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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

AMAZÔNIA, O ROSTO ECOLÓGICO DE DEUS





Frei Betto
 *Artigo originalmente publicado no jornal O Globo

       O Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco para outubro, terá lugar em Roma, numa decisão equivocada do Vaticano, pois fora agendado, de início, para ocorrer no coração da selva. Ali se debaterá mais do que a presença da Igreja Católica naquela região interconectada e cada vez mais violenta e desigual.
       O bioma amazônico engloba nove países e ocupa mais de 7 milhões de km² habitados por 34 milhões de pessoas, das quais 3 milhões são indígenas, que dominam 340 diferentes idiomas. Ali, cada metro quadrado tem mais diversidade do que qualquer outro lugar do planeta. O bioma possui três tipos de rios: os de superfície; o subterrâneo, conhecido como “alter do chão”; e os “rios voadores”, assim chamados por acumular vapor na atmosfera e distribui-lo em forma de chuva em toda a América do Sul.
       A Amazônia exerce forte relevância no ciclo do carbono, ao absorvê-lo em bilhões de árvores e impedir sua liberação na atmosfera em forma de gás. Reduz, assim, o aquecimento da Terra.
       As quatro dádivas da região são: povos que sabem viver da selva e na selva, sem ameaçá-la; o ciclo das águas e do carbono; a biodiversidade; e a regulação do clima.
       Segundo o papa Francisco, “os povos amazônicos originários nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como agora”. Em sua sabedoria ancestral, eles nos ensinam a se relacionar com a natureza, os demais seres humanos e Deus. No entanto, agora são vítimas de assassinatos, expulsões de suas terras, ação de grileiros e mineradoras, desmatamento, e proibição de se reunir e organizar.
       A Igreja tem consciência de que, se agora defende a causa indígena, pela qual há tantos mártires, por outro lado ainda não se libertou da influência do projeto colonizador que vigorou no passado. O Sínodo busca justamente implantar uma Igreja pós-colonial e solidária, com rosto amazônico e indígena. Para a Igreja, a região é muito mais do que um lugar geográfico; é também um lugar teológico, no qual transparece a face de Deus criador.
       Não há como manter a floresta de pé sem a sabedoria dos povos que a habitam. O “capitalismo verde” não convém, pois se rege pelas leis do mercado e busca patentear princípios e essências, privatizar a água e promover a pirataria dos saberes populares.
       Os povos indígenas guardam ainda uma sintonia holística com o Cosmo. Seus sentidos aguçados estabelecem um diálogo permanente com a natureza. Conhecem cada ruído, prenunciam a chegada da chuva ou da seca, identificam os recursos medicinais das ervas. O índio não é um indivíduo na natureza. Seu corpo, o território no qual habita e a natureza formam uma unidade.
        Os indígenas respiram uma cultura que se traduz, de fato, em espiritualidade da reciprocidade. Através de ritos e festas, celebram a exuberância da natureza e exorcizam os espíritos malignos. Sem recorrer à escrita, passam de geração a geração a cultura do cuidado da floresta e do respeito a todos os seres vivos.
       Para eles, a terra não é um bem econômico, e sim dom gratuito de Deus no qual descansam seus antepassados, e espaço sagrado com o qual interagem para preservar sua identidade e valores.
       Sofrem, no entanto, sérias ameaças de uma equivocada concepção de desenvolvimento e riqueza que lhes cobiçam as terras para implantar projetos extrativos e agropecuários, indiferentes à degradação da natureza e à destruição de suas culturas.
       Cinco grandes sintomas da crise planetária se manifestam na Amazônia: 1) mudança climática; 2) envenenamento da água; 3) perda da biodiversidade; 4) degradação da qualidade de vida humana e da natureza; 5) conflitos sociais marcados por violência e assassinatos.
       A convocação do Sínodo Panamazônico pelo papa Francisco é uma boa nova para toda a humanidade.

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.
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terça-feira, 31 de maio de 2016

O ROSTO FEMININO DE DEUS


Por Marcelo Barros


No dia 12 de maio, ao receber no Vaticano 900 religiosas da União dos Superiores de Congregações Religiosas, o papa se dispôs a responder a perguntas das irmãs. As questões tinham sido enviadas com antecedência e uma delas queria saber se a hierarquia da Igreja poderia abrir o diaconato para mulheres. O papa respondeu como algo espontâneo e simples: “- Sim. Podemos abrir uma comissão de estudos sobre isso. Aceito a sugestão e prometo fazer isso”. Os dois últimos papas antes de Francisco haviam fechado qualquer possibilidade de abertura sobre esse assunto. Na ocasião do jubileu do ano 2000, o cardeal Carlo Martini, arcebispo de Milão, tinha declarado: “Na história da Igreja, já houve diaconisas. Podemos pensar nessa possibilidade”.

