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terça-feira, 5 de agosto de 2014

No princípio, a bênção

por Marcelo Barros


No interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina as chuvas provocam inundações destruidoras. Enquanto isso, perto de São Paulo, católicos tradicionais fazem procissões para pedir a Deus chuva que melhore o nível de água das represas que abastecem as cidades. A situação é tal que até Deus parece impotente. A destruição ecológica 
produzida pela ambição humana fará a Terra sofrer cada vez mais contrastes extremos. Parecem gritos de dor do planeta sofrido. Por isso, no norte de Minas, algumas comunidades indígenas sobem a Serra da Mantiqueira para fazerem rituais de cura da mãe Terra. 

Enquanto as tradições espirituais indígenas e afrodescendentes sempre viram todas as criaturas como sagradas e procuraram descobrir a presença divina no universo, as Igrejas cristãs despertaram recentemente para a responsabilidade ecológica. A teologia cristã nunca negou a bondade das coisas criadas e a presença amorosa do Espírito em todo o universo. Mas, por motivos culturais, acabou se concentrando mais na história do pecado humano e da redenção realizada pelo Cristo. Hoje, os cristãos continuam a afirmar a centralidade da morte e ressurreição de Jesus para a fé bíblica, mas procuram ligar a revelação de Jesus no Evangelho à importância da natureza como permanente e incessante criação divina. Antes, as Igrejas sublinhavam mais os acontecimentos da  salvação oferecida à humanidade através de Jesus. No entanto, a respeito da criação, Paulo escreve que “onde o pecado abundou, a graça divina foi ainda mais transbordante” (Rm 5, 20). Isso significa que mesmo a grande desordem humana, presente na história e todo o mal que daí decorre não conseguem diminuir a beleza da vida e a energia amorosa da bênção divina para todo o universo. 

Nos evangelhos, Jesus fala na criação do universo ao falar no reino de Deus. Nas culturas antigas, afirmar o reinado divino era lembrar que o cosmos é dirigido por uma inteligência amorosa. Por isso, Jesus disse: “Olhem os pássaros do céu. Olhem os lírios do campo. Deus cuida deles. Não vai cuidar de vocês?” (Mt 6 e Lc 12). E, aos pobres, confirma: “vosso é o reino divino” (Lc 6, 20). Isso significa que todo ser humano tem uma dignidade de rei neste reinado divino no mundo. Mestre Eckhart, um dos maiores místicos cristãos da Idade Média, ensinava: “Todo ser humano é de sangue real. Nasceu das profundezas mais íntimas da natureza divina e do projeto divino de ter um representante seu para espalhar amor e assim recriar permanentemente toda criação divina”.

A interpretação literal da Bíblia levou as pessoas a pensar que tinham direito de dominar a natureza e explorá-la em seu proveito. O Capitalismo que domina grande parte do mundo olha a terra, as plantas e os animais apenas como mercadorias a serem explorados. Uma 
espiritualidade verdadeira mostra a dignidade própria de todo ser vivo e como a terra, os animais e as plantas merecem respeito.

A Bíblia ensina que o ser humano recebeu de Deus a missão de ser jardineiro e gerente do universo criado pelo amor divino. Ser testemunha do amor divino é superar a ideia de um deus que poderia nos fazer medo. Se Deus existe, só pode ser amor e bênção para nós e para todo o universo. Bênção significa pronunciar uma palavra que produz bem (bendizer é dizer o bem). É comunicar amor e paz. A bênção divina restaura a cada dia a natureza. Ela nos faz sentir parte desta criação divina, unidos a todos os seres vivos. Alegra, consola e fortalece a cada um de nós na caminhada da vida. Ao ressuscitar, Jesus elevou consigo toda a energia do universo e quer levar a criação à sua plenitude. Então, como afirmou São Paulo, “Deus será tudo em todos” (1 Cor 15).

