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sexta-feira, 6 de maio de 2016

O BRASIL REAL E O BRASIL VIRTUAL

Por Leonardo Boff


Há dois Brasis que correm paralelos  e que possuem lógicas e dinâmicas diferentes.

Há o Brasil dominante, profundamente desigual e por isso injusto,  reproduzindo uma sociedade malvada que não tem compaixão nem misericórdia para com as grandes maiorias.

Segundo o IPEA são 71 bilhardários ou cinco mil famílias extensas detém grande parte da riqueza nacional e mostram parquíssimo sentido social, insensíveis à desgraça de milhões que vivem nas centenas de favelas que circundam quase todas as nossas cidades. Desses se origina, em grande parte, o ódio e a discriminação que tributam aos pobres e aos filhos e filhas da escravidão que se verificam ainda nos dias atuais.

Distancio-me decisivamente do  pessimismo de Paulo Prado em seu ironizado livro de 1928 “Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira” para quem a tristeza, a preguiça, a luxúria e a cobiça constituem os traços marcantes do brasileiro. E há gente que pensa ainda assim a despeito de tudo o que foi feito socialmente.

Ao lado dessas distorções, vigora um outro lado do mesmo Brasil, dos pobres que lutam bravamente para sobreviver, que no meio da miséria deixam transparecer uma alegria que vem de dentro, que dançam e veneram seus santos e santas fortes e que não têm necessidade de crer em Deus porque o sentem na pele e em cada passo de sua vida. É o Brasil dos menosprezados pelos setores conservadores que se orientam pelo PIB e pelo consumo, considerados jeca-tatus e óleo gasto, imprestáveis para o sistema porque produzem pouco e consomem ainda menos.

Esse Brasil cindido, com lados contrapostos, constitui uma contradição viva e escandalosa.  Possui uma herança sombria que nos vem do etnocídio indígena que ainda persiste, do colonialismo que nos deixou o complexo de vira-latas e que penetrou, em forma de arquétipo psicológico, a estrutura da Casa Grande do senhor branco e da Senzala dos escravos negros; ela se manifesta pelo fosso que cinde o país de cima a baixo e nos faz herdeiros de uma república com uma democracia, mais farsa que realidade, pois é composta, como atualmente, em sua grande maioria, por  corruptos que se beneficiam do bem público para realizar o bem privado (patrimonialismo).

O povo brasileiro, feito da amálgama de representantes de 60 países diferentes que para cá vieram, não acabou de nascer ainda. Está em  processo de fazimento. Apesar das contradições, aponta para uma mestiçagem bem sucedida que poderá configurar um rosto singular do Brasil, como  uma potência nos trópicos. O Brasil descrito acima, me parece ser o real, repleto de injustiças e contradições.

Mas há um outro Brasil ainda. É o Brasil do imaginário, que está nos sonhos do povo, o Brasil grande, o Brasil pátria amada, abençoado por Deus, o Brasil da humanidade cálida, da música popular e dos ritmos africanos, do futebol, do carnaval, das praias e de gente bonita. Ele move os sentimentos do povo.

É a utopia Brasil, utopia como nos ensinou o mestre Celso Furtado “que é fruto de dimensões secretas da realidade, um afloramento de energias contidas que antecipa a ampliação do horizonte de possibilidades aberto a uma sociedade” que queremos justa, fraterna e feliz (cf. Em busca de novo modelo: reflexões sobre a crise contemporânea, 2002 p.37).

Esse Brasil só existe em sonho  mas está em estado nascente; ele confere energia para suportarmos as agruras do presente. O sonho e a utopia pertencem à realidade em seu caráter potencial e virtual. O dado é feito e não esgota as virtualidades do real. São essas virtualidades que antevemos como realidades futuras que nos mantém na jovialidade e nos alimentam a esperança de que os corruptos de hoje, os inimigos da democracia que votam o impedimento da presidenta Dilma, não triunfarão. Serão apagados da memória coletiva. Estigmatizados, cinza e pó cobrirão seus nomes.

Nosso desafio é fazer o encontro do Brasil real com o Brasil virtual de modo que o virtual que contem mais verdade que o outro, moldará a verdadeira figura de nosso país.

Leonardo Boff é articulista do JB on line  escritor;escreveu Que Brasil queremos? Vozes 2000.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

SOBRE EMOÇÕES

Por Frei Betto


      Seu Vitório, mestre de obras da construção civil, cuidava da edificação de um prédio vizinho à minha casa, em Minas. Adolescente, militante de movimento pastoral, perguntei-lhe se acreditava em Deus. “Moço, navego em dúvidas. Certeza mesmo carrego apenas uma: a de que não há resposta que faça calar as minhas interrogações.”

      Seu Vitório, já falecido, talvez se sentisse incomodado no Brasil atual, marcado a ferro e fogo pelo maniqueísmo. Parece não haver meio termo. Ou se é a favor, ou se é contra. Pobre de quem pondera  que há qualquer coisa de bonito no feio e há feiura entre tanta beleza.

      No conflito entre prós e contras, os corações se armam. Oh, quem dera poder suprimir o erre da terceira pessoa do plural do indicativo deste verbo e escrever: se amam.

      Em uma mesma família, a harmonia é quebrada porque um simples suspiro de cansaço é visto como expressão de desprezo...

      O problema nem reside na diferença de concepções políticas. Situa-se na dificuldade de manter controle sobre as próprias emoções. Pudesse as pessoas serem capazes disso, haveria menos necessidade de terapia e, nas esquinas, mais livrarias que farmácias.

      A emoção é a estranha voz que ressoa dentro de mim e entorpece a minha razão. Não costuma mandar aviso prévio. É um estopim sempre encharcado de álcool. Basta uma palavra que me soe inconveniente para acendê-lo e fazer-me explodir.

      Sei que a minha irrupção emocional não sou eu. É como se um monstro adormecido despertasse em minhas entranhas. Não consigo dominá-lo. Ele é altamente vulnerável. Basta eu me aproximar de quem pensa diferente para o monstro arreganhar os dentes, exibir as garras afiadas e armar o bote. A uma única palavra de desacordo o estopim se incendeia, o meu equilíbrio se estilhaça e o monstro surge armado de agressividade, vestido com a couraça do menosprezo, da rejeição e do anátema.

      Assim, inverte-se a oração de São Francisco: onde havia paz, eis a guerra; onde havia amor, irrompe o ódio... pois é agredindo que me defendo.
      Vale a pena, se a vida é tão pequena? A acidez que me corrói a alma haverá de mudar o ritmo de rotação da Terra ou, ao menos, promover a reforma política dos meus sonhos?

      Como domesticar as emoções? A razão não o consegue. Ela é uma frase acadêmica comparada à estrofe de um poema do Drummond. Há que buscar outro recurso. Talvez a oração, que nos alça à transcendência e, assim, nos ensina a relativizar o que foi indevidamente absolutizado. Ou a meditação, que favorece o distanciamento frente ao leque de opiniões que se abre à nossa frente.

      “Não tente convencer ninguém”, aconselhava seu Vitório. “É como querer derrubar a árvore com um sopro. Mas defenda os seus princípios, que são como a raiz - tão frágil e, no entanto, sustenta com firmeza os mais frondosos carvalhos.”

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

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terça-feira, 3 de maio de 2016

PESSOAS QUE NÃO MORREM


Por Marcelo Barros


Quase todos os caminhos espirituais creem que a relação entre as pessoas vai além da morte. Judeus e cristãos creem na revelação bíblica da ressurreição, não como prolongamento dessa existência na qual “tristeza não tem fim, felicidade, sim”, mas como vida nova, dada por Deus para além da morte. Na Bíblia, o mais belo dos cânticos diz que “o amor é mais forte do que a morte”. Tomas Borge, ex-ministro da Nicarágua, conta que, quando, na juventude, lutava contra a ditadura, foi preso junto com outros companheiros em um porão. Um dia, o carcereiro chegou com um sorriso nos lábios e, para abater o ânimo dos combatentes, afirmou: - Carlos Fonseca, o comandante de vocês, foi morto”. Imediatamente, Tomás Borge respondeu em voz alta: - Carlos Fonseca é dos homens que não morrem nunca. É claro que ele não se referia à morte física, mas ao desaparecimento da sua figura e missão. 

Essa palavra sobre homens que nunca morrem pode ser aplicada a Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás e presidente honorário das pastorais sociais e padrinho dos movimentos sociais de trabalhadores rurais e índios. Nesses dias, celebramos o segundo aniversário de sua partida. Dois anos depois daquele 02 de maio em que Dom Tomás partiu para o Pai, o seu exemplo de pastor e de servidor dos mais pobres continua a nos orientar e nos animar.
A importância de Dom Tomás para as Igrejas cristãs inseridas no meio do povo, para o povo brasileiro e especialmente para os índios nos recorda um dos pais da Igreja dos pobres na América Latina. Bartolomeu de las Casas foi como Dom Tomás, um frade dominicano e bispo. No século XVI, foi o primeiro bispo de Chiapas, no sul do México e o primeiro defensor dos índios e teólogo da dignidade dos povos indígenas na luta contra a escravidão e contra o colonialismo.  

Sobre Tomás Balduíno, muitos aspectos de sua profecia podem ser ressaltados. A sua consagração aos mais pobres, a sua vitalidade física e espiritual, mesmo até quase o momento da partida e outros elementos que o faziam admirável. No entanto, certamente, a profecia mais aberta a todos é a sua mensagem de que a fé e a espiritualidade só têm sentido quando se alicerçam na luta pela justiça e pela libertação de todos.

Nesses dias de tanta turbulência social e política no Brasil, a profecia viva de Dom Tomás grita para nós: na posição social e política que vocês tomarem, pensem que Deus pede a vocês de defenderem a justiça para todos. Não se esqueçam que Deus vê a realidade sempre a partir dos mais empobrecidos e carentes. É a partir dos interesses dos pequeninos que Jesus se colocará do lado de vocês ou mesmo contra o projeto político que vocês defendem. Nos seus últimos anos de sua vida, Dom Tomás estava convencido de que temos de pensar a realidade brasileira integrada na caminhada de toda a América Latina como a “pátria grande” sonhada pelos libertadores Simon Bolívar e José Marti. Como, nos anos 60, já predizia Dom Helder: “o caminho da justiça para a América Latina passa pelo bolivarianismo”. Por isso, Dom Tomás se aproximou e se tornou amigo do presidente Hugo Chávez. No final da década passada, duas vezes, eu o acompanhei em visita à Venezuela. Ali, ele apoiava a libertação do império norte-americano, a integração do nosso continente em uma comunidade de países irmãos e, principalmente, uma organização social e econômica que garanta mais justiça e igualdade social.

Ao celebrar esse segundo aniversário de sua páscoa, seja esse o nosso testemunho: Dom Tomás é para nós todos um mestre nessa palavra do evangelho: “Procurem realizar no mundo o projeto divino (o reino de Deus) e tudo o mais lhes será dado por acréscimo”. (Mt 6, 33).  


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

O SACRAMENTO DO MATRIMÔNIO

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



Talvez um dos pontos mais positivos da exortação pós-sinodal “Amoris Laetitia” seja o fato de, diferente de outros documentos, nele aparece a Igreja não apenas apontando os erros alheios, mas também reconhecendo os próprios.  Esse tom de humildade e autocrítica é de uma beleza ímpar e muito mais atraente do que discursos acusadores que antes tiveram lugar.  É isso que vamos perceber no documento quando este fala do sacramento do matrimônio.

Em nenhum momento o texto da exortação diminui, minimiza ou nivela por baixo a vocação grande e bela de duas pessoas que desejam se unir por causa do amor que experimentam mutuamente.  Trata-se de uma vocação que perpassa toda a história do povo de Deus, desde o Antigo Testamento.  Se olhamos para a caminhada do antigo Israel, vemos que a família é o modo corrente e excelente pelo qual o povo eleito se organiza.  As pessoas são vistas dentro do escopo de relações familiares:  são filhos de alguém, sabem o que Deus disse e fez pelo povo porque seus pais lhes contaram, e sobretudo, simbolizam sua origem em um casal, um primeiro casal: Adão, feito da terra e Eva, a mãe dos viventes.

Depois disso são constantes as referências a Abraão, que se casou com Sara; a Isaac, que conheceu sua mulher Rebeca dentro da tenda; a Jacó, que trabalhou sete anos nas terras de Labão por amor a Raquel, que desejava como sua esposa.  No Novo Testamento, as genealogias dão início à história de Jesus, o Messias, que sendo filho de José e Maria era da casa de David (ou seja, da família) e como tal era reconhecido. 

Assim, a Igreja se preocupa com as circunstâncias que perpassam o mundo atual, temendo pela seriedade do matrimônio.  Ao analisar a realidade, o Papa, que assina a exortação resultante do recente Sínodo, ressalta todos os elementos que hoje ameaçam o matrimônio e a família: a “cultura do provisório” - que instaura uma impressionante rapidez no movimento com que as pessoas passam de uma relação afetiva para outra -, em sintonia com outros pensadores contemporâneos, como Zygmunt Bauman, denuncia os amores líquidos que se fazem e se desfazem com um simples clique do mouse do computador.   Adverte igualmente para “o medo que desperta a perspectiva de um compromisso permanente”; a falta de gratuidade das relações “que medem custos e benefícios e se mantêm apenas se forem um meio para remediar a solidão, ter proteção ou receber algum serviço”.

A reificacao do outro, transformando-o em coisa, em objeto com fins utilitários, leva a encarar a união como a posse de um objeto, do qual se usa enquanto serve, satisfaz, excita.  E quando baixa o nível de excitação, que é como uma droga sem a qual não se pode viver, descarta-se a pessoa reificada, que passou a ser um estorvo.  E parte-se para novas aventuras. Usar e jogar fora, gastar e rasgar quando ficou velho, sugar e espremer enquanto dá suco, depois jogar o bagaço fora. 

 Se é bela a imagem de um jovem casal trocando alianças e comprometendo-se em um amor para toda a vida, creio que mais belo ainda é ver um casal de idosos andando de braço dado, um apoiando e ajudando o outro(a), o(a) outro(a) sempre atento(a) às necessidades e desejos do companheiro(a) e vendo como pode supri-las. A “Amoris Laetitia” chama a atenção para esta realidade.  Convida a ela.  Convoca a sua experiência e prática.

         Porém, não para aí.  Reconhece humilde e realisticamente que muito das dificuldades que hoje enfrentam as novas gerações para entrar no compromisso do matrimônio se deve, em parte, a uma pastoral matrimonial não adequada aos nossos tempos.  O Papa afirma que devemos “reconhecer que, às vezes, a nossa maneira de apresentar as convicções cristãs e a forma como tratamos as pessoas ajudaram a provocar aquilo de que hoje nós lamentamos, e nos convém uma salutar reação de autocrítica.”        
    
      Refere-se o Pontífice a uma visão do matrimônio e da vida conjugal muito marcada por uma concepção sacrificial e dolorista que não permitiu que a beleza do amor, do gozo, do prazer e da alegria encontrasse seu lugar no proscênio eclesial.

      “... Muitas vezes – diz o texto -  apresentamos de tal maneira o matrimônio que o seu fim unitivo, o convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua ficaram ofuscados por uma ênfase quase exclusiva no dever da procriação.” E segue: “ Outras vezes, apresentamos um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são. Esta excessiva idealização, sobretudo quando não despertamos a confiança na graça, impediu que o matrimônio fosse mais desejável e atraente; muito ao contrário. ”

            Que transparência e quanta verdade!  Só nos resta agradecer aos padres sinodais e a Sua Santidade Francisco pela simplicidade com que reconhecem suas falhas.  Ai já está meio caminho andado para corrigi-las.  Seguramente este tom de humildade, de contrição mesmo, ajudará muitíssimo a que o matrimonio volte a ser um ideal primeiro na vida das jovens gerações que buscam a felicidade e o amor de coração sincero.

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 

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