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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Ser felizes mesmo no meio de tanta dor

 Marcelo Barros


    Neste VI Domingo comum (do ano C), o evangelho lido nas comunidades nos traz um texto básico para a nossa fé: Lucas 6, 17- 26. Provavelmente os evangelhos colhem palavras que Jesus disse aqui e ali e as reuniram em uma unidade como se fosse um discurso. As perspectivas a partir das quais Mateus e Lucas contam as mesmas palavras de Jesus são diversas. Mateus conta a proclamação das bem-aventuranças como início do Sermão da montanha (Mt 5- 7) que mostra Jesus como novo Moisés transmitindo a aliança de Deus para um Israel ampliado e aberto. Lucas toma só algumas partes do discurso e o situa em uma grande planície, como que visando a extensão do mundo inteiro. Resume as bem-aventuranças em quatro e acrescenta quatro lamentações que Mateus não tinha trazido. 

Nos versículos 17 a 19, (texto que não entra na leitura litúrgica desse domingo), Lucas situa o contexto social. Diz que o cenário a partir do qual Jesus falou é o de um povo aberto que se reúne para escutar Jesus e ser curado. Frisa que as pessoas vêm tanto da região judaica, como do mundo grego-pagão, o que é exatamente a realidade das comunidades para as quais, nos anos 80, esse evangelho foi escrito. A ação terapêutica de Jesus une a palavra e o toque corporal. No entanto, Jesus propõe mais do que a cura de doenças: propõe um caminho novo de vida: o caminho das bem-aventuranças. 

André Chouraqui, judeu cristão, que conhece bem a terra de Jesus e os costumes da época, traduz as bem-aventuranças por “em marcha”, ou “para frente!”. Na cultura em que Jesus viveu, a infelicidade é estar parado. Em hebraico, o termo para doença é mahala, que quer dizer andar em círculos, estar preso, fechado em seu sofrimento, em seus pensamentos ou até mesmo em suas emoções.  Tem gente que vive parada sobre a própria imagem, fixada nos sintomas, paralisada pelas memórias pesadas, negativas ou pela saudade idealizada do que foi vivido e acabou. Por isso, a bem-aventurança consiste, de fato, na disposição de dar um passo à frente. 

Uma boa definição da espiritualidade é dar um passo a mais do lugar onde se está. (...) No seu livro sobre as bem-aventuranças, Jean-Yves Leloup insiste: “as bem-aventuranças são, cada uma, um convite para nos recolocar em marcha, a partir de nossas lágrimas, a partir do caminho que já percorremos. Há ainda muito a caminhar” (Vozes, 2004, pp. 57- 58).  

A comunidade de Lucas proclama “felizes” e convoca para se pôr em marcha, “a vocês”, pobres, famintos e pessoas que choram”. E o motivo pelo qual são abençoados ou felizes é que Deus não quer que haja injustiças e desigualdade no mundo. São bem-aventurados/as, porque, como daqui a pouco o reinado de Deus vem ao mundo, poderão deixar de ser pobres, famintos e aflitos. Ao colocar os verbos no presente, (“O reino é de vocês”), Jesus não fez apenas uma promessa para o futuro. De acordo com essas palavras, é possível ser feliz já, mesmo em meio à luta da vida.

Quando o evangelho de Lucas proclamou essas palavras de Jesus, as comunidades cristãs tinham sido testemunhas da guerra dos romanos contra os judeus. Tinham visto a destruição do templo e  viviam a repressão violenta do império, sob o imperador Domiciano. De modo algum, a perspectiva social e política permitia a proclamação de qualquer saída esperançosa. Nesse contexto, o anúncio das bem-aventuranças para as pessoas pobres e sofredoras podia parecer uma loucura. Qual a base histórica para afirmar que as pessoas vítimas da sociedade imperial poderiam ser consoladas e, de alguma forma, viver a alegria do reinado divino? Ainda em nossos dias, como crer que a proclamação das bem-aventuranças não é pura loucura de uma esperança impossível? O que significa proclamar bem-aventuranças para as pessoas que estão excluídas e são vítimas do Brasil de Bolsonaro? Concretamente, mudará alguma coisa? Não podemos acreditar que o projeto divino seja que as pessoas suportem injustiças e iniquidades para depois gozarem as delícias do céu. Esse tipo de interpretação da fé legitimou o Cristianismo colonial escravagista. A perspectiva das bem-aventuranças de Jesus tem de ir no sentido oposto. Tem de ser o anúncio de  que chegaram os tempos messiânicos e as pessoas deserdadas e marginalizadas pelo mundo são preferidas do reinado de Deus para mudar as condições do mundo. As pessoas pobres e excluídas não são bem-aventuradas por causa dos seus méritos e sim simplesmente porque Deus as ama e quis salvá-las. 