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

As ameaças da Grande Transformação (II)


por Leonardo Boff


Analisamos no artigo anterior, as ameaças que nos traz a transformação da economia de mercado em sociedade de mercado com a dupla injustiça que acarreta: a social e a ecológica. Agora quermos nos deter em sua incidência no âmbito da ecologia tomada em sua mais vasta acepção, no ambiental, social, mental e integral.

Constatmos um fato singular: na medida em que crescem os danos à natureza que afetam mais e mais as sociedades e a qualidade de vida, cresce simultaneamente a consciência de que, na ordem de 90%, tais danos se tributam à atividade irresponsável e irracional dos seres humanos, mais especificamente, àquelas elites de poder econômico, político, cultural e mediático que se constituem em grande corporações multilaterais e que assumiram por sua conta os rumos do mundo. Temos, com urgência, fazer alguma coisa que interrompa este percurso para o precipício. Como adverte a Carta da Terra: “ou fazemos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscamos a nossa destruição e a da diversidade da vida”(Preâmbulo).

A questão ecológica, especialmente após o Relatório do Clube de Roma em 1972 sob o título “Os Limites do Crescimento” tornou-se tema central da política, das preocupações da comunidade científica mundial e dos grupos mais despertos e preocupados pelo nosso futuro comum.

O foco das questões se deslocou: do crescimento/desenvolvimento sustentável (impossível dentro da economia de mercado livre) para a sustentação de toda a vida. Primeiro há que se garantir a sustentabilidade do planeta Terra, de seus ecossistemas, das condições naturais que possibilitam a continuidade da vida. Somente garantidas estas pré-condições, se pode falar em sociedades sustentáveis e em desenvolvimento sustentável ou de qualquer outra atividade que queira se apresentar com este qualificativo.

A visão dos astronautas reforçou a nova consciência. De suas naves espaciais ou da Lua se deram conta de que Terra e a Humanidade formam uma única entidade. Elas não estão separadas nem juxtapostas. A Humanidade é uma expressão da Terra, a sua porção consciente, inteligente e responsável pela preservação das condições da continuiade da vida. Em nome desta consciência e desta urgência, surgiu o princípio responsabilidade (Hans Jonas), o princípio cuidado (Boff e outros), o princípio sustentabilidade (Relatório Brundland), o princípio interdependência, o princípio cooperação (Heisenberg/Wilson/Swimme/Morin/Capra)e o princípio prevenção/precaução (Carta do Rio de Janeiro de 1992 da ONU), o princípio compaixão (Schoppenhauer/Dalai Lama) e o princípio Terra (Lovelock e Evo Morales).

A reflexão ecológica se complexificou. Não se pode reduzi-la apenas à preservação do meio ambiente. A totalidade do sistema mundo está em jogo. Assim surgiu uma ecologia ambiental que tem como meta a qualidade de vida; uma ecologia social que visa um modo sustentável de vida e uma sobriedade compartida (produção, distribuição, consumo e tratamento dos dejetos); uma ecologia mental que se propõe erradicar preconceitos e visões de mundo, hostis à vida e formular un novo design civilizatório, à base de princípios e de valores para uma nova forma de habitar a Casa Comum; e por fim uma ecologia integral que se dá conta que a Terra é parte de um universo em evolução e que devemos viver em harmonia com o Todo, uno, complexo e perpassado de energias que sustentam a vitalidade da Terra e carregado de propósito.
Criou-se destarte uma grelha teórica, capaz de orientar o pensamento e as práticas amigáveis à vida. Então se torna evidente que a ecologia mais que uma técnica de gerenciamento de bens e serviços escassos representa uma arte, uma nova forma de relacionamento com a vida, a natureza e a Terra e a descoberta da missão do ser humano no processo cosmogênico e no conjunto dos seres: cuidar e preservar.

Por todas as partes do mundo, surgiram movimentos, instituições, organismos, ONGs, centro de pesquisa, cada qual com sua singularidade: quem se preocupa com as florestas, quem com os oceanos, quem com a preservação da biodiversidade, quem com as espécies em extinção, quem com os ecossistemas tão diversos, quem com as águas e os solos, quem com as sementes e a produção orgânica. Dentre todos estes movimentos cabe enfatizar o Greenpeace pela persistência e coragem de enfrentar, sob riscos, aqueles que ameaçam a vida e o equilíbrio da Mãe Terra.

