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quinta-feira, 8 de junho de 2017

ESTADO E MERCADO

 Por Frei Betto



       No Brasil, os dois governos de Lula e o primeiro de Dilma foram os melhores de nossa história republicana. Entre 2003 e 2011, a renda dos brasileiros cresceu a uma taxa média de 2,8% ao ano. O volume de divisas internacionais superou o montante da dívida externa com os bancos internacionais, fazendo com que o Brasil se destacasse como credor mundial. Acreditou-se que o país havia superado seus problemas com as contas externas.

       O aumento do salário mínimo acima da inflação a cada ano, e a política de facilitação de acesso ao crédito, fizeram com que o consumo fosse amplamente dilatado. No período Lula, entre 2003 e 2010, a geração de empregos chegou a 14 milhões (índice igual ao desemprego no período Temer). Todo esse processo criou a impressão de que o Brasil havia conquistado o patamar de um desenvolvimento capitalista autossustentável.

       Esse processo reduziu, de fato, a desigualdade social. O índice Geni, que mede o grau de concentração pessoal da renda, se reduziu um pouco nos 13 anos de governo do PT. Diminuiu a distância entre a renda média dos 10% mais pobres e dos 10% mais ricos. Em 2010, esta diferença era de 39 vezes, enquanto em 2002, no governo FHC, era de 57 vezes. Cerca de 40 milhões de brasileiros saíram da miséria. Ampliou-se a rede de proteção social aos mais pobres. Em 2015, o Bolsa Família atendeu a quase 14 milhões de famílias.

       Somam-se a isso a independência e a soberania da política externa brasileira, como a desarticulação da Alca, o fortalecimento do Mercosul, a participação na Celac e no G-20, a formação do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e a eleição do nosso país para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

       A falta, porém, de uma ousada política de comunicação e democratização da mídia, aliada ao fortalecimento dos mecanismos de participação democrática, tanto na esfera política quanto na econômica, fragilizaram todas essas conquistas. Não se fez um intensivo trabalho de alfabetização política da população, mormente dos setores populares, concomitante à organização e mobilização desses setores.

       Nem sempre os governos progressistas da América Latina se empenharam em inverter a relação, historicamente predominante, da supremacia do mercado sobre o Estado. Ao contrário, através de desonerações tributárias, subsídios generosos a juros baixos e flexibilização das leis trabalhistas, o Estado se aliou ao mercado e se tornou seu provedor.

       O Estado, por natureza, deve ser o provedor daqueles que se encontram marginalizados ou excluídos pelo mercado. O Estado tem, por dever, contrapor-se ao mercado quando este favorece a desigualdade social; reforça a primazia da propriedade privada sobre os direitos coletivos; e suga os recursos públicos, através de dívidas públicas não auditadas e, portanto, suspeitas.

       Um governo que se pretende progressista e, no entanto, não logra assegurar a soberania do Estado sobre o mercado, está inevitavelmente condenado a ter seu poder político derrotado pelo poder econômico.

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

DILMA: DEPOSIÇÃO CONSUMADA POR OPOSIÇÃO DERROTADA

Por Frei Betto



      Dilma e eu morávamos na mesma Rua Major Lopes, em Belo Horizonte. Todos os dias, a caminho da escola, passava defronte a minha casa. Via minha mãe cuidar do jardim e era amiga de minha irmã Thereza.

      Reencontrei-a na capital paulista, no Presídio Tiradentes, em 1970. Ela na ala feminina, conhecida como Torre das Donzelas, e eu, na masculina. Aos domingos era-me facultado atravessar o portão que separava as duas alas para fazer a celebração litúrgica entre as presas políticas. No cárcere, nem os ateus dispensavam as bênçãos divinas.

      Nossos caminhos se cruzaram pela terceira vez no Palácio do Planalto, em 2003. Ela, ministra de Minas e Energia; eu, assessor especial para o Fome Zero.

      Dilma tem gênio forte e pavio curto. Por isso propus a ela, no início de seu primeiro mandato, aprender meditação. Chegou a me ligar, mas as nossas agendas não coincidiram.

