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quinta-feira, 5 de março de 2020

ERNESTO CARDENAL (1925-2020) POETA, MÍSTICO, REVOLUCIONÁRIO



 
Por Frei Betto


        Em 1987, Afonso Borges promoveu, como primeira atividade do Projeto Sempre Um Papo, de Belo Horizonte, o lançamento do meu romance O dia de Ângelo, no restaurante La Taberna, em Belo Horizonte. Contei a Afonso que, ano seguinte, Ernesto Cardenal iria a Minas. Afonso o convidou para proferir conferência no Cabaré Mineiro, restaurante que, de cabaré, só tinha o nome, e passara a receber o Sempre Um Papo. Cardenal, ex-monge trapista, reagiu: “Mas num cabaré?...”

        Encontrei Cardenal, pela primeira vez, em 1978, em sua trincheira de guerrilheiro Sandinista: os fundos de uma das seis livrarias que circundavam a Universidade Nacional da           Costa Rica. Já o admirava por sua obra. Seu En Cuba, relato de viagem à ilha em 1970, havia passado de cela em cela em meus tempos de cárcere em São Paulo, entre 1969 e 1973.

        Filho de uma das famílias mais ricas da Nicarágua, Cardenal preferiu não seguir o caminho de seu irmão Fernando, que ingressou na Ordem dos jesuítas. Em 1957, o jovem poeta tornou-se monge trapista nos EUA. Durante dois anos, teve como mestre de noviço o místico e escritor Thomas Merton. Ao deixar a vida monástica, estudou teologia em Medellín e, em 1965, foi ordenado sacerdote em Manágua. Identificado com a Teologia da Libertação, passou a viver na paradisíaca Ilha de Solentiname, no lago ao sul da Nicarágua, onde partilhava a vida comunitária de pescadores e camponeses.

       Ernesto nada tinha da figura estereotipada de um revolucionário. Baixa estatura, ombros largos e um jeito tímido de se aproximar das pessoas, olhos vivos por trás das lentes brancas acima do sorriso suave, dir-se-ia tratar-se de um monge ingênuo e despreocupado não fosse a boina azul, semelhante à do Che, derramando cachos prateados sobre as orelhas e a nuca. Sua jaqueta verde, sobre a bata branca, assemelhava-se à dos oficiais cubanos.

        Sua função na Frente Sandinista era viajar pelo mundo a fim de denunciar os crimes de Somoza e obter apoio político. Perguntei-lhe como conciliava a contemplação com a atividade revolucionária. “Não se opõem. Pode-se trabalhar pela revolução sendo contemplativo. No sentido tradicional, há uma dicotomia entre ação e contemplação. Porém, vivo a contemplação na ação.” E frisou: “A única mensagem do Evangelho é a revolução, que ele chama de Reino de Deus, exigência de superação de todas as marcas de pecado, injustiça e opressão, até que só o amor seja possível.”

        Indaguei-lhe sobre o caráter de sua obra poética. “Em um poema que dediquei a Dom Pedro Casaldáliga, digo que escrevo pela mesma razão dos profetas bíblicos, que faziam da poesia uma forma de denúncia de injustiças e anúncio de um novo tempo.”
        Em fevereiro de 1979, voltamos a nos encontrar em Puebla, no México, durante a Conferência Episcopal Latino-Americana. Ele convenceu bispos de todo o continente a assinarem uma carta contra a ditadura somozista.

        A 19 de julho de 1980, participei como convidado oficial das comemorações do primeiro aniversário da Revolução Sandinista. Ali reencontrei Cardenal, nomeado ministro da Cultura. Cinco anos depois ele participaria, em Havana, da solenidade na qual lancei Fidel e a Religião, ao lado de Fidel, Gabriel García Márquez e Chico Buarque.

