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terça-feira, 26 de abril de 2022

Portas fechadas, Presença inesperada

 

2º Domingo da Páscoa


Jo 20, 19-31

 

Marcelo Barros

                

Neste 2o Domingo da Páscoa, o evangelho lido hoje nas Igrejas (João 20, 19- 31) revela que todas as vezes que nos reunimos no nome de Jesus refazemos e atualizamos aquele encontro dos discípulos com o Ressuscitado. Eles estavam reunidos em uma sala de portas fechadas, com medo dos sacerdotes e doutores da Bíblia. Atualmente, vivemos em um mundo dominado por guerras (nesta semana uma reportagem falava em 28 guerras maiores e 60 conflitos internos em países e o saldo de pessoas mortas é enorme), organizado para sistematicamente impedir milhões de pessoas a viverem uma vida digna e com seus direitos humanos reconhecidos. Para triplicarem seus lucros e ampliarem sempre mais o seu luxo, a elite de menos de 1% da humanidade precisa manter bilhões de pessoas em situação de semi-escravidão. No Brasil, nesta semana, o vice-presidente da República declarou rindo que os militares denunciados como torturadores na época da ditadura são heróis e que heróis matam.

Conforme este evangelho, naquele domingo, a pequena comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus estava reunida de portas fechadas. Hoje, é o mundo inteiro que vive de portas fechadas. Nossas cidades são marcadas pelos muros altos dos edifícios nos quais as pessoas se aprisionam com chaves e senhas de portões eletrificados e nos bairros de periferia, as portas fechadas com medo de milícias e gangues. Cada país fecha de mais a mais suas fronteiras contra migrantes e refugiados. Diante deste cenário, vivemos em um mundo  sob o domínio do medo.

A boa notícia deste evangelho é que mesmo com todas as portas fechadas, Jesus Ressuscitado se deixa ver pelos discípulos e lhes traz a Paz, a alegria e a reconciliação para iniciar uma nova missão. O Cristo vivo vem e se insere em nossa realidade e não há portas fechadas que impeçam a sua presença. Ele se deixa ver. Só precisamos despertar para a sua presença.

Neste evangelho, o que, em primeiro lugar, o Ressuscitado mostra aos seus amigos e amigas são suas chagas. Não mostra um corpo glorioso e etéreo e sim as chagas da cruz. É o curador ferido. Ele ressuscita desse modo: revelando as feridas que têm no corpo e na alma. Assim, nos ensina o caminho da ressurreição. Pede que vençamos o medo e a vergonha e aceitemos revelar nossas feridas interiores. Deixemos que os amigos e amigas possam tocar e cuidar de nossas feridas. Apesar de, pessoalmente, ter muita dificuldade de viver isso (aceitar ser cuidado), só quando assumimos nossas chagas  e aceitamos que os amigos/as cuidem delas, é que podemos viver a experiência da ressurreição. Só assim, podemos anunciar um modo novo de viver ressuscitados. Assim, as chagas, do Ressuscitado e as nossas, se tornam como que chagas luminosas. É ao reconhecer Jesus vivo nas pessoas feridas, que os discípulos se enchem de uma imensa alegria, como a alegria que Jesus havia prometido na ceia quando disse: "Hei de ver vocês outra vez e vocês se encherão de uma alegria tal que ninguém poderá tirar de vocês essa alegria" (Jo 16, 20).

             Este domingo é como o oitavo dia da ressurreição. Assim como Tomé era discípulo, mas não estava com o grupo no primeiro domingo, também nós não estávamos. Tomé nunca aceitou Jesus ter vindo a Jerusalém e deixou claro no capítulo 11 que ele estava ali forçado. Acreditava em um Jesus, enviado de Deus, mas sem cruz.... E agora não acreditava mais. Os outros tinham medo, tinham dúvidas, não sabiam se acreditavam ou não, mas seja como for, ficaram juntos em uma sala fechada... Tomé, não. A fé dele era individualista, era eu e Deus... Queria ser discípulo de Jesus, mas sem comunidade. Com os outros, ele não se dava. E não previa cruz, chagas. (Só se eu tocar nas chagas dele, vou crer que isso é assim, é real).

No oitavo dia da ressurreição, portanto, no domingo de hoje, Jesus se deixa ver e se deixa tocar... Ao se mostrar aos discípulos, mesmo com portas fechadas, não mostra nenhuma luz especial. Não fala de vitória nenhuma. Não voa, nem parece ter nada de especial... Mostra as chagas e pede que Tomé toque e veja o sangue ainda correndo na ferida que tem no peito nu. Só quando a gente tem coragem de mostrar as nossas feridas interiores e sociais), parece que a vida pode se recompor e - se tornar nova...

