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terça-feira, 3 de novembro de 2015

O SEGREDO DO BEM VIVER


Por Marcelo Barros


Quem passa pelo sertão nordestino se depara com paisagens de seca que parecem cenários de filmes de guerra depois da destruição.

No entanto, muitas pessoas que vivem no semiárido conseguem não só sobreviver, mas realizar projetos maravilhosos e dar testemunho de alegria e paz. Não é fácil compreender o segredo dessa energia de vida que ilumina o olhar da pessoa humana e a torna vencedora, mesmo nas mais duras condições de vida. É uma mística, segredo que dá força a essas pessoas e comunidades. Mística tem a mesma raiz de mistério. Diz respeito à intimidade mais profunda que motiva e impulsiona a vida interior de alguém e de um grupo.

Desde muito antigamente, as tradições orientais do Hinduísmo e do Budismo presenteiam a humanidade com místicas que ensinam a lidar com o sofrimento, a pobreza e a luta da vida. Hoje existem terapias baseadas em métodos de respiração oriental. Outras tradições espirituais como o Xamanismo também têm propostas místicas que ajudam a resistência. Alguns grupos contemporâneos desenvolvem um tipo de espiritualidade baseada na autoajuda, em cuidados consigo mesmo e com a saúde. São caminhos legítimos, mas só podem se chamar verdadeiramente espirituais quando vão além de um cuidado egoísta de cada um consigo mesmo para pôr as pessoas em comunhão umas com os outras e com o cosmos.


Todo ser humano é guiado por impulsos profundos que condicionam o seu modo de ser e de viver. Há pessoas que se movem e vivem pelo impulso de possuir. Querem sempre ter coisas e, mesmo quando se relacionam com os outros, é para possuir. Esse impulso de apropriação fortalece o instinto individualista. 

Ao contrário, há pessoas e grupos que desenvolvem a cultura de valorizar o que é comum a todos. Na África, os Zulus ensinam o princípio do Ubuntu: “Eu existo porque nós existimos”. Na América Latina, a concepção do bem viver e bem conviver  tem sido espalhada por várias culturas indígenas. Segundo esse modo de ver a vida, a felicidade está em dar-se e em construir relações verdadeiramente baseadas no amor solidário e nos bens comuns. Assim, se enfrenta melhor o medo do desconhecido, a fragilidade da idade e se cria um convívio de justiça e não violência. Não se trata só de educação social, mas de uma verdadeira mística plantada no mais íntimo de cada pessoa. 

Em um mundo agitado e uma sociedade agressivamente competitiva, a contribuição mais importante de uma mística, seja cristã, seja de outra religião, é nos tornar capazes de sermos pessoas de profunda escuta do outro, capazes de comunhão universal e profundamente solidários com o destino da humanidade. Para aprofundar a comunhão com o outro, é importante saber conviver de modo mais profundo consigo/a mesmo/a. 

Até a intimidade com Deus depende do diálogo interior de cada pessoa consigo mesma. Na Bíblia, um salmo ora: “Unifica o meu coração, para eu viver na intimidade do teu amor” (Sl 86, 11). Os místicos antigos se chamavam monges (o termo grego monos quer dizer uno) porque viviam para alcançar a unidade interior. São Gregório escreveu sobre São Bento que ele “habitava consigo mesmo”. 

Essa busca da unidade interior é graça divina, mas pede um cultivo. Não acontece espontaneamente e sem método. Alguns elementos desse caminho são universais e ecumênicos. Outros são próprios de uma ou outra tradição. O Cristianismo antigo herdou das religiões orientais a técnica da meditação. Refez costumes como a peregrinação e a importância da solidariedade e da partilha. Essas duas dimensões (a interior e a social) se completam uma a outra. 

