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domingo, 14 de agosto de 2022

TRÊS MARCELOS

 Marcelo Mário de Melo


 

Três Marcelos se encontram

em uma celebração

onde se faz homenagem

a esse grande cristão

que é Reginaldo Veloso 

companheiro-amigo-irmão.

 

Reginaldo já se foi

mas sempre estará presente

nas pregações no exemplo

nas dores que o povo sente

no compromisso e na luta

por um mundo diferente.

 


Mas agora estão eles

os três Marcelos unidos

regando o mesmo sonho

seremos e decididos

por justiça e liberdade

para todos oprimidos.

 

Dois cristãos e um.ateu

lavrando do mesmo lado

pela vida em abundância

segundo foi proclamado

pelo companheiro Jota

por todos admirado.

 

Marcelo Barros é monge

teólogo e escritor

e Marcelo Santa Cruz

que já foi vereador

é advogado testado

junto ao povo sofredor.

 

O ateu dessa trindade

Marcelo Mário de Melo

juntando Marx e Cristo

com os outros dois faz elo

seguindo assim os três juntos

vermelhando o amarelo.

 

O M de mundo e mais

o M massa e misturas

o M modos e meios

o M contra amarguras

o M sem tirania

o M das criaturas.

 

Os três Marcelos Unidos

seguindo esse ideário

pela escola da vida

buscando o itinerário

para juntar todas letras

no alfabeto libertário.

sábado, 13 de agosto de 2022

A saga da Amazônia

 Prof. Martinho Condini


 

Caras amigas e amigos, desde do assassinato de Bruno Pereira e Dom Philips, muito já se falou sobre os problemas na Amazônia, bem como o descaso com que a Carniça desse atual desgoverno trata as questões relacionada ao desmatamento, reservas indígenas, garimpeiros ilegais e grileiros.

Sabemos que estão distantes as resoluções e soluções para os problemas amazônicos, mas devemos acreditar que as mudanças são possíveis, desde que haja vontade política para que isso ocorra, é claro. Não é o caso atualmente, apesar de haver milhares de pessoas do bem imbuídas no processo de preservação de tudo que compõe o ecossistema da imensa região amazônica.   

Diante desse contexto conhecido por vocês, não quero ser repetitivo, mas apenas fazer uma justa homenagem a esses dois ativistas, por meio da letra da belíssima canção composta em 1984, pelo cantor e compositor baiano de Vitória da Conquista, Elomar Figueira Mello, também conhecido como o “Menestrel das Caatingas”.

  Acredito que através das manifestações artísticas, neste caso a poesia e a música, os artistas fazem o seu ativismo, e conseguem atingir os ouvidos e corações de todas as pessoas sensíveis às causas sociais, ambientais e raciais que afligem o nosso país desde sempre. Mas um dia há de mudar, afinal de contas, “Num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário”, como nos lembra o mestre Paulo Freire.

Espero que essa poesia nos mantenha alerta, porque neste Brasil a luta por justiça e igualdade social e racial é permanente. Estou convencido que cada cidadão está nessa luta a sua maneira, com a sua leitura de mundo e compreensão ética da realidade em que está inserido.

Boa sorte amigas e amigos e “ninguém solta a mão de ninguém”. 

 

Saga da Amazônia

 

Era uma vez na Amazônia a mais bonita floresta

Mata verde, céu azul, a mais imensa floresta

No fundo d'água as Iaras, caboclo lendas e mágoas

E os rios puxando as águas

Papagaios, periquitos, cuidavam de suas cores

Os peixes singrando os rios, curumins cheios de amores

Sorria o jurupari, uirapuru, seu porvir

Era fauna, flora, frutos e flores

Toda mata tem caipora para a mata vigiar

Veio caipora de fora para a mata definhar

E trouxe dragão de ferro, pra comer muita madeira

E trouxe em estilo gigante, pra acabar com a capoeira

Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar

Pra o dragão cortar madeira e toda mata derrubar

Se a floresta meu amigo, tivesse pé pra andar

Eu garanto, meu amigo, que o perigo não tinha ficado lá

O que se corta em segundos gasta tempo pra vingar

E o fruto que dá no cacho pra gente se alimentar?