     Jesus ressuscitado ressuscita os discípulos. Faz eles passarem do medo à liberdade, à paz, à alegria e ao perdão. Hoje, Ele nos convida para reconstruir as nossas vidas, através do perdão a nós mesmos e aos outros. A ressurreição de Jesus se renova para nós hoje. Como Tomé, podemos tocar nas chagas do Ressuscitado nas pessoas feridas pelas injustiças da vida. 

Tanto na época em que o evangelho de João foi escrito, como nas Igrejas e no mundo de hoje, muitas pessoas creem em um Cristo aéreo, celestial e pouco humano. Nós, da caminhada do Cristianismo Social e Libertador, proclamamos a fé em um Jesus histórico, real, com corpo e com chagas. É diante do ser humano meio nu, ferido e sangrando, que fazemos como Tomé, nos prostramos e dizemos: Meu Senhor e meu Deus. Se não formos capazes de fazer isso diante das pessoas concretas, cada uma com suas feridas, não testemunhamos a ressurreição de Jesus. 

 

Tocar nas chagas de Jesus é tocar nas chagas da humanidade hoje e ser capaz de reconhecer a presença do Espírito nas vítimas da sociedade atual. E são tantas pessoas. As pessoas que, neste momento, nos diversos serviços, vivem a solidariedade e cuidam dos outros tocam nas chagas de Jesus e testemunham ressurreição.   Deixemos que os povos originários, cuja semana celebramos agora, entrem na sala onde estamos fechados e nos mostrem suas feridas. São ressuscitados porque resistem há mais de 500 anos e nos ensinam lições de resistência. Suas feridas são provocadas pela mesma doença que atinge toda nossa sociedade: ambição e o desamor.

Acolhendo-nos uns aos outros/umas às outras como presença do Cristo Ressuscitado, podemos experimentar, mesmo em meio às dores e aos medos justificados de cada dia, uma imensa alegria, a mesma alegria que os discípulos sentiram ao ver o Ressuscitado e a plena reconciliação conosco mesmos, uns com os outros e com Deus. Amém. Aleluia.

 

 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

ABRINDO AS PORTAS À MISERICÓRDIA


 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



Desde o momento em que foi eleito e apareceu no balcão do Vaticano diante de uma Praça São Pedro cheia de fiéis expectantes e atentos, o Papa Francisco tem adotado uma pedagogia que une gesto e palavra com vistas a uma comunicação mais completa com seu povo. Esta tem sido uma marca em seu pontificado e na sempre maior e mais bem sucedida comunicação que sua pessoa instaurou não apenas com sua grei de Roma, ou mesmo com os fiéis católicos do mundo inteiro, mas com todas as pessoas que cruzam seu caminho e desejam ouvi-lo.

Ao mesmo tempo em que diz palavras bem diretas e claras, no intento de comunicar uma mensagem ou uma ideia-força, faz gestos.  Gestos potentes e grávidos de sentido que, juntamente com a palavra ou mesmo sem ser dela seguidos, transmitem algo que considera importante no seu esforço incansável de levar o Evangelho e sua alegria a toda criatura. 

Nesta chave, parece-me, deve ser interpretado seu gesto de abrir a Porta Santa do Ano da Misericórdia em Bangui, na África, antes mesmo de fazê-lo em Roma, sede central do Cristianismo.  O Santo Padre declarou Bangui a capital espiritual do mundo no dia 29 de novembro, dando  início ao Jubileu da Misericórdia a partir daquela cidade.

Por que desejou Francisco que o Ano Santo da Misericórdia, sobre o qual tanto tem insistido, a ponto de promulgar uma Bula, convocar toda a Igreja para celebrá-lo especialmente e enfatizar a importância desta bem aventurança (Sede misericordiosos!) como uma imitação do mesmo Deus, rico em misericórdia, e de seu Filho Jesus Cristo, rosto da misericórdia no mundo, tivesse um início solene na periferia do mundo?

O desejo e o gesto estão em plena coerência e harmonia com o significado da palavra e do evento.  A palavra misericórdia, em latim, quer dizer “compaixão (cordis) pelos pobres (miseri)”.  Trata-se de deixar mover o coração por toda e qualquer dor, infelicidade, pobreza ou diminuição sofrida pelos seres humanos.  E que lugar mais adequado para dar início a este movimento senão a sofrida África, continente sacrificado e riscado do mapa das grandes potências, onde gerações inteiras perecem sob o flagelo da fome, ou da guerra, ou das tiranias e ditaduras opressoras.  E mais recentemente devido aos ataques de movimentos radicais como o Estado Islâmico.

