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quarta-feira, 11 de abril de 2018

A 'CORTINA ECLESIÁSTICA'


por Eduardo Hoornaert

Escrevo este texto para dar uma modesta colaboração, como sempre de cunho histórico, ao ‘Ano do Laicato’, atualmente em curso no seio da Igreja Católica. Faço-o com prazer, pois cresceu em mim, ao longo dos anos, a convicção que só uma movimentação leiga é capaz de dar nova vida à Igreja católica. Parafraseando o conhecido ditado ‘fora da igreja não há salvação’, eu diria que ‘fora do leigo não há salvação’. Chegou a hora da autonomia dos movimentos leigos. O sociólogo italiano Gramsci escreve que movimentos novos, quando aparecem numa sociedade estabelecida, costumam passar por três fases: a da afirmação, do confronto com o que existe e finalmente da autonomia. Ora, o movimento leigo, dentro da Igreja católica, já tem alguns séculos e passou por duas fases: a da autoafirmação de uma consciência eclesial leiga e a do confronto com o sistema clerical vigente (a fase do anticlericalismo). Agora, com as Comunidades Eclesiais de Base (no sentido largo desse termo), entramos numa terceira fase, a da autonomia. Autonomia diante do sistema clerical. Não se trata mais de disputar espaço com o clero, mas de caminhar em frente e deixar o clero para trás, ‘correndo atrás do benefício’. Não se trata tampouco em menosprezar, por um enraizado anticlericalismo, os trabalhos, por vezes excelentes e mesmo imprescindíveis, de determinados sacerdotes, bispos e do próprio papa. Trata-se de conquistar a autonomia, o que só será possível se os movimentos leigos tiverem clareza em seus objetivos e segurança em afirmar, sem rodeios: ‘nós somos igreja’. Para tanto, a tomada de consciência da fraqueza congênita do sistema clerical é fundamental. E precisamente no sentido de uma tomada de consciência dessa segurança que ofereço aqui um subsídio que espero ser de alguma utilidade.

1. A fraqueza congênita do sistema clerical, ou melhor, seu defeito congênito, é um tema raramente verbalizado. Trata-se de externar em palavras o que muita gente sente intuitivamente, mas de que pouco se fala. Além disso, a compreensão desse defeito pressupõe uma tomada de consciência acerca de uma ‘história de longa duração’, segundo a expressão do historiador francês Fernand Braudel. Com isso, ele quis designar movimentos históricos que se tornam praticamente incontestes e podem mesmo dar a impressão de serem eternos, exatamente porque vigoram durante longos séculos. Suas inovações são tão largamente integradas na cultura que não são mais sentidas como inovações. Quando uma mesma narrativa se repete por séculos por meio dos mesmos gestos, das mesmas palavras e das mesmas imagens, a mente humana esquece que esses gestos, essas palavras e essas imagens são criações históricas passageiras (como tudo que é histórico). Elas foram construídas num determinado momento da história e, portanto, podem ser desconstruídas. As pessoas passam então a considerar essas criações como sendo evidentes e normais. Assim não estranhamos mais quando vemos um papa falando do evangelho dentre de um dos espaços mais portentosos do mundo, só comparável ao Kremlin em Moscou ou à Praça da Paz Celestial em Pequim. Não estranhamos quando lemos as imensas letras ‘sobre esta pedra edificarei minha igreja’ (um anacronismo flagrante!) na cúpula da Basílica de São Pedro em Roma. Estamos acostumados a essas e outras narrativas desde a infância e passamos a considerá-las normais. Mesmo assim, no íntimo sentimos que algo está errado. É do íntimo do coração que brota a consciência leiga.