Para a Igreja, abrir à mulher a possibilidade de receber um ministério ordenado é uma mudança mais básica e importante do que qualquer outra. Atualmente, os pastores da Igreja refletem sobre como atualizar o diálogo com a humanidade sobre questões de moral sexual. Há quem pense que o essencial é o caminho ecumênico – a unidade das Igrejas. No entanto, o reconhecimento da igualdade entre homem e mulher no que diz respeito também ao direito de exercer ministérios é uma questão básica de justiça. O fato de que a sociedade antiga era patriarcal não justifica que nós o sejamos. Contra a cultura discriminadora da sua época, Jesus se relacionou com homens e mulheres e tinha um grupo de mulheres que o seguia, como faziam os apóstolos (Cf. Lc 18, 1 – 3). Na carta aos gálatas, Paulo escrevia: “Homens e mulheres, judeus e gregos, somos uma coisa só no Cristo Jesus” (Gl 3, 27- 28). Essa abertura de Jesus e do seu primeiro grupo às mulheres pode ser considerado a semente do movimento pela promoção da mulher em todo o mundo. Por isso, é importante voltar a essa sensibilidade e superar séculos de discriminação e de justificativas teológicas e bíblicas para a marginalização da mulher nas Igrejas.

O papa vai instituir uma comissão de peritos para estudar os textos do Novo Testamento e dos primeiros séculos do Cristianismo. É certo que as Igrejas antigas tinham diaconisas, mas não é claro que função elas tinham nas comunidades. Talvez os estudiosos cheguem à conclusão de que as diaconisas se encarregavam de trabalhos sociais de ajuda aos mais pobres e fracos. No entanto, não se sabe se, para isso, eram ordenadas. Alguns usam essa dúvida como argumento para ser contrários hoje à ordenação de diaconisas. Isso não parece argumento justo, já que também não é claro se no primeiro século os próprios homens eram ordenados. Só com o tempo, as comunidades cristãs foram definindo os ministérios e a especificidade de cada um. Como a história não é clara, para sermos justos na pesquisa, é bom ter claro o objetivo:

Logo depois de ter aberto essa discussão, o papa Francisco esclareceu que o importante é que esse passo não venha clericalizar os serviços que as mulheres já prestam e sim nos leve a uma valorização real da função da mulher na Igreja. De fato, o estilo dos ministérios, hoje, praticados nas Igrejas têm uma base evangélica, mas foram concebidos e organizados levando em conta as culturas  do mundo antigo. Das religiões do Império Romano, os ministérios cristãos receberam uma auréola de sacralidade, como se, nas comunidades do Evangelho, houvesse cristãos que, por seu ministério, fossem mais sagrados do que outros. Ainda bem que o Concílio Vaticano II retomou para a Igreja Católica a valorização do sacerdócio comum de todos as pessoas batizadas. Não conseguiu aprofundar a relação entre os ministérios ordenados e o sacerdócio do batismo, mas deixou claro que tem uma profunda conexão. 

Infelizmente, até hoje, a imagem predominante nas comunidades ainda é a do padre, homem do sagrado e profissional do culto. Se ficarmos presos a essa ótica da Cristandade medieval, a conclusão sobre o diaconato feminino será negativa e é melhor que o seja. É preciso voltar à simplicidade do evangelho e à concepção de uma comunidade toda ela ministerial. Então, a ordenação não será apenas um grau de poder. Será, sim, uma benção para um serviço a cumprir. Então,  homens e mulheres, poderão receber uma ordenação que é sacramental no sentido de visibilizar e valorizar uma missão que já existe na prática e, de fato, muitas mulheres já a exercem nas comunidades. O diaconato feminino revelará mais ainda o rosto feminino de Deus que nos acolhe no seu útero de misericórdia e nos faz nascer de novo para  uma vida nova.
  