      Ela é uma administradora, uma gerentona, sem aptidão para as manhas da política. Quer decidir, não negociar. Quer resolver, não consultar. Tal impetuosidade dificultou seu desempenho político.

      Nosso último encontro foi em 26 de novembro de 2014, pouco depois de sua reeleição, ao derrotar a oposição. Por mais de uma hora recebeu, no gabinete presidencial, Leonardo Boff, Márcia Miranda, Maria Helena Arrochellas, Luiz Carlos Susin, Rosileny Schwantes e eu, vinculados à Teologia da Libertação. Entregamos a ela sugestões de profundas reformas estruturais.

      No início de 2015, ficou evidente que Dilma não cumpriria os itens de nossa pauta. Pressenti a derrota de seu governo. O que ela se propunha a fazer, como aprendiz de feiticeira, as forças conservadoras dominam por serem a própria feiticeira.

      Associado ao que há de mais fisiológico na política brasileira, Michel Temer se prestou ao golpe parlamentar. E abriu um perigoso precedente: desde agora, no Brasil, oposição não apenas rima com deposição. É uma artimanha da usurpação política que, de costas para o povo, se apropria da máquina do Estado.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
 Copyright 2016 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com

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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

DILMA E O GRUPO EMAÚS



 por Frei Betto


      A presidente Dilma recebeu, a 26/11, uma delegação do Grupo Emaús: Leonardo Boff, Márcia Miranda, Maria Helena Arrochellas, Luiz Carlos Susin, Rosileny Schwantes e eu. Entregamos a ela a carta “O Brasil que queremos”, com críticas e sugestões ao governo. E insistimos no diálogo com os movimentos sociais.

      O Grupo Emaús existe há 40 anos. O nome deriva do episódio evangélico (Lucas 24, 13-35), no qual Jesus ressuscitado, a caminho do povoado chamado Emaús, encontra dois discípulos abatidos por ele ter sido crucificado sem que suas promessas se cumprissem.

      Sem se darem conta de que estão acompanhados pelo próprio Jesus, ouvem o que este diz e, enfim, abrem os olhos da fé e, no jantar em Emaús, reconhecem, ao partilharem o pão, a presença viva daquele que fora crucificado.

      A ideia do grupo nasceu de frades dominicanos encarcerados sob a ditadura. A teologia da libertação despontava na América Latina. Leonardo Boff havia lançado, em 1972, no Brasil, seu “Jesus Cristo libertador”, e Gustavo Gutiérrez, no Peru, “Teologia da Libertação” (1971), dedicado ao padre Henrique Pereira Neto, assessor de Dom Helder Camara, assassinado no Recife pela ditadura.

      Nossa proposta era aglutinar teólogos e assessores de Comunidades Eclesiais de Base em um grupo capaz de dar consistência metodológica à teologia da libertação (que encara a fé pela ótica dos pobres) e criar ferramentas para difundi-la. Sociólogos(as), educadores(as), filósofos(as) e militantes de pastorais populares se incorporaram ao grupo.

      Somos, hoje, cerca de 40 participantes, entre católicos e protestantes. Reservamos dois fins de semana do ano para nos encontrar. Então, relatamos nossas atividades pessoais, analisamos as conjunturas política e eclesial, debatemos um tema previamente escolhido, oramos e promovemos uma celebração litúrgica no domingo.

      Nesses 40 anos, o Grupo Emaús produziu frutos consistentes: assessorias às Comunidades Eclesiais de Base e a seus encontros nacionais, denominados intereclesiais; curso anual de atualização teológica para bispos da América Latina; criação do Movimento Fé e Política, do CESEEP (Centro Ecumênico de Serviço à Evangelização e Educação Popular), e do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), do Curso de Verão (em várias capitais, destinados a militantes de pastorais populares); edição da coleção “Teologia da Libertação”, pela editora Vozes; assessoria às Campanhas da Fraternidade, promovidas anualmente pela CNBB e o CONIC; realização, em maio deste ano, do I Encontro de Espiritualidade para Jovens etc.