2. Consideremos por uns minutos uma história de 17 séculos atrás. Você decerto já ouviu falar da ‘reviravolta constantiniana’. Imagine: no ano 325, o Imperador Constantino convida os bispos cristãos a se reunir em sua Residência de Verão, situada num subúrbio de Bizâncio chamado Niceia. Uma surpresa total, pois seu antecessor Diocleciano havia deflagrado a mais cruel perseguição contra as comunidades cristãs. O novo Imperador, pelo contrário, se dispõe a ajudar os bispos a resolver determinados problemas de desunião existentes entre igrejas (naquele tempo, esse termo indicava comunidades locais). Os bispos mal percebem que, por detrás de suas palavras e de sua gentileza, Constantino pretende se valer das energias vigentes no movimento cristão para enfrentar problemas de desunião a serem resolvidos na administração do Império. Esses bispos vêm do interior, do mundo rural analfabeta, e agora são recebidos com ‘honras senatoriais’. Ficam muito impressionados e um dos presentes, ao ver o Imperador conversando com seus colegas, exclama: ‘é o Cristo, o próprio Cristo está entre nós’. Constantino se faz de super-bispo e manda logo construir, na cidade capital Bizâncio, doravante chamada Constantinopla, uma basílica tão imensa que até hoje permanece uma das maiores construções do mundo cristão, a ‘Hagia Sofia’ (Santa Sabedoria). No final do século IV já funciona ali uma corporação de clérigos cristãos, nos moldes das corporações sacerdotais da religião romana da época, que se esmera em moldar uma nova liturgia cristã, que convenha a uma Basílica tão portentosa: introitos e procissões, mitras e estolas, capas e casulas, invocações solenes, preces codificadas, cortesias e a indefectível hipocrisia.  Essas novidades impressionam líderes cristãos do campo rural, que passam a seguir a moda bizantina. Assim se formam paulatinamente corporações clericais em grandes centros populacionais do Império como Antioquia e Alexandria, até alcançar a longínqua Roma. Inicia-se, ao mesmo tempo, um processo administrativo eclesiástico nos moldes do sistema administrativo romano, forma-se uma hierarquia e uma divisão do universo cristão em torno de centros urbanos (as dioceses). Tudo copiado ou pelo menos inspirado pela administração do Império Romano. Forma-se um novo tipo de bispo, que sabe falar em público segundo as regras da retórica e passa a cultivar modos corteses. Mas a mudança mais importante consiste na divulgação do princípio corporativo. Forma-se um corpo sacerdotal unificado, que passa a controlar a multiplicidade de igrejas, ou seja, de comunidades locais.

Ao acolher essas novidades do organograma clerical, os bispos praticam o que os alemães chamam de ‘Realpolitik’, ou, como se diz entre nós, assumem uma postura ‘politicamente certa’. Eles reconhecem e confirmam um fato consumado: doravante, o clero controla a Igreja.

3. Com esses procedimentos se interpõe uma pesada cortina entre a Igreja ‘católica’ (no sentido original de ‘espalhada por toda a terra’) e a tradição cristã anterior. Não um simples biombo de fácil remoção, nem um cortinado leve que voe ao vento, mas uma cortina que vai do teto até o chão, como aquele que em palácios e auditórios serve para separar grandes espaços. Ou como aquela cortina que, num teatro, separa o palco da plateia. Não é um muro, pois pode ser removido. Enfim, trata-se de uma instituição que, se não fecha totalmente o horizonte evangélico, pelo menos dificulta a visão.

Essa ‘cortina’ consiste numa remodelação e ressignificação da estrutura eclesial anterior. Aqui chegamos ao âmago da questão. Para que a nova ordem eclesiástica surta efeitos, é preciso reler os textos evangélicos de modo que confirmem ou pelo menos abram espaço para o novo modelo. Ou seja, fica difícil escapar a uma leitura fundamentalista dos evangelhos. A melhor definição de leitura fundamentalista que conheço foi dado por um professor meu, nos idos de 1950, que, ao terminar sua explanação numa determinada disciplina de nosso curso teológico, deu um suspiro e disse: ‘mais uma vez conseguimos provar que a Bíblia está de acordo conosco’. A intenção da leitura fundamentalista, confessa ou não, consciente ou não, é fazer com que o texto sagrado esteja de acordo com o que efetivamente está em curso ou se planeja. É uma leitura a posteriori. A rigor, não é leitura nem escuta, é a confirmação do que já se sabe. Uma perversão do pensamento.

