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quinta-feira, 4 de novembro de 2021

EXERCÍCIOS DE FUTUROLOGIA

 Frei Betto


 

        Não sou propenso a adivinhações, mas é da natureza humana imaginar o futuro, sem o que perderíamos a disposição de viver. Nossa alma é nostálgica; a mente, prospectiva. Ao menos pressupomos, ao levantar da cama, como será o dia de hoje.

        Mas não custa imaginar o amanhã. A etiologia da conjuntura se dá, como na medicina, a partir de determinados sintomas. E, nas relações de trabalho, a pandemia de Covid-19 generalizou o trabalho remoto, tornado possível graças à rede de internet.  Essa modalidade improvisada em benefício da reclusão doméstica e do distanciamento social tende a ser amplamente adotada. Como a economia capitalista visa, em primeiro lugar, ao lucro, ganham as empresas mantendo os funcionários em suas casas. Isso representa economia de transporte, água, energia, alimentação, aluguel de salas ou outros imóveis. Interessa aos governos das metrópoles, pois reduz o trânsito e a emissão de gás carbônico. Mas, na outra ponta, onera o funcionário, obrigado a transformar seu lar em um anexo da empresa. E  assumir todos os custos materiais e espirituais que isso implica, como arcar com a alimentação no horário de trabalho e se ver forçado a traçar uma linha invisível, no âmbito doméstico, que o distancia de filhos e demais parentes.

        No futuro, desaparecerão as oficinas mecânicas. A tendência é a adoção do carro elétrico, cujo motor é composto por cerca de 20 peças. O atual, a gasolina ou diesel, requer cerca de 20 mil peças! E a eletricidade, comparada ao preço do combustível, torna o custo do quilômetro rodado muito mais barato com um veículo elétrico.

        Os carros elétricos serão vendidos com garantia vitalícia, serão reparados somente pelas concessionárias, e leva apenas 10 minutos remover e substituir um motor elétrico.

        As bombas de gasolina darão lugar às estações de recarga elétrica. Isso significa levar à falência as indústrias de carvão, as empresas petrolíferas, decretar o fim da OPEP e dar fim ao acúmulo de petrodólares por parte dos países do Oriente Médio.

        Uma criança nascida hoje, quando adulta, só verá carros movidos a combustível fóssil em museus. As empresas de energia fóssil estão tentando desesperadamente limitar o acesso à rede para evitar a competição das instalações solares domésticas, mas isso não pode deter o progresso. A tecnologia cuidará de torná-las obsoletas. 

        Os carros elétricos se tornarão populares em 2030. As cidades serão menos barulhentas porque todos os carros novos funcionarão com eletricidade.

        Elon Musk, fundador da Tesla, a maior fabricante de carros elétricos do mundo, inventou o telhado solar - telhas fotovoltaicas que, apesar de terem a aparência de telhas feitas de barro ou pedra, são de vidro temperado e texturizado. A aparência é a mesma de um telhado normal. A casa armazena energia elétrica durante o dia, usa-a e vende o excedente à rede que armazena e distribui às indústrias, grandes consumidoras de eletricidade.

        Em 2018 começaram a circular os primeiros carros autônomos. Em breve, ninguém precisará comprar um carro. Basta ligar pelo celular e o carro estacionará na sua porta pronto para levá-lo ao destino. Com outra vantagem, não precisaremos buscar onde estacionar ou pagar estacionamento. Como no táxi, pagaremos apenas pela distância percorrida. Isso significa que os bebês de hoje, quando adultos, jamais precisarão tirar carteira de motorista ou comprar um veículo. 

        As cidades agradecem! Com muito menos carros nas ruas, o ar que respiramos estará mais limpo e os estacionamentos poderão ser transformados em parques.

        No Brasil, quase 30 mil pessoas morrem em acidentes de trânsito por ano, e quase 2 milhões em todo o mundo. Graças à direção autônoma, o índice passará de 6 para 1, o que significa mais de 1 milhão de vidas salvas anualmente no planeta. As seguradoras terão grandes problemas porque, sem acidentes, os custos ficarão mais baratos. 