      Somos um grupo apartidário e ecumênico, aberto ao diálogo com outras denominações religiosas. O que nos une é a fé cristã, o serviço à fé dos mais pobres e o amor à Igreja.

      Temos opiniões políticas distintas, razão pela qual nem todos assinaram a carta à Dilma. Porém, não somos uma “academia teológica”, e todos mantemos vínculos com as comunidades cristãs populares e os movimentos sociais.

       Entre nós há quem trabalha com catadores de material reciclável, comunidades de favelas, jovens, direitos humanos, proteção ambiental, grupos de oração, grupos de estudos bíblicos e assessorias internacionais em âmbito pastoral, ecumênico, e de diálogo entre fé e ciência, religião e Estado.

      Convidamos, às nossas reuniões, amigos que, eventualmente, possam participar de uma reflexão específica. Assim, já estiveram conosco Luis Dulci, Gilberto Carvalho, Boaventura de Sousa Santos, Michael Lowy e outros. O mais recente convite foi à presidente Dilma.

 Frei Betto é escritor, autor de “Oito vias para ser feliz” (Planeta), entre outros livros.

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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A PRESIDENTA DILMA INICIOU O DIÁLOGO ABERTO



Por Leonardo Boff


Uma das principais propostas da recém reeleita Presidenta do país, Dilma Rousseff, começou a se realizar: dialogar aberta e construtivamente com a sociedade e com os diferentes segmentos sociais. Foi assim que no dia 26 de novembro, por quase duas horas, dialogou com representantes do Grupo Emaus, nomeadamente, Frei Betto, Luiz Carlos Susin, Rosileny Schwantes, Maria Helena Arrochellas, Marcia Miranda e Leonardo Boff. Este grupo, composto por cerca de 40 pessoas que já existe há 40 anos nasceu como resistência à ditadura militar, reunindo intelectuais e religiosos de várias partes do pais para analisarem a conjuntura política e eclesial e traçarem ações concretas junto às bases para acelerar o resgate da democracia, manietada pelo regime ditatorial. O sonho nosso era e é grande: o de gestar um país que inclua no seu orçamento aqueles que há quinhentos anos estavam à margem. Entre os presentes havia presos políticos e torturados e praticamente todos vigiados. Mas enfentamos os riscos e as ameças por uma causa maior que implica um país justo e solidário.

O encontro seu deu nesta comunhão de espírito: o coração valente da Presidenta que suportou pesadas torturas sem nunca entregar ninguém e nós, de nosso jeito, expusemo-nos pela mesma causa, naquele tempo e agora. Ela logo entendeu o significado de nossa presença, solicitada por nós. Não íamos pedir nada, apenas reforçar sua determinação de seguir na construção do projeto originário do PT, o de criar uma sociedade com menos perversidade e que desse centralidade aos mais pobres e invisíveis, não obstante os contrangimentos da macroeonomia dominante.

Entregamos-lhe um documento – O Brasil que queremos – com 16 pontos que podem ser lidos no meu blog (leonardoboff.wordpress.com) onde ressaltam: a reforma do sistema político, tornar o modelo econômico mais social e popular, a promoção da reforma agrária e urbana, a defesa dos direitos dos povos indígenas e quilombolas entre outros.

A conversa transcorreu de forma extremamente franca e jovial, reconhecendo acertos e equívocos. Ressaltamos especialmente a necessidade de a Presidenta retomar o diálogo com a sociedade, principalmente com os movimentos sociais organizados. Imediatamente foi marcada na próxima semana um encontro com a Coordenação dos Movimentos Sociais e outra com a Coordenação Nacional do Movimento dos Sem Terra.(MST). Todos insistimos em retomar a educação política das bases, dentro da pedagogia de Paulo Freire, em especial dos jovens.

Não adianta mostrar apenas obras. Há que se mostrar que elas obedecem a um projeto político do Governo em benefício dos mais necessitados como Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos e outras iniciativas. Este vínculo de causalidade torna consciente a população e reforça o projeto popular, que precisa ser fortalecido para superar a nossa abissal desigualdade social.