4. Penso que o discurso da teologia de libertação, na medida em que se dispõe de animar o movimento leigo, não pode deixar de abordar esse fundamentalismo católico. Costuma-se, entre teólogos da libertação, recorrer diretamente ao evangelho. Falta um aprofundamento histórico, uma apresentação mais explícita da ruptura entre o sistema eclesial anterior ao século IV (o sistema de comunidades leigas) e o sistema baseado na corporação clerical e no sacerdócio. Trabalhei esse tema em meu livro ‘Origens do Cristianismo’ (Paulus, São Paulo, 2016). Para voltar à imagem da cortina: falta demonstrar que essa cortina é um dado histórico, é história vivida, não é ideologia. Se não incluir esse dado histórico, o discurso da teologia da libertação corre o perigo de soar algo irreal e não resolver a insegurança existente no mundo leigo. Num dia, a pessoa ouve o discurso de um teólogo da libertação e num outro dia o discurso do vigário de sua paróquia. Ela percebe a dissonância, fica insegura e pensa que se trata de pensamentos ideológicos diferentes, o que não é verdade. Trata-se aqui de história vivida, não de ideologia.

5. Falta credenciar as afirmações acima por meio da leitura concreta de um texto bíblico. Como aqui abordei o tema da corporação sacerdotal, me proponho, dentro dos limites deste texto, apresentar uma leitura muito resumida da Carta aos Hebreus. A razão da escolha dessa Carta está no fato que, nos cursos de formação clerical, ela costuma servir de fundamentação bíblica do sacerdócio cristão. Ensina-se, na base de uma leitura da Carta aos Hebreus, que há um só sacerdote verdadeiro e eterno, Cristo, e que os que receberam a ordenação sacerdotal são seus ministros. O ministério sacerdotal é uma participação ao sacerdócio eterno de Cristo. Para tanto, imprime-se na alma do sacerdote cristão um ‘caráter indelével’, um sinal de pertença definitiva ao sacerdócio de Cristo.  Ele é ‘sacerdote para sempre’.

Serei breve. Só digo, para iniciar, que a Carta aos Hebreus deve ter sido redigida por volta do ano 65, portanto numa época em que ainda funcionaram no Templo de Jerusalém os serviços sacerdotais. Provavelmente, foi escrita em função de sacerdotes judeus (‘hebreus’, como reza o título da Carta) que se aproximavam do movimento de Jesus e se sentiam inseguros quanto ao posicionamento do movimento em relação ao sacerdócio. 

Ao abordar a leitura do texto, ficamos estranhando a frequência de citações bíblicas. São mais de cem. Isso se deve ao fato que Hebreus argumenta por meio da citação de textos bíblicos e da apresentação de figuras bíblicas conhecidas. Nisso segue um método de argumentação corrente nas sinagogas, que se verifica inclusive nos evangelhos, o método ‘midrash’ (‘busca’, em hebraico). Presume-se que os ouvintes ou leitores tenham suficiente intimidade com textos bíblicos para ‘buscar’, guiados pelo escritor anônimo, citações bíblicas e figuras emblemáticas que expressem o que ele quer dizer. Assim, em Hebreus, Abel é o injustiçado, Abraão o homem de fé, Moisés o legislador, Josué o conquistador de Canaã, Ra’ab a prostituta que colabora com o exército de Josué e Esaú o irmão de Jacó, que desperdiça a bênção paterna por preferir uma sopa de lentilhas. É dentro desse contexto que aparece a figura de Melquisedec.

6. Melquisedec é a senha de acesso à compreensão da Carta aos Hebreus.

Captar o significado de Melquisedec leva a compreender a Carta aos Hebreus.  Vamos, pois, à procura de Melquisedec.  No Salmo 110 (um salmo da série ‘tseva´ot’, destinada a exaltar os que lutam por Israel), Ihwh fica tão alegre por encontrar alguém disposto a lutar com ele a favor de Israel, que ele se expande em palavras elogiosas:

No esplendor santo
Na luz da aurora
No orvalho da manhã,
Você será sacerdote para sempre
Como Melquisedec (Sl 110, 2-4, citado em Hb 7, 17 e 21).