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 


    

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O rosto do outro



por Marcelo Barros



Nesses dias, a imprensa brasileira discute se artistas e pessoas famosas têm ou não direito de impedirem a publicação de biografias suas não autorizadas. Também aparecem na mídia projetos de leis que criminalizam manifestantes de rua que usam máscaras em seus protestos. Pode se pensar que os dois assuntos nada tenham em comum. Entretanto, nos dois casos, discute-se o direito às máscaras, sejam aquelas feitas de pano e coladas ao rosto, sejam máscaras sociais que cada um vai tecendo no próprio corpo, ao longo da vida. Sem dúvida, todo ser humano tem direito à sua intimidade, como também à sua honra. No entanto, a sociedade do espetáculo cobra sempre mais. E quem, um dia, fez tudo para aparecer, certamente, agora que é famoso, vai ter mais dificuldade para evitar uma exposição indevida da sua vida privada. 

De certo modo, toda pessoa convive com alguma máscara. Os antigos chamavam de “persona” a máscara usada no teatro grego. Foi a origem das personagens de romances e mitos modernos da vida social. Em uma sociedade das aparências, o grande desafio é o da viagem interior em busca do mais profundo do ser. Um mito grego dizia que Deus (Júpiter), espantado com a capacidade do ser humano de usar seus atributos divinos para dominar e destruir, escondeu o segredo da divindade em um lugar que julgava inacessível ao ser humano. Assim, mesmo que as pessoas o buscassem no espaço sideral ou no mais fundo do mar, nunca podiam encontrá-lo. Júpiter escondeu o segredo da divindade no mais fundo do próprio coração humano. Se as pessoas não são capazes de mergulhar no mais íntimo de si mesmas, jamais descobrirão a capacidade de ser tão humanas que se tornam divinas.

Emmanuel Levinas foi um dos maiores filósofos do século XX. Discípulo de Martin Heidegger, do qual se separou por causa do nazismo e do judeu Franz Rosenzweig, a quem muito admirou, exilou-se na França, onde, até a sua morte no Natal de 1995, exerceu o ministério de professor e ajudou o mundo como pensador original e instigante. No mundo inteiro, a cada ano, nesse mês do seu nascimento (novembro de 1906), círculos filosóficos de todo o mundo recordam o essencial do seu pensamento. Levinas é o filósofo da alteridade. Ele ensinava que o ser humano se descobre como alguém chamado a viver a justiça e a solidariedade ao ter a coragem de ver o rosto do outro como ele é: diferente de si e ao mesmo tempo, merecedor de nossa responsabilidade. Para Levinas, a Ética e não a Ontologia é a filosofia mais importante. E todo ser humano se torna ético ao ser defrontado e levar a sério o rosto do outro. É o rosto do outro que revela a cada um como o ser humano é levado a crescer a partir da descoberta da alteridade. O outro é o diferente e essa diferença é irredutível e irremissível. Não é possível reduzí-lo à imagem interior que temos dele ou dela em nós mesmos. Só quando vamos ao encontro dessa alteridade, expressa no rosto do outro, podemos encontrar sentido para a vida e podemos nos realizar profundamente. É claro que ele não falava de uma sociedade na qual as pessoas fazem operações plásticas que tornam o rosto uma máscara que pode ser mais bela, mas não é mais verdadeira. Todo mundo tem, sim, direito a se embelezar, mas há uma identidade do rosto que é mais profunda e ali se torna necessário assumir as rugas da dureza nossa de cada dia. Inclusive, a própria descoberta do mistério mais profundo (Deus) só pode ser feita a partir dessa peregrinação ao verdadeiro rosto do outro. É no rosto do outro que descobrimos o infinito (do seu livro “O infinito e a totalidade”).

No mundo atual, há certa crise nas religiões institucionais. Mas, prolifera uma busca profunda de caminhos espirituais, alguns religiosos e outros, não. Seja nas tradições espirituais, seja fora delas, o caminho para a intimidade com o mistério consiste exatamente na pessoa tornar-se capaz de superar o amor egocêntrico e voltado para si mesmo e ir além do sentimento de pertença etnocêntrica ao clã, à Igreja, à nação e a qualquer outra entidade coletiva que se defina como “nós” para chegar à dimensão cósmica do amor aberto, universal e incondicional. Aí sim, a pessoa se torna divina. Todos somos chamados/as para esse modo de amar. Como escreveu São João: “cremos no amor e temos a experiência de viver esse amor, porque Deus é amor e quem vive o amor, vive em Deus e Deus vive naquela pessoa” (1 Jo 4, 16).


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br
 
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