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sábado, 23 de junho de 2018

O PESO KÁRMICO DA HISTÓRIA DO BRASIL





por Leonardo Boff

A amplitude da crise brasileira é de tal gravidade que nos faltam categorias para elucidá-la. Tentando ir além das clássicas abordagens da sociologia crítica ou da história, tenho-me valido da capacidade elucidativa das categorias psicanalíticas da “sombra”e da “luz” generalizadas como constantes antropológicas, pessoais e coletivas. Ensaiei uma compreensão possível que nos vêm da teoria do caos, capítulo importante da nova cosmologia, pois deste caos, em situação de altíssima complexidade e jogo de relações, irrompeu a vida que conhecemos, inclusive a nossa. Esta mostrou-se capaz de identificar aquela Energia Poderosa e Amorosa que tudo sustenta, o Princípio Gerador de todos os Seres e abrir-se a Ele em veneração e respeito.
Perguto-me que outra categoria estaria no repositório da sabedoria humana que nos poderia trazer alguma luz nas trevas nas quais estamos todos mergulhados. Foi então que me lembrei de um diálogo instigante entre o grande historiador inglês Arnold Toynbee e Daisaku Ikeda, eminente filósofo japonês (cf. Elige la vida, Emecé. B.Aires 2005) que durou vários dias em Londres. Ambos creem na realidade do karma, seja pessoal, seja coletivo. Prescindindo das várias interpretações dadas a ele, me parecia ter encontrado aqui aqui uma categoria da mais alta ancestralidade, manejada pelo budismo, hinduismo, jainismo e também pelo espiritismo para explicar fenômenos pessoais e coletivos.
O karma é um termo sânscrito originalmente significando força e movimento, concentrado na palavra “ação” que provocava sua correspondente “re-ação”. Este aspecto coletivo pareceu-me importante, por que, não conheço (posso estar equivocado) no ocidente nenhuma categoria conceptual que dê conta de um sentido de devir histórico de toda uma comunidade e de suas instituições nas suas dimensões positivas e negativas. Talvez, devido ao arraigado individualismo, típico do Ocidente, não tenhamos tido as condições de projetarmos um conceito suficientemente abrangente.
Cada pessoa é marcada pelas ações que praticou em vida. Essa ação não se restringe à pessoa mas conota todo o ambiente. Trata-se de uma espécie de conta-corrente ética cujo saldo está em constante mutação consoante as ações boas ou más que são feitas, vale dizer, os “debitos e os créditos”. Mesmo depois da morte, a pessoa, na crença budista, carrega esta conta por mais renascimentos possa ter, até zerar a conta negativa.
Toynbee dá-lhe outra versão que me parece esclarecedora e nos ajuda entender um pouco nossa história. A história é feita de redes relacionais dentro das quais está inserida cada pessoa, ligada com as que a precederam e com as presentes. Há um funcionamento kármico na história de um povo e de suas instituições consoante os níveis de bondade e justiça ou de maldade e injustiça que produziram ao largo do tempo. Este seria uma espécie de campo mórfico que permaneceria impregnando tudo.
Não se requer a hipótese dos muitos renascimentos porque a rede de vínculos garante a continuidade do destino de um povo (p.384). As realidades kármicas impregnam as instituições, as paisagens, configuram as pessoas e marcam o estilo singular de um povo. Esta força kármica atua na história, marcando os fatos benéficos ou maléficos. C.G.Jung em sua psicologia arquetípica notara, de alguma forma, tal fato.
Apliquemos esta lei kármica à nossa situação. Não sera difícil reconhecer que somos portadores de um pesadíssimo karma, em grande escala, derivado do genocídio indígena, da super-exploração da força do trabalho escravo, das injustiças perpretadas contra grande parte da população, negra e mestiça, jogada na periferia, com famílias destruídas e corroídas pela fome e pelas doenças. A via-sacra de sofrimento desses nossos irmãos e irmãs tem mais estações do que aquela do Filho do Homem quando viveu e padeceu entre nós. Excusado é citar outras maldades.
Tanto Toynbee quanto Ikeda concordam nisso:”a sociedade moderna (nós incluídos) só pode ser curada de sua carga kármica, através de uma revolução espiritual no coração e na mente(p.159), na linha da justiça compensatória e de políticas sanadoras com instituições justas. Sem esta justiça minima a carga kármica não se desfará. Mas ela sozinha não é suficiente. Faz-se mister o amor, a solidariedade a compaixão e uma profunda humanidade pra com as vítimas. O amor será o motor mais eficaz porque ele, no fundo “é a última realidade”(p.387). Uma sociedade incapaz de efetivamente amar e de ser menos malvada, jamais desconstruirá uma história tão marcada pelo karma. Eis o desafio que a atual crise nos suscita.
Não apregoaram outra coisa os mestres da humanidade, como Jesus, São Francisco, Dalai Lama, Gandhi, Luther King Jr e o Papa Francisco? Só o karma do bem redime a realidade da força kármica do mal.
E se o Brasil não fizer essa reversão kármica permanecerá de crise em crise, destruindo seu próprio futuro.
Leonardo Boff escreveu O destino do homem e do mundo, 12. ed., Vozes 2012.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

