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terça-feira, 21 de julho de 2015

UM MUNDO MAL EDUCADO

Por Marcelo Barros



Quando falamos em má educação, geralmente, nos referimos a falhas no modo das pessoas se comportarem. No entanto, o problema das lacunas na educação vão além da mera cortesia nas relações interpessoais. A educação é uma forma de ver o mundo e aprender a enfrentar juntos os problemas da vida comum. No mundo animal, todas as espécies nascem e se desenvolvem com seus instintos de conservação e de preservação perfeitos. O pássaro voa, o peixe nada e os animais do campo e da floresta sabem sobreviver no seu ambiente. O ser humano é chamado a transformar o ambiente e a sua convivência, através da cultura e de uma comunhão amorosa que o eleve. Por isso, embora seja prioritária a educação básica das crianças e da juventude, o desafio da educação é permanente e diz respeito a toda humanidade.

Há poucos dias, foi publicado na internet o novo relatório Achievements and Challenges  produzido pelo programa “Education for alls” (Educação para todos) da Unesco. Esse é um dos documentos mais importantes do recente Fórum Mundial sobre Educação (WEF 2015) que aconteceu no final de maio em Incheon, Coréia do Sul. Ele contou com a participação de mais de cem ministros de todo o mundo para criar uma agenda de trabalho comum a respeito da educação no mundo, deste ano até o ano 2030. Estavam presentes diretores de agências da ONU, do Banco Mundial e a diretora geral da UNESCO. Como hóspede especial, convidaram o prêmio Nobel Kailash Satyarathi. O encontro ocorreu um ano exato depois dos acordos de Muscat (Oman) que propõem sete novos objetivos para serem alcançados até 2030, a partir do programa “Educação para todos” e dos Objetivos do Milênio que valeram entre 2000 e 2015.

De acordo com estatísticas da ONU as estruturas educativas atingem hoje 184 milhões de crianças. No entanto, nos países da África e alguns da Ásia, 58 milhões de crianças não têm acesso à escola, sem falar nos 20% de alunos da escola primária que abandonam o estudo antes do concluírem o ensino básico. No mundo dos adultos, o mundo conta ainda com 781 milhões de pessoas consideradas analfabetas. Além disso, atualmente, se torna um desafio o analfabetismo informático e virtual das pessoas que não tem acesso a computador e internet. No Brasil, espalha-se uma espécie de analfabetismo social e político que faz com que, mesmo pessoas consideradas letradas e que se consideram cultas sejam escandalosamente mal informadas e influenciadas por uma mídia rancorosa e perversa.

Não é o caso de quem tem posições francamente conservadoras e elitistas por interesses de classe e por não desejarem mudanças que vão contra os seus lucros e privilégios pessoais. Esses/as não são alienados/as. Ao contrário, são extremamente lúcidos e bem informados. Sabem exatamente o que querem e defendem posições das quais estão bem conscientes. Não é o caso do motorista de taxi, de uma mãe de família da periferia ou um estudante de bairro se eles, apesar de serem explorados, aceitam pensar de acordo com os critérios sociais de certos jornais televisivos. Apesar de sofrerem, não conseguem discernir nas notícias, o que está por trás delas. Algumas vezes, pessoas assim acabam votando em quem lhes oferecem cem reais pelo voto.

Quantas pessoas bem intencionadas se deixam levar por pregoeiros da desgraça. Nessa deseducação promovida por uma elite que espalha ódio e desesperança, reside um tipo de analfabetismo mais pernicioso do que o simplesmente não saber ler. Aí jaz o mundo mal educado. Há poucos dias, em uma entrevista na televisão, ao ser perguntada sobre como reagia às dificuldades da realidade política brasileira, a atriz Marieta Severo afirmou que não aceita a desesperança e teima em apostar no positivo. Deu uma aula de verdadeira educação crítica e conscientizadora.