Na América Latina, a Teologia da Libertação nos ensinou a viver a comunhão com os pobres, mas contra a pobreza injusta. Agora, a Ecoteologia nos ensina que para a sobrevivência da vida na terra, é preciso mudar totalmente esse sistema de consumo. Os índios nos ensinam o paradigma do bem-viver (colocar-se em comum uns com os outros e com a terra e priorizar o bem-comum). 

Conforme Lucas, do mesmo modo que “parabeniza” aos pobres, famintos e sofredores, Jesus proclama quatro lamentações. Conforme o evangelho, ele estava na planície, com uma multidão de pobres que vieram para ser curados/as e libertados/as. Ali não estava ninguém rico. Mesmo assim, Jesus proclama essas lamentações: “Ai de vocês, ricos e todos os que estão muito bem na vida...”.  Certamente, Lucas se refere mais a pessoas e grupos da sua época do que diretamente a pessoas do tempo de Jesus. Nesse discurso, Jesus fala do presente e denuncia situações de injustiça. Ele reconhece: rebelar-se é justo, porque este mundo é absurdo. Sim, temos não só o direito, mas o dever sagrado de denunciar e de rogar praga contra um governo que é contra o direito dos pobres e contra um sistema que atenta contra a vida. Jesus faz isso ligando a situação atual com uma visão mística do futuro, aberta à esperança do reino, ou seja, a certeza de um mundo novo. Esse é o nosso caminho para juntos ser felizes. 

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

 

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

ROBERT E MOÏSE: DUAS TRAGÉDIAS SEMELHANTES

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            O que o Papa Francisco denuncia desde o início de seu pontificado, como globalização da indiferença, acontece diariamente em várias latitudes e de diversas formas. São tão frequentes que já não chamam tanta atenção e não provocam a mobilização que deveriam.  Às vezes se dão como cegueira total diante do outro que sofre, tornado invisível pelo individualismo reinante.  Outras acontecem como violência inadmissível e revoltante.  Ambas constituem verdadeiras tragédias humanitárias. 

            René Robert, suíço, casado, tinha 84 anos, era fotógrafo.  Especializou-se em captar a beleza e o feitiço fascinante do flamenco contemporâneo.  Morava em Paris.  Aparentemente poucas vidas poderiam ser mais charmosas do que a deste homem já idoso, é verdade, mas vivia em uma das cidades mais belas e cosmopolitas do mundo. Tinha uma profissão igualmente atraente e criativa.  No entanto, ei-lo que engrossa as estatísticas das 500 pessoas que morrem anualmente nas ruas das cidades francesas.  Seu perfil, porém, se destaca dos demais que, em geral, são mendigos, migrantes, sem-teto, moradores de rua.  Robert não fazia parte desta triste condição de vida que existe até mesmo no mundo desenvolvido.  

            Não se tratava de um sem-teto, mas de alguém com uma carreira profissional reconhecida.  Graças a isso hoje sabemos as circunstâncias em que morreu. Todos os dias esse artista da imagem fazia sua caminhada noturna por seu bairro – na Place de la République - e no dia 19 de janeiro não foi diferente. Passando pela rue Turbigo, por algum motivo que se desconhece, caiu ao chão desacordado. E ali ficou por horas. Veio a noite, a rua ficou vazia, mas Roberto continuava ali, caído e sendo lentamente assassinado pelo frio do inverno parisiense, sem que absolutamente ninguém parasse para socorrê-lo.  As pessoas tinham pressa, voltavam do trabalho, não havia atenção nem tempo sobrando para socorrer alguém que se encontra caído no chão. 

            As seis da manhã, uma pessoa – essa, sim, sem-teto e que não quis ter seu nome divulgado – reparou nele e chamou por socorro.  Robert foi levado a um hospital, mas já era tarde.  Após nove horas ao relento, morreu de hipotermia grave, ou seja, de frio. Um de seus amigos declarou a respeito de sua morte, fazendo ao mesmo tempo um exame de consciência: “Não poder ter certeza de que não me afastaria de alguém deitado na rua é uma dor que me persegue.  Mas estamos com pressa, estamos com pressa, temos nossas vidas e desviamos o olhar. “

            Moise Mugenyi Kagabambe nasceu na República Democrática do Congo e chegou ao Brasil 11 anos atrás, com 14 anos de idade. Hoje, tinha 24.  Deixou seu país fugindo de conflitos que faziam de sua terra um lugar de violência, corrupção e criminalidade.  As milícias eram ativas e Moise veio buscar a paz no Brasil, país onde acreditou encontrar um povo pacífico e cordial. Sua mãe, Ivana Lay, veio três anos depois do filho.  Moise trabalhava no quiosque Tropicália, na Barra da Tijuca. Contribuía assim para o sustento de sua família.  No dia 24 de janeiro, o jovem foi ao Tropicália reivindicar o recebimento do dinheiro correspondente ao trabalho que ali realizara. 

