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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

FRADES DOMINICANOS: 800 ANOS

Hoje, 25 de agosto, é o aniversário de Frei Betto. Parabéns, a esse grande guerreiro na luta pela dignidade de todos e todas.

Por Frei Betto


       Fundada em 1216, na França, pelo padre espanhol Domingos de Gusmão, a Ordem dos Pregadores, mais conhecida como dominicana, celebra este ano oito séculos de atividade apostólica.

       Desde a vida comunitária, os frades conjugam oração e pregação, vida intelectual e opção pelos pobres. Entre os primeiros dominicanos, vários procediam da Universidade de Bolonha (a mais antiga do mundo), e outros se encontram nos primórdios das universidades de Oxford, Inglaterra, e Sorbonne, Paris. Os dominicanos fundaram as duas primeiras universidades da América Latina: a de Santo Domingo, na República Dominicana (1538), e a São Marcos, no Peru (1551).

       Desde que chegaram ao Brasil, em fins do século XIX, os frades se dedicaram, primeiro, ao mundo indígena; em meados do século XX, ao mundo estudantil; e, hoje, aos movimentos sociais e à defesa dos direitos humanos.

       Entre os dominicanos mais conhecidos se destacam Alberto Magno, Mestre Eckhart, Tomás de Aquino, Francisco de Vitória, Giordano Bruno, Savonarola, Campanella, Bartolomeu de Las Casas e Lebret. No Brasil, Pedro Secondi, Carlos Josaphat, Mateus Rocha, Tito de Alencar Lima, Hilton Japiassu e Tomás Balduíno.

       Santo Tomás releu a tradição filosófica e teológica pelos óculos do pagão Aristóteles e deu à Igreja uma consistente doutrina cristã. Las Casas, ao defender a dignidade dos índios, elaborou a primeira carta de direitos humanos da América Latina. Vitória lançou as bases do Direito Internacional. Lebret se empenhou em imprimir à economia um caráter humanista. Mateus Rocha fez da Ação Católica um movimento progressista, que nos deu Betinho e outros líderes políticos. Tomás Balduíno se tornou o bispo do povo indígena e fundou a Comissão Pastoral da Terra.

       Nem tudo são luzes. Dominicanos fomentaram cruzadas contra supostos hereges, e a figura sinistra de Torquemada comandou o tribunal da Inquisição.

       Três compromissos definem o nosso carisma: 1) lutar por justiça e por uma sociedade de partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano (pobreza); 2) fidelidade ao carisma de São Domingos (obediência); 3) gratuidade na entrega amorosa e solidária de nossas vidas a todos, e em especial aos que carecem de condições dignas de vida (castidade).

       Durante a ditadura militar, impelidos pela renovação da Igreja no Concílio Vaticano II, alguns frades se engajaram na luta por democracia e padeceram anos nos cárceres, enquanto outros abraçaram a “opção pelos pobres”, de modo a fazer das classes populares protagonistas na implantação do direito à justiça e das condições de paz.

     No Brasil, a Comissão Dominicana de Justiça e Paz tornou-se uma expressão “sacramental” das prioridades definidas pela Ordem, e do compromisso de frades, religiosas e leigos com os movimentos populares voltados à busca de “outros mundos possíveis”.

       A família dominicana no Brasil inclui, além de quase uma centena de frades, monjas dominicanas contemplativas, religiosas dedicadas à educação, leigos identificados com o nosso carisma, e o Movimento Juvenil Dominicano.

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Paralela), entre outros livros.
        

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

FRADES DOMINICANOS NA AMÉRICA LATINA



por Frei Betto



      Este ano, a Ordem Dominicana completa 800 anos de sua fundação. Na América Latina, a teologia produzida pelos frades dominicanos tem como ponto de partida os valores evangélicos e a realidade marcada pela pobreza e a opressão.

      Teologia se faz desde a fé das comunidades cristãs, e aqui a maioria é integrada por vítimas das injustiças sociais. Por isso se fala em Teologia da Libertação (TdL), fruto da práxis libertadora de cristãos comprometidos com os valores do Reino de Deus, contrários a tudo o que significa “reino de César”.