Depois tem o passarinho, tem o ninho, tem o ar

Igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar

Mas o dragão continua na floresta a devorar

E quem habita essa mata, pra onde vai se mudar?

Corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá

Tartaruga, pé ligeiro, corre, corre tribo dos Kamaiurá

Mas o dragão continua na floresta a devorar

E quem habita essa mata, pra onde vai se mudar?

Corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá

Tartaruga, pé ligeiro, corre, corre tribo dos Kamaiurá

No lugar que havia mata, hoje há perseguição

Grileiro mata posseiro só pra lhe roubar seu chão

Castanheiro, seringueiro já viraram até peão

Afora os que já morreram como ave de arribação

Zé de Nana tá de prova, naquele lugar tem cova

Gente enterrada no chão

Pois mataram o índio que matou grileiro que matou posseiro

Disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro

Roubou seu lugar

Pois mataram o índio que matou grileiro que matou posseiro

Disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro

Roubou seu lugar

Foi então que um violeiro chegando na região

Ficou tão penalizado e escreveu essa canção

E talvez desesperado com tanta devastação

Pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção

Os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa

Dentro do seu coração

Foi então que um violeiro chegando na região

Ficou tão penalizado e escreveu essa canção

E talvez desesperado com tanta devastação

Pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção

Os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa

Dentro do seu coração

Aqui termina essa história para gente de valor

Pra gente que tem memória, muita crença, muito amor

Pra defender o que ainda resta, sem rodeio, sem aresta

Era uma vez uma floresta na linha do Equador

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Povos indígenas: nossos mestres e Doutores

 Leonardo Boff 


          
                                                        

 Com o assassinato recente do indigenista Bruno Pereira e o do jornalista  inglês Dom Phillips no vale do Jari amazônico e mais que tudo pelo abandono que sofreram por parte do atual governo, de viés genocida, por longo tempo, durante da pandemia do Covid-19 que, ao todo, deve ter custado a vida de cerca de mil indígenas, a questão dos povos originários ganhou as manchetes nacionais e internacionais.

Surpreendente, embora tardio, foi o pedido de desculpa do Papa Francisco em sua visita em julho ao Canadá, às famílias de crianças indígenas, arrancadas de seu meio e internadas em colégios católicos com muitas mortes. Eles não se contentaram com essa desculpa papal. Uma das lideranças corajosamente disse ao Papa:parem de nos fazer superar esta tragédia, queremos que nos entendam, que respeitem a nossa sabedoria ancestral, que favoreçam a nossa cura e nos deixem viver segundo as nossas tradições. Algo semelhante disseram indígenas bolivianos por ocasião da visita do Papa João Paulo II: a Bíblia que nos dão, entreguem-na aos europeus, pois eles precisam dela mais do que nós porque foram eles que de forma desumanizadora nos colonizaram e quase nos dizimaram.

Nunca pagamos a dívida centenária que temos para com os povos originários brasileiros, latino-americanos e caribenhos. Eles são os hóspedes originários destas terras que lhes estão sendo invadidas e roubadas em função da voracidade dos madeireiros, do ouro e da mineração.

O cuidado para com tudo o que existe e vive

 

Agora que estamos sob um alarme ecológico planetário, sem saber que soluções encontrar face ao crescente aquecimento do planeta, descobrimos, finalmente, como eles com sabedoria tratam a natureza, o cuidado para com as florestas e a Mãe Terra. Eles são nossos mestres e doutores no sentimento de pertença, de irmandade e de respeito por tudo o que existe e vive. Nutrem uma profunda concórdia entre eles e com a comunidade de vida, coisa que nós há séculos perdemos. Estamos sofrendo os danos irremissíveis de nossa devastação. Ainda não tiramos as lições que Gaia, a Pacha Mama e Mãe Terra nos está dando com a intrusão do Covid-19. Buscamos volver à ordem anterior, justamente aquela que propiciou a irrupção de inúmeros vírus, o último, a varíola do macaco. Elenquemos alguns valores de seu modo de estar neste mundo natural.

