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sábado, 11 de dezembro de 2021

Um grande poeta

  


Prof. Martinho Condini

 

Há 73 anos, em 10 de dezembro de 1948 era publicada a Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas. E o que ouvimos do governo brasileiro sobre  essa data, nada, nenhuma palavra se quer (se falou, não ouvi). Isso só vem a confirmar o que já sabemos há três anos e se intensificou com a pandemia. Vivemos sobre as rédeas de um desgoverno: desqualificado, desorientado e desumano. Não quero ficar repetindo o que já estamos cansados de saber e dizer sobre este desgoverno, que em tão pouco tempo conseguiu destruir tudo o que havia de bom e que estava sendo construído com tanta luta e trabalho do nosso povo guerreiro, valente, corajoso, resistente e lutador.

Em homenagem a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a todas as brasileiras e brasileiros que lutaram e os que ainda lutam pelo respeito aos direitos humanos, apresento para àqueles que não conhecem o grande poeta amazonense Thiago de Mello, hoje com 96 anos. Um dos poetas mais influentes e respeitados no país, uma lenda da literatura regional. Suas obras foram traduzidas para mais de trinta idiomas. Durante a Ditadura Militar foi preso e exilou-se no Chile, onde se tornou amigo de Pablo Neruda. Foi reconhecido como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos, e manifestou em sua poesia o seu repúdio ao autoritarismo e à repressão.

Em tempos tão obscuros onde em nosso país o negacionismo e a mediocridade se estabeleceram como valores éticos e morais, se deliciar com Thiago de Mello nos lava a alma e nos alimenta de um esperançar que é possível ser feliz de novo. Caras companheiras e companheiros desfrutem e curtam essa bela poesia.

 

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobre tudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

 

quinta-feira, 5 de março de 2020

ERNESTO CARDENAL (1925-2020) POETA, MÍSTICO, REVOLUCIONÁRIO



 
Por Frei Betto


        Em 1987, Afonso Borges promoveu, como primeira atividade do Projeto Sempre Um Papo, de Belo Horizonte, o lançamento do meu romance O dia de Ângelo, no restaurante La Taberna, em Belo Horizonte. Contei a Afonso que, ano seguinte, Ernesto Cardenal iria a Minas. Afonso o convidou para proferir conferência no Cabaré Mineiro, restaurante que, de cabaré, só tinha o nome, e passara a receber o Sempre Um Papo. Cardenal, ex-monge trapista, reagiu: “Mas num cabaré?...”

        Encontrei Cardenal, pela primeira vez, em 1978, em sua trincheira de guerrilheiro Sandinista: os fundos de uma das seis livrarias que circundavam a Universidade Nacional da           Costa Rica. Já o admirava por sua obra. Seu En Cuba, relato de viagem à ilha em 1970, havia passado de cela em cela em meus tempos de cárcere em São Paulo, entre 1969 e 1973.

        Filho de uma das famílias mais ricas da Nicarágua, Cardenal preferiu não seguir o caminho de seu irmão Fernando, que ingressou na Ordem dos jesuítas. Em 1957, o jovem poeta tornou-se monge trapista nos EUA. Durante dois anos, teve como mestre de noviço o místico e escritor Thomas Merton. Ao deixar a vida monástica, estudou teologia em Medellín e, em 1965, foi ordenado sacerdote em Manágua. Identificado com a Teologia da Libertação, passou a viver na paradisíaca Ilha de Solentiname, no lago ao sul da Nicarágua, onde partilhava a vida comunitária de pescadores e camponeses.

       Ernesto nada tinha da figura estereotipada de um revolucionário. Baixa estatura, ombros largos e um jeito tímido de se aproximar das pessoas, olhos vivos por trás das lentes brancas acima do sorriso suave, dir-se-ia tratar-se de um monge ingênuo e despreocupado não fosse a boina azul, semelhante à do Che, derramando cachos prateados sobre as orelhas e a nuca. Sua jaqueta verde, sobre a bata branca, assemelhava-se à dos oficiais cubanos.

