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segunda-feira, 8 de junho de 2020

COVID-19, GEORGE FLOYD E A ASFIXIA


                    Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

            O mundo parou e olhou para Minneapolis quando um homem negro, George Floyd, arfou com o pescoço esmagado pelo joelho do policial branco Derek Chauvin. Floyd gemeu e balbuciou que não podia respirar. Depois disso, calou-se para sempre. Em poucas horas, um país inteiro estava de pé. E o mundo se indignava e chorava sua morte.  

            Enquanto Floyd era assassinado pela violência racista, em muitos leitos de hospital mundo afora doentes de todas as raças, culturas e nacionalidades padeciam a asfixia nos respiradores das UTIs, acometidos do terrível vírus que virou a vida da humanidade pelo avesso.  A Covid-19 se apodera dos pulmões daqueles e daquelas a quem atinge e os leva à morte por asfixia, a mesma morte que vitimou Floyd. 

            Lutando pelo ar estão os doentes de Covid-19; lutando pelo ar morreu George Floyd ao implorar que o deixassem respirar. A desordem instalada pelo vírus nos corpos prostrados e sufocados pelo coronavírus tem metafórico paralelo com o corpo do homem negro assassinado em Minneapolis por outro vírus: o do racismo. 

            O racismo é filho da escravidão.  Bem o lembrou Ronilso Pacheco, meu assistente de pesquisa na PUC-Rio e atualmente mestrando do Union Theological Seminary, em Nova York.  Falando à Globonews, disse tratar-se de um problema não pessoal, mas estrutural. É todo um sistema que se deteriora corroído pela praga do racismo que divide os seres humanos de acordo com a cor da pele.

            A forma como Floyd foi assassinado é reflexo direto de uma segregação branca, que mergulha suas raízes na escravidão.  Aí o negro é uma mercadoria, um instrumento de produção, que pode ser vendido, dominado, agredido, escravizado. A frieza com que o policial branco fincou seu joelho sobre o pescoço da vítima, com as mãos no bolso,  demarca a posição da supremacia branca em relação aos negros:  dominação que escraviza. E  mata,  esmagando a função mais vital do outro enquanto ser humano: sua possibilidade de respirar. Mata bloqueando a possibilidade de o ar entrar em seus pulmões.  Mata produzindo a asfixia. 

O vírus que gera a pandemia e põe em perigo a humanidade pode atingir qualquer um. Quando ataca, não faz distinção entre ricos ou pobres, negros ou brancos.  Porém, a evolução da doença desvela diferenças e desigualdades de uma clareza desconcertante. Os que têm acesso a tratamento, hospitais equipados, leitos e unidades de tratamento intensivo carregam muito mais chances de sobreviver e retornar à vida interrompida pelo vírus.  Os que dependem dos hospitais públicos, muitas vezes sem vagas, sem leitos, sem respiradores, estão muito mais vulneráveis à asfixia mortal que os atirará à vala comum onde os governos, atônitos e sobrecarregados, depositam os cadáveres que não dão conta de enterrar. Entre estes, nos Estados Unidos e no Brasil, os negros são maioria.  

Padecemos de ambos os vírus. O racismo brasileiro é mais velado que o estadunidense.  Mas por isso mesmo de uma violência perversa e disfarçada.  Enquanto ao norte do continente, milhares de pessoas vão às ruas quando um negro é sufocado por um policial branco, aqui os muitos negros que morrem diariamente sob a violência policial e como vítimas da injustiça se tornam estatísticas sem nome nem endereço. George Floyd entrou para a história universal a partir de sua morte.  Mas quem se lembrará daqui a pouco tempo quem era João Pedro, o adolescente de 14 anos assassinado em sua casa, em São Gonçalo, RJ, com vários tiros nas costas?

 Em ambos os casos, trata-se de países que carregam um longo período de escravidão com fim dilatado e tardio. As sequelas dessa dominação se fazem sentir de muitos modos, sempre asfixiantes, sufocantes, interruptoras de vidas, sonhos e alegrias. Não à toa os pacientes negros constituem a maioria das vítimas da Covid-19 tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Lá como aqui, as vidas negras parecem não contar.  E não conseguem respirar a plenos pulmões o ar da liberdade e da plenitude. 