        Toda essa inovação deve levar a maioria das montadoras tradicionais à falência. Elas, sem dúvida, tentarão fazer carros melhores, enquanto as empresas de tecnologia (Tesla, Apple, Google) lançarão um computador sobre rodas...

        Na natureza nada se perde, tudo se transforma, já dizia Lavoisier. Na tecnologia também. Em 1998, a Kodak tinha 170 mil funcionários e vendia 85% de todo o material fotográfico utilizado no mundo. Em poucos anos, o processo fotográfico sofreu drástica modificação graças à evolução digital. As câmeras digitais foram inventadas em 1975. Com a popularização dos smartphones, hoje são raros os consumidores de câmeras fotográficas.

        Agora entramos na era do software, que ameaça tudo que conhecemos em matéria de empreendimentos. O UBER, por exemplo, é apenas uma ferramenta de software. A empresa não possui nenhum carro, jamais contratou motoristas e, no entanto, é a maior empresa de táxi do mundo! O Airbnb é, hoje, a maior empresa hoteleira do mundo, embora não possua um só quarto para alugar! Pergunte aos grupos Best Western e Accor se previram isso.

        A Inteligência Artificial avança a passos acelerados. Computadores já são campeões de torneios, como os de xadrez, muito antes do que se esperava.  

        Nos EUA, jovens advogados têm dificuldades de obter emprego. Qualquer cidadão que recorrer ao Watson da IBM consegue orientações jurídicas. Pode-se obter aconselhamento jurídico em segundos, com 90% de precisão em comparação com 70% quando feito por humanos. Portanto, se você estuda Direito, reflita. O Watson já ajuda, inclusive, a diagnosticar câncer, e com precisão quatro vezes maior que os médicos. Em 2030, os computadores se tornarão mais inteligentes do que os humanos.

        A ficção se faz realidade e revolucionará o sistema de saúde. Na série científica de ficção, intitulada “Star Trek”, há um sofisticado aparelho portátil chamado tricorder ou tricodificador capaz de escanear retina, amostra de sangue, respiração etc. Tudo isso pelo celular. Pois bem, o tricorder já existe. Dispõe de um sistema que analisa 54 biomarcadores capazes de identificar quase todas as doenças. 

        E prepare-se para presenciar a mais intensa guerra virtual: a dos governos com as grandes corporações digitais, que são privadas, como Google e Facebook, hoje mais poderosas que qualquer Estado. Já imaginou se uma delas suspende suas atividades por 24 horas? O mundo entra em colapso.

        Bem-vindo ao amanhã!

 

Frei Betto é escritor, autor de “Ofício de escrever” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

        Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

OLIMPÍADA: EXERCÍCIOS CORPORAIS E ESPIRITUAIS


   Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



Dizia o grande mestre espiritual Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, que os exercícios corporais e espirituais contêm em si uma profunda e positiva analogia.  Assim podemos ler o que escreve no primeiro parágrafo do livrinho dos Exercícios Espirituais, seguramente o mais importante manual de espiritualidade da história do cristianismo.

“ Primeira Anotação. Por este nome, exercícios espirituais, entende-se todo o modo de examinar a consciência, de meditar, de contemplar, de orar vocal e mentalmente, e de outras operações espirituais, conforme adiante se dirá. Porque, assim como passear, caminhar e correr são exercícios corporais, da mesma maneira todo o modo de preparar e dispor a alma, para tirar de si todas as afeições desordenadas e, depois de tiradas, buscar e achar a vontade divina na disposição da sua vida para a salvação da alma, se chamam exercícios espirituais.”

Com esta concepção do ser humano como ser em movimento, ser dinâmico, que só cresce e se realiza no bojo do exercício que o faz movimentar e exercitar o corpo e o espírito, Santo Inácio nos presenteia com uma revolucionária e muito atual visão antropológica.  O ser humano não é um corpo de morte decaído e fadado à destruição com uma alma imortal.  Não.  O ser humano é um corpo animado pelo Espírito divino.  E esse conjunto harmonioso e transcendente criado por Deus deve exercitar-se sob pena de esclerosar-se e fracassar nas metas mais importantes de sua vida. 