        Sua função na Frente Sandinista era viajar pelo mundo a fim de denunciar os crimes de Somoza e obter apoio político. Perguntei-lhe como conciliava a contemplação com a atividade revolucionária. “Não se opõem. Pode-se trabalhar pela revolução sendo contemplativo. No sentido tradicional, há uma dicotomia entre ação e contemplação. Porém, vivo a contemplação na ação.” E frisou: “A única mensagem do Evangelho é a revolução, que ele chama de Reino de Deus, exigência de superação de todas as marcas de pecado, injustiça e opressão, até que só o amor seja possível.”

        Indaguei-lhe sobre o caráter de sua obra poética. “Em um poema que dediquei a Dom Pedro Casaldáliga, digo que escrevo pela mesma razão dos profetas bíblicos, que faziam da poesia uma forma de denúncia de injustiças e anúncio de um novo tempo.”
        Em fevereiro de 1979, voltamos a nos encontrar em Puebla, no México, durante a Conferência Episcopal Latino-Americana. Ele convenceu bispos de todo o continente a assinarem uma carta contra a ditadura somozista.

        A 19 de julho de 1980, participei como convidado oficial das comemorações do primeiro aniversário da Revolução Sandinista. Ali reencontrei Cardenal, nomeado ministro da Cultura. Cinco anos depois ele participaria, em Havana, da solenidade na qual lancei Fidel e a Religião, ao lado de Fidel, Gabriel García Márquez e Chico Buarque.

        Durante a década de 1980, assessorei o movimento sandinista, que reunia cristãos e comunistas ateus nas questões de educação popular e na relação marxismo e cristianismo. Foi, então, que Cardenal me propôs organizarmos um movimento de jovens denominado MIRE (Mística e Revolução). A ideia nunca prosperou, exceto no Brasil, onde o movimento teve sua fase expressiva no início da década de 2000 e ainda hoje mantém núcleos em algumas regiões do país, principalmente no Nordeste. A proposta é vincular a espiritualidade mística, cultivada pela meditação, ao compromisso de transformação da sociedade.

        Em sua visita à Nicarágua, em 1983, o papa João Paulo II se recusou a estender à mão a Cardenal, ministro da Cultura, que integrava o cortejo oficial para recepcioná-lo. E, em público, o repreendeu, humilhou e, 1985, suspendeu-o de suas funções sacerdotais. O papa Francisco o reabilitou em 2019.

        Em 1994, Cardenal rompeu com a Frente Sandinista, por considerar que o governo de Daniel Ortega já não mantinha coerência com os princípios revolucionários nem atendia os anseios populares

        A última vez que nos vimos foi em La Paz, em 2008, quando intelectuais e artistas latino-americanos se reuniram para manifestar apoio ao governo de Evo Morales.

        Cardenal era um poeta consagrado internacionalmente, merecedor de vários prêmios literários importantes. Um de seus versos mais famosos é este epigrama dedicado a Cláudia, que reproduzo em tradução livre: “Ao perder eu a ti, tu e eu perdemos: / eu, porque tu eras a quem eu mais amava / e tu, porque eu era quem te amava mais. / Porém, de nós dois, tu perdeste mais que eu: / porque poderei amar a outras como amei a ti, / mas a ti não te amarão como eu te amava.”

        Seu poema, Cântico Cósmico, publicado em 1990, se estende por 600 páginas! É um primor de descrição da evolução do Universo e de toda a magnitude estética da Criação, o que levou o escritor Sérgio Ramirez a qualificar a obra de Cardenal de “poesia científica”.
        A obra se inicia c
om estes versos: “No princípio não havia nada / nem espaço, nem tempo. / O Universo inteiro concentrado no espaço do núcleo de um átomo / e, antes, ainda           menor, muito menor que um próton, / e, todavia, menor ainda / um infinitamente denso ponto matemático. / E ocorreu o Big Bang. / A Grande Explosão.

        E assim termina seu mais extenso poema: “E o que vemos quando olhamos o céu noturno? / De noite vemos apenas a expansão do Universo. / Galáxias e galáxias, e além mais galáxias e quasares. / E por detrás do espaço não veríamos nem galáxias nem quasares, mas um Universo no qual nada ainda se havia condensado, / um muro escuro, / antes do instante em que o Universo se tornou transparente. / E antes ainda, o que afinal veríamos? / Quando não havia nada. / No princípio...”

