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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

PALAVRAS DE PEDRO - Solidariedade


Dom Pedro Casaldáliga


#NÃOAOMARCOTEMPORAL


Solidariedade


Para acender a vossa espera.

Para ajudar-me a ajudar

Porque é a única maneira

que às vezes tenho de amar:

simplesmente ser e estar,

onde Sois e Estás agora.

Esse nenúfar cor de limão

debaixo da névoa que chora

não aposta meu coração

para dar fé da aurora?


Pedro Casaldáliga, O Tempo e a Espera 

#Casaldàliga! #PedroCasaldáligaPresente! #PereCasaldàliga #NãoQueremosGuerraQueremosPaz! #pl2903não #NãoAoMarcoTemporal #MarcoTemporalNão @fperecasaldaliga @irmandadedosmartires

terça-feira, 12 de setembro de 2023

No grito dos excluídos, o Mutirão da Profecia


Marcelo Barros


Nesta próxima semana, ao mesmo tempo que, por todo o Brasil,

acontecem cerimônias e eventos que recordam a independência do nosso

país, também as categorias mais pobres expressarão o seu grito por Vida e

por Libertação. Desde 1995, as comemorações da independência do Brasil

têm sido marcadas pelas manifestações populares que se chamam Grito dos

Excluídos. Esse evento teve origem em meio às pastorais sociais ligadas à

CNBB na realização da 2ª Semana Social Brasileira. E embora tenha sido

iniciativa das pastorais sociais, desde o começo, o Grito dos Excluídos e

excluídas se abriu à participação dos movimentos populares e de entidades

cristãs ecumênicas como o CONIC, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs.

Neste ano, o 29º Grito tem como sempre o tema: “Vida em

Primeiro Lugar” . O lema é a pergunta: “Você tem Fome e Sede de Quê?”.

A ideia é provocar entre o povo o diálogo baseado na escuta sobre essas

questões. O objetivo é responder quais as fomes e sedes que o nosso povo

sente. Assim, a partir dos anseios do povo mais empobrecido, poderemos

buscar soluções que acabem com toda forma de exclusão e violência.

Atualmente, de norte a sul, em todo o país, há mobilizações do

Grito dos Excluídos. Realiza-se como manifestação coletiva que se soma à

construção em processo da 6ª Semana Social Brasileira. Estão mobilizadas

as pastorais de Igrejas cristãs, movimentos populares e pessoas de boa

vontade sensíveis aos sofrimentos dos mais pobres para que possamos

defender e garantir os direitos dos pobres e marginalizados. Desde os seus

inícios, o Grito dos Excluídos e excluídas nos confirma que não há

verdadeira independência do país, se a imensa maioria do povo vive em

condições de pobreza injusta e de insegurança alimentar. Só poderemos

considerar o país independente no dia em que conseguirmos superar a

imensa desigualdade social e garantir os direitos fundamentais à Vida, à

alimentação, à educação, à moradia e à saúde para todos os brasileiros e

brasileiras.


Essa realidade que vivemos hoje tem profundas raízes no sistema

da colonização que se instalou em nosso continente há mais de 500 anos e

se fortaleceu através das tentativas de extermínio dos povos indígenas e da

escravização dos povos sequestrados na África. Infelizmente, ao legitimar

essa estrutura iníqua, a Igreja Católica e outras Igrejas cristãs contraíram

uma dívida histórica com as populações vítimas desse sistema. Cumpre

agora saldar essa dívida.


Desde tempos imemoriais, os impérios usaram as religiões e os

cultos para se perpetuarem no poder. Por isso, durante toda a história, em

diversas culturas e nas mais diferentes linguagens espirituais, surgiram


profetas e profetizas que protestaram contra a religião usada como

instrumento do poder para dominar as pessoas. Na Bíblia, os antigos

profetas e profetizas sempre insistiram que o nome de Deus é Justiça

libertadora. Maria, mãe de Jesus cantou que se Deus é Deus, derruba do

trono os poderosos e eleva os pequenos. Na sinagoga de Nazaré, Jesus

afirma que o Espírito Divino desceu sobre ele para realizar a libertação de

todas as pessoas oprimidas. Não foi por engano que os funcionários do

templo e da religião ritual o prenderam e o entregaram aos militares

romanos para ser condenado a morrer na cruz!