Os governantes de um e de outro país costumam citar a Bíblia para respaldar suas políticas públicas que voltam as costas à gravidade da crise sanitária e minimizam atos racistas, como os de Minneapolis e de São Gonçalo. Seria bom recordar-lhes que quando Deus criou o céu e a terra fez também o ser humano, para que em sua finitude feita de perecível barro, fosse repleto do Espírito divino.  Esse ar que encheu as narinas e o corpo de Adão encontra sua analogia nas Escrituras Sagradas com o sopro divino que dá a vida e é livre,  não se sabendo de onde vem nem para onde vai.  

Os vírus do racismo e das injustiças de toda sorte asfixiam o Espírito de Deus, que é de vida e não de morte; que engendra o mundo do nada; que transforma a argila perecível da qual somos feitos em corpo animado e destinado à plenitude. As vidas negras valem. Todas as vidas valem.  Nenhuma é destinada à asfixia de qualquer sorte. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.

 

 Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 


domingo, 7 de junho de 2020

COVID -19 – TRIGÉSIMA- SÉTIMA REFLEXÃO - O NOME DE DEUS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


 por Frei Aloísio Fragoso

     Este domingo celebramos a festa da Santíssima Trindade, o nome que damos ao nosso Deus. Antes de aclamá-Lo com a melodia tradicional do Pai, Filho e Espírito Santo, levantemos algumas questões que poderão transformar nosso canto numa irradiação pura da alma.

     Todas as tentativas de dar nomes definitivos a Deus fracassaram, desde os tempos mais remotos.   A maior parte destes nomes desapareceram da memória coletiva dos povos. Para nós cristãos há uma passagem bem sugestiva no livro do Êxodo. Deus escolhe Moisés para libertar seu povo da opressão do Faraó do Egito. Moisés resiste: "Quem sou eu, Javé? Eu nem sei falar, tenho a língua presa". Deus responde: "Não tenha medo, porei minhas palavras em tua boca". Moisés cede, mas questiona: "E se o povo perguntar quem me enviou?" - "Eu sou o que sou. Tu lhe dirás "AQUELE QUE É ME ENVIOU A VOCÊS". Cf. Ex. 3,1ss.

     "Aquele que é", nesta expressão não há nenhum nome próprio. Deus não tem nome.

     E então, como vamos chamá-LO? Como vamos invocá-LO?  Vamos fazer o que é de costume: criar-lhe um nome. Ouvimos Jesus chamar a Deus de Pai; dizer de si mesmo "Eu e o Pai somos Um"; prometer, certa vez: "O Espírito Santo virá e lhes comunicará toda a Verdade". Daí concluímos: Ele é Pai, Filho e Espírito Santo. Damo-lhe um nome, obra nossa, inspiração divina.

     Estas reflexões se harmonizam com a nossa experiência pessoal. Se perguntarem "quem é você?" Ficarei embaraçado em dar uma resposta correta. A minha pessoa não cabe em um nome que meus pais escolheram para me batizar. (às vezes não tem nada a ver...imagine uma amiga minha chamada Uberlinda, que não é linda nem dirige Uber). No entanto, se alguém quer saber quem sou eu, basta acompanhar meus passos, conhecer minha história, observar minhas ações.

     Não possuimos certezas absolutas nem devemos procurá-las. Nossa Fé é uma aposta. Cremos, confiamos, apostamos. Nem mesmo a certeza de que um dia nascemos nos garante um longo prazo de validade. Pois o que mais almejamos não é existir, é ser feliz.

     Por isso procuramos em Deus a fonte da felicidade. Onde encontrá-LO? - O caminho é o mesmo para todos e diferente para cada um.

     Poucos seres humanos chegaram tão perto de Deus como São Francisco de Assis. De nada adiantaria, contudo, querer copiar o seu itinerário. Pra começar, teríamos que beijar um leproso. Foi assim que ele experimentou pela primeira vez a presença viva de Deus. Após dois anos de inquietação interior, à procura de um sinal, ele encontrou-se com um leproso, casualmente, e, vencendo sua natural repugnância, abraçou-o e beijou-o. Neste momento, ele mesmo confessa, teve certeza de que Deus estava ali, e de qual era a via de chegar mais perto Dele. Vamos imitar S. Francisco? Decerto que não. Mas com ele aprendemos uma coisa: ninguém chega a Deus sem passar pelo irmão, sobretudo o mais desamparado.

     Poucos mergulharam tanto no mistério da Trindade como Santo Agostinho. Ele afirma em sua autobiografia "Confissões": "Tarde Te conheci, ó Beleza tão antiga e sempre nova, tarde Te conheci. Tu estavas em mim e eu, fora de mim, Te procurava". Ao contrário de Santo Agostinho, a maior parte de nós recebeu noções sobre Deus já na infância. Logo, seu testemunho é inútil para nós? Não! Graças a ele, ficamos sabendo uma lição muito importante: o ponto de partida para chegar a Deus está em mim mesmo; tenho de me encontrar e me amar, se quiser aprender a amá-LO.

