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terça-feira, 3 de maio de 2016

PESSOAS QUE NÃO MORREM


Por Marcelo Barros


Quase todos os caminhos espirituais creem que a relação entre as pessoas vai além da morte. Judeus e cristãos creem na revelação bíblica da ressurreição, não como prolongamento dessa existência na qual “tristeza não tem fim, felicidade, sim”, mas como vida nova, dada por Deus para além da morte. Na Bíblia, o mais belo dos cânticos diz que “o amor é mais forte do que a morte”. Tomas Borge, ex-ministro da Nicarágua, conta que, quando, na juventude, lutava contra a ditadura, foi preso junto com outros companheiros em um porão. Um dia, o carcereiro chegou com um sorriso nos lábios e, para abater o ânimo dos combatentes, afirmou: - Carlos Fonseca, o comandante de vocês, foi morto”. Imediatamente, Tomás Borge respondeu em voz alta: - Carlos Fonseca é dos homens que não morrem nunca. É claro que ele não se referia à morte física, mas ao desaparecimento da sua figura e missão. 

Essa palavra sobre homens que nunca morrem pode ser aplicada a Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás e presidente honorário das pastorais sociais e padrinho dos movimentos sociais de trabalhadores rurais e índios. Nesses dias, celebramos o segundo aniversário de sua partida. Dois anos depois daquele 02 de maio em que Dom Tomás partiu para o Pai, o seu exemplo de pastor e de servidor dos mais pobres continua a nos orientar e nos animar.
A importância de Dom Tomás para as Igrejas cristãs inseridas no meio do povo, para o povo brasileiro e especialmente para os índios nos recorda um dos pais da Igreja dos pobres na América Latina. Bartolomeu de las Casas foi como Dom Tomás, um frade dominicano e bispo. No século XVI, foi o primeiro bispo de Chiapas, no sul do México e o primeiro defensor dos índios e teólogo da dignidade dos povos indígenas na luta contra a escravidão e contra o colonialismo.  

Sobre Tomás Balduíno, muitos aspectos de sua profecia podem ser ressaltados. A sua consagração aos mais pobres, a sua vitalidade física e espiritual, mesmo até quase o momento da partida e outros elementos que o faziam admirável. No entanto, certamente, a profecia mais aberta a todos é a sua mensagem de que a fé e a espiritualidade só têm sentido quando se alicerçam na luta pela justiça e pela libertação de todos.

Nesses dias de tanta turbulência social e política no Brasil, a profecia viva de Dom Tomás grita para nós: na posição social e política que vocês tomarem, pensem que Deus pede a vocês de defenderem a justiça para todos. Não se esqueçam que Deus vê a realidade sempre a partir dos mais empobrecidos e carentes. É a partir dos interesses dos pequeninos que Jesus se colocará do lado de vocês ou mesmo contra o projeto político que vocês defendem. Nos seus últimos anos de sua vida, Dom Tomás estava convencido de que temos de pensar a realidade brasileira integrada na caminhada de toda a América Latina como a “pátria grande” sonhada pelos libertadores Simon Bolívar e José Marti. Como, nos anos 60, já predizia Dom Helder: “o caminho da justiça para a América Latina passa pelo bolivarianismo”. Por isso, Dom Tomás se aproximou e se tornou amigo do presidente Hugo Chávez. No final da década passada, duas vezes, eu o acompanhei em visita à Venezuela. Ali, ele apoiava a libertação do império norte-americano, a integração do nosso continente em uma comunidade de países irmãos e, principalmente, uma organização social e econômica que garanta mais justiça e igualdade social.

Ao celebrar esse segundo aniversário de sua páscoa, seja esse o nosso testemunho: Dom Tomás é para nós todos um mestre nessa palavra do evangelho: “Procurem realizar no mundo o projeto divino (o reino de Deus) e tudo o mais lhes será dado por acréscimo”. (Mt 6, 33).  


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

quarta-feira, 25 de março de 2015

AS PESSOAS NÃO PENSAM

Por Eduardo Hoornaert


Não é tarde demais para voltar às manifestações de domingo, 15 de março pp., que tomaram ruas e avenidas das grandes cidades do Brasil. Poderíamos imaginar uma pesquisa de opinião com a seguinte pergunta: ‘você foi à rua porque pensou que devia ir ou porque sentiu vontade de ir?’. Penso que muitos teriam dificuldade de entender o sentido da pergunta, o que confirma o seguinte: a grande maioria foi à rua, impulsionada por sentimento, não por pensamento. Simplesmente acompanhou a multidão. Ainda bem que Fernando Henrique Cardoso disse que não era o momento de pensar em impeachment de Dilma, senão mais pessoas teriam gritado: ‘Fora Dilma!’. Nesse momento, o ex-presidente fez jus à sua fama de intelectual, ou seja, de uma pessoa que pensa.

Trago aqui outro indício alarmante em torno dessa questão do pensamento. Sem alarde, a TV Globo divulgou na semana passada os resultados de uma pesquisa acerca das instituições mais respeitadas do Brasil. A imprensa (leia: os grandes meios de comunicação) saiu em primeiro lugar, seguida pelas ‘redes sociais’. Em terceiro lugar veio a igreja católica, seguida pelo exército. Suponho que a pesquisa tenha sido tecnicamente bem feita e, nesse caso, o resultado é, mais uma vez, inquietante. O público em geral não sabe nem quer saber como funcionam os grandes meios de comunicação. Simplesmente liga a TV para assistir à novela ou ao Jornal do Brasil.

Quanto às universidades, o quadro não é menos desolador. Percebe-se uma falta de interesse em formar pessoas que pensam, embora a escola exista para ensinar a pensar. Importante, hoje, é formar técnicos e funcionários a ser ulteriormente engolidos por poderosos sistemas burocráticos em troca de um salário. Muitos desses funcionários não se dão ao trabalho de pensar de que modo funcionam as instituições que eles mesmos sustentam com seu trabalho. Basta receber o dinheiro.

Concordo plenamente com a análise feita por Leonardo Boff, quando afirma que há na sociedade um sentimento de ódio irrefletido que, aparentemente, se dirige contra Lula, Dilma e o PT, mas que na realidade expressa o desconforto de pessoas bem situadas que hoje se encontram com pessoas que entram em aviões e shoppings de bermuda, dirigem seus próprios carros e aparecem na cena política.  Aqui também, pensar serviria para superar esse sentimento, mas as pessoas não costumam pensar.

Concordo igualmente com Ivone Gebara quando, por ocasião das matanças em Paris um mês atrás (Charlie Hebdo), lembra o tema da ‘banalidade do mal’, trabalhado por Hannah Arendt em seu livro ‘Eichmann em Jerusalém’. Nesse livro, a autora mostra que o grande ‘carrasco nazista’ não era um monstro, mas uma pessoa de bom trato, polido e educado, enfim, uma pessoa comum. Ele simplesmente não pensava, agia como eficiente executivo dentro de uma complicada engrenagem burocrática que tinha como finalidade matar pessoas. Bastava não pensar para mandar milhões de pessoas para o crematório por meio de expedientes burocráticos. Quando o ‘não pensar’ chega a tais dimensões, ficamos perplexos. Mas, o que fazer com nosso ‘não pensar’ do dia-a-dia?

Como posso estimular hoje a minha capacidade de pensar? Informações não me faltam, mas será que são confiáveis? A notícia do dia que aparece no meu Smartphone é confiável? Por que não largar, de vez em quando, esse Smartphone e ler um livro? Há pessoas em meu redor com quem posso falar sem logo ouvir reações como: ‘você é PT, já sei o que você pensa’? Essa reação significa que é melhor não pensar e seguir o que diz a ‘opinião pública’, ou seja, o que ‘todos dizem’.  Enfim, um bom ponto de partida consiste em reconhecer que eu também, vez por outra, falo sem pensar.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

Fonte: http://www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

De pessoas e de árvores...



Por Assuero Gomes 

      As pessoas são como as árvores. Fazemos parte da teia infinita da Vida que une todos a tudo. Observando algumas plantas e especialmente as árvores nos vamos lembrando de pessoas que passaram por nossas vidas.
     Sejam Flamboyants floridos que roubam a cena e o cenário e encantam por sua exuberância e beleza quase brutal, sejam Eucaliptos que crescem de cabeça erguida e cuja madeira dura vai ser queimada em estalidos gementes, mas que não permitem que nada cresça ao seu redor nem à sua sombra.

     Os Cedros do Líbano são sábios, sóbrios, quase eternos. Longevos. São o sustentáculo de uma nação. Os Bambus, esses caniços, são os que se envergam, os que aguentam as tempestades, que racham, mas não cedem, e quando passa a refrega estão firmes, bailando com o vento.

