O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador respeito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador respeito. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

RELIGIÃO: TOLERÂNCIA OU RESPEITO REVERENCIAL?

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

A religião possui uma força política poderosa. No mundo contemporâneo, é uma força central, talvez a força central que mobiliza as pessoas… Em certas situações vitais, o que em última análise conta não é tanto a ideologia política nem os interesses econômicos, mas as convicções religiosas de fé, a família, o sangue e a doutrina. É por elas que as pessoas combatem e estão dispostas a dar suas vidas.

Muitas vezes, no entanto, a religião é geradora de conflitos.  Intolerância, fechamento à diferença do outro, preconceito acontecem e provocam debates acalorados, atitudes extremas ou até mesmo tragédias. 

Vamos muito longe com as palavras?  Somos radicais em nossa avaliação?  Pois não é de tragédia que se trata o atentado do qual foi vítima o escritor Salman Rushdie há poucos dias, nos Estados Unidos? O ensaísta de ficção britânico, de origem muçulmana indiana, criou-se em Mumbai e estudou na Inglaterra. Escreve livros de grande beleza e é muito bem-sucedido como escritor.  Seu estilo mistura mito e fantasia com a vida real, e tem sido ligado por alguns críticos de sua obra ao realismo mágico, cujo protagonista latino-americano era Gabriel Garcia Márquez. 

O que catapultou Rushdie para as páginas de todos os jornais e um lugar central na mídia foi a publicação, em 1989, do romance “Versos Satânicos”.  Trata-se de um texto complexo, inspirado em acontecimentos reais, como o ataque contra um avião da companhia aérea Air India, em 1985, e a Revolução Iraniana, de 1979.  Ao lado destes, figuram referências biográficas sobre o próprio autor, bem como acontecimentos históricos inspirados na vida do profeta Maomé, ora lendários, ora imaginários. 

O tema central pode ser encontrado em outras obras do autor: o desenraizamento do imigrante dividido entre sua cultura de origem, a partir da qual se afasta, e a cultura de seu país anfitrião, que ele ansiosamente deseja adquirir, e a dificuldade desta metamorfose. Aparecem como cenários a India e a Grã-bretanha, o passado e o presente, o imaginário e a realidade.  E aborda temas como fé, tentação, fanatismo. 

O governo iraniano de então considerou a escrita de Rushdie ofensiva ao profeta, uma blasfêmia contra o Islam, e o autor um apóstata por se declarar no livro desiludido com o Islam. Pronunciou então uma fatwa – sentença – ordenando sua execução.  O aiatolá Khomeini, suprema autoridade religiosa do Irã, determinou que todos os "muçulmanos zelosos" tentassem assassinar o escritor, os editores do livro que soubessem dos conceitos ali descritos e quem tomasse conhecimento de seu conteúdo, conforme a fatwa.

Rushdie foi forçado a viver no anonimato por muitos anos. A fatwa contra ele foi renovada em 2005 por Ali Khamenei, sucessor de Khomeini. 

Em 12 de agosto, na pequena cidade de Chautauqua, Estado de Nova York, EUA, Rushdie foi alvo de um ataque a faca, sendo atingido no rosto, no pescoço e em várias outras partes do corpo.  O agressor, Hadi Matar, de 24 anos foi preso em flagrante e declarou-se inocente.  O escritor sobreviveu, mas permanece em estado grave: fala com dificuldade, embora haja esperança que se recupere das feridas sofridas. 

A sentença da qual Salman Rushdie vinha se escondendo há tantas décadas, acabou atingindo-o. Homem pacífico, o escritor é vítima do desrespeito à liberdade de expressão e de intolerância quanto à prática religiosa.  

Agora o golpe foi desfechado por um islâmico contra outro islâmico.  Mas no passado quantas vezes representantes de religiões diferentes se atacaram entre si.  Nós, cristãos, temos que bater no peito e pedir perdão pelas muitas vezes em que  fizemos o mesmo.  Os outros monoteísmos igualmente. 