Ihwh fica ‘eternamente grato’ ao colaborador e diz que ele é, como Melquisedec, ‘sacerdote para sempre’. O que significa isso? O Salmo 40 (que Hebreus cita no capítulo 10) tem a resposta.  Melquisedec (que aqui já funciona como símbolo de Jesus) se coloca frente a Ihwh e diz:

Você, Ihwh, não gosta de sacrifícios.

Nada de ofertas, nada de fogo nem fumaça.

Então eu disse:

Estou aqui (Sl 40, 7-10, citado em Hb 10, 5-7).

Que sacerdote é esse, que rejeita sacrifícios, fogo, fumaça, sangue de bodes e novilhos, enfim, as celebrações sacerdotais? Fica claro que, em Hebreus, o termo ‘sacerdote’ é uma metáfora. Hebreus fala em sacerdote para dizer outra coisa. Que ‘outra coisa’? O capítulo 7 tem a explicação. No versículo 14, para que ninguém entenda mal o raciocínio do escritor, ele afirma categoricamente que Jesus nunca foi sacerdote: ninguém ignora que Nosso Senhor provém de Judá, tribo sobre a qual Moisés ficou calado quando falava de sacerdotes (Hb 7, 14). Em que sentido se pode falar, então, de Jesus sacerdote? Hebreus 7, 15-17 tem a resposta:

À semelhança de Melquisedec se levanta um sacerdote novo, que não se tornou sacerdote em virtude de uma fugaz ordenação legal, mas pelo poder de uma vida indestrutível (akatalutos).

O sacerdote novo se tornou sacerdote pelo poder de uma vida indestrutível. Não há como dizer de modo mais claro que o sacerdócio de Jesus é símbolo de vida, ou seja, que o escritor usa a expressão ‘sacerdote’ para negar a vigência de um sacerdócio ‘ordenado’ no movimento de Jesus e afirmar categoricamente que Jesus se tornou ‘sacerdote’ por seu modo de viver. E, nos versículos 23 a 24, a Carta conclui: esse sacerdócio, por ser expressão de vida, é intransmissível:

Acrescentemos que os primeiros (os sacerdotes levíticos) foram numerosos a se tornar sacerdotes, porque a morte os impedia a continuar cumprindo seu ofício, enquanto ele, já que fica para sempre, possui um sacerdócio intransmissível (‘aparabaton’ em grego): Hb 7, 23-24.

Aqui nos defrontamos, nas traduções correntes do texto grego, com um erro grosseiro. O adjetivo grego ‘aparabatos’ significa ‘intransmissível’, não ‘verdadeiro’ (Tomás de Aquino), nem ‘eterno’ (Concílio de Tranto), nem ‘o que não passa’ (tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Hebreus afirma que a atividade de Jesus é passageira: Tudo isso ele realiza uma só vez (‘efapaks; hapaks’) (Hb 7, 27). As realizações de Jesus são passageiras, submetidas às leis de tempo e espaço, provisoriedade e incompletude, como tudo que se passa na história. Não se ‘transmitem’ por meio de algum rito. São intransmissíveis. Rito se transmite, se repete. Ato não se repete, não se ‘transmite’ (a não ser em forma de exemplo).

7. Podemos concluir. Não se pode alegar que a Carta aos Hebreus, por ser de leitura difícil, não seja um texto claro. É de uma clareza cristalina: Jesus é sacerdote ‘a exemplo de Melquisedec’, não ‘a exemplo de Aarão ou Levi’. Sacerdote por seu modo de viver, não por alguma ordenação que porventura teria recebido. O ‘sacerdócio’ de Cristo, na Carta aos Hebreus, funciona como metáfora da vida de Jesus, de seu modo de viver. Indestrutível, intransmissível. Dizer que o sacerdócio de Jesus está na origem do sacerdócio cristão é cometer um erro flagrante de leitura bíblica. Falta de atenção às palavras, de leitura apropriada.

Eis uma consideração de cunho histórico que, imagino, pode servir na formação de leigos e leigas desejosos de seguir o evangelho, conscientes de sua autonomia e desejosos de se livrar da tutela clerical. Livres para ler e interpretar textos bíblicos com critério e honestidade intelectual, sem ceder a tendências fundamentalistas.

 Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/

terça-feira, 10 de abril de 2018

A PASTORAL DA TERRA E A PÁSCOA


por Marcelo Barros

Há quem se pergunte que sentido tem a Igreja Católica ter no Brasil uma Pastoral da Terra. Chama-se Pastoral o cuidado de uma Igreja Cristã representada por seus fieis leigos e seus ministros com a comunidade humana. Em uma concepção rígida e estreita, a Terra não poderia ser objeto de pastoral, porque só quem é humano pode ser evangelizado. No entanto, atualmente, a sociedade civil mais esclarecida fala em direitos da Terra, da Água e da natureza. Se como planeta e também como território rural, a Terra é sujeito de direito à vida, à integridade e à saúde, ela também deve ser sujeito de cuidado e, portanto, de pastoral. Por isso, a Pastoral da Terra é o cuidado com a Terra, a Água, a vida que a envolve e a comunidade humana que a habita. 

A espiritualidade ecológica nos ensina que a Terra, a Água e a vida no campo são sacramentos da presença amorosa do Espírito. Portanto, são instrumentos e mediações da relação entre as comunidades, assim como da relação das pessoas com Deus. Cuidar dessa relação é fazer Pastoral da Terra. No Brasil, essa pastoral foi criada em 1975, quando o governo militar brasileiro falava em "ocupação da Amazônia" e se intensificava a opção por uma agricultura de exportação que deu origem ao agronegócio e significou a expulsão de muitos lavradores e suas famílias de suas terras. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) surgiu para ligar fé cristã e exigência de justiça social no campo e para ser o rosto amoroso das Igrejas na defesa dos pequenos lavradores, posseiros e sem-terra. Mais de 40 anos depois, os conflitos no campo se tornaram ainda mais agudos e é cada vez mais necessária e urgente uma estrutura de Justiça no campo. A reforma agrária pode contribuir para a redistribuição das riquezas, evitar o êxodo rural e estimular uma agricultura ecológica e sustentável. O Brasil poderia seguir o exemplo de diversos países asiáticos que, há décadas, fixaram limites para o tamanho da propriedade rural. Na Coréia do Sul é de três hectares. No Japão, varia de um a dez hectares, conforme o acesso á irrigação. (...) Já no tempo do império, Joaquim Nabuco e outros liberais falavam na necessidade de uma reforma agrária no Brasil. No entanto, essa discussão sempre foi barrada. A elite agrária brasileira é muito forte e com interesses contrários a isso. A maioria dos governos sempre favoreceu a elite rural. 

A ONU proclamou o dia 17 de abril como “dia internacional da luta camponesa”, um 1º de maio dos camponeses. Assim, ela reconhece, no aniversário do massacre dos lavradores sem-terra de Eldorado de Carajás no Pará (17 de abril de 1996), um marco para a luta dos camponeses do Brasil e do mundo inteiro. Apesar de que, no Brasil, movimentos populares e especialmente de lavradores pobres continuam sendo discriminados e criminalizados por certos órgãos de imprensa, organismos internacionais idôneos e respeitados reconhecem os benefícios imensos que a caminhada dos lavradores sem terra e dos pequenos proprietários tem significado para o campo brasileiro. A revalorização das sementes crioulas, a promoção da agroecologia e a instauração de cooperativas camponesas têm respondido à esperança de todas as pessoas que trabalham por um mundo mais justo e em comunhão com a natureza. Onde há mais cooperativas deste tipo e onde elas são mais eficientes tem sido no campo. A maioria é coordenada pelo Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST). 

Entidades européias,  bem informadas e competentes na defesa dos direitos humanos, têm conferido prêmios internacionais prestigiosos ao Movimento dos Trabalhadores pela prioridade que este movimento dá à educação e, concretamente, aos êxitos que tem conseguido neste setor. Mais de 70% da comida consumida pelo povo brasileiro vem da pequena agricultura familiar e não do agronegócio que existe preponderantemente para a exportação. 