            Moise foi atacado e linchado por cinco homens nas dependências do quiosque.  Os que o agrediram usaram um taco de baseball e amarraram suas mãos aos pés.  Um sentou-se sobre sua cabeça até que ele não mais respirasse.  O vídeo que uma testemunha fez do acontecimento mostra esse mesmo homem tentando reanimar Moise, sem conseguir. O jovem recebeu mais de 30 pauladas. As câmeras de segurança também filmaram a agressão. 

            Por que o fato de um jovem trabalhador ir ao local de trabalho e reivindicar receber o que lhe era devido provoca essa reação de violência?  Entre várias razões emerge o fato de que Moise era negro e migrante.  O racismo estrutural que divide a sociedade brasileira, bem como a xenofobia velada ou explícita que circula como veneno em nossas veias, fez com que a tragédia de Moise acontecesse de forma tão brutal e cruel. 

            O assassinato mobilizou a opinião pública, pelo menos alguns grupos.  A mãe de Moise, inconsolável com a perda do filho, deixa perceber nas redes sua perplexidade.  Vieram ao Brasil buscando paz e seu filho aqui encontrou a morte de forma violenta como acontece em seu país. 

            Ambas as tragédias humanitárias e  suas vítimas nos interpelam.  Uma, pela indiferença que se apossou de nós que não nos deixa enxergar o outro ainda que em situação infra-humana, caído ao nosso lado.  Outra, pela violência brutal e exponencial que faz atacar covardemente um jovem e acabar com sua vida por não considerá-lo um sujeito com direitos e dignidade.  Precisamos – e como! – examinar-nos, e meditar constante e continuamente na parábola do Bom Samaritano que o Papa Francisco propõe ao centro de sua encíclica Fratelli Tutti: “Havia um ferido à beira do caminho...” Havia, há, um ancião caído na rua em meio ao inverno glacial.  Havia, há, um jovem que necessita receber os proventos que lhe são devidos.  Havia, há, seres humanos que necessitam justiça e atenção.  O que está acontecendo com a humanidade? 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.

 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização da autora. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Que porra é essa!

 


Prof. Martinho Condini

Há três anos estamos vivendo sobre as rédeas (itens de aderência para ser utilizadas em cavalos, burros ou mulas) do pior governo da história brasileira, sem contar é claro, com os séculos da escravização dos negros africanos (a maior vergonha da nossa história) e a excrescência da Ditadura Militar, admirada por tantos brasileiros e brasileiras, para minha surpresa, muitos deles cristãos.     

Há mais de trinta anos como professor de história e de formação de professores, confesso nunca ter ouvido e lido tanta asneira, principalmente nas redes sociais, uma terra de ninguém. Coincidência ou não, essas falas e escritas se acentuaram a partir do momento em que os simpatizantes da direita e das práticas e ideias bolsonarentas, ou seja, os anti vacinas, negacionistas, terraplanistas, armamentistas, sexistas e homofóbicos resolveram compartilhar suas reflexões e opiniões, muitas delas embasadas no pensamento do guru bolsonarento, o picareta, desqualificado e falecido Olavo de Carvalho.  

 Soma-se a esse espetáculo dos horrores às atitudes que esse desgoverno bolsonarento vem fazendo desde sua posse e irá fazer até o final desse ano. E chegamos à conclusão de que nada mais pode ser tão ruim.  Aí está o grande engano, se as coisas estão ruins podem ficar ainda pior.  Colaboradores para isso não faltam nesse Brasil desatinado e tão maltratado nesses últimos anos.

A afirmação acima se justifica a partir da leitura que fiz ao abrir um jornal de circulação nacional dias atrás, quando me deparei com um artigo sobre o Racismo Negro.

 Que porra é essa?

