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por MARIA CLARA BINGEMER |
Clarice Lispector é um mistério em si mesma. Para além de sua pertença religiosa, trata-se de uma mulher de fé, de cuja pena jorra a palavra Deus diretamente nomeado e deixando perceber uma sensibilidade espiritual imensa para qualquer manifestaçãIo da Transcendência que possa acontecer em todas as dimensões da existência.
Apresentando quase sempre personagens femininas que buscam ardentemente sua identidade e que muitas vezes monologam, Clarice narra em seus romances verdadeiras experiências místicas. Suas personagens não recuam diante de nada na ânsia de chegar ao mais profundo de sua condição humana e à comunhão com o outro.
Na peregrinação ao fundo de si e ao encontro do outro, o silêncio é muito valorizado e sublinhado. Como, por exemplo, nesta passagem da obra Uma aprendizagem ou O Livro dos prazeres: “ O que se passara no pensamento de Lóri naquela madrugada era tão indizível e intransmissível como a voz de um ser humano calado. Só o silêncio da montanha lhe era equivalente.” Silêncio que deve ser vivido e sofrido: “O silêncio é a profunda noite secreta do mundo. E não se pode falar do silêncio como se fala da neve: sentiu o silêncio dessas noites? Quem ouviu não diz. Há uma maçonaria do silêncio que consiste em não falar dele e de adorá-lo sem palavras.“ O silêncio é o caldo de cultura adequado para a “aprendizagem” de ser: “Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da Terra e da Lua. Então ele, o silêncio, aparece. E o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente.”
Neste reconhecimento mora a pergunta que no fundo é a pergunta de todo ser humano: “ Ele é o Silêncio. Ele é o Deus? “E ainda, tocando os limites da alteridade do divino que se revela em meio ao silêncio: “O coração tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão.“
A palavra “submissão” traz a conotação mística da experiência que Clarice narra. A personagem Lori vai aprendendo e esperando para viver plenamente o amor de um homem, onde Eros é um componente essencial. Mas deverá compreender que não rege o processo. Outro tem nas mãos as rédeas do comando. Outro a quem ela não pode senão submeter-se na nudez ardente e dolorosa da noite escura que atravessa. Nesta aprendizagem feita de palavra e silêncio, de dor e alegria, de solidão e encontro, as personagens de Clarice vão experimentar a comunhão do amor pleno e maduro, feito de Eros e ágape.
E descobrem que “a palavra de Deus era de tal mudez completa que aquele silêncio era Ele próprio.” Descobrem igualmente que o caminho do autoconhecimento é angustiante, porém salvador. Tira o Ser do estado de ruína e de esquecimento em que se encontra e o conduz à passagem para um humilde êxtase que é ao mesmo tempo êxodo de si mesmo e descoberta de si mesmo no “estar sendo”. É quando sentem “estar sendo” juntos e em comunhão que os seres humanos encontram de fato o amor.
Mas é sobretudo em A Paixão segundo GH que podemos encontrar a mística de Clarice mais profundamente narrada. GH, a mulher sem paixão, vai se defrontar com o pathos, com a paixão, a partir da viagem kenótica que faz ao coração da matéria, ao submundo das entranhas de um inseto, ao caos primitivo antes que ele seja pelo Criador resignificado
Não cremos ser um “abuso” proveniente da nossa área de competência – a teologia – classificar a viagem de G. H. ao entrar no quarto humilde de sua empregada e defrontar-se com o inseto que a fita e provoca, como mística. Ou até mesmo – ousaria mais – como crística. Pois crístico não é o movimento que faz o Filho de Deus ao não aferrar-se a suas prerrogativas e a esvaziar-se, despojar-se, humilhar-se, obediente até a morte, e morte de cruz? E místico não é o movimento bilateral que faz a divindade unir-se à humanidade e vir resgatá-la a partir da lama do pecado onde se encontra mergulhada, cristificando-a e unindo-a a Si mesmo no Espírito Santo, que habita em nós, em kenosis amorosa, podendo ser abafado, contristado e mesmo extinto, como afirma Paulo de Tarso?
O itinerário de G. H. é místico. E é místico porque ascético e purificador, enquanto prepara o alargamento do eu que se segue à sua morte pelo sacrifício ascético de mergulhar no coração da matéria. Toca os extremos da condição humana, quais sejam: a vida e a morte. “A descida na direção dessa existência impessoal produz-se como verdadeira ascese: a personagem desprende-se do mundo e experimenta, após gradual redução dos sentimentos, das representações e da vontade, a perda do eu”
Ao realizar o que chama de “ato ínfimo” – comungar com a matéria viva, no coração das coisas - G. H. chega à plenitude ansiada e desejada. Não compreender, não dominar, não pairar por cima das coisas. Mas descer, mergulhar, sujeitar-se ao ínfimo, ao coração da matéria, mergulhar na descida para encontrar então aquilo que não consegue nomear, mas cujo nome existe e é Mistério inexpugnável. Atraída por Eros, misteriosamente, à beleza invertida daquilo que o vulgo convencionou chamar de feio, encontra ágape em amor oblativo, gratuito, adorante. “A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.”
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Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
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