     O Sândalo, que já foi cantado em prosa e verso e que espalha perfume mesmo sobre que o fere, lembra um pouco a cana-de-açúcar, que mesmo triturada ainda doa o seu mel, como nos ensinava nosso profeta (D. Helder).

     Todas as árvores e todas as pessoas são especiais, algumas, no entanto, são mais especiais ainda, como as Acácias, que derramam ouro em abundância, generosamente e são nobres. Árvores podem ser castas como os Jasmineiros, puras, quase vestais. Outras são pródigas como os Cajueiros, que trazem nos seus frutos toda a subsistência para um faminto, e se mantêm em meio à desolação de um sertão seco, junto ao Umbuzeiro, sertanejos valentes e inquebrantáveis.

     Algumas pessoas são como as Gravioleiras; de aspecto hostil, um tanto rudes à primeira vista, de fruto espinhoso como um coração cheio de farpas, mas que por detrás das cascas e espinhos guardam tanta doçura e carinho que são perdoadas ao primeiro sabor do fruto. Outras são graciosas como as Romãzeiras ou sutis como as Pitangueiras.

     Robustas são as Jaqueiras, imponentes como matriarcas de uma sociedade aristocrática, que fazem companhia às Mangueiras, doces mangueiras! De manhãs e quintais pernambucanos. E o que dizer dos Jambeiros frondosos de minha infância? Há ainda pessoas como eles?

    Há as tristes, melancólicas, que ao cair da tarde choram suas folhas indiferentes aos trinados e gorjeios, indiferentes aos ninhos. São os Chorões. Quanta diferença dos Ipês! Quanta diferença!

     As negras dos engenhos seculares se encantaram em Baobás e ainda estão presentes nos bons fantasmas das nossas histórias infantis e nos acalantos de ninar. São eternas estas negras árvores d´África.

     Mas deixem-me lembrar das Palmeiras. Elegantes, meticulosas, belas e pueris como as sinhazinhas. Presenças no azul do céu de verão com seu delicado arranjo verde à cabeça e brincos de pérolas coloridas, acompanham seus cuidadosos e ciumentos pais, os imperiais.

     Reinam em toda orla os soldados da nova armada romana, como a vigiar e guardar a costa, os Coqueiros. Pessoas são como as árvores. Concretas e etéreas, buscam o firmamento sem querer se desenraizar. Lançam suas sementes em busca do tempo eterno, servem de berço e esquife, servem de lápis e papel, servem de dor e alegria, enfim são humanas.

    O Bonsai, que quer dizer “árvore na bandeja”, é uma arte milenar, originária da China, e difundida atualmente em todo mundo. Consiste em cultivar árvores e arbustos em vasos, tentando reproduzir em miniatura esses nossos irmãos, como se estivessem livres na natureza em todo seu verde esplendor.

    A maior lição de quem cultiva essa arte é o cuidar. O Bonsai traz em si toda a delicadeza e beleza da mãe Terra, com seus requintes e caprichos, seus desejos e segredos mais escondidos. No Bonsai há que se cuidar do solo, das raízes, das folhagens, das florescências quando as houver, do micro clima. No entanto ao cuidar dele na verdade há a descoberta do cuidar de si, do cuidar do outro, da comunidade e do meio ambiente.

     No entanto ao cuidar dele (o Bonsai) na verdade há a descoberta do cuidar de si, do cuidar do outro, da comunidade e do meio ambiente.
Deveria ser matéria obrigatória em todo currículo escolar, especialmente dos alunos e mestres da área de saúde, dos seminaristas e sacerdotes, dos artistas e poetas e especialmente dos economistas e financistas.


      Para se ter êxito no cultivo de um bonsai (há registro de bonsais com mais de 1.200 anos na China e quase isso no Japão, vivos e em plena e serena glória), há que se ter dedicação, paciência, observação acurada, há que se apreciar o silêncio e a introspecção, há que se amar o belo e se desprender de alguns valores da sociedade de consumo.

      Há que aprender com o bonsai a respeitar os limites, a tolerância, o envelhecer, as mudanças de cada estação e seus tempos precisos. Há que se reaprender a pensar no silêncio interior de sua alma e colocar sua alma irmanada aos seres vivos, e reaprender que somos todos interligados, dependentes um do outro, como vários bonsais em uma só bandeja, a Terra.


Cristão católico leigo da arquidiocese de Olinda e Recife

assuerogomes@terra.com.br  

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