Nada se constrói com intolerância e fechamento à diferença do outro, que pode estar em sua etnia, em seu gênero, em sua raça ou em sua religião.  Em um mundo tão violento e conturbado como este em que vivemos, há que cultivar não apenas a tolerância, mas um reverencial respeito pelo outro e tudo que a ele diz respeito.  De maneira muito especial, pela religião que ele professa, que dá sentido a sua vida e é motivadora de suas posições éticas, de seus compromissos concretos e transformadores da realidade.  

Que Salman Rushdie possa recuperar-se e seguir escrevendo em paz.  E que todos e cada um de nós possamos aprender a respeitar, reverenciar e aprender a religião do outro. 

 

-- 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Teologia latino-americana:raízes e ramos” (Editora Vozes), entre outros livros.

 

 

Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

PALESTINOS NÃO FIZERAM O HOLOCAUSTO E MERECEM RESPEITO



J u r a c y   A n d r a d e


      Concluo agora o que escrevi sobre o movimento judaico chamado sionismo e o derivativo designado como sionismo “cristão” (abraçado por alguns protestantes), com uma carta aberta de protesto de judeus que não concordam com o movimento sionista condenando com veemência o recente massacre de Gaza, o genocídio praticado contra os palestinos pelo governo israelense e seus financiadores e defensores, à frente o governo estadunidense. Subscrevem o documento, divulgado no site do International Jewish Anti-Zionist Network, 33 sobreviventes do Holocausto, 111 filhos de sobreviventes e ainda 196 netos e 454 bisnetos e outros parentes de vítimas. E isso lhe dá uma força moral incrível e incontestável. Eles conclamam ao boicote do Estado judeu e solicitam donativos para publicar a carta no The New York Times. À íntegra da carta:
“Como sobreviventes e descendentes de sobreviventes judeus do genocídio nazista, condenamos inequivocamente o massacre de palestinos em Gaza e a ocupação e colonização da Palestina histórica em curso. Condenamos ademais que os Estados Unidos forneçam a Israel os fundos para levar cabo o ataque, e a todos os Estados ocidentais, de maneira geral, pelo uso de sua força diplomática para impedir Israel de ser condenado. O genocídio começa com o silêncio do mundo.

      Estamos alarmados pela extrema desumanização racista dos palestinos na sociedade israelense, que alcançou o paroxismo. Em Israel, políticos e comentaristas, no The Times of Israel e no The Jerusalem Post, pediram abertamente o genocídio de palestinos, e israelenses de direita estão adotando divisas neonazistas.

     Além do mais, desapontados e indignados pelo abuso de Elie Wiesel (Prêmio Nobel) da nossa história naquelas páginas para promover clamorosas falsidades utilizadas para justificar o injustificável: a determinação de Israel de destruir Gaza e o assassinato de cerca de dois mil palestinos, incluídas centenas de crianças. Nada pode justificar o bombardeio de refúgios das Nações Unidas, residências, hospitais, universidades. Nada pode justificar que se privem as pessoas de eletricidade e água.

     Devemos elevar nossas vozes coletivas e usar nosso poder coletivo para por fim a todas as formas de racismo, inclusive o genocídio em curso do povo palestino. Exigimos que se ponha fim de imediato ao cerco e bloqueio de Gaza. Fazemos um chamamento ao pleno boicote econômico, cultural e acadêmico de Israel. O ‘nunca mais’ deve significar nunca mais para ninguém”.

     Antes de finalizar, reitero minha apreciação e admiração pelo povo judaico, sua cultura multi-milenar, sua religião, que é a mesma de Jesus Cristo, dos primitivos cristãos (nosso Mestre não pensou em criar uma nova religião). E contesto de antemão as críticas, às vezes descabidas, que recebo toda vez que abordo questões como o infindável e desequilibrado conflito entre o Estado de Israel e o povo palestino, que tem direito ao seu Estado e, se não segurarem os Netanyahus et caterva, vão terminar totalmente aniquilados. Eles não são responsáveis pelos pogroms e outras perseguições e massacres históricos do povo judeu, nem pelo Holocausto.


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia