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segunda-feira, 4 de abril de 2016

FREI BETTO RECEBE MEDALHA EM UNIVERSIDADE DA COSTA RICA





A ROSA BRANCA E O PRESIDENTE NEGRO


     Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



Em 2009, quando sua silhueta esguia se desenhou contra o céu de sua cidade e ele disse: “Boa noite, Chicago!”, eu me emocionei e escrevi: “Black is beautiful”.  Agora, ao ouvi-lo dar o passo histórico na ponte de relações com a ilha caribenha que tanto amo, emociono-me outra vez.  E escrevo sobre o presidente negro que ofereceu à população mestiça de Cuba a rosa branca de José Martí.

Obama chegou na Ilha com toda a família.  A mim já me parece um sinal de que ia em missão de paz e com desejo de diálogo.  Ninguém leva a família, a mulher, as filhas, a sogra, a um lugar hostil, onde vai cumprir uma missão espinhosa.  Ver toda aquela bela família desfilando de guarda-chuvas pelo território cubano era bonito.  E continua sendo.

As palavras ditas pelo presidente estadunidense em seu último discurso também soaram a abertura, tolerância, harmonia.  Sem ingenuidade.  Obama lembrou o fato de seu pai haver imigrado para os Estados Unidos, vindo do Quênia, no ano em que aconteceu a revolução que libertou a ilha da ditadura de Fulgêncio Batista.  E ele mesmo nasceu no ano em que sucedeu a invasão da Baía dos Porcos.  Cresceu em um mundo onde Estados Unidos e Cuba não dialogavam, cada um fechado no bloco a que pertencia e sem disposição de ouvir o outro.

E ele parece feliz pelo fato de a ruptura desse estado de coisas ter começado a acontecer em seu governo, mais exatamente no final de seu segundo mandato.  Era algo impensável há muito pouco tempo, a tal ponto que corre por aí a piada de que isso só aconteceria no dia em que o presidente dos Estados Unidos fosse negro e o Papa latino-americano.  E hoje isso se dá, é realidade.  Por que não seria também o crescimento das incipientes e ainda muito frágeis relações entre o irmão do Norte e a valente ilha?

O presidente negro parece ter muita clareza sobre o que o leva a Cuba: “Vim aqui enterrar os últimos remanescentes da Guerra Fria nas Américas.  Vim aqui estender a mão de amizade ao povo cubano.” E, ao estendê-la, reconheceu as reais dificuldades para o diálogo, mas também as muitíssimas afinidades dos dois países e os dois povos: a colonização europeia, o doloroso passado marcado pela escravidão, a importância dos imigrantes na construção do país. Citou grandes homens e intelectuais que se inspiraram e atuaram no país vizinho: José Martí em Nova York, onde escreveu sua mais famosa obra; Ernest Hemingway em Havana, Cuba.

Sente-se no discurso não apenas diplomacia, nem elegante e superficial salamaleque para seduzir o adversário.  Obama procura tocar fundo na alma cubana, mencionando o santuário da Caridad de Miami e a Cachita, em El Cobre, em Santiago de Cuba. Reconhece que até agora a abertura do dialogo tem sido mais diplomática: abrir embaixadas, reatar relações internacionais.  Mas deixa claro que veio em busca de mais.  E para isso conta não apenas com o governo, mas com o povo cubano, que admira e ao qual estende a mão.

Reconhece o presidente estadunidense que a política de seu país com relação à Cuba até agora não funcionou.  Admitamos que reconhecer isso é um passo.  Pode não ser tudo, pode não ser nem a metade do caminho andado.  Mas é um passo.  E importante.  Em um mundo onde ninguém admite errar, muito menos as grandes potências, o presidente dos Estados Unidos fazer mea culpa pela política externa de seu país é grande.  E muito grande.

Também me parece grande e digno o fato de o discurso do presidente apontar as riquezas maiores que cada um dos dois países tem e pode oferecer ao outro e ao mundo inteiro.  Cuba tem um povo criativo, inovador, inventivo, que sabe enfrentar e superar qualquer crise.  Isso vem de um sistema de educação personalizado, que dá atenção especial a cada criança.  Os Estados Unidos, por outro lado, têm uma democracia que luta para respeitar as liberdades individuais, uma sociedade permeável, que permite a um negro sem grande importância na escala social concorrer para presidente da República e vencer.

Para resumir sua postura e a postura que deseja por parte dos EUA em relação à Cuba, Obama cita José Martí.  O grande herói da Pátria cubana escreveu o poema “Cultivo uma rosa branca”.  E esta rosa branca da paz, Martí quer oferecer ao amigo sincero e ao inimigo cruel.  Àquele que lhe arranca o coração, o poeta não oferece cardos ou urtigas, mas a rosa branca da paz.