Nesses dias em que celebramos a Páscoa, as comunidades do campo e os movimentos sociais se unem à Igreja Católica e outras Igrejas cristãs no Brasil para protestar contra a prisão injusta do padre José Amaro Lopes de Souza, da Pastoral da Terra do Pará, pároco de Anapu e continuador do excelente trabalho da irmã Dorothy Stang, mártir na defesa do povo do campo e da Amazônia. A prisão feita sob encomenda de grandes fazendeiros e sob pretexto de acusações injustas e infundadas, reedita para nós a prisão e condenação de Jesus. A celebração da Páscoa traz para o padre Amaro e para todos nós que poderíamos ser presos com ele porque estamos na mesma caminhada e defendemos a mesma transformação do mundo vigente a certeza de que Jesus ressuscitado está conosco e nos chama para a Galileia, isso é, para o compromisso com os lavradores e com a causa da Terra.  Aos cristãos de Roma, Paulo escreveu: “Não vos conformeis com este mundo (seu sistema e suas leis), mas transformai-o” (Rm 12, 1ss). O evangelho de Jesus diz: “Procurai o reino de Deus e sua justiça e tudo o mais virá por acréscimo” (Mt 6, 33).   

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

MARTIN LUTHER KING: A VITALIDADE DE UM SONHO


por  Maria Clara Lucchetti Bingemer             


Há cinquenta anos, em Memphis, Tennessee, um homem foi morto a tiros na varanda do hotel em que se encontrava hospedado.  O homem era negro.  O homem tinha um sonho. Liderava um grupo de homens e mulheres que aumentava a cada dia e se convertia em multidão.  Organizava eventos e marchava silenciosa e pacificamente em protesto contra a violência racial e o desrespeito aos direitos humanos em seu país. Mataram o homem, mas não o sonho. O homem se chamava Martin Luther King Jr. 

            Quando esse pastor batista e doutor em Teologia começou sua caminhada em prol da igualdade racial e da paz, o racismo em seu país era lei e não crime. Uma lei que cavava uma fenda profunda na sociedade estadunidense, mantendo os negros separados dos brancos nos transportes públicos, nas instituições de ensino, nos restaurantes, banheiros. O sonho do pastor negro era que essa discriminação tivesse um fim de forma pacífica e não violenta.

            Na origem desse sonho de paz e liberdade está o gesto de uma mulher: Rosa Parks, aquela que um dia, ao voltar do trabalho em um ônibus, sentada na parte do veículo proibida aos negros, recusou-se a ceder seu lugar a um homem branco. Foi presa e penalizada, mas seu gesto de desobediência fez com que cinquenta líderes da comunidade afro-americana, chefiados pelo então quase desconhecido pastor Martin Luther King Jr., reagissem à violência contra ela cometida. 

O movimento organizou e deflagrou um boicote de 381 dias ao sistema segregacionista de ônibus do Alabama. A partir daí seguiu-se a luta dos negros norte-americanos contra a segregação e pelo respeito aos direitos, do qual a estrela foi o Pastor King., que se tornou um ícone da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e ganhou o Prêmio Nobel da Paz anos depois. 

Sempre reconhecido àquela que havia sido o agente detonador de seu movimento, Martin Luther King Jr. dizia: "Na verdade, ninguém pode compreender a ação da Sra. Parks, a menos que realize que eventualmente a taça da capacidade de suportar transborda e a personalidade humana grita: "Eu não posso mais aguentar".      
      
Em 1963, o pastor negro continuava seu movimento, reivindicando pela igualdade de direitos de todos, pelo fim da discriminação racial e pela paz. Suas marchas eram cada vez maiores em volume e em consistência.  Naquele ano a marcha sobre Washington, a capital do país, convocava 250 mil pessoas.  Aí Luther King falou de seu sonho.  O sonho da igualdade e da liberdade.

Disse sonhar que um dia os filhos dos descendentes de escravos e dos descendentes de donos de escravos pudessem sentar-se juntos à mesa da fraternidade.  O pastor vivia um momento difícil, com ameaças, frustrações.  Sentia o conflito que se armava ao redor de sua pessoa.  Mas sonhava para as gerações futuras.  Sonhava com a possibilidade de que seus quatro filhos pudessem viver em uma nação onde seriam julgados por seu caráter e não pela cor de sua pele. 