Salientamos a importância de reforçar e ampliar iniciativas de cunho social e ambiental como o projeto “Cultivando Agua Boa” implementado pela hidrelétrica de Itaipu, envolvendo um milhão de pessoas que incorporou, mediante uma sistemática educação ecológica (formaram-se mais de 1600 educadores ambientais), recuperando rios, introduzindo a agricultura orgânica, integrando povos indígens e quilombolas e outros tantos benefícios, melhorando a vida das populações e da comunidade de vida. A Presidenta se mostrou entusiasmada pelo projeto que já tem mais de 11 anos e pelas pessoas que o levam avante, com custos mínimos e em parceria com os 29 municípios lindeiros e de sua eventual implantação em outras hidrelétricas.

Ponto importante foi a educação política dos jovens para que não sejam meros consumidores mas cidadãos críticos e participantes. É um desafio para os grupos das Igrejas que se inserem nos meios populares e ao próprio PT que deve retomar uma ligação orgânica e dialogar e aprender com eles.
A Presidente se mostrou especialmente sensível à questão dos direitos humanos e aos Centros de Referência dos Direitos Humanos, na perspectiva de fortalecer iniciativas comprovadamente sérias que estão acontecendo em todo o nosso país.

A questão ecológica foi considerada tão importante e complexa que merecerá um outro encontro específico.

Nada pedimos. Não nos moveram interesses corporativos ou pessoais. Apens oferecemos nossos préstimos, caso sejam solicitados pela Presidenta. Ela se mostrou comovida e aberta a outros encontros mais sistemáticos, pois se deu conta de nossa vontade de colaboração na construção de uma sociedade mais humana, mais justa e cooperativa, onde seja menos difícil a vontade de transformação social e o amor humano entre todos.


Leonardo Boff escreveu Hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes, Petrópolis 2005.

 É filósofo e teólogo, escritor, assessor do projeto Cultivando Agua Boa da Itaipu Binacional  e um dos co-redatores da Carta da Terra



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

PARA ENTENDER A VITÓRIA DE DILMA ROUSSEFF



Por Leonardo Boff

Nestas eleições presidenciais, os brasileiros e brasileiras se confrontaram com uma cena bíblica, testemunhada no salmo número um: tinha que escolher entre dois caminhos: um que representa o acerto e a felicidade possível e outro, o desacerto e infelicidade evitável.

Criaram-se todas as condições para uma tempestade perfeita com distorções e difamações, difundidas na grande imprensa e nas redes sociais, especialmente uma revista que ofendeu gravemente a ética jornalística, social e pesssoal publicando falsidades para prejudicar a candidata Dilma Rousseff. Atrás dela se albergam as elites mais atrasadas que se empenham antes em defender seus privilégios que universalizar os direitos pessoais e sociais.

Face a estas adversidades, a Presidenta Dilma ao ter passado pelas torturas nos porões dos órgãos de repressão da ditadura militar, fortaleceu sua identidade, cresceu em determinação e acumulou energias para enfrentar qualquer embate. Mostrou-se como é: uma mulher corajosa e valente. Ela transmite confiança, virtude fundamental para um político. Mostra inteireza e não tolera malfeitos. Isso gera no eleitor ou eleitora o sentimento de “sentir firmeza”.

Sua vitória se deve em grande parte à militância que saiu às ruas e organizou grandes manifestações. O povo mostrou que amadureceu na sua consciência política e soube, biblicamente, escolher o caminho que lhe parecia mais acertado votando em Dilma. Ela saiu vitoriosa com mais de 51% dos votos.

Ele já conhecia os dois caminhos. Um, ensaiado por oito anos, fez crescer economicamente o Brasil mas transferiu a maior parte dos benefícios aos já beneficiados à custa do arrocho salarial, do desemprego e da pobreza das grandes maiorias. Fazia políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres. O Brasil fez-se um sócio menor e subalterno ao grande projeto global, hegemonizado pelos países opulentos e militaristas. Esse não era o projeto de um país soberano, ciente de suas riquezas humanas, culturais, ecológicas e digno de um povo que se orgulha de sua mestiçagem e que se enriquece com todas as diferenças.