A própria ONU criou uma série de instituições que visam acompanhar o estado da Terra. As principais são o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), a FAO (Organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura), a OMS (Organização Mundial para a Saúde), a Convenção sobre a Biodiversidade e especialmente o IPPC (Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas) entre outras tantas.

Esta Grande Transformação da consciência opera uma complicada travessia, necessária para fundar um novo paradigma, capaz de transformar a eventual tragédia ecológico-social numa crise de passagem que nos permitirá um salto de qualidade rumo a um patamar mais alto de relação amistosa, harmoniosa e cooperativa entre Terra e Humanidade. Se não assumirmos esta tarefa o futuro comum estará ameaçado.


Leonardo Boff escreveu Hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes, Petrópolis 2005.
 É filósofo e teólogo, escritor, assessor do projeto Cultivando Agua Boa da Itaipu Binacional  e um dos co-redatores da Carta da Terra

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quinta-feira, 10 de julho de 2014

A MÍSTICA CATÓLICA E O DESAFIO INTER-RELIGIOSO

por Maria Clara Lucchetti Bingemer


A mística inter-religiosa vai se firmando hoje como nova e importante área dentro das Ciências da Religião . E isto certamente tem grandes e surpreendentes repercussões na experiência mística cristã  dos tempos atuais e na releitura das experiências místicas cristãs de todos os tempos.   Esperamos que, seguindo estes caminhos, possamos chegar, senão a um novo paradigma, ao menos  talvez  a um paradigma muito antigo e mesmo primordial que hoje , revisitado, se levanta com nova força, novo rosto e chega por novas vias ao  sentimento religioso nosso e de boa parcela do povo de Deus.

 Em um momento da história e da vida da Igreja em que se encontram tantas perplexidades e muitas vezes, inclusive, inumeráveis confusões quanto à questão da espiritualidade e da experiência espiritual que seria própria ao cristianismo, cremos que a reflexão que aqui fazemos poderia talvez ajudar ou pelo menos provocar  um aprofundamento desta questão hoje vital: a possibilidade da autêntica experiência de Deus em outras tradições religiosas e a influência que tais experiências tiveram na configuração da experiência mística cristã . Sendo todas as experiências autenticamente  místicas distintas formas de aproximação do Mistério Fundamental que é Deus  uma teologia cristã das religiões ou da mística inter-religiosa implicará no reconhecimento da legitimidade destes diversos caminhos ou percursos em direção à comunhão com o mesmo Mistério Fundamental.

       A mística cristã hoje  é diretamente interpelada pelas experiências místicas e espirituais de outras religiões. Os numerosos estudos que vão mais e mais aparecendo neste campo comprovam o que acabamos de afirmar.  Mais:  pode-se perceber nas experiências e escritos de muitos dos maiores místicos cristãos a presença autêntica e real de intuições, imagens e contornos encontradiços igualmente em outras tradições. Isto não faz com que tal mística deixe de ser cristã ou perca em autenticidade,  mas demonstra que cada pessoa é situada num determinado contexto cultural e recebe a influência deste  sem disto tomar ciência a nível consciente.

 Demonstra igualmente  que a experiência de Deus que se encontra no coração mesmo da identidade da mística cristã  não se torna diminuída ou difusa ou menos consistente pela influência que recebe de alhures.  Mas,  pelo contrário,  dá e alcança toda a sua medida ao encontrar elementos de sintonia provindos de seres humanos que provaram profundamente a proximidade e o amor de Deus, ainda que oriundos e filiados a outras tradições religiosas. Existe, sem dúvida, algo que apenas a religião do outro, na sua diferença, pode ensinar, ou transmitir: às vezes um ponto ou uma dimensão que vamos descobrir na nossa experiência religiosa e do qual não nos havíamos dado conta.  Por aí desejaríamos que se desse nosso percurso.