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.

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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

JOSÉ TOLENTINO: CARDEAL, POETA E PROFETA


 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 
Jorge Mario Bergoglio, papa Francisco, não cessa de surpreender os fiéis de sua Igreja, mas também o mundo, com suas iniciativas.  Entre essas surpresas encontram-se as nomeações para postos da hierarquia da Igreja e  posições-chave no tecido eclesial.  Os cardeais, figuras imediatamente próximas do papa, que garantem sua eleição no conclave, não escapam a essas surpreendentes dinâmicas.
É assim que temos visto nomeações para o cardinalato de padres que ainda não haviam sido ordenados bispos, pulando etapas na escalada hierárquica. É o caso do jesuíta tcheco Michael Czerny, extremamente atuante em El Salvador e ultimamente braço direito do papa no trabalho com os migrantes. Ou bispos auxiliares, não titulares de dioceses, recebendo o chapéu cardinalício. A exemplo do cardeal Rosa Chaves, de El Salvador, que de auxiliar da diocese de San Salvador passou diretamente ao cardinalato, sem haver sido o titular.  E recentemente tivemos a encantadora surpresa de ver um poeta nessa lista inesperada e improvável daqueles que são chamados príncipes da Igreja: dom José Tolentino.
Poeta dos mais inspirados, é filho de pescador nascido na bela e aprazível Ilha da Madeira. Doutor em Teologia Bíblica, sempre se moveu no universo da cultura. Seu conhecimento das Escrituras Sagradas vai de par com seu amor pelas Escrituras produzidas pelo gênio e a imaginação humanos.  No estudo da Bíblia, aborda temas e textos do cânon cristão dialogando sempre com as questões sociais e culturais do presente.  A relação entre Cristianismo e Cultura é um ponto chave do seu percurso.
Dom Tolentino é autor de abundante obra literária, na qual incluem-se inúmeros ensaios, além de uma robusta e inspirada obra poética. Ao mesmo tempo em que se move nos círculos literários e culturais portugueses, europeus, norte e latino-americanos, assina crônica semanal no jornal Expresso e recebe prêmios dentro e fora de Portugal pelos livros que publica. 
Distingue-se pela beleza do texto e preocupação não só estética, mas também e não menos profética daquilo que escreve. Em recente entrevista ao Diário de Notícias, importante periódico de Portugal, ressaltou a importância que dá à dimensão profética do Cristianismo, tão constitutiva desde suas origens e muitas vezes tão pouco compreendida até mesmo em círculos internos da Igreja. Afirmou que o catolicismo, sem uma inscrição à esquerda, perde uma potencialidade profética que lhe é absolutamente indispensável. 
O novo cardeal deplora que se sinta hoje uma ausência de atores que possam trazer para o debate eclesial questões que normalmente estão associadas à esquerda. Reconhece, no entanto, que o papa Francisco tem sido esse ator, trazendo à frente do espaço público as questões da justiça, da equidade e da paz.  Por isso, avalia dom Tolentino, há tanta oposição e tanta discussão com o papa.
O cardeal poeta constata que surpreendentemente, enquanto a sociedade secular ouve com atenção o que diz Francisco e cita permanentemente suas palavras no espaço público, há um importante setor à direita que se sente profundamente incomodado com o bispo de Roma, sentindo “uma necessidade de estar sempre a traduzir o seu magistério, como se ele não falasse claro e fosse necessário mitigar o impacto do seu posicionamento e do seu magistério.” 
Não poderíamos estar mais de acordo com o novo cardeal.  Cada vez que Francisco fala e age, sempre que surpreende o mundo com seu estilo direto e evangélico, não falta quem venha rapidamente tentar fazer uma interpretação tentando dizer que ele não disse o que pareceu dizer.
Os poetas que vivem perto da beleza e da verdade sabem que, de fato, o papa queria, sim, dizer o que disse e o que tem dito.  E dom Tolentino sintoniza com ele quanto ao fundo e à forma.  O pastor e o poeta, um com seu magistério, outro com sua arte e poética têm em comum uma teologia feita de sede de sentido para a vida, sede de justiça, liberdade e vida plena, prenhes de fé na humanidade. 
Assim como Francisco visibiliza a Igreja enquanto sacramento de Cristo, que por sua vez é sacramento do Pai, o cardeal Tolentino se autocompreende enquanto fruto da alteridade salvadora e epifânica dos irmãos e irmãs em humanidade.  Afirma ser uma obra dos outros viver com eles uma relação permanente, em uma comunidade que marca sua vida. “Realizo-me nessa espécie de tráfego quotidiano que me aproxima e reenvia quotidianamente para os outros.” Assim se define José Tolentino Mendonça.  E quem o conhece, reforça; “É um homem que vive para os outros.” 
Ao saber de sua nomeação como cardeal, juntamente com a amizade que por ele experimentamos, não podemos menos do que maravilhar-nos com mais essa deliciosa surpresa que nos oferece Francisco.  Foram tantas já, desde o início do seu pontificado.  Mas agora, esse presente de um cardeal poeta...  Que maravilha Santo Padre!  Que a liberdade do Espírito continue sendo a marca registrada de seu pontificado. 
Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc), entre outros livros.
  Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sábado, 31 de janeiro de 2015