Assim parece querer Obama: oferecer a rosa branca da paz ao povo cubano, sinceramente.  Por que não acreditar?  Por que os derrotistas de plantão se endurecem em suas posições e não admitem que o diálogo é possível?  Por que a rosa branca do presidente negro não pode ser verdadeira?  Não se trata de ser ingênuo nem abdicar da própria dignidade, que, alias, é o apanágio número um do povo cubano.  Mas simplesmente de estender a mão, cultivar relações e rosas brancas em lugar de espinhos e cardos e urtigas. 

É um primeiro e pequeno passo.  Mas as coisas grandes às vezes começam pequenas.  Levam tempo, devem ser cultivadas, como as rosas, brancas ou não.  Cultivá-las é a primeira condição para que cresçam e não sejam sufocadas e atrofiadas.  O roseiral da paz pode crescer muito se houver esforços de ambas as partes. A rosa branca de Martí e de Obama nos permite, em tempos tão difíceis e violentos, olhar para o futuro com esperança.

       Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio,  teóloga, autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)
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sexta-feira, 1 de abril de 2016

QUE BRASIL QUEREMOS: JUSTO OU APENAS RICO?


por Leonardo Boff



A exaltação dos ânimos nos partidos e na sociedade nos dificultam discernir o que está, efetivamente, em jogo: que Brasil queremos? Um país justo ou um país rico? Logicamente o ideal seria termos um país justo e simultaneamente rico. Mas os caminhos que escolhemos para este propósito são diferentes. Uns o impedem, outros o possibilitam.

Se quisermos que seja justo devemos optar pelo caminho da democracia republicana, quer dizer, colocar o bem geral de todos acima do bem particular. A consequência é que haverá mais políticas sociais que atendem os mais vulneráveis diminuindo assim a nossa perversa desigualdade social. Em outras palavras, haverá mais justiça social, mais participação nos bens disponíveis e com isso uma diminuição da violência. Foi o que fez o governo Lula-Dilma tirando da fome e da miséria cerca de 36 milhões de pessoas junto com outros programas sociais.

Se quisermos um país rico optamos pela democracia liberal (que guarda traços de sua origem burguesa) dentro do modo de produção capitalista ou neoliberal. O neoliberalismo coloca o bem privado acima do bem comum. Em função disso, prefere investimentos em grandes projetos e dar facilidades às indústrias para que sejam eficientes e que consigam conquistar consumidores para seus produtos. Os pobres não são esquecidos mas apenas recebem políticas pobres.

Thomas Piketty mostrou em seu livro O Capitalismo no século XXI que o melhor caminho jamais excogitado para se alcançar ariqueza é o capitalismo. Mas reconhece que lá onde ele se instala, logo se introduzem desigualdades, pois ele é montado para acumulação privada e não para a distribuição da renda. Mostra-o melhor em seu outro livro A economia da desigualdade (Intrínseca 2015). Em outras palavras, as desigualdades são injustiças sociais, pois a riqueza é feita gerando pobreza: impõe arrocho salarial, ajustes econômicos que prejudicam as políticas sociais e laborais e dificulta a ascensão das classes do andar de baixo. Predomina a concorrência e não a solidariedade. O mercado comanda a política, pratica-se a privatização de bens públicos e o Estado mínimo não deve intervir, cabendo-lhe a segurança e a garantia dos serviços básicos.

E mais: a busca desenfreada da riqueza de alguns implica a exploração dos bens e serviços naturais hoje quase exauridos a ponto de termos tocado os limites físicos da Terra. Um planeta limitado não  suporta um crescimento ilimitado de riqueza. Precisamos de quase uma Terra e meia para atendermos as demandas humanas, o que a torna insustentável, inviabilizando a própria reprodução do sistema do capital.

A macroeconomia capitalista é imposta pelos países centrais, especialmente pelos os USA, como forma de controle e de alinhamento forçado de todos às estratégias imperiais. Mas como observou o macroeconomista da Universidade de Oregon, defensor do capitalismo, Mark Thoma, agora ele já não funciona mais, pois a crise sistêmica atual parece insolvente. A ordem capitalista está conhecendo o seu limite.

Qual é o pomo de discórdia na política atual no Brasil? A oposição optou pela macroeconomia neoliberal. Líderes da oposição proclamam que os salários são altos demais, que toda a Petrobrás bem como o Banco do Brasil, a Caixa e os Correios deveriam ser privatizados. Já conhecemos esta fórmula. Ela é cruel para os pobres e danosa para os trabalhadores, pois favorece a acumulação e assim as desigualdades sociais. O capitalismo é bom para os capitalistas mas ruim para a maioria da população. A riqueza não pode ser feita à custa da pobreza e da injustice social.

Acresce ainda um elemento geopolítico que não cabe aqui detalhar. Os USA não toleram uma potência emergente como o Brasil, associada aos BRICS e à China que mais e mais penetra na América Latina. Há que desestabilizar os governos progressistas e populares com a difamação da política e de seus líderes.