      Esta semana, conheci um pouco mais sobre Ele nas palavras de uma humilde mulher que perdeu seu filhinho de 5 anos. Ela teve de deixá-lo a sós, no apartamento onde trabalhava, a fim de levar o cachorro da patroa para passear. Ao saber que ele caira do nono andar e estava morto, ela disse: "meu filhinho está com Jesus e com Maria. Ele está no colo de Maria". Neste belo pensamento, há, ao mesmo tempo, uma expressão de conformidade e uma explosão de revolta, um recado de uma mãe ferida e impotente, dirigido a todos nós: meu filho está no colo da Mãe do Céu porque, neste mundo, não havia um colo para ele, enquanto eu tinha que dar meu colo para o cachorro da patroa. Naquele momento Deus era o único poder capaz de livrá-la do desespero. Quem desespera não pode mais lutar. Entender suas palavras como um alívio para nossas consciências, seria uma blasfêmia contra o nome de Deus.

     Nestes dias sombrios de pandemia, onde é possível encontrar Deus? - Certamente Ele está flagelado no corpo dos que foram contaminados pelo vírus e na dor de seus familiares. Ele está crucificado na respiração ofegante de suas vítimas fatais. Ele está amorizado nos profissionais da saúde encarregados de salvar vidas. Ele está ressuscitado nos que alcançaram a cura e agora dançam de alegria.(Haverá algum lugar onde Ele não se encontra? Sim, Ele não se encontra na estupidez dos que negam as evidências para salvar suas ambições, preferem mortes do que perdas de seus lucros. Para estes valem as palavras de Jesus: "são cegos guiando outros cegos; cairão no abismo" MT. 15, 14).

      Sem dúvida, Ele está também em nossas orações suplicantes pelo fim desta tragédia, ouvindo-nos e admoestando-nos: findas as preces, vão ao encontro dos seus irmãos e irmãs e descubram juntos  o único nome meu que há de permanecer para sempre: "DEUS É AMOR" 1Jo.4,8.     Amém!

   Amém. 

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


sábado, 6 de junho de 2020

COVID - 19 - TRIGÉSIMA SEXTA REFLEXÃO MÍSTICA E POESIA (2) EM TEMPOS DE CORONAVIRUS


Por Frei Aloísio Fragoso

     Volto ao propósito de alternar REFLEXÕES de minha autoria com as do Pe. Daniel Lima, poeta místico que conheci tardiamente e logo coloquei na lista dos meus preferidos. Volto a lembrar o que narrei antes, que ele vivenciou uma situação paradoxal, comum a muita gente, no entanto ele o fez de maneira tão intensa que a transformou num jogo de incompatibilidades. Era um bom filósofo, mas, vez por outra, mostrava sua raiva de filósofos e filosofia. Voluntariamente trancou-se em seu apartamento, durante mais de quarenta anos, não se dando licença de sair nem, aos outros, de entrar. Enquanto isso, culpava-se, chamando-se de preguiçoso. Vamos conhecer alguns de seus poemas, que revelam justamente esta tensão de alguém que, tendo aprisionado seu ser exterior, ansiava pela liberdade de voar como os pássaros. Aliás, pássaros eram uma de suas imagens literárias prediletas, bem como voar, um dos verbos mais conjugados em seus poemas.

    Pe. Daniel enfrentou o drama de quem possui excesso de clarividência, olha a realidade com as lentes do futuro, muito além do seu tempo, e vislumbra as suas sequelas. Por isso sofre mais. Na monotonia do seu retiro, ele ficava a remover as cinzas, na esperança de que, por baixo, houvesse um vulcão. Se vivesse ainda, veria como, de fato, havia um vulcão embaixo daquelas cinzas, e que ele, sem o saber, ajudou-nos a enfrentar suas larvas. Eu mesmo tenho me alimentado e fortalecido com as  idéias dele:

 

"QUIS ser um santo

sábio ou vagabundo.

Ir até os confins das estradas

de dentro ou de fora.

Só cheguei a ser isto:

um pássaro que enlouqueceu

com o próprio canto.

          ______

 

SINTO-ME improvável,

um pássaro submarino.