THOMAS MERTON: AMANTE E POETA DA CRIAÇÃO




Por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do departamento de teologia da PUC-Rio

 
No dia 31 de janeiro de 2015 completaria 100 anos um dos maiores místicos e escritores do século XX: o trapista Thomas Merton.  Convertido tardiamente e entrando no mosteiro trapista já adulto, Merton foi aos poucos convertendo-se em um prolífico escritor.  De sua pena saem não apenas belíssimos escritos místicos, mas igualmente temas candentes e atuais que não apenas respondem como também antecipam algumas das grandes questões da agenda contemporânea.
Uma delas é a ecologia. A questão da terra e da relação predatória que o ser humano, sobretudo o ser humano moderno, tem com o planeta tornou-se prioridade nas inquietações da humanidade nos dias de hoje. A real ameaça do esgotamento dos recursos naturais e o perigo de uma catástrofe planetária preocupam cada vez mais intelectuais e pensadores. Por outro lado, o surgimento de movimentos religiosos, espirituais e místicos centrados na contemplação da natureza e da comunhão com o cosmo demonstram como as experiências místicas e as reflexões de Merton anteciparam muitos caminhos que hoje a humanidade deveria trilhar com mais respeito e atenção.
O mundo da natureza e da criação não é tão explorado quando se fala da contribuição de Merton aos conturbados tempos modernos e pós-modernos. No entanto, este mundo desempenhou uma base estática de enorme importância em sua experiência de Deus. A leitura de seus escritos, segundo os especialistas, converge na demonstração de uma relação íntima e progressiva de formato esponsal com a criação como corpo da divindade, ao mesmo tempo velando e revelando o Deus que ele tanto suspirava por ver, tal como por ser visto e conhecido.
Assim é quando descreve o seu viver em meio à floresta como uma necessidade imperiosa e não um luxo excêntrico, como poderiam pensar alguns. Vale a pena citar suas próprias palavras: “(...) Eu vivo na floresta por necessidade. Saio da cama no meio da noite porque é imperativo que eu escute o silêncio da noite, sozinho e, com meu rosto em terra, recite salmos, sozinho, no silêncio da noite... O silêncio da floresta é minha noiva e o doce e escuro calor do mundo inteiro é meu amor e do coração deste escuro calor emerge o segredo que é ouvido somente no silêncio, mas é a raiz de todos os segredos que são sussurrados por todos os amantes em suas camas pelo mundo inteiro.”
Segundo seus mais ilustres estudiosos, Merton passou toda a sua vida monástica escutando este segredo que pulsa no coração da criação e desposou a floresta de maneira a poder escutar com total arrebatamento e compromisso, tal como o esposo faz com a esposa, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando e respeitando todos os dias da vida até que a morte separe”...