Atualmente, Francisco, bispo de Roma, propõe uma Igreja em

saída que cuida dos migrantes, dos pobres e das populações excluídas,

apesar de um grande número de padres e bispos se agarrarem a uma

religião autocentrada e tentarem reativar o Catolicismo barroco de tempos

passados.

Diante disso, cristãos de várias Igrejas têm sentido o chamado divino para

reafirmar o caráter profético da fé cristã e querem unir as suas vozes ao 29º

Grito dos Excluídos através do Mutirão da Profecia.


É preciso dizer claramente ao mundo que a fé e a espiritualidade

devem tornar as pessoas mais humanas e atentas ao cuidado dos pobres.

Para isso, temos os sacramentos da Igreja, que, ou são sinais de partilha e

comunhão de vida para todos e todas, ou não são de Jesus Cristo. Assim, a

fé no Evangelho que Jesus anunciou como boa nova de libertação para toda

a humanidade nos levará a clamar que ninguém passe fome nem sede.

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

C.G.Jung: a espiritualidade como dimensão essencial da alma


Leonardo Boff


Hoje vige uma preocupação fundamental: o resgate da razão sensível ou cordial (do coração) para equilibrar o excesso desastroso da razão instrumental-analítica Temos que harmonizar o logos com o pathos a anima e o animus se quisermos equacionar os problemas sociais e enfrentar o alarme ecológico.A mente é sempre incorporada, portanto, sempre impregnada de sensibilidade e não apenas cerebrizada. Jung vivia esta profunda conexão.

Em suas Memórias diz:”há tantas coisas que me repletam: as plantas, os animais, as nuvens, o dia, a noite e o eterno presente nos homens. Quanto mais me sinto incerto sobre mim mesmo, mais cresce em mim o sentimento de meu parentesco com o todo”(p. 361).

Neste contexto afirma:”importa projetar-nos nas coisas que nos cercam. O meu eu não está confinado ao meu corpo. Estende-se a todas as coisas que fiz e a todas as coisas à minha volta. Sem essas coisas, não seria eu mesmo, não seria um ser humano, seria tão-só um símio humano, um primata. Tudo o que me rodeia é parte de mim… Estou profundamente comprometido com a ideia de que a existência humana deve estar enraizada na Terra”(pp.189;190).

Para Jung, as coisas todas, são mais que coisas. Penetram-nos na forma de símbolos e arquétipos, carregados e emoções e vão compondo  a constelação de nosso eu profundo. Vale lembrar a confissão de C.G. Jung:”minha vida é a história da autorrealização do inconsciente”. Não diz do “meu inconsciente”. Mas do inconsciente coletivo que possui dimensões humanas, cósmicas, animais e vegetais. A culminância do processo de individuação reside na integração do todo do qual nos sentimos parte e parcela.

Poucos estudiosos da alma humana deram  mais importância à espiritualidadade do que Jung. Via na espiritualidade uma exigência arquetípica fundamental da natureza humana na escalada rumo à sua completa individuação. A imago Dei ou o arquétipo “Deus” ocupa o centro do Self: aquela energia poderosa, no mais profundo de nossa psiqué, que atrái  todos os arquétipos e os ordena ao seu redor como o sol o faz com os planetas (cf. o livro clássico de R. Hostie, C.G.Jung und die Religion, Karl Alber, Freiburg/München 1957).

Sem a integração deste arquétipo axial, o ser humano fica manco e com uma incompletude abissal. Por isso escreve:

“Entre todos os meus clientes na segunda metade da vida, isto é, com mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão da sua atitude religiosa. Todos em última instância estavam doentes por terem perdido aquilo que uma religião viva sempre deu, em todos os tempos, aos seus seguidores. E nenhum curou-se realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse própria. Isto está claro. Não depende absolutamente de uma adesão a um credo particular, nem de tornar-se membro de uma igreja, mas da necessidade de integrar  a sua dimensão espiritual.”