Essa alegria madura

que voa nos ares do meu céu pessoal

faz-me sentir que dorme em minhas vigílias

um anjo impossível

primo de satanás

e do arcanjo Gabriel.

        ______

 

O CÉU de todos não basta.

A terra só de alguns

impede o céu de todos.

Pássaros do mundo inteiro, uni-vos.

O espaço é vosso e sem limites.

Voai, que o céu surgirá de vossas asas

e o vôo é livre e a asa é livre.

E o vôo cria a asa e a liberdade.

        _____

 

ANTES, vivia na certeza,

como uma águia aprisionada na gaiola.

A dúvida me libertou,

deixando-me voar no espaço livre,

não mais certo de nada,

senão da importância do vôo.

           ______

 

OS PÁSSAROS são sábios.

Não discutem: cantam.

Cantar é a maneira mais pura de entender a vida.

A coruja doutorou-se em filosofia.

Por isso

a coruja não canta.

        ______

 

SENHOR, livra-me

dessa bondade tímida e vacilante

por sob a qual se esconde

a minha insuportável estupidez.

 

E de vez apaga com teu sopro

essa trêmula luz

que arde e não ilumina

e apenas me perturba a nitidez da visão.

 

Sopra-me tempestades que me agitem

e arrebatem de vez

esta parda e morna serenidade

atrás da qual se oculta

a cansativa mediocridade

do meu amofinado coração.

 

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


sexta-feira, 5 de junho de 2020

MEDITAÇÃO DA LUZ: O CAMINHO DA SIMPLICIDADE


por Leonardo Boff

A grande maioria está atendendo às recomendações oficiais de recolhimento social, impedindo desta forma a disseminação do covid-19.

Podem-se fazer muitas coisas nesse recolhimento forçado: uma revisão de vida; que lições tirar para o futuro; como mudar para melhor; ver um filme, etc.

Mas oferece-se também a oportunidade de fazer algum exercício de meditação. Não somente para as pessoas religiosas mas também para aquelas que, sem ligação à alguma religião, cultivam valores como o amor, a cooperação, a empatia e a compaixão.

Ofereço aqui um método que eu chamo “Meditação da Luz: o caminho da simplicidade”. Ele tem uma alta ancestralidade no Oriente e no Ocidente. Tem a ver com o espírito e todo o corpo humano mas em particular com o cérebro, a sede de nossa consciência e inteligência.

Não é o lugar aqui para discutirmos as três sobreposições do cérebro: o reptiliano que diz respeito ao nossos movimento instintivos; o límbico, aos sentimentos, e o neo-cortical, ao raciocínio, à lógica e à linguagem.

           O cérebro humano e seus dois hemisférios

Tratemos, sucintamente, do cérebro que possui uma forma de concha com dois hemisférios:

O esquerdo que responde pela análise, pelo discurso lógico, pelos conceitos, pelos números e pelas conexões causais.

direito responde pela síntese, pela criatividade, pela intuição, pelo lado simbólico das coisas e dos fatos e pela percepção de uma totalidade.

No meio está o corpo caloso que separa e ao mesmo tempo une os dois hemisférios.

Outro ponto importante do cérebro é o lobo frontal, sede da mente humana. Há muitas teorias sobre a relação entre cérebro e mente. Vários neurocientistas sustentam que a mente é o nome que damos à realidades intangíveis, elaboradas no cérebro, tais como a vida afetiva, o amor, a honestidade, a arte, a fé, a religião, a reverência e a experiência do numinoso e do sagrado.

     A mente espiritual e o Ponto Deus no cérebro

Outro ponto a ser referido é a mente espiritual. A antropologia cultural se deu conta de que em todas as culturas surgem sempre duas constantes: a lei moral na consciência e a percepção de uma Realidade que transcende o mundo espaçotemporal e que concerne ao universo e ao sentido da vida. Repousam em alguma estrutura neuronal, mas não são neurônios. São de outra natureza até agora inexplicável. Vários neurocientistas a chamaram de mente mística (mystical mind). Prefiro uma expressão mais modesta: mente espiritual.