O monaquismo sempre se distinguiu por esse contato direto, de pele com pele com a natureza e a criação. Seja o deserto ou as florestas, vamos encontrar  homens e mulheres de Deus fazendo suas experiências místicas e adquirindo sua infusa sabedoria vinda diretamente da divindade em estreito e amoroso contato com a criação. Com Merton não foi diferente. Assim é que, quando o abade o nomeou guarda-florestal do mosteiro, o que implicava restaurar os bosques que haviam sido despojados e podados uma década antes, sua experiência de solidão e paixão pela natureza se radicalizou. Já não era percebida como uma privação de propósitos intelectuais, mas uma oportunidade de um compromisso corpóreo, carnal, com toda uma comunidade de sabedoria em silenciosa participação com a vitalidade das coisas vivas.
Descobriu nessa sua sempre maior comunhão com a natureza que plantar, adubar e arar eram atividades que aumentavam seus outros compromissos monásticos como esposo da natureza. Pois não é o esposo que acaricia a amada, a prepara para a fecundação, a fecunda? O que mais faz o jardineiro com a terra, com a natureza, senão isso? Merton vai descobrir em meio a essa experiência que o verdadeiro mentor e diretor de almas era a natureza em si mesma.
Seu matrimônio com a floresta intensificou-se em 1960, quando foi residir no eremitério instalado no Monte Olivet.  Ali encontrou uma comunidade maior e um coro incomparável de seres vivos que despertavam toda manhã sob seus pés: os cursos d´água, os campos, as árvores, as rãs, os pássaros, as flores. Tudo isso fez de seu louvor e de seus votos monásticos “o silêncio sob sua canção”, a canção de todos aqueles seres vivos que ouvia e aos quais respondia com seus salmos, e com os quais enchia o campo e a natureza.
Ora, o que ouvia Merton em seus êxtases em meio à natureza? Ouvia, segundo suas próprias palavras, o doce cantar das coisas vivas, visíveis e invisíveis. E a esse coro juntava-se, monge solitário, oferecendo cânticos e salmos de glória e ação de graças unido a toda a humanidade. Sua subjetividade, única, desejada e amada pelo Criador desde toda a eternidade abre-se ao cosmos com admiração e reverência, murmurando no silêncio um louvor que se une ao hino do universo inteiro, arrebatador e fulgurante. 
Merton buscou Deus de forma incessante e apaixonada. Era muito culto, havia estudado a rica biblioteca do mosteiro, sido mestre de noviços etc. No entanto, encontrou na festa multicor e polifacetada da criação divina uma sabedoria nunca vista ou suspeitada, que despertou em seus sentidos espirituais uma familiaridade primordial com as criaturas.
Sem haver escrito nenhum livro que traçasse explicitamente esta rota através da criação para a comunhão com a divindade, Thomas Merton diz à humanidade hoje que a vocação humana é, em última instância, ser “um jardineiro do paraíso’”.
  A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 

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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Vinicius: poeta do amor, cantor da mulher