O índio se sente parte da natureza e não um estranho dentro dela. Por isso, em seus mitos, seres humanos e outros seres vivos convivem, e casam entre si. Intuíram o que sabemos pela ciência empírica que todos formamos uma cadeia única e sagrada de vida. Eles são exímios ecologistas. A Amazônia, por exemplo, não é terra intocável. Em milhares de anos, as dezenas de nações indígenas que ai vivem, interagiram sabiamente com ela. Quase 12% de toda floresta amazônica de terra firme foi manejada por eles, promovendo “ilhas de recursos”, desenvolvendo espécies vegetais úteis ou bosques com alta densidade de castanheiras e frutas de toda espécie. Elas foram plantadas e cuidadas para si e para aqueles que, por ventura, por ai passassem.

Os Yanomami sabem aproveitar 78% das espécies de árvores de seus territórios, tendo-se em conta a imensa biodiversidade da região, na ordem 1200 espécies por área do tamanho de um campo de futebol.

Para eles a Terra é Mãe do índio. Ela é viva e por isso produz todo tipo de seres vivos. Deve ser tratada com reverência e respeito que se deve às mães. Nunca se há de abater animais, peixes ou árvores por puro gosto, mas somente para atender necessidades humanas. Mesmo assim, quando se derrubam árvores ou se fazem caçadas e pescarias maiores, organizam-se ritos de desculpa para não violar a aliança de amizade entre todos os seres.

Essa relação sinfônica com a comunidade de vida é imprescindível para garantirmos o futuro comum da própria vida e o da espécie humana.

Sabedoria ancestral.

 

Conhecendo-se um pouco as diversas culturas indígenas, identificamos nelas profunda capacidade de observação da natureza com suas forças  e da vida com suas  vicissitude . A sabedoria deles se teceu  através da sintonia fina com o universo e  da escuta atenta da linguagem da Terra. Sabem melhor do que nós, casar céu com a terra, integrar vida e morte, compatibilizar trabalho e diversão, confraternizar ser humano com a  natureza. Nesse sentido eles são altamente civilizados embora sua tecnologia seja finíssima mas não contemporânea.

Intuitivamente, atinaram com a vocação fundamental de nossa efêmera passagem por esse mundo que é captar a majestade do universo, saborear a beleza da Terra e tirar do anonimato aquele Ser que faz ser todos os seres, chamando-o por mil nomes Palop, Tupã, Ñmandu e outros.  Tudo existe para brilhar. E o ser humano existe para dançar e festejar esse brilho.

Essa sabedoria precisa ser resgatada por nossa cultura secularista e desrespeitosa das várias formas de vida. Sem ela dificilmente pômos limites ao poder que poderá destruir o nosso ridente Planeta vivo

Atitude de veneração e de respeito.

 

Para os povos  indígenas, bem  como para alguns contemporâneos, como o recém falecido James Lovelock, o formulador da teoria da Terra como Gaia, tudo é vivo e tudo vem carregado de mensagens que importa decifrar. A árvore não é apenas uma árvore. Ela se comunica por seus odores. Possui braços que são seus ramos, tem mil línguas que são suas folhas, une o  Céu com a Terra por suas raízes e  pela copa. Eles conseguem, naturalmente, captar o fio que liga e re-liga todas as coisas entre si e com a Divindade. Quando  dançam e tomam as beberagens rituais fazem uma experiência de encontro como Divino e com o mundo dos anciãos e dos sábios que estão vivos no outro lado da vida. Para eles, o invisível é parte do visível. Essa lição importa aprender deles.

       A liberdade, a essência da vida indígena.

 

Nos dias atuais a falta de liberdade nos atormenta. A complexidade da vida, a sofisticação das relações sociais geram sentimento de prisão e de angústia. Os povos indígenas nos dão o testemunho de uma incomensurável liberdade. Baste-nos o depoimento dos grandes indigenistas, os irmãos Orlando e Cláudio Villas Boas: “O índio é totalmente livre, sem precisar de dar satisfação de seus atos a quem quer que seja… Se uma pessoa der um grito no centro de São Paulo, uma rádio-patrulha poderá levá-lo preso. Se um índio der um tremendo berro no meio da aldeia, ninguém olhará para ele, nem irá perguntar por que ele gritou. O índio é um homem livre”. Essa liberdade é tão apresentada pela extraordinária liderança Krenak e por seus escritos, Ailton Krenak.

       A autoridade, o poder como serviço e despojamento.