O sonho de Luther King era recheado de liberdade e comunhão.  Sonhava em fazer chegar mais rápido “o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar...” Sonhava o sonho que sonhou também Jesus de Nazaré e tantos profetas antes dele e tantas testemunhas depois dele. 

No dia 4 de abril de 1968, um tiro penetrou no rosto do pastor negro. Matou o homem, não o sonho.  King entrou para a história não apenas pelo que fez, mas também e talvez principalmente pelo que sonhou:  um mundo onde ninguém seja discriminado por sua raça ou pela cor de sua pele; onde todos tenham direito de voto e acesso a empregos e serviços públicos; onde todos e cada um possam dizer livremente aquilo que creem e praticar o que acreditam. Um mundo onde a paz não seja apenas a ausência de guerras, mas situação vital e dinâmica construída no diálogo e na interação franca e transparente. 

 O sonho do Dr. King continua, mais vivo que nunca, cinquenta anos após sua morte.  Continua nos grupos afro americanos que seguem lutando por igualdade e enfrentando as discriminações de que são objeto.  Faz-se visível nos jovens migrantes, chamados sintomaticamente de “dreamers”, que reivindicam seu direito de sonhar com a cidadania no país que escolheram para viver uma vida melhor.  Vive em todo homem e mulher que em qualquer continente ou latitude deseja a justiça, a igualdade e a liberdade e luta para que aconteçam. 

Nestes cinquenta anos, muita coisa caminhou e o sonho se fez parcial realidade.  O país do pastor King teve a alegria de votar e aclamar um presidente negro na Casa Branca.  Pelo mundo, Nelson Mandela saiu da prisão e deslanchou o movimento de reconciliação nacional na África do Sul. Porém, o racismo não morreu.  Fez-se presente nos diversos episódios racistas acontecidos não apenas nos Estados Unidos, mas também no Brasil, onde a vereadora Marielle Franco foi assassinada por defender os direitos dos jovens negros das comunidades de sua cidade a viver.

Por isso, celebrar os 50 anos do assassinato de Martin Luther King não é apenas recordar sua exemplar biografia, mas tratar de inspirar-se em seu testemunho e nele aprender.  Importa ouvir hoje o que sua voz trovejante e lúcida dizia há 50 anos.  E continuar sua luta, carregados pelo sonho que faz com que a morte de um seja semente que frutifica na vida de muitos. 

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e 
 autora de  Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial, entre outros livros.
  Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

sexta-feira, 6 de abril de 2018

PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS PARA UM EQUILÍBRIO DOS GÊNEROS



por Leonardo Boff

A despeito das contradições internas das fontes judaico-cristãs, acerca do homem e da mulher, bem conhecidas, queremos recolher alguns princípios positivos que reforçam a luta histórica dos homens e das mulheres rumo a umequilíbrio dos gêneros.

a) Igualdade originária entre homem e mulher

Esse princípio é claríssimo na primeira página da Bíblia, no livro do Gênesis: “Deus criou o ser humano a sua imagem, macho e fêmea Ele os criou”(1,27). No segundo Testamento, centrado na figura do Cristo se diz: “ não há homem nem mulher, todos são um em Cristo Jesus”(Gal 3,28).

b) Diferença e reciprocidadeentre homem e mulher

Dentro da igualdade de origem, se instaura a diferença, entendida como abertura um ao outro, vale dizer, comoreciprocidade. O relato mais arcaico do Gênesis (2,18-23), de tendência geral fortemente masculinizante, acentua essa reciprocidade. Eva, embora tirada da costela (lado) de Adão, é apresentada não como a mulher com quem este vai ter filhos, nem como serva da casa, mas com seu vis-à-vis e interlocutora. O modismo hebraico para expressar essa mutualidade vem expresso pelas palavras de Adão: “eis alguém que é osso de meus ossos e carne de minha carne”(Gn 2,24). O próprio Paulo, podia expressar assim a reciprocidade: “o marido cumpra o dever conjugal para com a mulher e, igualmente, a mulher em relação para com o marido”(1Cor 7,4).

c) Homem e mulher, caminhos para Deus

Se homem e mulher são imagem e semelhança de Deus significa que Deus é encontrado neles. Aprofundando o conhecimento do humano, masculino e feminino, surpreendemos Deus cuja natureza apresenta asqualidades positivas dos princípios masculino e feminino.