Igualmente, em tempos de Olimpíada, quando os olhos do mundo inteiro se voltam para a Cidade Maravilhosa, o Rio de Janeiro, vemos que o que esta secular competição nos traz não é apenas uma mensagem centrada no desempenho corporal, na eugenia e na estética dos corpos desvinculados de subjetividade e interioridade. 

Pelo contrário, ao contemplar a maravilha dos atletas que se prepararam durante meses e anos para enfrentar as provas, podemos ver igualmente atletas do espírito, que renunciaram a muitos prazeres e alegrias, legítimas ou não tanto, para poder dedicar-se inteiramente àquilo a que se propõem.  E alguns deles e delas integram o mesmo amor e dedicação exercitando o corpo e o espírito, estejam ou não vinculados a alguma religião ou igreja.

Assim é que a superginasta Simone Biles, que já se comenta que superará a até então insuperável e mítica Nadia Komaneci, treina desde pequena com uma disciplina inquebrantável, acompanhada da reza do terço e da frequência à missa.  Católica, Simone Biles confessa que a fé é uma das únicas constantes em sua vida atribulada, ao lado do esporte que é sua paixão.  Criada pelos avós, Simone os chama de pai e mãe, e vai com eles à missa.  Carrega consigo um terço branco que, esclarece, não é para rezar antes da prova, mas na vida de todo dia.

Também os atletas estadunidenses David Boudia e Steele Johnson ganharam medalha de prata na plataforma de dez metros da natação ornamental masculina.  Após a prova, rezaram juntamente com o treinador e a cena foi transmitida ao vivo pela mídia. E testemunharam que a fé os mantém conectados à Terra, independente do êxito olímpico.  E a fé de ambos é saber que sua identidade se encontra em Cristo.

O grande tenista Juan Martin del Potro, um homem de profunda fé, considera o encontro com o Papa Francisco um momento único que jamais esquecerá.  Porém sua fé, Del Potro a demonstrou mesmo na quadra, após a luta com o pulso quebrado, as cirurgias que teve de fazer e o cansaço até a exaustão para chegar a uma prata que equivale a ouro.  O abraço fraterno e emocionado no inglês campeão do tênis nestas Olimpíadas, Andy Murray, mostrava ao mundo que para além das Malvinas ou das Falklands, guerra que já dividiu os dois países, ocasionando a morte de mil jovens argentinos, a fraternidade e o espírito de respeito e amor ao outro é possível.

Mencionamos aqui três atletas cristãos.  Mas os há de várias religiões e mesmo sem religião, mas com profunda abertura para a transcendência e a espiritualidade.  Por isso mesmo, os jogos olímpicos no Rio de Janeiro contam com um centro inter-religioso, onde atletas e treinadores podem desfrutar de momentos para meditar, fazer preces e celebrações. O cardeal do Rio, Dom Orani Tempesta, declarou:  “É muito bom ver o Rio de Janeiro como um povo acolhedor, onde as religiões se entendem”. E o capelão judeu para os atletas olímpicos, o rabino Elia Haber, comentou:  “Esperamos conseguir prover este balanço entre o físico e o espiritual. É muito importante para o atleta trabalhar isso”.

Neste momento, atletas somos todos, concentrados que estamos nesta bela experiência de sediar os jogos olímpicos.  Já vemos que se trata de algo que abre para além de esforços físicos e treinamentos exaustivos, embora estes sejam parte constitutiva das provas.  Como nos relembra Santo Inácio, o verdadeiro jogo é a vida e nela há que exercitar constantemente corpo e espírito, integrados em harmoniosa síntese que visibiliza no mundo o sonho de Deus para a humanidade.  

   Maria Clara Lucchetti Bingemer é  professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 
  Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>