Ao convocar toda a Igreja a voltar o coração aos pobres, e fazendo-o a partir do lugar dos mais pobres em todo o globo terrestre, está o Pontífice sublinhando com este gesto todo o trabalho prévio que fez antecedendo-o: a escrita de uma bula, numerosas alusões em suas homilias e catequeses semanais, múltiplas declarações em entrevistas e diálogos com cristãos ou pessoas de outras religiões ou ideologias. 

Da mesma forma, o fato de a abertura da Porta da Misericórdia ter tido lugar ao final do Ano Litúrgico, quando toda a Igreja se prepara para celebrar o tempo do Advento que antecede a chegada de Jesus, o Verbo Encarnado e rosto vivo da misericórdia do Pai não é alheio às intenções do Papa.  Pretende ele que todo este tempo – que é de conversão e renovação interior – seja vivido com olhos e coração voltados para a misericórdia, outro nome de Deus que deve estar no centro da vida de cada fiel, de cada cristão, de cada pessoa reta e de boa vontade.
O Deus da Revelação judaico-cristã é misericordioso por excelência.  Prefere a misericórdia ao sacrifício.  Suas entranhas misericordiosas se contorcem de preocupação e angústia ao ver seus filhos sofrendo por falta do necessário, por ameaças à segurança e à vida, por opressão e cerceamento da liberdade.  É um Deus que “desce” ao encontro de seu povo que geme cativo, porque ouviu seus clamores e não suporta ouvi-lo gemendo sob dura opressão no Egito.  É um Deus que acompanha o povo por toda parte, indo inclusive ao exílio, sempre com a misericórdia à sua frente, e ensinando que ela deve reger a vida inteira daquele ou daquela que ama o Senhor.

Em Jesus de Nazaré essa revelação se radicaliza.  O Filho de Deus, Verbo Encarnado, mostra o rosto de um Deus misericordioso e inclusivo, que “prefere” as prostitutas e os publicanos e senta-se à mesa com os pecadores para as refeições que prefiguram o banquete do último dia, quando seu Pai se sentará à mesa e celebrará com seu povo.
O Deus que Jesus apresenta com suas palavras mas sobretudo com seus gestos é um Deus de graça, de misericórdia e não de méritos que quer fazer sentir a todos seu amor, que é mais importante até mesmo que a Lei e o sábado, e toda e qualquer instituição.  Um Deus que deseja ser imitado nesta misericórdia infinita, que pode ser apalpada na vida e no coração de seu Filho Jesus de Nazaré.

E o objeto prioritário desta misericórdia são os pobres, os infelizes, as vítimas de todos os rostos e perfis.  Aqueles que sofrem por culpa própria ou sobretudo por injustiça alheia.  Todos aqueles que têm suas vidas agredidas pela injustiça, pelo mal em todas as suas formas.  O Espírito que sopra desde a África, com a abertura da Porta Santa nos abre então a porta para palmilhar a estrada do Advento até o Natal e a chegada do Menino.

O convite é claro: abrir as portas à misericórdia para acolher esta Criança inocente, indefesa, mansa e misericordiosa.  Só ela poderá nos fazer passar de uma lógica de méritos para uma lógica de graça; de uma justiça retributiva para uma justiça restaurativa; do cálculo das relações simétricas para a ausência de limites das relações amorosas.  Vem, Senhor Jesus!

Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

  A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 

 Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.
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sexta-feira, 19 de junho de 2015

QUANDO LIVRARIAS FECHAM AS PORTAS

por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do departamento de Teologia da PUC-Rio



Vejo aterrorizada a notícia do fechamento da livraria La Hune, em Paris, no Boulevard Saint Germain. Fundada logo após a Segunda Guerra por intelectuais franceses da Resistência, dará lugar a um comércio de reproduções fotográficas.

Não é a primeira vez que a livraria se encontra ameaçada.  Em 2012, teve que deixar sua sede histórica, no próprio Boulevard Saint Germain, e foi transferida para o nº 18 da rue de l´Abbaye. Ali  agora reina a grife Louis Vuitton.  É um sinal que explica a progressiva diminuição do mito literário e sua substituição pelo comércio de luxo que vende “nada”: ar, cheiro, perfume, malas e bolsas caríssimas que pouca gente consegue comprar.

