pelos EUA são  paliativas e a Europa não vê luz no fim do túnel. E tudo pode se agravar com  a já anunciada desaceleração do crescimento de China e consequente redução  de suas importações. Para a economia brasileira será  drástico.

       O comércio  mundial já despencou 20%. Há progressiva desindustrialização da economia,  que já afeta o Brasil. O que sustenta, por enquanto, o lucro das empresas é  que elas operam, hoje, tanto na produção quanto na especulação. E, via  bancos, promovem a financeirização do consumo. Haja crédito! Até que a bolha  estoure e a inadimplência se propague como  peste.

       A “saída”  dessa terceira crise será pela esquerda ou pela direita? Temo que a  humanidade esteja sob dois graves riscos. O primeiro, já é óbvio: as  mudanças climáticas. Produzidas inclusive pela perda do valor de uso dos  alimentos, agora sujeitos ao valor de compra estabelecido pelo mercado  financeiro.

       Há uma  crescente reprimarização das economias dos chamados emergentes. Países, como  o Brasil, regridem no tempo e voltam a depender das exportações de  commodities (produtos agrícolas, petróleo e minério de ferro, cujos preços  são determinados pelas transnacionais e pelo mercado financeiro).

       Neste esquema  global, diante do poder das gigantescas corporações transnacionais, que  controlam das sementes transgênicas aos venenos agrícolas, o latifúndio  brasileiro passa a ser o elo mais  fraco.

       O segundo  risco é a guerra nuclear. As duas crises anteriores tiveram nas grandes  guerras suas válvulas de escape. Diante do desemprego massivo, nada como a  indústria bélica para empregar trabalhadores desocupados. Hoje, milhares de  artefatos nucleares estão estocados mundo afora. E há inclusive minibombas  nucleares, com precisão para destruições localizadas, como em Hiroshima e  Nagasaki.

       É hora de  rejeitar a antecipação do apocalipse e reagir. Buscar uma saída ao sistema  capitalista, intrinsecamente perverso, a ponto de destinar trilhões para  salvar o mercado financeiro e dar as costas aos bilhões de serem humanos que  padecem entre a pobreza e a miséria.

       Resta, pois,  organizar a esperança e criar, a partir de ampla mobilização, alternativas  viáveis que conduzam a humanidade, como se reza na celebração eucarística,  “a repartir os bens da Terra e os frutos do trabalho  humano”.

 

 Frei Betto é escritor,  autor, em parceria com Marcelo Gleiser, de “Conversa sobre  a fé e a ciência” (Agir), entre outros livros.