Paulo Freire insistia que a educação sozinha não é capaz de transformar nenhuma sociedade, mas sociedade alguma  conseguirá ser transformada sem dar prioridade à educação. Ruben Alves comparava a educação com alguém que tem em cada mão uma caixa. Em uma mão, uma caixa de ferramentas para transformar o mundo e, na outra, uma caixa de brinquedos para alegrar a vida e nos manter interiormente crianças. A educação nos ensina, ao mesmo tempo, a pensar criticamente e a nos encantarmos com a natureza. Faz-nos conviver amorosamente uns com os outros e descobrir a beleza, transparente ou oculta, em cada ser vivo e na própria caminhada da vida.


Para quem tem fé, a educação é caminho de transformação de si mesmo/a, conversão pessoal e comunitária na direção de um mundo a ser permanentemente transformado, conforme o projeto do Espírito que quer fazer de nossa casa comum um planeta de amor.  

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países

segunda-feira, 20 de julho de 2015

PARA ENTENDER O FENÔMENO DA CRISE


Por Leonardo Boff


             Raramente na história houve tanta acumulação de situações de crise como no atual momento. Algumas são conjunturais e superáveis. Outras são estruturais e exigem mudanças profundas, como por exemplo, a reforma política e tributária brasileira. Mas há uma crise que se apresenta sistêmica e que recobre toda a Terra e a humanidade. Ela é ecológico-social. A percepção geral é que assim como a Terrra viva se encontra não pode continuar, pois pode nos levar a um quadro de tragédia com a dizimação de milhões de vidas humanas e de porções significativas da biodiversidade. Em sua encíclica sobre “o cuidado da Casa Comum” o Papa Francisco diz sem torneios:”o certo é que o atual sistema mundial é insustentável a partir de vários pontos de vista”(n.61). Em sua peregrinação pelos países mais pobres da América Latina, Equador, Bolívia e Paraguai, o discurso de mudança estrutural e da exigência de um novo estilo de produzir, de consumir e de habitar a Casa Comum foi repetidamente afirmado como algo impostergável.

A crise sistêmica é grave porque ela carrega dentro de seu bojo a possibilidade da destruição da vida sobre o planeta e eventualmente o desaparecimento da espécie humana. Os instrumentos já foram montados. Basta que surja um conflito de maior intensidade ou um louco fundamentalista tipo o ex-presidente Busch para abrir as portas do inferno nuclear, químico ou biológico a ponto de não termos nenhum sobrante para contar a história.         Não podemos subestimar a gravidade desta última crise sistêmica e global. A atual crise brasileira é um pálido reflexo da crise maior planetária. Mas mesmo assim é desastrosa para todos, afetando especialmente aqueles sobre cujos ombros se colocou o maior ônus dos ajustes fiscais para sair ou aliviar a crise: os trabalhadores e os aposentados.

Comungamos com a esperança do Papa Francisco: há no ser humano um capital de inteligência e de meios que nos “ajudam a sair da espiral de autodestruição em que estamos afundando”(n.163). E finalmente há Alguém maior, senhor dos destinos de sua criação que é “o amante da vida”(Sb 11,26). Ele não permitirá que nos exterminemos miseravelmente.

É neste contexto que caba um aprofundamento da natureza da crise para sairmos melhores dela. Desde o advento do existencialismo, especialmente com Sören Kierkegaard, a vida é entendida como processo permanente de crises e de superação de crises. Ortega y Gasset num famoso ensaio de 1942, com o título “Esquemas das crises” mostrou que a história, por causa de suas rupturas e retomadas, possui a estrutura da crise. Esta obedece à seguinte lógica: (1) a ordem dominante deixa de realizar um sentido evidente; (2) reinam dúvida, ceticismo e uma crítica generalizada; (3) urge uma decisão que cria novas certezas e um outro sentido; mas como decidir se não se vê claro? mas sem decisão não haverá saída; (4) mas tomada uma decisão, mesmo sob risco, abre-se, então, novo caminho e outro espaço para a liberdade. Superou-se a crise. Nova ordem pode começar.