         Queremos destacar, dentro daquilo que afirmamos,  algumas interfaces que acontecem nas experiências de alguns místicos cristãos em confronto com  outras  religiões monoteístas: o Judaísmo e o Islã.   No centro destas três tradições está presente um único Deus e isso nos fornece – parece-nos -  material mais propício e terreno menos movediço  para refletir num campo onde ainda quase tudo está por fazer.  A experiência mística , no fundo, não é senão a experiência do amor  que revolve as profundezas da humanidade pela presença e a sedução da alteridade.  Quando a alteridade é a religião do outro, há todo um caminho a ser feito em direção a uma comunhão que não suprime as diferenças, enriquecedoras e originais, mas encontra, na sua inclusão, um “novo”no qual se pode experimentar coisas novas do mesmo Deus. Essa inclusão, a nosso ver , pode ser percebida de forma mais explícita em termos do entrelaçamento das diferentes experiências místicas das três tradições mencionadas.  Tendo em comum a crença num só Deus e acontecendo igualmente em regiões e culturas onde a proximidade e a convivência facilitam e mesmo convidam à   intersecção oferecem material de grande interesse para o que aqui nos propomos refletir.

A experiência de um Deus pessoal e imanipulável, que as três religiões monoteístas ofereceram e oferecem como tesouro aos seus místicos permite que entre estas três tradições se instaure um aprendizado fecundo, o qual, nos dias de hoje, pode enriquecer e efetivamente enriquece não só a experiência mística cristã em si mesma, como também a reflexão teológica que sobre ela se faz.

  A teóloga é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco.

 Copyright 2014 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

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AVANÇO DEMOCRÁTICO

por Frei Betto

     A 26 de maio a presidente Dilma assinou o decreto que obriga todos os “órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta” a realizar “consulta pública” antes de qualquer decisão de interesse da “sociedade civil”.

     Essa medida, intitulada Política Nacional de Participação Social, vale para ministérios, autarquias e agências reguladoras, e visa, segundo o decreto, a “consolidar a participação social como método de governo” e aprimorar “a relação do governo federal com a sociedade”.

     Fruto das manifestações iniciadas em 2013, trata-se de um passo importante para aprimorar a democracia brasileira. Pena que seja colhido somente 11 anos depois de o PT chegar à presidência da República e às vésperas das eleições presidenciais.

     Hoje, o Planalto é praticamente refém do Congresso, onde a maioria dos parlamentares julga equivocadamente que os partidos devem ser os únicos interlocutores do Executivo.

     Lula tentou quebrar essa ponte exclusiva entre os dois poderes ao criar o Conselhão, do qual participavam representantes de todos os segmentos da sociedade brasileira. Com o tempo, tornou-se um espaço no qual apenas o empresariado tem voz, provocando a evasão dos líderes de movimentos sociais.

     Na gestão Dilma, o Conselho perdeu mais ainda seu caráter consultivo. Tornou-se um palanque obsequioso, no qual a presidente e seus ministros dão seus recados.

     Os movimentos sociais sempre se queixam da dificuldade de diálogo com o Executivo federal. Prova disso é que este foi pego de surpresa com as manifestações de junho de 2013.

     Deputados federais e senadores raramente mantêm consultas às suas bases eleitorais e, com frequência, exercem sua atividade pública em função de interesses privados.

     Agora, a PNPS introduz na estrutura do Estado um mecanismo de consulta popular. Como decisões de governo custam a passar do papel à prática, tomara que medida democrática como esta vença o cipoal burocrático.

     O que temos hoje no Brasil é uma democracia delegativa, pouco representativa e nada participativa. A “representatividade” se reduz, de fato, a lobbies corporativos, como os das armas e do latifúndio.

A maioria dos eleitores, por força do poder econômico, como campanhas financiadas por empresas, acaba votando em candidatos e não em propostas, o que é uma forma moderna de voto de cabresto.

O PNPS pode ajudar a quebrar esse ciclo vicioso e tornar nossa democracia mais participativa.

 Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
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