Onde esses supremacistas brancos querem chegar? Será que todo esse histórico de domínio da elite branca colonial judaico-cristã capitalista em nossa sociedade não foi o suficiente para deixar as maculas da pouca vergonha por eles realizadas. Será que o vergonhoso processo de embraquecimento da nossa sociedade a partir da imigração europeia no último quarto do  século XIX,  e a criação e consolidação desse racismo estrutural que nos atormenta diuturnamente com as atrocidades que são feitas com afro descentes de norte a sul desse Brasil desde sempre não foram suficientes?     

Não é possível que num país que tem uma história de quase quatrocentos anos de escravidão, onde os afros descentes até hoje não são tratados de maneira digna pelo Estado, temos que aceitar que um desinfeliz venha ter espaço para escrever um texto supremacista, reacionário, imoral, antiético e estapafúrdio no atual momento da nossa história? Um artigo que serve apenas para acalentar a classe média burra e a elite branca reacionária.

Estamos desde o golpe da presidenta Dilma Rousseff lutando contra essa corja de fascistas, homofóbicos, sexistas, que respaldados por esse governo inescrupuloso ganhem cada vez mais adeptos nas redes sociais. Hoje no Brasil, temos mais de 500 grupos neonazistas. E aí vem esse desinfeliz escrever esse artigo fasistóide e nojento a troco de quê?

O mais incrível é que alguns colunistas desse mesmo jornal em que o artigo foi publicado, disseram que não viram nada demais alguém escrever um artigo com essa temática. Isso é inacreditável.

Como mencionou um colunista desse mesmo jornal, contrário ao artigo, “Em 2015, Dylann Roof, aos 21 anos, entrou numa histórica igreja negra em Charleston, na Carolina do Sul (EUA), e matou a tiros nove pessoas. Roof afirmou: "Alguém tinha que fazê-lo porque, sabe, os negros estão matando os brancos toda hora na rua". Em manifesto, relata ter buscado na internet por "crime de negros contra brancos" (black-on-white crime) e, a partir daí, nunca seria o mesmo”.

Se já não bastasse a discriminação, a perseguição e os assassinatos contra os negros no Brasil, a longa data, agora os supremacistas passam a ter também espaço nos jornais, ou seja, começam a sair das suas asquerosas bolhas para serem influenciadores nas mídias escritas.

Os antirracistas devem ficar atentos a esse tipo de publicação, enquanto eles estão falando dentro de suas bolhas para os seus pares de fasistóides é uma coisa. Mas no momento em que essas falas ganham espaço público e chegam ao gado bolsonarento, isso pode engrossar ainda mais o coro dos abestalhados da república dos canalhas.

E para esse desinfeliz que escreveu o artigo do Racismo Negro, é bom que ele saiba que entre os três últimos finais de semana de janeiro/2022, foram registrados doze linchamentos nas praias e bairros da zona sul da cidade do Rio de Janeiro.

O homem negro que morreu espancado num supermercado sabe lá porquê, em Porto Alegre, em 20 de novembro de 2020 (Dia da Consciência Negra), o congolês que foi covardemente executado no quiosque porque foi cobrar o pagamento dos dias trabalhados e o trabalhador negro que foi brutalmente assassinado pelo seu vizinho sargento da marinha (um vagabundo profissional), ambos na cidade do Rio de Janeiro dias atrás e esses outros linchamentos que mencionei ocorreram por causa do Racismo Negro?

Os supremacistas brancos não tem vergonha em suas caras, e estou convencido que um dia  essa história irá mudar, porque a história é movimento e não determinismo.

Infelizmente o DNA do Brasil é de um país radicalmente racista, preconceituoso e violento, e para mudar isso acredito que demorará o dobro do período de escravização dos negros africanos em nosso país. Essa realidade é lamentável e vergonhosa para todos nós brasileiros e brasileiras que defendemos e acreditamos na igualdade e dignidade para todos os seres humanos.

 

*O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros ‘Dom Helder Camara um modelo de esperança’, ‘Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo’, ‘Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire’ e o DVD ‘ Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro ‘Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza’. Contato profcondini@g

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

QUANDO DEUS SE CALA

 Frei Betto


 

       Chega a amiga sem o sorriso que lhe é peculiar. Recebo-a no parlatório do convento com o pressentimento de que algo lhe esmaga o coração. Então, desabafa. Fala do genocídio (mais de 630 mil mortos) promovido pelo governo federal ao minimizar a pandemia e negar a ciência; das invasões de terras indígenas; do feminicídio alarmante; dos múltiplos casos de racismo; dos sucessivos assassinatos de crianças, no Rio, por supostas “balas perdidas”. E antes de se calar, conclui: “Não suporto o silêncio de Deus”. 