A função principal da religião ou da espiritualidade é nos religar a todas as coisas e à Fonte donde promana todo o ser, Deus. Esse é o propósito básico do Mysterium Conjunctionis que Jung considerava seu opus magnum. Pois nele se trata de realizar a conjuntio,  quer dizer, a conjunção do homem integral com o mundus unus, o mundo unificado, o mundo do primeiro dia criação quando tudo era um e não havia ainda nenhuma divisão e diferencição. Era a situação plenamente urobórica(de Uroboros, a serpente enrolada em si mesma) do ser. Essa fusão é o anseio mais secreto e radical do ser humano e o permanente chamado do Self.

O drama do homem atual é ter perdido a espiritualidade  e sua capacidade de viver um sentimento de pertencimento. O que se opõe à religião ou à espiritualidade não é o ateísmo ou a negação da divindade. O que se opõe é a incapacidade de ligar-se e religar-se com todas as coisas. Hoje as pessoas estão desenraizadas, desconectadas da Terra, da anima e por isso sem espiritualidade.

Para Jung o grande problema hoje é de natureza psicológica. Não da psicologia entendida como disciplina ou apenas uma dimensão da psiqué. Mas psicologia no sentido abrangente que lhe dava, como a totalidade da vida e do universo, enquanto percebidos e articulados com o ser humano seja pelo consciente seja pelo inconsciente pessoal e coletivo.  É neste sentido que escreve:“É minha convicção mais profunda de que, a partir de agora,  até a um futuro indeterminado, o verdadeiro problema é de ordem psicológica. A alma é o pai e a mãe  de todos as dificuldades não resolvidas que lançamos na direção do céu”(Cartas III, p.243).Sempre teve uma preocupação pelo futuro da humanidade. Previu,em suas visões,a partir do inconsciente coletivo,a primeira e a segunda guerra mundial. Ocorreram como previra.

Estaria curioso em saber que visões teria Jung sobre o atual alarme ecológico. Mas deixou-nos uma dica:uma semana antes de sua morte em 6 de junho de 1961 teve uma terrível visão que a revelou à Marie-Louise von Franz que o acompanhou até o fim:”grande parte do mundo seria destruído. Mas acrescentou:”Graças a Deus não todo”(Jung vida e obra:uma memória biográfica por Barbara Hannah,Vozes,2022 p.478). É o que grandes analistas preveem,caso não mudarmos de rumo de nossa cultura consumista e materialista.

O fato é que a  Terra está doente porque nós estamos doentes.O Covid-19 bem o mostrou. Na medida em que nos transformamos, transformamos também a Terra. Jung buscou esta transformação até a sua morte. É o único caminho que nos pode livrar de sua visão terrível de destruição de grande parte de nosso mundo.

C. G.Jung se mostra um mestre e um guia que nos desenha um mapa apto a nos orientar nestes momentos dramáticos em que vive a humanidade. Ele acreditava profundamente no Transcendente e no mudo espiritual. Não será seguramente o capital material mas o capital espiritual, agora colocado no centro de nossas buscas, que nos permitirá evitar um Armagedom ecológico. Então, assim creio e espero,poderemos viver uma fase nova da Terra e da Humanidade, a fase planetária e ecoespiritual.

Leonardo Boff é co-editor da tradução da obra completa de C.G.Jung (19 vol) pela Editora Vozes.

 

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

CRACOLÂNDIA E SUBJETIVIDADE

 Frei Betto

 


       Várias cidades brasileiras já contam com redutos onde os usuários de crack se reúnem – as Cracolândias. Na capital paulista, se situa na região central. Em Brasília, no “Buraco do Rato”, no Setor Comercial Sul. Em Fortaleza, no bairro Moura Brasil.

       Em São Paulo, onde moro, chega a reunir cerca de duas mil pessoas por dia. A Unifesp constatou, em pesquisa recente, que 43% dos usuários ali se encontram devido a conflitos familiares; 9,5%, violência doméstica; e 7%, extrema pobreza.

       Tanto a prefeitura paulistana quanto o governo estadual já tentaram várias medidas para erradicar a Cracolândia. Todas ineficazes. É fato que os usuários prejudicam o comércio local, dificultam a circulação de moradores e veículos, sujam as ruas. 