O povo percorreu também o outro caminho, o do acerto e da felicidade posssível. Neste ele teve centralidade. Um de seus filhos, sobrevivente da grande tribulação, Luiz Inácio Lula da Silva, conseguiu com políticas públicas, voltadas aos humilhados e ofendidos de nossa história, que uma Argentina inteira fosse incluída na sociedade moderna. Dilma Rousseff levou avante, aprofundou e expandiu estas políticas com medidas democratizantes como o Pronatec, o Pro-Uni, as cotas nas universidades para os estudantes vindos da escola pública e não dos colégios particulares; as cotas para aqueles cujos avós vieram dos porões da escravidão assim como todos os programas sociais do Bolsa Família, o Luz para Todos, a Minha Casa, minha Vida, o Mais Médicos entre outros.

A questão de fundo de nosso país está sendo equacionada: garantir a todos mas principalmente aos pobres o acesso aos bens da vida, superar a espantosa desigualdade e criar mediante a educação oportunidades aos pequenos para que possam crescer, se desenvolver e se humanizar como cidadãos ativos.

Esse projeto despertou o senso de soberania do Brasil, projetou-o no cenário mundial como uma posição independente, cobrando uma nova ordem mundial, na qual a humanidade se descobrisse como humanidade, habitando a mesma Casa Comum.

O desafio para a Presidenta Dilma não é só consolidar o que já deu certo e corrigir defeitos mas inaugurar um novo ciclo de exercício do poder que signifique um salto de qualidade em todas as esferas da vida social. Pouco se conseguirá se não houver uma reforma política que elimine de vez as bases da corrupção e que permita um avanço da democracia representativa com a incorporação da democracia participativa, com conselhos, audiências públicas, com a consulta aos movimentos sociais e outras instituições da sociedade civil. É urgente uma reforma tributária para que tenha mais equidade e ajude a suplantar a abissal desigualdade social. Fundamentalmente a educação e a saúde estarão no centro das preocupações desse novo ciclo. Um povo ignorante e doente não pode dar nunca um salto rumo a um patamar mais alto de vida. A questão do saneamento básico, da mobilidade urbana (85% de população vive nas cidades) com transporte minimamente digno, a segurança e o combate à criminalidade são imperativos impostos pela sociedade e que a Presidenta se obrigará a atender.

Ela nos debates apresentou um leque significativo de transformações a que se propôs. Pela seriedade e sentido de eficácia que sempre mostrou, podemos confiar que acontecerão.

Há questões que mal foram acenadas nos debates: a importância da reforma agrária moderna que fixa o camponês no campo com todas as vantagens que a ciência propiciou. Importa ainda demarcar e homologar as terras indígenas, muitas ameaçadas pelo avanço do agronegócio.

Por último e talvez o maior dos desafios nos vem do campo da ecologia. Severas ameaças pairam sobre o futuro da vida e de nossa civilização, seja pela máquina de morte já criada que pode eliminar por várias vezes toda a vida e as consequências desastrosas do aquecimento global. Se chegar o aquecimento abrupto, como inteiras sociedades científicas alertam, a vida que conhecemos talvez não possa subsistir e grande parte da humanidade será letalmente afetada. O Brasil por sua riqueza ecológica é fundamental para o equilíbrio do planeta crucificado. Um novo governo Dilma não poderá adiar esta questão que é de vida ou morte para a nossa espécie humana.

Que o Espírito de sabedoria e de cuidado oriente as decisões difíceis que a Presidenta Dilma Rousseff deverá tomar.



Leonardo Boff escreveu Hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes, Petrópolis 2005.

 É filósofo e teólogo, escritor, assessor do projeto Cultivando Agua Boa da Itaipu Binacional  e um dos co-redatores da Carta da Terra