      Uma teologia dominicana a partir do nosso contexto leva em conta que todos nós, cristãos, somos discípulos de um prisioneiro político. Jesus não morreu doente na cama. Como tantos mártires latino-americanos, foi preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e condenado à morte na cruz. Em uma realidade de injustiças e desigualdades como o nossa, a “perseguição por causa da justiça” se evidencia como bem-aventurança, pois define de que lado os discípulos de Jesus se situam no conflito social.

      Um dos desafios que se impõem à família dominicana na America Latina é ter a fé de Jesus, e não apenas fé em Jesus. A fé de Jesus se centrou na fidelidade ao projeto do Reino de Deus, que é assegurar “que todos tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10), cujos protagonistas são, por excelência, os pobres e excluídos, com quem Jesus se identificou (Mateus25, 31-46), como tanto insiste o papa Francisco.

      Uma teologia dominicana desde a América Latina deve servir de instrumento e luz para fortalecer a nossa pregação e o nosso testemunho evangélico, tendo em conta os três compromissos que definem a nossa vocação e o nosso carisma: 1) lutar por justiça e por uma sociedade de partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano (pobreza); 2) fidelidade ao carisma de São Domingos (obediência); 3) gratuidade na entrega amorosa e solidária de nossas vidas a todos, e em especial aos que carecem de condições dignas de vida (castidade).

      Nossa teologia não terá credibilidade se não refletir os testemunhos de nossos irmãos que nos precederam na missão evangelizadora da América Latina, assumindo evangelicamente a defesa dos direitos e da dignidade de indígenas, escravos, camponeses, operários e excluídos, como Antonio de Montesinos, Antonio de Valdivieso, Bartolomeu de las Casas, Pedro de Córdoba, Rosa de Lima, Martinho de Porres, frei Tito de Alencar Lima e tantos que marcaram com seu sangue e evangelismo a história de nosso continente.

     É nessa fidelidade a Jesus como caminho, verdade e vida, que os frades dominicanos se inseriram no Brasil, a partir do século XIX. Primeiro, centraram sua missão apostólica lá onde havia menos vida, devido ao genocídio constante e à falta de uma política que os protegesse – entre povos indígenas.

     Mais tarde, em meados do século XX, o apostolado dominicano priorizou o meio estudantil, através dos movimentos da Ação Católica (JEC e JUC). Se a paz virá apenas como fruto da justiça, urgia investir nas novas gerações que, desprovidas de bens patrimoniais e responsabilidades familiares, seriam capazes de se engajar no projeto de implantação da justiça.

     A ótica da teologia do pecado se deslocou do pessoal para o social. O método adotado – Ver, Julgar, Agir – correspondia perfeitamente ao carisma dominicano: adequar-se à realidade; avaliá-la à luz da Palavra de Deus; atuar para transformá-la, de modo a desconstruir o mundo da injustiça, da desigualdade e da opressão, e edificar o da justiça, capaz de engendrar as condições para o florescimento da paz.

     Com a ditadura militar e o agravamento das condições sociais do povo brasileiro, somados à renovação da Igreja Católica suscitada pelo Concílio Vaticano II, os dominicanos assumiram, como prioridade missionária, a defesa dos direitos dos mais pobres e a conquista da liberdade democrática.

     Enquanto alguns frades se engajaram na resistência direta à ditadura e, por isso, padeceram longos anos nos cárceres, outros se inseriram no meio popular, na linha da “opção pelos pobres”, de modo a fazer das classes populares protagonistas na implantação do direito à justiça e das condições de paz.

     Assim, no Brasil, a Comissão Dominicana de Justiça e Paz tornou-se uma expressão “sacramental” das prioridades definidas pela Ordem, pelas congregações femininas, e do compromisso de frades, religiosas e leigos dominicanos com os movimentos populares comprometidos com a busca de “outros mundos possíveis”.
      
Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Fontanar), entre outros livros.
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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

DILMA E O GRUPO EMAÚS



 por Frei Betto


      A presidente Dilma recebeu, a 26/11, uma delegação do Grupo Emaús: Leonardo Boff, Márcia Miranda, Maria Helena Arrochellas, Luiz Carlos Susin, Rosileny Schwantes e eu. Entregamos a ela a carta “O Brasil que queremos”, com críticas e sugestões ao governo. E insistimos no diálogo com os movimentos sociais.

      O Grupo Emaús existe há 40 anos. O nome deriva do episódio evangélico (Lucas 24, 13-35), no qual Jesus ressuscitado, a caminho do povoado chamado Emaús, encontra dois discípulos abatidos por ele ter sido crucificado sem que suas promessas se cumprissem.

      Sem se darem conta de que estão acompanhados pelo próprio Jesus, ouvem o que este diz e, enfim, abrem os olhos da fé e, no jantar em Emaús, reconhecem, ao partilharem o pão, a presença viva daquele que fora crucificado.

      A ideia do grupo nasceu de frades dominicanos encarcerados sob a ditadura. A teologia da libertação despontava na América Latina. Leonardo Boff havia lançado, em 1972, no Brasil, seu “Jesus Cristo libertador”, e Gustavo Gutiérrez, no Peru, “Teologia da Libertação” (1971), dedicado ao padre Henrique Pereira Neto, assessor de Dom Helder Camara, assassinado no Recife pela ditadura.

      Nossa proposta era aglutinar teólogos e assessores de Comunidades Eclesiais de Base em um grupo capaz de dar consistência metodológica à teologia da libertação (que encara a fé pela ótica dos pobres) e criar ferramentas para difundi-la. Sociólogos(as), educadores(as), filósofos(as) e militantes de pastorais populares se incorporaram ao grupo.

      Somos, hoje, cerca de 40 participantes, entre católicos e protestantes. Reservamos dois fins de semana do ano para nos encontrar. Então, relatamos nossas atividades pessoais, analisamos as conjunturas política e eclesial, debatemos um tema previamente escolhido, oramos e promovemos uma celebração litúrgica no domingo.

      Nesses 40 anos, o Grupo Emaús produziu frutos consistentes: assessorias às Comunidades Eclesiais de Base e a seus encontros nacionais, denominados intereclesiais; curso anual de atualização teológica para bispos da América Latina; criação do Movimento Fé e Política, do CESEEP (Centro Ecumênico de Serviço à Evangelização e Educação Popular), e do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), do Curso de Verão (em várias capitais, destinados a militantes de pastorais populares); edição da coleção “Teologia da Libertação”, pela editora Vozes; assessoria às Campanhas da Fraternidade, promovidas anualmente pela CNBB e o CONIC; realização, em maio deste ano, do I Encontro de Espiritualidade para Jovens etc.

      Somos um grupo apartidário e ecumênico, aberto ao diálogo com outras denominações religiosas. O que nos une é a fé cristã, o serviço à fé dos mais pobres e o amor à Igreja.

      Temos opiniões políticas distintas, razão pela qual nem todos assinaram a carta à Dilma. Porém, não somos uma “academia teológica”, e todos mantemos vínculos com as comunidades cristãs populares e os movimentos sociais.

       Entre nós há quem trabalha com catadores de material reciclável, comunidades de favelas, jovens, direitos humanos, proteção ambiental, grupos de oração, grupos de estudos bíblicos e assessorias internacionais em âmbito pastoral, ecumênico, e de diálogo entre fé e ciência, religião e Estado.

      Convidamos, às nossas reuniões, amigos que, eventualmente, possam participar de uma reflexão específica. Assim, já estiveram conosco Luis Dulci, Gilberto Carvalho, Boaventura de Sousa Santos, Michael Lowy e outros. O mais recente convite foi à presidente Dilma.

 Frei Betto é escritor, autor de “Oito vias para ser feliz” (Planeta), entre outros livros.

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