No lendário Boulevard Saint Germain só fica agora uma livraria, “L´écume des pages” (A espuma das páginas), cujo lindo nome soa como um presságio: a de que em breve ali só restará espuma e nada mais consistente.

Porém, Paris é Paris.  E são tantas as livrarias lá existentes que o hábito de leitura de seus habitantes não será gravemente afetado pelo  desaparecimento da La Hune.  Em muito pior situação está o Rio de Janeiro, que neste momento de seus 450 anos está perdendo nada menos do que a icônica e paradigmática livraria Leonardo da Vinci. Depois de 63 anos de várias  lutas e batalhas para se manter viva, a Da Vinci fecha as portas.

Fundada pelo romeno Andrei Duchiade, hoje pertence à sua filha Milena.  Foi dela a triste decisão de fechar as portas.  Não aguenta mais operar com prejuízo e em breve o antigo e histórico edifício Marquês do Herval, na Avenida Rio Branco, não contará mais com as estantes povoadas de livros da melhor qualidade como aconteceu por seis décadas.

A Da Vinci não era simplesmente um estabelecimento comercial.  Era um mundo encantado para quem gostava de livros e deles vivia.  A maravilhosa Dona Vanna, esposa de Duchiade e grande dama da livraria, mantinha contas abertas para estudantes que só podiam pagar a prazo, e atendia com a mesma solicitude professores e alunos, intelectuais de toda espécie e de toda ideologia.
Não existe alguém nesta cidade que trabalhe com a cabeça e seja medianamente culto que não tenha sido assíduo frequentador da livraria. E em um tempo em que não existia ainda a Amazon, com toda a facilidade que representa, a Da Vinci importava livros da França, da Itália, da Espanha e etc., colocando o preço inclusive em moeda estrangeira.

Ali comprei muitos de meus livros de teologia quando ainda era estudante de graduação.  E quando fazia ocurso da Aliança Francesa era dona Vanna que mandava buscar na França as edições de que necessitava para me preparar para os exames da Universidade de Nancy.

Golpeada pelo surgimento massivo das lojas virtuais e das megalivrarias, a Da Vinci recebeu a pá de cal com as obras que proliferam no Centro da Cidade e as manifestações que inundaram o Rio desde 2013.

A partir deste mês de junho de 2015, portanto, os intelectuais cariocas ficam mais pobres e – pior ainda – órfãos.  Órfãos de um lugar que os acolhia e era muito mais que um balcão de compra e venda de livros, mas um ninho, onde o prazer era folhear, buscar, desejar, suspirar e adquirir na medida de suas possibilidades.  Um centro irradiador de saber, que acolhe o saber com prazer e estímulo.

A cidade perde um pouco de sua mente, de seu espírito, de sua alma, com o fechamento desta livraria, que ainda não encontrou equivalente em nosso perímetro urbano.  Fica, decididamente, mais pobre, em um momento em que o empobrecimento abrange tantas áreas e dimensões. 

Um Rio sempre belo, porém mais violento, mais inseguro, mais sujo, menos apetecível aos passeios a pé e onde até o ar livre é menos livre, pois o preço a pagar para desfrutá-lo começa a ser alto demais.  Às vezes, equivalente à própria vida. Este é o Rio que festeja discreta e pudicamente seus 450 anos.

Porém, quando livrarias começam a fechar, e sobretudo uma Da Vinci, a situação piora. O clima torna-se mais ameaçador, com um tom de Fahrenheit 451, o grande romance de Ray Bradbury, que apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas não gratas e o pensamento crítico é perseguido e eliminado. O número 451 refere-se à temperatura (em graus Fahrenheit) da queima do papel, que equivale em Celsius a 233 gruas.

A saída que o romance propõe é as pessoas virarem livros vivos e perpetuarem assim a criação livre, a magia e a beleza da cultura.  Oxalá os cariocas, com o desaparecimento de livrarias como a Leonardo Da Vinci, revejam suas prioridades e passem a encarnar livros, palavras, pensamentos e saberes que são o único alimento verdadeiramente humanizador.

Se assim não for, o futuro é triste.  Triste da cidade que fecha livrarias, esfaqueia ciclistas inocentes, multiplica exponencialmente o número de crianças na rua, e impede a vida de brotar e florir livremente.  Mais triste será o Rio sem a Da Vinci.  Tomara que essa tristeza conheça uma ressurreição marcada por desconhecida mas forte alegria.
  A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha dapaixão e da compaixão" (Edusc)    
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