        Durante a década de 1980, assessorei o movimento sandinista, que reunia cristãos e comunistas ateus nas questões de educação popular e na relação marxismo e cristianismo. Foi, então, que Cardenal me propôs organizarmos um movimento de jovens denominado MIRE (Mística e Revolução). A ideia nunca prosperou, exceto no Brasil, onde o movimento teve sua fase expressiva no início da década de 2000 e ainda hoje mantém núcleos em algumas regiões do país, principalmente no Nordeste. A proposta é vincular a espiritualidade mística, cultivada pela meditação, ao compromisso de transformação da sociedade.

        Em sua visita à Nicarágua, em 1983, o papa João Paulo II se recusou a estender à mão a Cardenal, ministro da Cultura, que integrava o cortejo oficial para recepcioná-lo. E, em público, o repreendeu, humilhou e, 1985, suspendeu-o de suas funções sacerdotais. O papa Francisco o reabilitou em 2019.

        Em 1994, Cardenal rompeu com a Frente Sandinista, por considerar que o governo de Daniel Ortega já não mantinha coerência com os princípios revolucionários nem atendia os anseios populares

        A última vez que nos vimos foi em La Paz, em 2008, quando intelectuais e artistas latino-americanos se reuniram para manifestar apoio ao governo de Evo Morales.

        Cardenal era um poeta consagrado internacionalmente, merecedor de vários prêmios literários importantes. Um de seus versos mais famosos é este epigrama dedicado a Cláudia, que reproduzo em tradução livre: “Ao perder eu a ti, tu e eu perdemos: / eu, porque tu eras a quem eu mais amava / e tu, porque eu era quem te amava mais. / Porém, de nós dois, tu perdeste mais que eu: / porque poderei amar a outras como amei a ti, / mas a ti não te amarão como eu te amava.”

        Seu poema, Cântico Cósmico, publicado em 1990, se estende por 600 páginas! É um primor de descrição da evolução do Universo e de toda a magnitude estética da Criação, o que levou o escritor Sérgio Ramirez a qualificar a obra de Cardenal de “poesia científica”.
        A obra se inicia c
om estes versos: “No princípio não havia nada / nem espaço, nem tempo. / O Universo inteiro concentrado no espaço do núcleo de um átomo / e, antes, ainda           menor, muito menor que um próton, / e, todavia, menor ainda / um infinitamente denso ponto matemático. / E ocorreu o Big Bang. / A Grande Explosão.

        E assim termina seu mais extenso poema: “E o que vemos quando olhamos o céu noturno? / De noite vemos apenas a expansão do Universo. / Galáxias e galáxias, e além mais galáxias e quasares. / E por detrás do espaço não veríamos nem galáxias nem quasares, mas um Universo no qual nada ainda se havia condensado, / um muro escuro, / antes do instante em que o Universo se tornou transparente. / E antes ainda, o que afinal veríamos? / Quando não havia nada. / No princípio...”

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.

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sexta-feira, 6 de abril de 2012

COMO DEUS EMERGE NO PROCESSO REVOLUCIONÁRIO?



por Leonardo Boff







A nova cosmologia, derivada das ciências do universo, da Terra e da vida, vem formulada no arco da evoluçãoampliada. Esta evolução não é linear. Conhece paradas, recuos, avanços, destruições em massa e novas retomadas. Mas, olhando-se para trás, o processo mostra uma direção: para frente e para cima.



Somos conscientes de querenomados cientistas se recusam a aceitar uma direcionalidade do universo. Ele seria simplesmente sem sentido. Outros, cito apenas um, como o conhecido físico da Grã-Bretanha Freeman Dyson que afirma:”Quanto mais examino o universo e estudo os detalhes de sua arquitetura, tanto mais evidências encontro de que ele, de alguma maneira, devia ter sabido que estávamos a caminho”.



De fato, olhando retrospectivamente o processso evolucionário que já possui 13,7 bilhõs de anos, não podemos negar que houve uma escalada ascendente: a energia virou matéria, a matéria se carregou de informações, o caos destrutivo se fez generativo, o simples se complexificou, e de um ser complexo surgiu a vida e da vida a consciência. Há um propósito que não pode ser negado. Efetivamente, se as coisas em seus mínimos detalhes, não tivessem ocorrido, como ocorreram, nós humanos não estaríamos aqui para falar destas coisas.