O PT e os partidos e grupos progressistas querem o caminho da democracia republicana e participativa. Visam a garantir as conquistas sociais e alargá-las. Não é nada seguro que a vitória do neoliberalismo vai mantê-las,  pois obedece à outra lógica, a do capital que é a maximalização dos lucros.

O atual governo busca um caminho próprio na economia e na política internacional, com a consciência de que, dentro de pouco, a economia mundial será principalmente de base ecológica. Aí emergiremos como uma potência, capaz de ser a mesa posta para as fomes e as sedes do mundo inteiro. Esse dado não pode ser desconsiderado. Mas a centralidade mesmo será superar a vergonhosa desigualdade social, a pobreza e a miséria com políticas sociais com acento na saúde e na educação.

A oposição ferrenha ao governo Lula-Dilma tem como motor propulsor a liquidação deste projeto republicano pois lhe custa aceitar a ascenção dos pobres e de sua participação na vida social.
Mas é este projeto que responde à angústia que devorava Celso Furtado durante toda sua vida: “por que o Brasil sendo tão rico, é pobre e com tantas virtualidades continua atrasado”? A resposta dada por Lula-Dilma mitiga a queixa de Celso Furtado é boa não só para os pobres mas para todos.

Compreender esta questão é entender o foco central da crise política brasileira que subjaz às demais crises.

*Leonardo Boff é articulista do JB on line, ecologosita e escritor


PÁSCOA E UTOPIAS

 Frei Betto



       A Páscoa é a principal festa das Igrejas cristãs: celebra a ressurreição de Jesus. Em sua origem, a grande festa judaica comemora a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, em 1250 a.C., sob o reinado do faraó Ramsés II. Curioso é que, ao contrário das religiões persas e mesopotâmicas, babilônicas e gregas, o judaísmo e o cristianismo não celebram mitos, e sim fatos históricos.

       Malgrado as obras de Feuerbach e Renan e, posteriormente, o rasteiro ateísmo estalinista, hoje nenhum historiador de respeito nega a existência histórica de Jesus, atestada por historiadores não cristãos que lhe foram contemporâneos, como Flávio Josefo e Tácito.
       Aliás, há mais documentos científicos sobre a existência de Jesus que de Sócrates, que só conhecemos via Platão. O que ultrapassa a historiografia é a crença em sua ressurreição, que pertence à esfera da fé.

       Os evangelhos registram a presença de Jesus em Jerusalém por ocasião das festas pascais. Foi numa delas, a do ano 30, que ele, preso por blasfêmia e subversão, recebeu a pena capital e morreu crucificado. Tinha 36 ou 37 anos de idade, pois hoje sabemos que o monge Dionísio, o Pequeno, se equivocou, no século VI, ao calcular o início de nossa era. Dionísio não conhecia o zero e está comprovado que Jesus já havia nascido quando Herodes morreu, no ano 4 antes de nossa era.

       A visão do tempo como processo histórico marca profundamente a nossa cultura. A Bíblia herdou-a dos persas e, assim, quebrou a circularidade grega. Três grandes pilares de nossos atuais paradigmas o demonstram: Jesus, Marx e Freud. Todos três judeus. Para Jesus, a nossa felicidade (salvação) decide-se por nossa capacidade de amar no terreno da história. O Reino de Deus não é algo "lá em cima", mas sim lá na frente, no futuro onde a história atinge a sua plenitude, em um mundo livre de opressões, e também o seu limite, pela irrupção da presença divina entre nós.

       Um dos efeitos mais nefastos do neoliberalismo está condensado no famoso vaticínio de Fukuyama: "A história acabou". É claro que o nipo-americano sabe muito bem que as empresas transnacionais não pensam em deter seu ganancioso processo de acumulação do capital e, portanto, sua história de cobiça e espoliação. O que ele pretende sugerir é que nós, pobres mortais, devemos, como diria Dante hoje, abandonar à porta do mercado toda esperança.

       A Páscoa cristã sinaliza que, malgrado tanta miséria e desesperança, em Cristo temos a certeza da vitória da justiça sobre a injustiça e da vida sobre a morte. Aceitar que "a história acabou" é cair no engodo da eternização do presente: a malhação que nos promete eterna juventude; o apego aos bens como se fôssemos imortais; a acumulação como se levássemos terras e tesouros para o além-túmulo; as drogas como sucedâneo diabólico de uma geração que não aprendeu a sonhar com Jesus, Gandhi, Luther King e Mandela.

       É isto que a Igreja celebra hoje: Cristo vive e sua vitória sobre os poderes deste mundo é a garantia de que os sonhos brotados do coração e da fé são sementes de "um novo céu e uma nova Terra", como prenuncia o Apocalipse. E, como diz a canção, um sonho que muitos sonham se faz realidade.



Frei Betto é autor do romance sobre Jesus Entre todos os homens  (Ática).

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