O PESO DA LEVEZA

por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



Ela é alta, negra, esguia, jovem e bela.  Seu vestido de verão é leve e uma discreta brisa o levanta deixando adivinhar pernas torneadas e corpo esbelto e atlético. Sua leveza não vem apenas de seu físico, mas do interior de sua alma pacífica e crente.  Leisha Evans, de Nova York, é enfermeira.  Com seu vestido longo e ondulante, postou-se, sem armas e sem defesa, em frente aos policiais armados.

A manifestação acontecia em Baton Rouge, no estado da Louisiana, contra a brutalidade das forças de segurança americanas. Era parte de uma onda de protestos desencadeada após a morte de dois negros por policiais brancos, em Minnesota e Louisiana. O crime agravou ainda mais as tão candentes tensões raciais no país.  Em Dallas, um franco-atirador matou cinco policiais.

Leisha Evans chegou diante da força bruta e das armas com suas mãos vazias. Esperou que a prendessem, o  que aconteceu.  E descreveu sua ação como obra de Deus. O fotógrafo Jonathan Bachman, que capturou a imagem que viralizou nas redes sociais, ficou impressionado.  "Ela não foi violenta, não disse nada, não resistiu. No final, a polícia a deteve."

Leisha não é figura isolada.  Segue uma longa e gloriosa tradição muito presente em seu próprio país e no mundo também.  A caminhada dos negros em busca de seus direitos em meio ao racismo presente nos Estados Unidos se fez pela via do protesto pacífico.  Assim foi com Martin Luther King, que liderou marchas e levantou multidões sem dar um tiro ou cometer um só ato de violência.  Ao final, foi assassinado em Memphis, Tennessee.

Mas não só das tensões raciais se trata aqui e sim de todas as lutas por direitos humanos no lado norte da América. Assim foi igualmente com a grande ativista católica Dorothy Day, presa várias vezes por protestar pacificamente contra a guerra do Vietnam, contra a convocação de jovens para essa e outras guerras, contra a violência aos imigrantes e camponeses nas fronteiras do México, enfim, contra tudo aquilo que a força traz em termos de brutalidade e sofrimento.
No último domingo, foi a vez da Europa.  A final da Eurocopa, campeonato europeu de futebol, dava como quase certa a vitória da França, favorita e jogando em casa.  Após uma partida renhida e dura, Portugal marcou o gol da vitória pelos pés negros de Eder, da Guiné-Bissau, revelação do time português.

Houve choro e ranger de dentes na torcida francesa.  E embora discreto e contido, sem a exterioridade brasileira, foi possível ver na mídia torcedores chorando lágrimas doídas diante da derrota de seu país e das orgulhosas cores da pátria da liberdade, igualdade, fraternidade. 

E novamente a leveza deu o toque da graça em meio ao peso da força.  Desta vez, não com uma bela mulher, mas com uma sensível criança.  Um menino português, de camisa vermelha, pode ser visto pelo mundo inteiro consolando um torcedor francês em lágrimas. Enquanto este último, dobrado em dois, chorava desconsoladamente, o menino o abraçava e batia em suas costas, em gesto de amizade que mostrou algo que parece que estamos esquecendo de maneira perigosa: esporte é competição, mas não é guerra.  E quem é adversário no campo pode ser amigo fora dele.
Além de ser criança, o pequeno consolador é imigrante.  Português em terras francesas, cujos pais ou avós foram seguramente buscar vida melhor no país mais rico e com mais oportunidades de trabalho, aí permanecendo.  Em um momento onde acontecem tantos conflitos devido à migração na velha Europa, ver o menino migrante consolando o cidadão francês foi algo bonito de se ver.

A leveza da jovem mulher negra, a ternura da criança descendente de migrantes vem trazer uma mensagem urgente, que precisa ser lida e decodificada em profundidade. Em um mundo tão violento, onde a paz é  algo de primeira necessidade, só o “peso da leveza” pode trazer redenção.  O peso que é doce, mas intenso, que nos revela que nos foram dadas asas e somos corpo animado pelo Espírito do Criador, que nos deseja em voo permanente e livre para viver a bela vocação humana.

Se a leveza é esmagada, se a beleza é encarcerada, se a infância é ignorada e a inocência desprezada, estaremos construindo um futuro feito apenas de força bruta, morte e sangue.  Em termos um tanto intrinsecamente contraditórios, um futuro sem futuro, pois de tanto esmagar e matar, não vai sobrar ninguém para contar a história.
  
Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ.  A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 




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