Escreveu com razão o conhecido matemático e físico Stephen Hawking em seu livro Uma nova história do tempo (2005):”tudo no universo precisou de um ajuste muito fino para possibilitar o desenvolvimento da vida; por exemplo, se acarga elétrica do elétron tivesse sido apenas ligeiramente diferente, teriadestruído o equilíbrio da força eletromagnética e gravitacional nas estrelas e, ou elas teriam sido incapazes de queimar o hidrogênio e o hélio, ou então não teriam explodido. De uma maneira ou de outra, a vida não poderia existir".


Como emerge Deus no processo cosmogênico? A ideia de Deus surge quando colocamos a questão: o que havia antes do big-bang? Quem deu o impulso inicial? O nada? Mas do nada nunca vem nada. Se apesar disso apareceram seres é sinal de que Alguém ou Algo os chamou à existência e os sustenta no ser.


O que podemos sensatamente dizer, é: antes do big bang existia o Incognscível e vigorava o Mistério. Sobre o Mistério e o Incognoscível, por definição, não se pode dizer literalmente nada. Por sua natureza, eles são antes das palavras, das energia,da matéria, do espaço e do tempo.
Ora, o Mistério e o Incognoscível são precisamente os nomes que as religiões e também o Cristianismo usam para significar aquilo que chamamos Deus. Diantedele mais vale o silêncio que a palavra. Não obstante, Ele pode ser percebido pela razão reverente e sentido pelo coração como uma Presença que enche o universo e faz surgir em nós o sentimento de grandeza, de majestade, de respeito e de veneração.


Colocados entre o céu e a terra, vendo as miríades de estrelas, retemos a respiração e nos enchemos de reverência. Naturalmente nos surgem as perguntas: Quem fez tudo isso? Quem se esconde atrás da Via-Lactea? Como disse o grande rabino Abraham Heschel de Nova York: “Em nossos escritórios refrigerados ou entre quatro paredes brancas de uma sala de aula podemos dizer qualquer coisa e duvidar de tudo. Mas inseridos na complexidade da natureza e imbuidos de sua beleza, não podemos calar. É impossível desprezar o irromper da aurora, ficar indiferentes diante do desabrochar de uma flor ou não quedar-se pasmados ao contemplar uma criançarecém-nascida”. Quase que espontaneamente dizemos: foi Deus quem colocou tudo em marcha. É Ele aFonte originária e o Abismo alimentador de tudo.


Outra questão importante é esta: que Deus quer expressar com a criação? Responder a isso não é preocupação apenas da consciência religiosa, mas da própria ciência. Sirva de ilustração o já citada Stephen Hawking, em seu conhecido livro Breve história do tempo (1992): “Se encontrarmos a resposta de por que nós e o universo existimos, teremos o triunfo definitivo da razão humana; porque, então, teremos atingido o conhecimento da mente de Deus”(p. 238). Até hoje os cientistas estão ainda buscando o desígnio escondido de Deus.


A partir de uma perspectiva religiosa, suscintamente, podemos dizer: O sentido do universo e de nossa própria existência consciente parece residir no fato de podermos ser o espelho no qual Deus mesmo se vê a si mesmo. Cria o universo como desbordamento de sua plenitude de ser, de bondade e de inteligência. Cria para fazer outros participarem de sua suberabundância. Cria o ser humano com consciência para que ele possa ouvir as mensagens que o universo nos quer comunicar, para que possa captar as histórias dos seres da criação, dos céus, dos mares, das florestas, dos animais e da próprio processo humano e religar tudo à Fonte originária de onde procedem.



O universo está ainda nascendo. A tendência é acabar de nascer e mostrar as suas potencialidades escondidas. Por isso, a expansão significa também revelação. Quando tudo tiver se realizado, então se dará a completa revelação do desígnio do Criador.