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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

FRATERNIDADE E AMOR: ESPÍRITO E LEI

 


Marcelo Barros

 

Quem acompanha as redes sociais sabe que nas últimas semanas, tem se intensificado o clima de tensão e mesmo de conflitos na interpretação da fé e do modo de compreender a missão cristã. Mais concretamente, o alvo escolhido por católicos tradicionalistas para  a sua guerra sagrada passou a ser a 5ª Campanha da Fraternidade Ecumênica, aberta pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) na quarta-feira, 17 de fevereiro, início da Quaresma.

É surpreendente o fato desta ser a quinta campanha da fraternidade ecumênica e somente agora se manifestar todo este ódio e rejeição. Antes de mais nada, isso revela que, neste início de 2021, o ambiente social e eclesial no Brasil é mais duro, fechado e polarizado em posturas extremas do que aquele que vivíamos em 2000, quando fizemos a primeira campanha ecumênica e as outras que se seguiram em 2005, 2010 e 2016.

É claro que, desde o começo deste caminho, havia tensões e divisões nas Igrejas. Sempre houve. No entanto, em nossos dias, se exacerbou o espírito de cruzada em defesa da Cristandade. E, mais do que antes, as redes virtuais oferecem excelente palco para o destempero de quem busca vítimas a queimar na fogueira do seu dogmatismo e moralismo.

Os acusadores da Campanha da Fraternidade Ecumênica não são tão sinceros a ponto de afirmar que não se interessam por Fraternidade aberta a todos e que, para eles, o diálogo nada tem a ver com a fé e a espiritualidade. Também pensam que o combate à heresia que veem sempre nos outros é mais importante do que a unidade dos cristãos, pela qual Jesus orou na véspera de sua paixão. Defendem valores tradicionalistas e usam como arma de guerra a fé interpretada como dogma contra os inimigos. Então, tinham de encontrar no texto da CFE 2021 algum pretexto para a sua luta. E focaram o seu combate em um número do texto-base da CFE 2021 (o 68). Neste parágrafo, eles acham que o texto-base defende o que chamam de “ideologia de gêneros”. Faz menção a gays, travestis e transexuais como vítimas da violência nossa de cada dia.

  A primeira impressão a qualquer observador é que a polêmica veio um pouco tarde demais. O texto já está distribuído por todo o país e a Campanha está em pleno andamento. Por isso, a própria CNBB, alguns bispos e um cardeal vieram a público tentando apagar o fogo. Infelizmente, quase todas essas intervenções se revelaram ambíguas e pouco felizes. De algum modo, todas essas mensagens parecem dizer aos oponentes: “de fato, o que vocês estão reclamando é justo e o texto não corresponde ao pensamento católico, mas como tínhamos nos comprometido em fazer mais uma campanha ecumênica, não conseguimos evitar isso. Desculpem...”.

 Em nenhuma delas aparece a mínima postura de solidariedade ao CONIC. Ao contrário, todas dão a impressão de que os bispos pedem desculpas ao Centro Dom Bosco pela obrigação de serem ecumênicos e terem sido pouco cuidadosos ao não censurar previamente o texto-base da CFE. Explicam que o texto é ecumênico, como se isso fosse sua limitação ou defeito. Se algum/a leitor/a pensar que, pelo fato de ser ecumênico o texto é, no plano mais profundo católico, isso é universal, os bispos vêm e corrigem: Não. E fazem questão de dizer que, ao menos no que diz respeito ao ensinamento moral, o pensamento católico não é ecumênico. Lamentável.

Para quem lê o evangelho, sabe que Jesus teve de enfrentar muitas polêmicas como essa. Basta ler o evangelho de Marcos ou algumas páginas do 4º evangelho para acompanhar os dolorosos debates de Jesus com doutores da lei, fariseus e religiosos do templo. O ataque lançado contra Jesus era sempre o de que ele parecia não estar de acordo com a lei e ser um risco para a religião hegemônica. E Jesus que, conforme Mateus, fazia questão de dizer “não ter vindo abolir a lei e sim levá-la à sua plenitude”(Mt 5, 17), insistia que a lei, o sábado e as instituições religiosas deveriam servir à vida e ser em função do ser humano e não o contrário. Em seu tempo, Paulo conclui que a letra mata e só o Espírito faz viver (2 Cor 3, 6).

Para quem dedica a sua vida ao que o saudoso irmão Roger Schutz, fundador e primeiro prior de Taizé, denominava “a paixão pela unidade do Corpo de Cristo”, isso tudo é extremamente doloroso. Ensina-nos muitas coisas. Talvez a primeira é que documentos, textos e estudos são importantes, mas não transformam o coração sectário de ninguém. Só a convivência e o amor são capazes dessa conversão pascal.

O tema desta CFE 2021 é tirada da carta aos efésios. Ali no capítulo 2, a carta alude ao antigo muro que, no templo de Jerusalém dividia o átrio dos gentios (pagãos) do átrio dos judeus. E o texto diz que, pela sua morte na cruz, Jesus aboliu este muro de inimizade que separava as pessoas em religiões diferentes. “De dois povos, ele fez um só povo, abolindo a Lei, com seus mandamentos e exigências  (Ef 2, 15). Infelizmente, 21 séculos depois, uma Campanha da Fraternidade Ecumênica que nem é inter-religiosa; é proposta a cristãos, todos batizados no mesmo Cristo, receba tanta incompreensão. Religiosos católicos, com cumplicidade até de alguns pastores, parecem decididos a reedificar de novo o muro de separação. É preciso que os pastores, preocupados em salvar o seu poder e sua legitimidade, não valorizem mais a lei do que o amor pelo qual Jesus deu a vida.  E a todos e todas, chamados/as a testemunhar que Deus é amor e Jesus morreu “para reunir na unidade os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo” (Jo 11, 52), não desanimemos e retomemos à construção da unidade a partir de baixo e não das cúpulas. A partir do amor e não apenas das leis. Ouvir o outro e conviver com o diferente gera conhecimento que exorciza preconceito e gera admiração, respeito e amor.