       Uma longa pausa se abre entre nós. Porque não me julgo portador de elixires capazes de consolar os aflitos. Também carrego minhas angústias e tantas interrogações que me oprimem o coração. O silêncio de Deus também me inquieta. Não creio em um deus “pronto socorro” que venha em resposta às minhas súplicas. Nem mesmo sei quem é Deus, digo a ela, por mais que os catecismos e as teologias se esforcem em defini-lo. Pura bravata!

       Admito que Deus extrapola todos os nossos conceitos e nossas palavras, ideias e fantasias. Não cabe na mente nem na alma dos humanos. É radicalmente o Outro! O Inominável, como o considera o centésimo nome da divindade na lista muçulmana.

       Mesmo na Bíblia - com raras exceções, como no batismo de Jesus (Marcos 1,11) -, Deus se cala. Faz-se presente disfarçado de nuvem, de brisa suave, de sopro, de anjo etc. É o “Deus absconditus” (oculto) de Pascal. Fez silêncio inclusive na agonia do Filho pregado na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, clamou Jesus ao ecoar o Salmo 22 (Marcos 15,34). Aquele que Jesus tratava com tanta intimidade, a ponto de chamá-lo Abba - “meu pai querido”, em aramaico - agora estava tão distante que foi invocado pelo nome genérico. 

       Deus também fez silêncio nos campos de concentração nazistas. Até o papa Bento XVI, ao visitar Auschwitz, em abril de 2010, exclamou: “Por que, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar  isto? Onde estavas nesses dias?” Da mesma forma, o salmista clamou: “Meus Deus, eu grito de dia e não me respondes!” (Salmo 22,2). E Javé adverte no livro dos Provérbios"Vocês me chamarão, mas não responderei; procurarão por mim, e não me encontrarão.” (1,28). 

       Deus é definitivamente um ser insondável, enigmático. É isso, na opinião de João da Cruz, que nos permite crer ou não crer. “Onde tu te escondes?”, indaga o místico espanhol, ao fazer eco ao profeta Isaías: “Tu és um Deus que se esconde” (45,15).

       Minha amiga diz que está em crise de fé. Como os amigos de Jó. Recordo o conselho de Alfred de Vigny: “Nunca fale e nunca escreva sobre Deus. Restitua-lhe o silêncio com o silêncio”. 

       Esse silêncio significa a morte de Deus, como alertou Nietzsche? Óbvio que não. A religiosidade está em plena ascensão no mundo. Nos EUA é politicamente incorreto se declarar ateu… Figuras como o papa Francisco e o Dalai Lama se destacam como as mais respeitáveis.

       Mas convém assinalar que Deus também é evocado pelos terroristas, pelos  autocratas, como Bolsonaro, e seu nome é amplamente tomado em vão e utilizado para justificar as mais terríveis atrocidades. 

       “Graças a Deus”, roga uma família que, por pouco, não foi esmagada pela grande pedra que se desprendeu no canyon de Capitólio (MG). E o que dizer aos familiares das vítimas fatais? Dizer que não mereceram a bênção de serem agraciados pela mão salvadora de Deus?

       Digo à minha amiga que prezo com profundo respeito o silêncio de Deus. De certa forma, invejo-o. Nesse mundo tão ruidoso, de zoadas auditivas e virtuais, guardar silêncio é uma atitude de profunda sabedoria. De saúde psíquica. Não vale a pena falar se minhas palavras não forem melhores que o meu silêncio.

       Temos medo do silêncio. Deus não, o que comprova a sua sapiência. Temos dificuldades frente a tudo que requer silêncio, como dormir, orar, meditar, ocupar-se com um livro… O silêncio nos atordoa. E tememos o mais definitivo dos silêncios – a morte.

     Digo à minha amiga que não creio em Deus, creio em Jesus. E, por tabela, no Deus de Jesus. Mas não sei quem ele é e nem isso me preocupa. Apenas sei que, segundo Jesus, ele pode ser encontrado em todo e qualquer gesto de amor. A fé é um salto no vazio. Creio sem saber. O foco de minha fé não é Deus, é Jesus. E mais do que ter fé em Jesus, quero ter a fé de Jesus. Como escrevi no poema Domingo no circo: “Domingo redondo aberto picadeiro ∕ Ensolarado por tão forte ardor ∕ Me refunde, queima, alucina: ∕ Olhos vendados, sem rede sobre o chão, ∕ Atiro-me do trapézio em teu amor.” 

     Após nossa conversa, minha amiga parecia menos angustiada. Fez-se prolongado e leve silêncio entre nós. Até que ela se levantou, deu-me um abraço apertado e partiu em silêncio. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Aldeia do silêncio” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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