Aprofundando a mente espiritual outros neurocientistas e neurolinguistas chegaram a identificar o que chamaram o ponto Deus no cérebro. Constataram que sempre que o ser humano se interroga existencialmente sobre o sentido do Todo, do universo, de sua vida e pensa seriamente sobre uma Ultima Realidade, produz-se uma descomunal aceleração dos neurônios do lobo frontal. Aponta para um órgão interior de qualidade especial. Disseram que assim como temos órgãos externos, os olhos, os ouvidos, o tato temos também um órgão interno, uma vantagem de nossa evolução humana. Deram-lhe o nome de o ponto Deus no cérebro. Mediante esse órgão-ponto captamos Aquela Realidade que tudo unifica e sustenta, desde o universo estrelado, a nossa Terra e a nós mesmos: a Fonte que faz ser tudo o que é. Cada cultura dá-lhe um nome: o Grande Espírito dos indígenas, Alá, Shiva, Tao, Javé, Olorum dos nagô e nós simplesmente de Deus (que em sânscrito significa o Gerador da luz, donde vem também a palavra dia).

             A natureza misteriosa da luz

Antes de nos focarmos na Meditação da Luz, cabe uma palavra sobre a natureza da luz. Ela é tida até hoje como um fenômeno tão singular para a ciência, como a física quântica e a astrofísica que preferiu-se dizer: a entendemos melhor se a consideramos uma partícula material (que pode ser barrada por uma placa de chumbo) e simultaneamente uma onda energética que percorre o universo à velocidade de 300 mil km por segundo. Biólogos chegaram a discernir que todos os organismos vivos emitem luz, os  biofótons, invisíveis a nós mas captáveis por aparelhos sofisticados. A sede desta bioluz estaria nas células de nosso DNA. Portanto, somos seres de luz Ademais a luz é um dos maiores símbolos humanos e o nome que se dá à Divindade ou a Deus como Luz infinita e eterna.

   Meditação da luz: caminho oriental e ocidental

Vamos finalmente ao tema: Como é essa meditação da luz? Fundamentalmente tanto o Oriente quanto o Ocidente comungam da mesma intuição: do Infinito nos vem um raio sagrado de Luz que incide em nossa cabeça (corpo caloso), penetra todo o nosso ser (os chacras), ativa os biofótons, sana nossas feridas, nos enleva e nos transforma também em seres de luz.

Conhecido é o método budista em três passos: diante de uma vela acesa, se concentra e diz: eu estou na luza luz está em mimeu sou luz. Essa luz se expande do corpo para tudo o que está ao redor, para Terra, para as galáxias mais distantes. Permite uma experiência de não dualidade: tudo é um e eu estou no Todo.

O caminho ocidental se parece com o oriental. Era praticado pelos primeiros cristãos em Alexandria no Egito que professavam ser Deus luz, Jesus, luz do mundo e o Espírito Santo,  a “Lux Beatissima”

Sigam comigo os seguintes passos: colocar-se num lugar cômodo, como ao pé da cama, ao levantar ou ao deitar ou num canto mas recolhido. Concentrar-se para abrir o corpo caloso e invocar o raio da Luz Beatíssima que provém do infinito do céu.

Esse raio de Luz sagrada, incidindo, já permite a união dos dois hemisférios do cérebro, produzindo grande equilíbrio entre razão e sentimento. Em seguida, deixe que essa Luz divina comece lentamente a penetrar todo o seu corpo: o cérebro, as vias respiratórias, os pulmões, o coração, o aparelho digestivo, os órgãos genitais, as pernas e os pés. Pare-a especialmente nas partes que estão doentes e produzem dor. Já que a Luz desceu, faça-a voltar, penetrando novamente todo o seu ser e seus órgãos.

         Benefícios da meditação da luz

Antes de mais nada, começa a sentir que essa Luz divina potencia suas energias, lhe traz leveza a todo o seu ser corporal e espiritual. Dê-se um pouco de tempo, para curtir essa Energia divina que o energiza totalmente. Por fim, agradeça ao Espírito de Luz que é o Espírito Santo. Lentamente seu corpo caloso se fecha e vc sai mais espiritualizado, mais humanizado e com mais coragem para enfrentar o peso da vida.

Você pode fazer esse exercício mentalmente no ônibus, ao parar no semáforo, na fábrica, no escritório ou em qualquer tempinho que tenha no dia.

Todos os que se acostumaram a fazer esse tipo de meditação – via da simplicidade – testemunham como ficam mais resistentes na saúde, ganham mais clareza nas questões complicadas e as ideias fixas e os preconceitos os tornam mais superáveis, enfim você se torna um ser melhor e sua luz irradia sobre outros. Tente fazer essa meditação simples e verá seu valor corporal e espiritual.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu Meditação da Luz: o caminho da simplicidade, Vozes, 2009; Tempo de Transcendência (Vozes 2009). Para adquirir: vendas@vozes.com.br