       Como o capitalismo adota a lógica analítica e, portanto, só atua sobre os efeitos dos fenômenos, as medidas tomadas pelo poder público são sequer paliativas. Uma delas é o combate ao tráfico de drogas, que só serve para enxugar gelo. Se a repressão ao narcotráfico funcionasse, os EUA não seriam o maior mercado mundial de consumo de drogas ilícitas. Segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos EUA, durante a pandemia, em um ano, mais de 100 mil usamericanos morreram de overdose.

       Sou a favor da descriminalização das drogas e da liberação de seu uso controlado, desde que todo o processo, da fabricação ao consumo, esteja sob administração da saúde pública e tenha, por objetivo, livrar o usuário da dependência e erradicar o narcotráfico. 

       Quero aqui, entretanto, retomar o que falei para cerca de 1.500 profissionais do SUAS (Serviço Único de Assistência Social), em Salvador, dia 14/8, no 23º Encontro Regional Nordeste de Colegiados de Secretários(as) Municipais da Assistência Social (Congemas).

       Uma das medidas equivocadas adotadas pelo poder público de São Paulo foi alocar usuários em hotéis. Ora, essa gente vive na miséria. E precisa de dinheiro para alimentar o vício. Resultado: os hotéis foram depredados, pois arrancaram as pias dos banheiros, as lâmpadas do teto, as cadeiras do quarto, para vender e obter recursos. Tivessem as autoridades um pouco mais de conhecimento da história da assistência social, saberiam que na década de 1950, na Cruzada São Sebastião, no Rio, moradores de favelas, trasladados para prédios no Leblon, “depenaram” os apartamentos para fazer dinheiro.

       Qual a solução? Uma delas reside no fator pedagógico, no resgate da autoestima dos frequentadores da Cracolândia. Como eles são tratados pela polícia? Como indesejados, viciados, vagabundos e nojentos. E pelos comerciantes e vizinhos? Do mesmo modo que a polícia os trata, como estorvo. Como são tratados pela assistência social? Como anônimos, invisíveis, meros objetos desprezíveis de um trabalho burocrático?

       Aquele é um aglomerado de pessoas. Ali, cada ser humano tem um nome, parentes, história de vida. Não merece ser encarado como mero “viciado” ou, como canta Chico Buarque, “E tropeçou no céu como se fosse um bêbado / E flutuou no ar como se fosse um pássaro / E se acabou no chão feito um pacote flácido / Agonizou no meio do passeio público
/ Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego.” 

       Se eles se drogam é porque não suportam a própria realidade – como acontece a todo dependente químico. Todo viciado em drogas é um místico em potencial. Alguém que descobriu a verdade: a felicidade é uma experiência subjetiva. Não resulta da soma de prazeres, como tenta nos convencer a sociedade de consumo. Nem da conta bancária gorda ou dos títulos que a pessoa ostenta (e a eles se agarra como carrapato na pele), pois, ao perder os títulos ou a função, a pessoa entra em depressão por não ter suficiente autoestima. Ela necessita de adornos para fazer reluzir sua presença no mundo, como inúmeros políticos.  Raros os que, como Fidel Castro, têm a ousada humildade de determinar, em seu testamento, a expressa proibição do uso de seu nome em ruas e avenidas, universidades e hospitais, estátuas, placas e monumentos. 

       A diferença entre o místico e o viciado é que o primeiro entra pela porta do Absoluto e o segundo, pela do absurdo. 

       Quem lida com pessoas em situação de rua precisa ter capacitação pedagógica. Saber encará-las em sua dignidade, em seus direitos humanos, em sua condição de filhos e filhas de Deus. É preciso ter paciência, saber escutar, deixar que cada um conte a sua história de vida familiar e profissional, e expresse seus sonhos e desejos.  Somente através desse processo “terapêutico”, essencialmente paulofreiriano, é possível ajudá-los a tomar a iniciativa de se submeter a tratamento, abandonar o vício e mudar de vida.

       É graças à autoestima que uma pessoa se sente feliz e realizada, seja faxineiro, astrofísico, operador de máquina ou porteiro de prédio. Ela necessita emergir da invisibilidade, se sentir socialmente reconhecida, útil, enfim, cidadã. A política do descarte e da repressão só agrava o sentimento de revolta e humilhação.

       As Cracolândias não podem ser tratadas como caso de polícia, e sim como caso de política. 

 

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org                                                                                                                                                                                                              

 

Frei Betto é autor de 77 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.