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

quarta-feira, 23 de março de 2016

O IMPÉRIO DA LEI.


por Eduardo Hoornaert



Nos últimos dias vimos altos representantes do poder judiciário brasileiro vir ao público para defender o ‘império da lei’, acima de tudo. Nesse cenário, a Carta ao Povo Brasileiro, que Lula mandou publicar na noite de 17/03, constitui um contraponto. Ele escreve: ‘Não tive acesso a grandes estudos formais, como sabem os brasileiros. Não sou doutor, letrado, jurisconsulto. Mas sei, como todo ser humano, distinguir o certo do errado, o justo do injusto’. Por conseguinte, contesta o valor absoluto do ‘império da lei’.

Permitam-me os que lerem este texto evocar uma história que todos os cristãos bem conhecem: a condenação de Jesus, tal qual vai descrita no Evangelho de Marcos. Como afirmam os melhores estudiosos, Jesus foi condenado à morte segundo a Lei Romana e a Jurisprudência Judaica. Quando Jesus é preso, ele é levado ao Sinédrio reunido na Casa do Sumo Sacerdote Caifás. Aí sacerdotes, letrados e anciãos investigam se ele é culpado de morte. Os depoimentos são contraditórios e não levam a nada, como relata o Evangelho de Marcos: ‘os Sumos Sacerdotes e todo o Sinédrio procuraram contra Jesus um depoimento que lhes permitisse condená-lo à morte e eles não encontraram nada’ (Mc 14, 55). Mas aí, o Sumo Sacerdote Caifás intervém. Faz um depoimento em que deixa entender que Jesus é um perigo para a nação israelita. Caifás é o exemplo de um juiz preocupado em salvaguardar as instituições.

 Ele passa a trabalhar com suspeitas nebulosas, que impressionam vivamente os sacerdotes do Sinédrio. Vale a pena observar aqui que esses sacerdotes não devem ser considerados pessoas amorais, corruptas, perversas. O contrário é verdade. Eles agem em conformidade com a responsabilidade que lhes compete, instalam um processo, chamam testemunhas e interrogam o acusado (leia o trecho Mc 14, 55-65 por inteiro).  A questão é que eles se deixam guiar por questões formais e não compreendem o que os aldeões da Galileia compreendem muito bem: que Jesus é gente boa, faz bem ao povo e o ajuda a superar seus problemas. Isso é algo que os letrados de Jerusalém não conseguem enxergar. As leis os cegam. Eles ficam obcecados pela ideia que seguir procedimentos legais é fazer a coisa certa. Insisto nesse ponto: o que é realmente perturbador, nos relatos evangélicos sobre a condenação de Jesus, é que Ele não é condenado por pessoas perversas. O contrário é verdade. Alguns sacerdotes que seguem a jurisprudência de Caifás são particularmente honrados e respeitados por sua maneira de viver. Mas a questão da justiça propriamente dita (o que Lula chama de ‘distinguir o certo e o errado, o justo e o injusto’) não lhes aflora à consciência. Eles seguem cegamente a lei e com isso se tornam absolutamente incapazes de distinguir entre o bem e o mal. Não são levados por ódio ou fanatismo, simplesmente não conseguem enxergar a criminalidade de seus próprios comportamentos. Praticam o mal, pensando fazer o bem. Pensam que glorificam a Deus enquanto condenam à morte Aquele que age em conformidade com a Vontade de Deus. Isso provém do fato que se deixam nortear pela lei e não pelo senso de justiça inato em todas as pessoas.

Não estou aqui querendo comparar Lula com Jesus e fazer dele um santo. Todos os brasileiros sabem que Lula não é um santo. Mas quem é o santo nessa história? Escrevi este texto para defender o senso de justiça que existe ‘em todo ser humano’, a capacidade de distinguir ‘o certo do errado, o justo do injusto’, e que a atual jurisprudência oculta quando fala em ‘império da lei’. Como não duvidar do ‘império da lei’ quando estamos com os presidentes da Câmara e do Senado acusados de ser corruptos, diversos membros da Comissão do Impeachment com ações de improbidade (suspensas pela lei?), etc. etc. Os aldeões da Galileia bem sabiam que Jesus era uma pessoa de grande valor, algo que escapou à compreensão dos jurisprudentes em Jerusalém.


O tipo de reflexão que subjaz a esse texto pode causar estranheza em ambientes cristãos. Isso provém do fato que o cristianismo viveu durante séculos aliado ao poder e dessa forma perdeu largamente a capacidade de criticar o império da lei em nome de um princípio superior: o amor, a sensibilidade pelo mais fraco, o compromisso com o marginalizado. A confusão na mente de muitos cristãos é causada por uma leitura superficial e fundamentalista dos Evangelhos. Temos de reaprender a ler os Evangelhos. Inclusive para poder refletir sobre o momento político que atravessamos.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/