 

A liberdade vivida pelos indígenas confere uma  marca singular à  autoridade de seus caciques. Estes nunca têm poder de mando sobre os demais. Sua função é de animação e de articulação das coisas comuns, sempre respeitando o dom supremo da liberdade individual. Especialmente, entre os Guarani se vive esse alto sentido da autoridade, cujo atributo essencial é a generosidade. O cacique deve dar tudo o que lhe pedem e não deve guardar nada para si. Em algumas tabas se pode reconhecer o chefe na pessoa de quem traz ornamentos  mais pobres, pois, o resto foi tudo doado.  Nós ocidentais definimos o poder sob sua forma autoritária:“a capacidade de conseguir  com que o outro faça aquilo que eu quero”. Em razão desta concepção, as sociedades são dilaceradas permanentemente por conflitos de autoridade.      

Imaginemos o seguinte cenário: caso o cristianismo, se tivesse encarnado na cultura social guarani e não naquela greco-romana, teríamos então padres pobres, bispos miseráveis e o papa um verdadeiro mendigo. Mas sua marca registrada seria a generosidade e o serviço humilde a todos. Então, sim, poderiam ser testemunhas d’Aquele que disse:”estou entre vós como quem serve”. Os indígenas teriam captado essa mensagem como co-natural à sua cultura  e, quem sabe, livremente aderido à fé cristã.

 Como se depreende, em tantas coisas, reafirmo, os indígenas podem ser nossos mestres e nossos doutores, como se dizia dos pobres na Igreja dos primórdios.

Leonardo  Boff escreveu O casamento entre o Céu e a Terra,contos de indígenas brasileiros,(com um suplemento sobre dados atualizados do seu universo),Planeta 2022.

 


quinta-feira, 11 de agosto de 2022

IDOS DE AGOSTO

 Frei Betto


 

       Agosto me diz respeito. É um mês criado por razões políticas, em homenagem ao imperador romano César Augusto. Mês em que nasci, exatamente em hora, dia e ano em que a Resistência Francesa comemorou a libertação de Paris da ocupação nazista. 

       Mês no qual Getúlio Vargas decidiu, em 1954, sair da vida para não entrar na cadeia, e meteu uma bala no peito. E é o mês em que Jânio Quadros decidiu, em 1961, sair da presidência da República para retornar, com plenos poderes, ao Planalto, e mergulhou o Brasil em uma crise política que nos custou 21 anos de ditadura militar.

       O suicídio de Vargas cancelou a festa de meu aniversário de 10 anos. Meu pai, signatário do “Manifesto dos Mineiros”, libelo contra o caudilho, convocou parentes e amigos para comemorar o fim da ditadura do Estado Novo. Mas, para minha tristeza, na madrugada de 24 de agosto o cadáver do déspota tombou na sala de minha casa. Tive a festa cancelada.

       Em 1961, o presidente Jânio Quadros também quase estraga meu aniversário. Renunciou à presidência exatamente no dia. Como primeiro vice-presidente da Umes (União Municipal de Estudantes Secundaristas) de Belo Horizonte, fui para a Praça Sete, no centro da capital mineira, mobilizar estudantes pela volta de Jânio ao Planalto. Pela primeira vez, enfrentei a cavalaria do Exército, que nos expulsou dali.

       Agora temos um agosto tenso, às vésperas de eleições que, se Deus quiser, devem escorraçar o atual ocupante do Planalto. Neste mês se iniciam oficialmente as campanhas eleitorais. Veremos todo tipo de ameaças daquele que teme ser derrotado. Irá vociferar, redobrar a convocação de seus aliados para 7 de setembro, quando deveria ser comemorado o bicentenário da independência do Brasil.

       O que o Inominável quer é encontrar um modo de sabotar o processo eleitoral para preservar sua família no governo e isentá-la de responder, perante os tribunais, pelos crimes cometidos.

       Será um agosto de desgosto para uns e antegosto para outros que, como eu, sabem que o apóstolo do “armai-vos uns aos outros” será alvo do mais poderoso projetil de defesa da democracia: as urnas.

       Quem viver, verá.

 

Frei Betto, escritor, lança em agosto três novos livros: “Tom vermelho do verde” (Rocco); “Jesus militante” (Vozes); e “O estranho dia de Zacarias” (Cortez). Livraria virtual: freibetto.org

  

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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