A crise representa purificação e oportunidade de crescimento. Não precisamos recorrer ao idiograma chinês de crise para saber desta significação. Basta nos remeter ao sânscrito, matriz de nossas línguas ocidentais.

Em sânscrito, crise vem de kir ou kri que significa purificar e limpar. De kri vem crisol, elemento com o qual limpamos ouro das gangas e acrisolar que quer dizer depurar e decantar. Então, a crise representa um processo critico, de depuração do cerne: só o verdadeiro e substancial fica, o acidental e agregado desaparece.

Ao redor e a partir deste cerne se constrói uma outra ordem que representa a superação da crise. Ela se traduzirá num curso diferente das coisas. Depois, seguindo a lógica da crise, esta ordem também entrará em crise. E permitirá, após processo crítico de acrisolamento e purificação, a emergência de nova ordem. E assim sucessivamente, pois essa é a dinâmica da história.

A crise possui também uma dimensão pessoal, em várias situações da vida e a maior de todas, a crise da morte. A crise possui também uma dimensão cósmica que é o fim do universo que para nós não acaba na morte térmica mas numa incomensurável explosão e implosão para dentro de Deus.

Entretanto, todo processo de purificação não se faz sem cortes e rupturas. Dai a necessidade da de-cisão. A de-cisão opera uma cisão com o anterior e inaugura o novo. Aqui nos pode ajudar o sentido grego de crise.

Em grego krisis, crise, significa a decisão tomada por um juiz ou um médico. O juiz pesa e sopesa os prós e os contras e o médico ausculta os vários sintomas da doença. À base deste processo ambos tomam suas decisões pelo tipo de sentença a ser proferida ou pelo tipo de doença a ser combatida. Esse processo decisório é chamado crise.

O Brasil vive, há séculos, protelando suas crises por faltar às lideranças ousadia histórica de tomar decisões que cortem com o passado perverso. Sempre se fazem conciliações negociadas a pretexto da governabilidade. Desta forma sutilmente se preservam os privilégios das elites e novamente as grandes maiorias são condenadas continuar na marginalidade social.

A crise do capitalismo é notória. Mas nunca se fazem cortes estruturais que inaugurem nova ordem econômica. Sempre se recorre a ajustes que preservam a lógica exploradora de base, como ocorreu recentemente com a Grécia. Bem disse Platão em meio à crise da cultura grega: “as coisas grandes só acontecem no caos e na krisis”. Com a de-cisão, o caos e a crise desaparecem e nasce nova esperança.

Então se inicia novo tempo que, esperamos, seja mais integrador, mais humanitário e mais cuidador da Casa Comum.

Leonardo Boff fez um DVD Crise: chance de crescimento, por Mar de Ideias, Rio.



quinta-feira, 16 de julho de 2015

O EXEMPLO DA GRÉCIA


 por Frei Betto


      O governo alemão de Angela Merkel é impiedoso. Trata a Grécia como Hitler tratou a Polônia, com supremo desprezo.

      Os nazistas invadiram a Polônia e, hoje, Merkel age com a Grécia como quem asfixia um doente terminal. O país tem uma dívida equivalente a 177% do seu PIB e o desemprego atinge 25,6% da força de trabalho.

      O mundo é movido a dinheiro. A Alemanha, o Banco Central Europeu e o FMI exigem que a Grécia pague sua dívida externa. O país não tem como fazê-lo. Está quebrado. E acuado pelas potências europeias.

      Merkel não se importa com a sorte do povo grego. Quer arrancar-lhe o pão da boca e  entregá-lo aos credores. O pão que o diabo amassaria se os gregos aceitassem o que ela propõe: aumento de impostos, corte de gastos e profunda reforma do sistema previdenciário.

      Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego, preza o fato de seu país ser o berço da democracia. Coerente com as suas raízes, decidiu consultar o povo. Aceitamos ou não as imposições dos credores? O povo decidiu pelo “não” no domingo, 5 de julho. Nas urnas, 61% dos eleitores votaram pelo “não”.

      Merkel não gostou da consulta democrática e muito menos de seu resultado. E sabe que, agora, deve buscar uma saída para evitar o pior: a Grécia se retirar da zona do euro. Isso pode significar o início do fim da União Europeia. E nada impede que, amanhã, o exemplo seja seguido por outros países, como Espanha e Portugal, que estão com a corda no pescoço e acuados pela ganância alemã.

      “Faça o que digo e não o que faço”. O adágio resume a atitude alemã. A Alemanha nunca pagou as dívidas contraídas após as duas Grandes Guerras, das quais saiu derrotada e destroçada. Para se soerguer, contraiu dívidas. E se tornou o mais rico país europeu.

      O Acordo de Londres, de 1953, anulou mais de 60% da dívida alemã. Em 1945, esta dívida equivalia a mais de 200% do PIB do país. Dez anos depois caiu para menos de 20% do PIB. Jamais a Alemanha teria feito tão significativa redução se tivesse adotado o arrocho que, agora, pretende impor à Grécia como “ajuste fiscal”.

      Merkel se recusa a aceitar que a Grécia, para sair do buraco, adote a receita que salvou o seu país: imposto sobre as grandes fortunas e perdão de parcela significativa da dívida.

      O governo grego pediu aos credores ampliar o programa de ajuda ao país, o que permitiria à Grécia obter mais € 7,2 bilhões e ter condições de pagar o funcionalismo e a dívida de € 1,6 bilhão com o FMI. O pedido foi negado.

      Agora, nas negociações de Bruxelas, os gregos tentam a aprovação de uma segunda proposta: ter acesso ao programa europeu de ajuda, lançado em 2012.

      Se não houver acordo, os gregos poderão abandonar o euro, volta ao dracma e ficar fora da União Europeia. E o exemplo pode ser seguido até mesmo pela Itália, frustrando o sonho de uma Europa unida... ao menos no uso de uma única moeda.

      Se a crise grega se alastrar pela Europa, da qual dependem 20% das exportações brasileiras, o Brasil sofrerá o seu reflexo.

Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso Perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.
 Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português, espanhol ou inglês - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com


terça-feira, 14 de julho de 2015

A CRUZ, ENTRE A PARADA GAY E A IGREJA

Por Marcelo Barros



Na recente Parada Gay de São Paulo, no domingo 07 de junho, a atriz Viviane Bebeloni, transexual, desfilou presa a uma cruz. Ela afirmou que fazia isso como forma de protesto pelo que a população GLBT sofre de preconceitos e exclusão social. Desde que isso aconteceu, o assunto tem sido comentado nos meios de comunicação e por pessoas  de alguns segmentos religiosos. Uma nota assinada por bispos católicos de São Paulo condena o fato e protesta veementemente. Chega a pedir que a autoridade pública intervenha contra esse tipo de evento. Segundo eles, a parada gay teria desrespeitado a religião católica, ao usar o seu símbolo mais importante: a cruz. No dia seguinte, independente da nota dos bispos, circulavam pela internet ameaças de morte à atriz. Chegaram a divulgar a imagem de um travesti morto e de braços abertos como em cruz, afirmando ser Viviane e que aquilo teria sido castigo de Deus. É pena que ainda haja cristãos que possam pensar tal coisa de um Deus que é só amor e misericórdia. De fato, a tal fotografia espalhada na rede era de um travesti cearense, encontrado morto em abril de 2014. Viviane tem sido ameaçada de morte por telefone, mas está viva.