Por Maria Clara Lucchetti Bingemer   



           O uso e o quase abuso dos diminutivos pontilhavam sempre as palavras e o discurso de Vinicius de Moraes.  E por isso só consigo referir-me a ele como “o poetinha”.  Mas não vá nisso nenhuma insinuação de que fosse um poeta “menor” ou menos importante. 
          O diminutivo aí não atinge nem afeta a qualidade.  É questão de estilo.  Estilo informal, meigo, próximo e coloquial.  Estilo amoroso e carinhoso, sobretudo quando se tratava de cantar a mulher, esse ser que ele apreciava e admirava mais que tudo e que não cessou de cantar com sua inspirada lira.
          Até a Pátria, o Brasil tão amado que tanto lhe doía na saudade dos exílios diplomáticos, Vinicius chamava no diminutivo: “Patriazinha”.  “Não te direi o nome, pátria minha/ Teu nome é pátria amada, é patriazinha.”  Distante das grandiloquências das quais é pródigo nosso hino – lábaro estrelado, mãe gentil, terra garrida – o poeta só se refere à pátria com um misto de ternura e compaixão que o faz ter sentimentos paterno-maternais para com a nação que deveria inspirar-lhe ardores fiéis e filiais.
          Esse jeito carinhoso de ser, de voltar-se com ternura para tudo que existe, Vinicius o derramou em sua poesia, sobretudo nos versos em que cantou o amor, a mais bela experiência humana.  E parece-me que raros poetas o fizeram como ele. 
          Vinicius amou e foi amado.  Intensamente, prodigamente, pluralmente.  Sentiu a maravilha de ser amado e a dor de não mais o ser.  Arriscou-se em amores desesperados e colheu solidões que pareciam não ter fim.  Sentiu a magia dos corpos reunindo-se e explodindo em vida com sabor de eternidade e mastigou a dura e amarga experiência do final do êxtase e da queda na banalidade.
          Por isso escreveu tão bem sobre o amor entre o homem e a mulher,  “que não seja imortal, posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure”.  Avisou aos mais jovens e inexperientes que “são demais os perigos desta vida/ pra quem tem paixão”. E entoou o lamento que mais o imortalizou, ao proclamar sem medo que “tristeza não tem fim/felicidade sim”. Especialmente sensível era o poetinha à fragilidade dos momentos felizes, à vulnerabilidade das exaltações momentâneas da paixão.  Sabia por experiência própria que amanhã jazeriam mortas de velhice, ou de desgaste, ou de cansaço.  E “de repente do riso se faria o pranto... e das bocas unidas a espuma... e das mãos espalmadas o espanto.”
          Sua lira não parava de extasiar-se e reinventar-se diante da mulher, de seu encanto, sua graça, sua beleza.  De certa forma, impiedoso: “As muito feias que me perdoem/ Mas beleza é fundamental”, continuava, porém delicado, sensível e deslumbrado a dizer que era “preciso que o rosto da mulher adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.” Não importa se vestida de alta costura ou de azul como na revolução chinesa, o poetinha louvará sempre a mulher, que “em sua incalculável imperfeição / constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.”
          Porém crítico era igualmente o poetinha com as anti-mulheres: “as mulheres inorgânicas/frias estátuas de talco/com hálito de champagne/ e pernas de salto alto”; mulheres a quem “o gênio enfastia/ e a estupidez diverte”.  Atento à justiça e à injustiça à sua volta,  amava a mulher que não se deixava tragar na futilidade como em gelado ataúde de cristal, nem se mascarava com maquiagens de cal.
          Vinicius era poeta amante.  Feito para a paixão, o carinho e o cantar da beleza do amor e das parceiras do amor: as mulheres.  Compôs muitos poemas e também canções, levantando bem alto a bandeira da beleza feminina.  Algumas passaram as fronteiras do país e chegaram até todos os hemisférios, tornando-se verdadeiros hinos como Garota de Ipanema.
          Já outras, mais profundas e de difícil assimilação e conturbada poesia, cantam a mulher como mistério. Como a canção aos olhos da amada, os quais compara a cais noturnos, cheios de adeus; a docas mansas cheias dos segredos de navios, de saveiros, de naufrágios.  A esta mulher que eram e que são todas as mulheres, deslumbrantes, maravilhantes, extasiantes, o poeta cantou durante toda a vida até que o canto se lhe apagou como acontece com a cigarra.
          A mulher amada pelo amável e amante poetinha, Vinicius de Moraes tinha olhos ateus, mas podia criar esperança nos olhos seus. Pois se Deus houvera, - afirmava o poetinha, resistente à tentação da fé - fizera-os Deus.  A poesia e a música de Vinicius de Moraes, que se quer ateia e não batizada, ao contemplar a beleza feminina explode em canto que é louvor sem instituição, hino sem igreja, júbilo puro pela criação que  revela o Criador ainda que sem dar-lhe nome.
          Por tudo isso e mais que isso, em seu centenário, as mulheres lhe rendem preito.  E todos aqueles que buscam o amor em cada passo da vida curvam-se ante o poetinha,  que em sua vida que hoje seria centenária outra coisa não fez senão cantar o amor.

       Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Ri. A    teóloga é autora de “O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora Rocco.
 Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

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