O Budismo faz da esmola uma exigência prévia para alguém ser monge. O Islã também põe a misericórdia com o outro como mandamento fundamental. O Cristianismo insiste que, se a gente não se relaciona com o irmão a quem vê, não pode se relacionar com Deus a quem não vê (Cf. 1 Jo 4, 20). Dietrich Bonhoeffer, teólogo, vítima do nazismo, dizia: “O Cristo está em mim para você e está em você para mim. Ele está em mim, mas eu só o encontro em você. Está em você, mas você só pode encontrá-lo em mim”. Na primeira vez em que veio a São Paulo, o Dalai Lama afirmou: “Toda pessoa tem dentro de si uma semente de compaixão. É preciso desenvolvê-la”. 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Segredo para ser jovem



Por MARCELO BARROS 


Nessa semana, no Rio de Janeiro ocorre a Jornada Mundial da Juventude, promovida pela Igreja Católica e com a presença do papa Francisco. Delegações de jovens de vários países do mundo chegaram ao Rio e, como sempre, onde há juventude, há espontaneidade, alegria e se respira a esperança de um mundo novo possível. Apesar de que se trata de um encontro de jovens católicos com o papa e a organização não parece ter previsto um caráter mais ecumênico e aberto aos problemas do mundo, a própria concentração da juventude já abre fronteiras e indica passos novos.  

Às vezes, nas instituições eclesiásticas e nas organizações do mundo, nem sempre juventude é sinal de abertura ao novo. Em alguns setores, encontramos jovens de idade mais conservadores e fechados ao hoje do mundo do que pessoas da geração dos 60. Outro dia, um professor de Universidade se queixava: “Não é normal que meu filho seja mais conservador e fechado do que os da minha geração”. E alguém respondeu: “Seu filho é seu filho, mas é também filho dos meios de comunicação e da escola que o formam assim”. E outra pessoa lembrava que, na Alemanha dos anos 30, foi principalmente com o apoio forte da juventude que Hitler ganhou poder e promoveu o nazismo. Hoje, nas Igrejas, os movimentos mais fundamentalistas e fanáticos crescem mais no meio dos jovens do que de pessoas mais adultas. Entretanto, essa não é a vocação da juventude e nem o rosto da maioria dos jovens do mundo.  

O segredo da juventude está em sua abertura para o hoje do mundo. Como se manter jovem e aberto sempre foi um tema que interessou a muita gente. Hoje, mulheres e homens fazem cirurgia plástica, esticam a pele e mudam de aparência para parecer mais jovens do que são. Isso significa que amam a vida e têm uma justa autoestima. No entanto, não existem cirurgias plásticas para o espírito. Mesmo com aparência mais juvenil, alguém pode envelhecer mal e de forma amarga. Desde o mundo antigo, os gregos falavam da fonte da juventude e no tempo da colonização da América, os conquistadores a buscaram na Flórida e no Eldorado perdido em meio à cordilheira. Nunca a encontraram. 

No evangelho de João, o fariseu Nicodemos pergunta a Jesus como alguém pode se tornar jovem já sendo idoso. Jesus responde que deve deixar-se mover pelo Espírito e esse sopro divino o renovará. Mas, é preciso como um novo nascimento. 

Em princípio, alguém pertence a uma Igreja para que ela o ajude nesse caminho da renovação interior e profunda. Jesus diz que o pastor é alguém que não mantém as ovelhas presas no aprisco, mas, ao contrário, abre a porta dos currais e abrigos onde elas estão contidas, chama cada uma pelo nome e as leva para fora. O pastor não é o controlador do rebanho que caminha atrás de todos, na retranca dos acontecimentos, na retaguarda dos pensamentos e da vida, mas, ao contrário, vai à frente das ovelhas, conduzindo-as para onde houver alimento e bebida (Cf. Jo10, 1 ss). Em um mundo que, tanto no plano fisiológico, como no nível da cultura, envelhece rapidamente, é importante que as Igrejas e religiões redescubram a sua missão de ser como a parte mais renovadora da humanidade e que ajudem a toda pessoa humana a ouvir a voz divina que até hoje retoma a afirmação do Apocalipse: “Faço novas todas as coisas” (Ap 21, 5).  

 Marcelo Barros é Monge Beneditino e Peregrino de Deus.