Em termos rigorosos da teologia, quando dizemos Deus-Pai não dizemos uma coisa diferente do que quando dizemos Deus-Mãe. Por pai e mãe, pretendemos, teologicamente, expressar que a vida e a inteira criação têm sua origem em Deus e que se encontra sempre sob o cuidado e providência amorosa de Deus. Isso pode ser perfeitamente expresso pela categoria pai ou mãe. Portanto, temos sempre um caminho aberto para Deus, pela via do masculino e pela via do feminino. Diminuindo o valor da mulher temos uma imagem distorcida de Deus. Ficando exclusivamente com o homem encontramos não um pai amoroso mas um juiz justiceiro. Destruindo o humano perdemos Deus. Perdendo Deus, perdemos o sentido derradeiro de todas as coisas.

d) Homem e mulher, caminho de Deus

A imagem (ser humano) remete aomodelo (Deus). Se Deus mesmo tem dimensões masculinas e femininas, então é sob essa forma que Ele se revelou e auto-comunicou na história. Emerge como uma Energia criadora primordial, como aquele Pai que acompanha e protege ou como a mãe que cuida e consola (Is 66,13), mãe incapaz de esquecer o filho de suas entranhas (Is 49,15; Sl 25,6; 116,5) e que, no termo da história, como a grande e generosa Magna Mater enxugará nossas lágrimas, cansados de tanto chorar pelos absurdos que não entendemos (Ap 21,4). O feminino e masculino são caminhos de Deus para conosco.

Há ainda uma maneira de nomear Deus no cristianismo que é na forma de Trindade de divinas Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. As Pessoas significam relações de reciprocidade, de comunhão, de mutualidade, de inclusão, numa palavra, de amor. Deus emerge como um jogo de energias originárias e eternas que somente existem na medida em quecoexistem, são uma para a outra, com a outra, pela outra e jamais sem a outra. Nenhuma dela pode ser tomada em si sem as outras. Onde está uma estão simultaneamente as outras. É o que a teologia chama de pericórese, vale dizer, a inter-retro-relação e interpenetração das Pessoas divinas entre si. Não é mais o monoteísmo dos judeus e muçulmanos pré-trinitário. É o monoteísmo trinitário cristão. Ele funda um outro tipo de unidade divina, não dada previamente, mas sempre se construindo pelo jogo das reciprocidades e de inclusões. Por issodizemos que a essência íntima de Deus não é a solidão do Uno mas a comunhão de três Únicos (o único não se soma) que pela relação recíproca, se uni-ficam, ficam um único Deus-amor-relação.

Num nível existencial quando dizemos Trindade, no fundo queremos dizer: o Deus que está acima de nós chamamos de Pai, o Deus que está ao nosso lado chamamos de Filho e o Deus que está dentro de nós chamamos de Espírito Santo. Não são três deuses (porque cada Pessoa é única e por isso não pode ser somada) mas é um e o mesmo Deus que, no nível existencial, assim se revela e assim é experienciado.

Pelo fato de em Deus haver diversidade e unidade, então sua imagem no mundo, o homem e a mulher, serãotambém diversos e unos sendo impossível pensar o feminino sem o masculino e o masculino sem o feminino.

e) Homem e mulher em Deus

Por mais que estejam, inarredavelmente, imbricados um no outro e se busquem, insaciavelmente, o homem e a mulher não encontram a resposta de seu vazio abissal nessa relação recíproca. Neles há um infinito que somente o Infinito de Deus os pode preencher. Ambos, pois, são chamados a se auto-transcender, na direção do Infinito que os pode realmente saciar. Ai repousam e se perdem para dentro do infinito Amor e da radical Ternura. É apátria e o lar da completa identidade e da total realização. O feminino encontrará o Feminino fontal e o masculino o Masculino abissal. Dar-se-á o que todos os mitos narram e todos os místicos testemunham: o esponsal definitivo, o festim eterno e a fusão do amado e da amada no Amado e na Amada transformados, na expressão de S.João da Cruz.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.Escreveu O rosto materno de Deus, Vozes 2005.