Na própria Igreja, mesmo sem vir a público, outros ministros e a maioria dos agentes das pastorais sociais pensam diferentemente. O padre Júlio Lancellotti, que trabalha com os sofredores de rua em São Paulo, declarou que ficou emocionado, ao ver pela televisão, a cena da atriz pregada na cruz. Ele viu ali o próprio Cristo crucificado. Outros lamentaram ironicamente que os bispos que assinaram a nota tenham esquecido de pedir a assinatura de políticos e pastores neopentecostais conhecidos por suas posições rancorosas e fundamentalistas, já que defendem o mesmo tipo de pensamento e postura. 

A justiça exige, ao menos, o direito de defesa a quem é acusado, antes de condená-lo sem escutar. De fato, a atriz em questão, declarou na televisão que se prendeu a uma cruz “para representar a dor e a humilhação que os homossexuais e população LGBT sofrem todos os dias” (declaração na internet e na TV Bee). Espiritualmente,  quando um fato pode ter ao menos duas interpretações (uma favorável e outra negativa), um cristão deveria sempre optar pela mais ecumênica e amorosa.

Sem dúvida, os bispos que assinaram a nota querem defender a fé cristã e os símbolos do Cristianismo. Apesar das aparências, certamente eles não se sentem donos dos símbolos sagrados da fé. Sabem que a Cruz é símbolo de todo o Cristianismo. Em São Paulo, ortodoxos e cristãos de Igrejas evangélicas históricas, todos usam a cruz. No entanto, sabem que um símbolo da fé não é grife ou marca comercial patenteada por alguma empresa. Se fosse assim, em breve, qualquer pessoa para usar uma cruz no pescoço teria de pedir permissão ao bispo.  A reação dos bispos é compreensível quando se vê a história de séculos da Igreja Católica. No entanto, são pastores esclarecidos. Mesmo se parece, devemos crer que eles não fizeram isso por preconceito contra transexuais e nem por homofobia. Ainda há muitas pessoas de fé e mesmo bispos que, infelizmente, separam o sagrado do profano. Assim, se escandalizam pelo fato de uma atriz transexual ter se identificado com Jesus na cruz para expressar a opressão que sofre todos os dias.

Nos anos 80, a Pastoral da Terra divulgou uma cartilha na qual a capa estampava um lavrador crucificado por uma cruz formada por uma enxada e uma foice. Alguns bispos e padres acusaram a CPT de fazer um uso político e redutivo da cruz. No entanto, esses mesmos não sentiam nenhum desrespeito à cruz quando os generais da ditadura militar usavam a cruz e a Bíblia em suas cerimônias de posse. Até pouco tempo, salas de tribunal e o Congresso Nacional tinham uma grande cruz na parede. De alguns desses espaços, a cruz foi retirada por que o Brasil é um país leigo e não porque algum bispo mais preocupado com o respeito à religião tenha protestado. Será que Jesus não se sente mais ofendido com certos julgamentos que temos presenciado no Judiciário brasileiro ou com um Congresso que legisla tantas vezes contra o povo pobre do que com um pobre transexual que tenta chamar atenção para a sua dor? E a cruz continua pregada nas paredes de bancos que ganham 400% de lucro ao ano e exploram de várias formas os pobres. Quando algum desses bispos tão fervorosos vão protestar contra isso?


Esse tipo de conflito nos faz compreender melhor porque Jesus foi condenado pelo pretório (poder político) e pelo sinédrio (poder religioso do seu tempo). Conforme os evangelhos, ele foi acusado de “blasfemar contra o templo”. O templo era o símbolo mais importante do Judaísmo da época e ele o desrespeitou. Ele afirmou: “Podem destruir esse templo e eu o reedificarei em três dias” O evangelho diz que “ele falava, não da construção de pedra, mas do templo do seu corpo” (João 2, 13 – 21). Sem dúvida, esses bispos são discípulos de Jesus e concordam com ele que, de fato, o transexual em questão, é como pessoa, um símbolo muito mais sagrado para a Igreja do que a cruz. 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países